Morreu em Luanda Dom Zacarias Kamwenho, uma das grandes referências morais da Igreja Católica em Angola

Morreu em Luanda Dom Zacarias Kamwenho, uma das grandes referências morais da Igreja Católica em Angola

A Perfil Criativo | AUTORES.club manifesta profundo pesar pelo falecimento de Dom Zacarias Kamwenho, arcebispo emérito do Lubango, ocorrido em Luanda, no dia 29 de Maio de 2026, aos 91 anos de idade.

Com Dom Zacarias desaparece uma das figuras maiores da Igreja Católica em Angola, um pastor profundamente ligado à defesa da paz, da reconciliação nacional, da justiça social e da dignidade do povo angolano. A sua vida atravessou alguns dos períodos mais decisivos da história contemporânea de Angola, desde o tempo colonial, passando pela independência, pela longa guerra civil e pelos difíceis caminhos da paz.

Nascido no Huambo, no município do Bailundo, em 1934, Dom Zacarias foi ordenado sacerdote em 1961. Em 1974 recebeu a ordenação episcopal, tendo servido a Igreja como bispo auxiliar de Luanda, primeiro bispo do Sumbe e, mais tarde, arcebispo do Lubango. O seu percurso ficou marcado por uma rara autoridade moral, reconhecida dentro e fora de Angola, nomeadamente através da atribuição do Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, em 2001, pelo seu papel persistente na defesa da paz, da democracia e dos direitos humanos.

Recordar as sábias palavras de Dom Zacarias Kamwenho, arcebispo emérito do Lubango, em Luanda, Abril de 2022: Agostinho Neto foi e é poeta maior, Mafrano foi e é antropólogo maior. Na sua obra, que a partir deste primeiro volume que hoje apresentamos, o leitor verá como lhe caem os mistérios e preconceitos, os civilizados e os superiores descobrem, querendo ou não, a força dos fracos, a inteligência dos ignorantes, a civilização dos incivilizados, a superioridade dos inferiores, e vice-versa, e cada um dirá, afinal, são como nós.

Para a Perfil Criativo | AUTORES.club, Dom Zacarias Kamwenho foi também uma presença amiga, próxima e decisiva na valorização da obra de Maurício Francisco Caetano — Mafrano, autor da colectânea Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias. A obra póstuma “Os Bantu na Visão de Mafrano“, da autoria do etnólogo angolano Maurício Francisco Caetano (“Mafrano”), foi distinguida com o Prémio Nacional de Cultura e Artes de Angola em Novembro de 2024. O galardão foi atribuído pelo Ministério da Cultura na modalidade de Investigação em Ciências Humanas e Sociais.

Foi Dom Zacarias quem assinou o prefácio do primeiro volume desta obra maior da antropologia cultural angolana, publicada a título póstumo pela família de Mafrano e pela Perfil Criativo | AUTORES.club. Nesse texto, escreveu como “mais-velho” que trabalhou com Mafrano, manifestando a sua alegria pela publicação do primeiro volume e dos volumes seguintes, saudando a família do autor pela iniciativa de devolver ao público uma memória que parecia perdida. Recorrendo ao Evangelho de São Lucas, comparou esse reencontro com a alegria de quem encontra a moeda perdida e chama os amigos e vizinhos para partilhar a descoberta.

No seu prefácio, Dom Zacarias apresentou uma leitura profundamente humana, espiritual e intelectual de Maurício Francisco Caetano. Viu em Mafrano não apenas um escritor ou etnólogo, mas um pensador atento à cultura, à fé, à missão, à dignidade dos povos africanos e à complexidade das sociedades Bantu. A sua leitura ajudou a reconhecer Mafrano como uma figura maior do pensamento angolano, chegando a considerá-lo um verdadeiro “Antropólogo Maior”.

A ligação entre Dom Zacarias e Mafrano não foi apenas literária. Foi também uma relação de memória, de geração, de Igreja, de cultura e de amizade. Em Abril de 2022, no Lubango, Dom Zacarias testemunhou o anúncio oficial do primeiro volume de Os Bantu na Visão de Mafrano, perante os alunos do Seminário de Filosofia do Lubango. Semanas depois, a 14 de Maio de 2022, deslocou-se a Luanda para a apresentação da mesma obra na Universidade Católica de Angola, ajudando a inscrever Mafrano no lugar que lhe pertence na história intelectual de Angola.

Em Novembro de 2024, quando celebrava cinquenta anos de episcopado, Dom Zacarias enviou à família de Maurício Francisco Caetano uma mensagem de rara ternura, afirmando que o seu jubileu era também de Mafrano, pois ambos tinham vivido, em comunhão de tempo e de memória, esses cinquenta anos de episcopado. Essa frase ficará como uma das mais belas sínteses da amizade espiritual e intelectual que uniu estas duas figuras.

Mesmo nos seus últimos anos, Dom Zacarias continuou a acompanhar com atenção e alegria o percurso da colectânea Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias. Em Junho de 2025, recebeu em Luanda um dos primeiros exemplares do terceiro e último volume da obra, mostrando grande satisfação pela conclusão deste projecto editorial que devolveu ao país mais de mil páginas de reflexão sobre a cultura Bantu, a espiritualidade, a história social e a memória angolana.

A Perfil Criativo | AUTORES.club recorda Dom Zacarias Kamwenho com gratidão, respeito e comoção. A sua palavra, o seu testemunho e a sua presença ajudaram a iluminar a importância da obra de Mafrano e a afirmar a necessidade de Angola preservar, estudar e valorizar os seus grandes pensadores.

Neste momento de luto, endereçamos à Igreja Católica em Angola, à Arquidiocese do Lubango, à Diocese do Sumbe, à Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, à família de Dom Zacarias e de Mafrano e a todos os que nele reconheceram um pastor da paz e da reconciliação, as nossas mais sentidas condolências.

Dom Zacarias Kamwenho parte deste mundo deixando uma herança de fé, coragem, cultura e humanidade. Para nós, ficará também como o prefaciador atento, o amigo generoso e o mais-velho que soube reconhecer em Mafrano uma das grandes vozes da memória profunda de Angola.

Perfil Criativo | AUTORES.club
Lisboa / Luanda, Maio de 2026

Dom Zacarias Kamwenho nas palavras de José Soares Caetano

Dom Zacarias Kamwenho foi o autor do Prefácio da colectânea póstuma “Os Bantu na visão de Mafrano – Quase Memórias”.
Para ele, Mafrano era “O Antropólogo Maior de Angola”.
Durante a visita do Papa Leão XIV an Angola, o Arcebispo Emérito do Lubango tudo fez para que os três volumes da colectânea de Mafrano fossem oferecidos ao Sumo Pontífice.
O acto esteve previsto para se realizar numa manhã de Domingo, dia 19 de Abril, em Luanda. Só não se concretizou porque Infelizmente, a essa hora, o membro da Fanilia de Mafrano chamado para o efeito (de imprevisto), encontrava-se no novo Aeroporto do Bom Jesus!

Joaquim Sequeira levou à Feira do Livro de Lisboa a memória viva do 27 de Maio de 1977

Joaquim Sequeira levou à Feira do Livro de Lisboa a memória viva do 27 de Maio de 1977

A apresentação de Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, na Feira do Livro de Lisboa 2026, transformou-se num encontro intenso de memória, testemunho e debate sobre a história recente de Angola. A sessão contou com a presença de históricos sobreviventes ligados à Associação 27 de Maio de 1977 e do presidente da Academia Angolana de Letras, deputado da Assembleia Nacional, Dr. Paulo de Carvalho, num momento que juntou leitores, antigos protagonistas, jovens interessados pela história africana e visitantes da Feira.

Num ambiente muito participado, Joaquim Sequeira começou por recordar como se viveu a notícia do 25 de Abril de 1974, evocando o impacto da Revolução dos Cravos nas notícias que iam chegando muito devagar. A partir daí, conduziu o público até ao dia 11 de Novembro de 1975, data da proclamação da independência nacional de Angola, descrevendo o entusiasmo, a esperança e a complexidade de um país que nascia em plena tensão política, militar e ideológica.

O momento mais marcante da sessão surgiu quando o autor abordou o drama do 27 de Maio de 1977, tema central da memória convocada em Ecos da Liberdade. Joaquim Sequeira foi claro ao defender que os acontecimentos desse período representaram, na sua leitura, uma traição à revolução socialista, recusando a ideia de que tivesse existido um golpe de Estado. Segundo afirmou, os que foram perseguidos continuavam fiéis a António Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, e acreditavam no projecto revolucionário que ajudaram a construir.

O livro Ecos da Liberdade, publicado no ano passado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, relata a espera, o medo e o tormento vividos na cela 10 da Automotora, na cadeia de São Paulo. Mais do que uma memória individual, a obra apresenta-se como um testemunho sobre a violência política, o silenciamento e a necessidade de Angola continuar a enfrentar as feridas abertas pelo 27 de Maio de 1977.

A conversa ganhou ainda maior actualidade quando um jovem da Guiné-Bissau questionou o autor sobre a persistência do neocolonialismo nos países africanos de língua portuguesa e sobre os bloqueios ao desenvolvimento económico e social. Joaquim Sequeira respondeu de forma peremptória, defendendo a necessidade de uma transformação profunda das estruturas nacionais, incluindo o papel das instituições militares, para que os países africanos possam romper dependências históricas e construir caminhos próprios de soberania, justiça e progresso.

A sessão prolongou-se pelo fim da tarde, já fora do formato formal da apresentação, com grupos de leitores e participantes a continuarem a conversa no recinto da Feira do Livro. Mais do que uma sessão literária, foi um encontro, memórias e inquietações políticas ainda vivas.

Como diria o director do Novo Jornal, voltou a estar presente em Lisboa “uma Angola que acontece fora de Angola”, feita de memória, debate, literatura e vontade de compreender, sem medo, os acontecimentos que marcaram o destino de tantas vidas.

Angola sem filtros: João Armando apresenta no MAAN os editoriais que marcaram a economia nacional

Angola sem filtros: João Armando apresenta no MAAN os editoriais que marcaram a economia nacional

No próximo dia 11 de Junho de 2026, às 17h00, o Memorial Dr. António Agostinho Neto acolherá o lançamento oficial do livro Editoriais do Expansão 2019–2021, da autoria do jornalista angolano João Armando, numa edição da Perfil Criativo | AUTORES.club com o alto patrocínio do Banco BNI.

A obra reúne uma selecção dos editoriais publicados no semanário económico Expansão entre 2019 e 2021, um dos períodos mais complexos e decisivos da economia recente angolana. Ao longo de 232 páginas, João Armando apresenta uma leitura crítica, directa e profundamente comprometida com a realidade do país, abordando temas como a dívida pública, a desvalorização do kwanza, as privatizações, a transparência das instituições, o sistema bancário, a confiança dos investidores e o impacto das decisões políticas na vida dos cidadãos.

Mais do que uma compilação jornalística, Editoriais do Expansão 2019–2021 transforma-se num retrato da Angola contemporânea, revelando os bastidores da governação económica e os dilemas estruturais enfrentados pelo país durante um ciclo de fortes transformações políticas e financeiras.

No prefácio da obra, o escritor e cronista angolano Jacques Arlindo dos Santos destaca o valor documental e intelectual do livro, sublinhando que os textos de João Armando ajudam a “desmistificar as diferenças entre o falso e o verdadeiro da economia nacional”.

Com quase quatro décadas de carreira, João Armando consolidou-se como uma das vozes mais reconhecidas do jornalismo económico angolano. Director do Expansão desde Maio de 2019, o autor passou também pela rádio, televisão e imprensa escrita em Angola e Portugal, sendo distinguido ao longo do percurso com vários prémios de jornalismo.

O lançamento no Memorial Dr. António Agostinho Neto promete reunir leitores, jornalistas, académicos, empresários e personalidades da vida pública angolana num encontro dedicado à reflexão sobre o presente e o futuro económico de Angola.

Ficha Técnica

Título: Editoriais do Expansão 2019–2021

Autor: João Armando

Editora: Perfil Criativo | AUTORES.club 

ISBN: 978-989-9209-14-5

N.º de páginas: 232

Língua: Português

Patrocínio: Banco BNI

Lançamento Oficial

Memorial Dr. António Agostinho Neto
11 de Junho de 2026
17h00

“Kwatchá”: o grito fundador da UNITA no Moxico

“Kwatchá”: o grito fundador da UNITA no Moxico

FONSECA CHINDONDO inAngola — Memórias das FALA. O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975-1992)

Depois da concepção no ano anterior, o parto da UNITA aconteceu a 13 de Março de 1966, em Mwangai, na província do Moxico em Angola. Primeiro foi em Cassamba onde o grito do Mwangai “Kwatchá” se fez ouvir. No dia 25 de Dezembro, o assalto à vila de Teixeira de Sousa, no Moxico também, fez relançar a Luta de Libertação Nacional.
Nesse ano (1967), as FALA tinham continuado a ganhar forma. As primeiras guerrilheiras e guerrilheiros foram merecendo melhor treino, as infra-estruturas provisórias para a saúde e formação académica nos territórios sob controlo dos guerrilheiros foram-se materializando, a agricultura ocupou extensões mais vastas e tomou proporções desenvolvimentistas na região leste do país, a caça e a piscicultura foram encorajadas e a adesão das populações à Luta de Libertação começou a ser expressiva.


Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975–1992)

Em Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975–1992), o brigadeiro Fonseca Chindondo oferece um testemunho direto e raro sobre um dos períodos mais intensos, dramáticos e menos conhecidos da história contemporânea de Angola. A partir da sua experiência no seio das FALA (Forças Armadas de Libertação de Angola), o autor reconstrói episódios marcantes da luta armada, analisa o papel da guerra psicológica e presta homenagem aos milhares de combatentes e civis que viveram os dramas da guerra.

Prefaciado pela Prof.ª Doutora Paula Cristina Roque, o livro constitui um importante contributo para a preservação da memória histórica angolana e para a compreensão plural de um passado ainda pouco debatido.

Trata-se de um livro raro de memórias da guerra, escrito por um protagonista dos acontecimentos, que ajuda a compreender melhor as complexidades da luta pela independência, da guerra civil e dos desafios da reconciliação.

Encomendas em Angola

Os exemplares já estão disponíveis para encomenda através dos seguintes contactos:

  • 📞 +244 922 752 494
  • 📞 +244 936 023 299

Uma obra rara e incontornável para todos os interessados na história de Angola, nos estudos africanos e na preservação da memória coletiva.

Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975-1992)", do brigadeiro Fonseca Chindondo
Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975-1992), do brigadeiro Fonseca Chindondo

O poeta Kalunga abriu o ciclo literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana”

O poeta Kalunga abriu o ciclo literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana”

A histórica sede d’A Voz do Operário, em Lisboa, acolheu na quarta-feira, 13 de maio de 2026, o primeiro encontro literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana” da editora Perfil Criativo | AUTORES.club. A sessão foi dedicada à apresentação do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, nome literário de João Fernando André.

O encontro marcou o início de uma programação pensada para aproximar autores, leitores e obras num espaço profundamente ligado à educação, à cultura e à intervenção pública. Na abertura da sessão, o editor da Perfil Criativo | AUTORES.club sublinhou precisamente a importância de instituições como A Voz do Operário, lugares históricos que continuam a cumprir uma missão essencial: criar comunidade, promover o conhecimento e manter viva a palavra como instrumento de cidadania.

Num ambiente de grande atenção e proximidade, a convidada especial, Prof. Doutora Ana Mafalda Leite, fez uma apresentação exaustiva e profundamente informada de dois livros do poeta KalungaEvangelho Bantu e Matéria Negra. A sua intervenção surpreendeu os leitores presentes pela densidade da análise, pela sensibilidade crítica e pela forma como situou a obra de Kalunga.

A sessão terminou com uma intervenção do próprio autor. Kalunga conquistou o público com uma presença marcada pela cultura, pelo domínio da palavra e por um virtuosismo raro, transformando a apresentação num momento de grande humanismo.

Foi um encontro inédito e memorável, que confirmou a força da poesia de Kalunga e inaugurou, da melhor forma, este novo ciclo de encontros.

INTER(IN)VENÇÃO DA MATÉRIA NEGRA

KALUNGA (JOÃO FERNANDO ANDRÉ)

Insigne editor João Ricardo, distinta professora Ana Mafalda, dignos convidados, minhas camaradas e meus camaradas da linha da frente cultural, amados leitores, todo o protocolo observado!

Ora, depois da apresentação da minha dileta professora, amiga e camarada Ana Mafalda Leite, cabe-me usar uma outra filosofia com a qual tenho levado a vida: o pragmatismo. Para dizer o seguinte: nestes aproximados 10.958 dias de exercício de viver, dei conta que nasci num mundo violento e capitalista. Até aos 14 anos, não sabia como viver neste mundo. Então, passei a dedicar-me à leitura e aos estudos. Diziam-me “estuda para ser alguém”. Sempre que me diziam esta frase, perguntava-me: “mas já não sou alguém? Foi-me dado um nome, documentos e data de nascimento. Como é que ainda não sou alguém?

Como o personagem do meu grande mestre Fiódor Dostoiévski, percebi então que a vida é como o sonho de um homem rídiculo e que me devia dedicar a aprender e ser melhor para mim mesmo cada dia ao longo do exercício de viver. Estudei o essencial sobre a vida e descobri com o meu grande mestre Charles Munger que “para quem só tem um martelo todo o problema parece um prego.” Então, dediquei-me a ter uma visão multidisciplinar, estudar as terríveis histórias do mundo. Das ideias do surgimento do homem ao surgimento da propriedade privada. Da produção de bens a produção do mal. Da criação dos capitais à obsolescência programada. Dos erros dos julgamentos humanos aos preconceitos. Dos filósofos-reis à Síndrome de Hubris. 

Descobri que “o mundo jaz no maligno”, como o outro João, o que foi decapitado. Mas surgiu outra pergunta: o que é o maligno? Descobri que o maligno é a ganância, a inveja, a violência nas suas várias dimensões e a identidade que pode ser assassina por não buscar a empatia cognitiva e cristalizar os neurónios espelhos. Mas descobri também que a maior parte das pessoas – alfabetizadas e não-alfabetizadas – não sabe o que são neurónios espelhos. Aí percebi que a vida é uma comédia que acaba sempre em tragédia. Percebi que a vida é um milagre perigoso e que, mais importante do que ter exemplos para seguir, é ter exemplos para não seguir. Como alerta o princípio da inversão de Munger. 

Segundo o departamento de Astrofísica da USP, “a matéria negra é uma forma invisível de matéria que compõe cerca de 85% da massa do universo, não emitindo, absorvendo ou refletindo luz. Detectada apenas por sua influência gravitacional em estrelas e galáxias, ela impede que estruturas cósmicas se dispersem, sendo um dos maiores mistérios da física actual.” Daí resultou o grande problema do Agricultor de Imagem João Ricardo: como representar a Matéria Negra? 

Na semiótica, o branco é a cor neutra e o preto representa a absorção da luz visível. Nos primórdios da humanidade, a cor branca representava a vida e a cor preta remetia para a imaginação, a criatividade, a cognição e o divino. Nas sociedades africanas, o branco representa o ficcional, os seres invisíveis e possíveis que nos rodeiam. Enquanto que a vitalidade é representada pelo vermelho. Vê-se isso em memento mori, quando se colocam pedras vermelhas sobre pedras brancas, representando estas pedras um texto lapidar que conecta os seres presentes com os seres ausentes.

Neste misto de significações, este poemário, Matéria Negra, ao contrário das associações que alguns leitores da maravilhosa capa do Agricultor de Imagens da Perfil Criativo, o camarada João Ricardo, fizeram com o “fumus albus papal” ou com rituais místicos, representa o pouco que conhecemos diante do muito que não sabemos do universo, em geral, e da experiência humana, em particular. Deixo aqui um caso como exemplo: raramente veremos um escritor que entende de economia e raramente veremos um economista que entende de literatura no seu sentido mais ficcional.

Quanto às estéticas, trabalho aqui com a estética da existência, da resistência e da regeneração, com fundamentos da ontologia, das teorias das literaturas, da filosofia da linguagem, da filosofia do direito e da filosofia da economia em busca da soberania emocional, da solitude, do amor fati e da luta contra a empresa do mal que governa o mundo.

No que à forma diz respeito, se nas três séries do Evangelho Bantu deslocava o título do texto do princípio para o fim, transformando-o numa espécie de ata-finda, pois primeiro escreve-se o poema e só depois é que se lhe dá título normalmente, em Matéria Negra amplifico este fundamento. O poema resulta da persistência da observação da realidade aumentada e sentida ao longo do exercício de viver. Daí as reticências iniciais. Ele é finalizado num laboratório de dizer mais e escrever menos. Daí a polifonia paremiológica. Cada texto é burilado até à exaustão do predicador, não até a exaustão do texto que ruma ao infinito. Daí as reticências finais. O título aqui é um jogador ou peregrino, para trazer à colação a teoria dos viajantes de Bauman, ele pode ser o primeiro verso, o verso do meio ou os últimos versos, mas é sempre o conjunto lexical fundador do texto-matéria negra. Daí o negrito a iluminar o corpo poético.

O meu acrisolado agradecimento pela vossa presença e camaradagem ao longo do exercício de viver que vamos enfrentando, como Paulo, “combatendo o bom combate e guardando a fé” nas coisas do espírito e na humanidade, esta espécie tão bondosa e tão perigosa que nomeou um planeta composto por 71 por cento de água por Terra, simplesmente porque os homens vivem na terra, que representa só 29 por cento da superfície deste mesmo planeta. Em verdade em verdade, não seria planeta ÁGUA?

Gratidão a todos e boas leituras, pois o texto poético não termina ao contrário da crónica, do conto, do drama e do bem capitalizado romance. Grato! Grato! Grato! Ngasakidila! Ndapandula! Dizemos lá em Angola!

Matéria Negra
Matéria Negra

Blindspot highlights Nuvem Negra: The silenced memory of 27 May reaches international readers

Blindspot highlights Nuvem Negra: The silenced memory of 27 May reaches international readers

In an article by Luís Guita, published on the international platform Blindspot, the book Nuvem Negra, by Michel, published by Perfil Criativo | AUTORES.club, is brought to wider international attention. The work revisits one of the most painful and silenced chapters in Angola’s recent history: the events of 27 May 1977, inviting readers to reflect on memory, justice and the wounds that continue to mark Angolan society.

Read the full article on Blindspot: https://blindspot.world/michel-without-accountability-for-the-1977-purge-there-will-be-no-reconciliation-in-angola/

“A Voz do Operário, Sem Maka”: Kalunga apresenta “Matéria Negra”

“A Voz do Operário, Sem Maka”: Kalunga apresenta “Matéria Negra”

Na próxima quarta-feira, 13 de Maio, Lisboa recebe um encontro especial com a nova poesia angolana contemporânea. O auditório d’ A Voz do Operário acolhe a apresentação oficial do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, numa sessão integrada no ciclo cultural “A Surpreendente e Desconhecida Literatura Angolana”.

Membro da União dos Escritores Angolanos, João Fernando André (Kalunga) é hoje considerado uma das vozes mais inquietas e representativas da nova geração de autores angolanos, afirmando-se como uma referência na intervenção cultural.

Com humor e cumplicidade, o autor já confirmou que este encontro de quarta-feira n’ A Voz do Operário “será sem maka”, prometendo uma conversa aberta, intensa e próxima do público, em torno da poesia, da palavra e dos desafios do presente.

Em Matéria Negra, Kalunga propõe uma escrita de grande densidade simbólica e filosófica, atravessando temas como identidade, memória, esperança, espiritualidade e condição humana. A obra surge como um convite à reflexão e ao mergulho nas zonas invisíveis da existência contemporânea.

O ciclo “A Surpreendente e Desconhecida Literatura Angolana” quer afirmar-se como um dos mais importantes encontros de divulgação da criação literária angolana, aproximando leitores, autores e investigadores de obras que revelam a vitalidade cultural de Angola no século XXI.

Matéria Negra
Matéria Negra

Convidada Especial

A sessão contará com a presença especial de Ana Mafalda Leite, poeta e investigadora científica portuguesa, reconhecida pelo seu importante trabalho académico na área das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

Professora universitária, ensaísta e uma das mais respeitadas especialistas no estudo das literaturas africanas contemporâneas, Ana Mafalda Leite tem desenvolvido um percurso de investigação e divulgação fundamental para a aproximação entre os espaços culturais africanos e portugueses, contribuindo activamente para o reconhecimento internacional de autores africanos de língua portuguesa.

Homenagem a Gonçalves Handyman

O encontro de 13 de Maio será igualmente marcado por um momento especial de homenagem ao jovem editor angolano Gonçalves Handyman, assinalando os quatro anos do seu desaparecimento.

Figura marcante da nova geração angolana, Gonçalves Handyman destacou-se pela sua sensibilidade literária, irreverência criativa e dedicação à edição e promoção de jovens autores. O seu nome permanece ligado ao surgimento de novas linguagens e novas formas de intervenção cultural em Angola.

A evocação da sua memória durante a apresentação de Matéria Negra simboliza também a continuidade de uma geração que acredita na poesia, na palavra e na cultura como instrumentos de transformação, liberdade e resistência.

Onde fica A Voz do Operário?

O histórico edifício A Voz do Operário localiza-se na freguesia da Graça, em Lisboa, numa das zonas culturais e populares mais emblemáticas da cidade.

Fundada no final do século XIX, A Voz do Operário é uma das mais importantes instituições culturais, educativas e associativas, mantendo uma intensa actividade nas áreas da cultura, educação e intervenção cívica. O seu histórico edifício tem acolhido ao longo das décadas debates, concertos, sessões literárias e encontros políticos e culturais marcantes da vida portuguesa.

Morada: Rua da Voz do Operário, n.º 13, 1100-621 Lisboa

Colectânea “Os Bantu na Visão de Mafrano” chega ao Sul de Angola

Colectânea “Os Bantu na Visão de Mafrano” chega ao Sul de Angola

Terceiro e último volume da obra póstuma de Maurício Francisco Caetano será apresentado na Universidade Mandume Ya Ndemufayo, no Lubango

A Universidade Mandume Ya Ndemufayo, no Lubango, acolhe a apresentação do terceiro e último volume da colectânea póstuma Os Bantu na Visão de Mafrano, da autoria de Maurício Francisco Caetano, escritor, jornalista e investigador distinguido com o Prémio Nacional da Cultura e Artes 2024, na modalidade de Investigação em Ciências Humanas e Sociais.

A apresentação da obra no Sul de Angola insere-se no âmbito das celebrações dos 17 anos de existência daquela instituição académica, que realiza, nos dias 11 e 12 de Maio de 2026, uma Conferência Científica subordinada ao tema “Bioética, Dignidade da Pessoa Humana e Investigação Científica: Fundamentos Éticos e Jurídicos”. O evento decorre no Auditório “Viriato Gaspar Gonçalves”, da Faculdade de Economia.

Intitulado Os Bantu na Visão de Mafrano – Quase Memórias, o volume III reúne 327 páginas distribuídas por 18 capítulos, organizados em três partes. A obra aborda temas ligados à civilização bantu, à religiosidade, às questões sociais e a episódios vividos pelo autor entre 1947 e 1982.

A presença da colectânea no Sul acontece depois de a obra ter sido destacada em Windhoek, na Namíbia. De acordo com uma notícia publicada pelo Jornal de Angola, na edição de 2 de Maio, o Embaixador da República de Angola na Namíbia, Pedro Mutindi, recebeu, na quarta-feira, 30 de Abril, um exemplar do terceiro volume da colectânea. A oferta foi feita por José Soares Caetano, filho do autor, jornalista, escritor e responsável pela edição dos três volumes.

Segundo o Jornal de Angola, a colectânea reúne, no total, 799 páginas em três volumes, agregando reflexões sobre a ancestralidade, os hábitos e os costumes de vários povos africanos. A publicação sublinha ainda que a obra inclui textos como “Crónicas ligeiras”“Notas a lápis”“Episódios vividos” e “Tertúlias”, além de estudos sobre a civilização bantu, tradições, linguagem, crenças alimentares, antropologia, arqueologia e direito costumeiro.

A mesma notícia recorda que o primeiro volume foi apresentado no Lubango, em Abril de 2022, seguindo-se uma sessão em Luanda, em Maio do mesmo ano. O segundo volume chegou ao público em Julho de 2023, enquanto o terceiro foi lançado em Agosto de 2025.

Nascido a 24 de Dezembro de 1916, na cidade do Dondo, Maurício Francisco Caetano dedicou grande parte da sua vida à investigação, à escrita e à preservação da memória cultural africana. Iniciou a actividade literária em 1947, como colaborador do Jornal Angola Norte, em Malanje, tendo posteriormente contribuído para várias publicações angolanas. Faleceu a 25 de Julho de 1982.

Responsável pela edição e divulgação da colectânea, José Soares Caetano acompanha esta missão ao Sul de Angola, dando continuidade ao trabalho de valorização do legado intelectual de Mafrano e ao reconhecimento da sua contribuição para o estudo das sociedades africanas, em particular da civilização bantu.

Pedro Mutinde na imagem acima com NETUMBO NANDI-NDAITWAH, Presidente da República da Namibia: “Angola e a Namíbia têm uma História comum”.

Entre o silêncio e a entrega: a voz de Elsa Major

Entre o silêncio e a entrega: a voz de Elsa Major

Apresentação de Faro e Enigmas, 30 de abril de 2026, no Auditório 11 de Novembro, com o apoio da Embaixada da República de Angola

No encerramento da sessão de apresentação de Faro e Enigmas, no Auditório 11 de Novembro, a poetisa Elsa Major dirigiu-se ao público com emoção e gratidão, assinalando aquele momento como um marco profundamente significativo no seu percurso literário e pessoal.

A autora começou por agradecer o apoio institucional da Embaixada de Angola, bem como a todos os que contribuíram para a concretização do evento, destacando o papel do editor e dos intervenientes que enriqueceram a apresentação, nomeadamente o texto de Mário Máximo, lido por Fátima Gorete de Pina, e a intervenção crítica de João Fernando André.

Visivelmente tocada pela presença de diplomatas, familiares, amigos, escritores e jornalistas, Elsa Major sublinhou a importância coletiva daquele encontro, reconhecendo na partilha da palavra um gesto essencial da criação literária.

Na sua intervenção, definiu Faro e Enigmas como uma obra nascida de diferentes tempos da sua vida, “dos silêncios em tempos difíceis” e das vivências mais recentes, revelando uma escrita profundamente ligada à experiência humana. A autora afirmou ver poesia em tudo, assumindo a escrita como forma de interpretar um mundo que, embora marcado por inquietações, pode ainda ser transformado pela sensibilidade.

Destacou que o livro é, sobretudo, um convite à reflexão sobre aquilo que nos define enquanto seres humanos: o amor, a memória, a identidade, a fé e a relação com a natureza. Mais do que respostas, a obra propõe inquietações, motor essencial da sua criação poética.

Num dos momentos mais marcantes da intervenção, Elsa Major declarou que, a partir daquele instante, o livro deixava de lhe pertencer exclusivamente, passando a ser entregue aos leitores: “não quero ficar com ela, quero entregá-la a todos”. Sublinhou ainda o desejo de que cada leitor encontre na vida um verso, tornando-a “mais bela, mais sensível e mais humana”.

A autora dedicou a obra à sua neta, evocando simbolicamente todas as crianças do mundo, numa mensagem de forte dimensão ética e afetiva, onde o apelo ao cuidado, ao amor e à responsabilidade coletiva se tornou evidente.

A sessão encerrou com a leitura de alguns poemas, iniciando-se com “Descoberta”, num momento de partilha íntima que reforçou a ligação entre autora, obra e público.

Literatura feminina em Angola: Quando a poesia convoca a terra, o corpo e o espírito

Literatura feminina em Angola: Quando a poesia convoca a terra, o corpo e o espírito

Apresentação do livro “Faro e Enigmas”, de Elsa Major, no Auditório “11 de Novembro”, na tarde de 30 de abril de 2026

Na apresentação de Faro e Enigmas, o escritor e investigador angolano João Fernando André destacou a obra de Elsa Major como um contributo relevante para o crescimento da literatura feminina em Angola, sublinhando o aumento significativo da produção literária de autoria feminina no país.

Na sua intervenção, enquadrou o livro num contexto mais amplo da criação literária angolana contemporânea, caracterizada por dinamismo e expansão, apesar dos desafios estruturais. Considerou que Elsa Major se insere neste movimento, enriquecendo-o com uma voz própria, marcada pela sensibilidade e pela reflexão.

Do ponto de vista temático, evidenciou que Faro e Enigmas percorre eixos centrais da experiência humana, como o amor, nas suas dimensões erótica e fraternas, a memória, a espiritualidade, a guerra e as suas consequências, bem como a desigualdade social. Destacou ainda a presença de uma poética questionadora, próxima da metalinguagem, onde a autora interroga o próprio fazer poético.

Um dos aspetos mais relevantes da análise foi o destaque dado ao hibridismo linguístico e cultural da obra. João Fernando André sublinhou o uso de elementos das línguas vernáculas angolanas, bem como referências à tradição oral, à gastronomia, à cosmovisão africana e aos códigos culturais endógenos, conferindo à poesia uma identidade enraizada e simultaneamente universal.

A intervenção evidenciou também a dimensão social e crítica da obra, nomeadamente na abordagem ao papel da mulher numa sociedade ainda marcada por estruturas patriarcais, sugerindo uma leitura da poesia como espaço de afirmação e liberdade.

Foi igualmente salientada a presença da paisagem angolana, em particular do Namibe, como elemento estruturante da obra, permitindo não só uma leitura estética, mas também uma valorização simbólica e cultural do território.

Por fim, o orador destacou a dimensão ética e humanista da poesia de Elsa Major, que convoca questões contemporâneas como a violência, os conflitos, a degradação ambiental e a perda de valores, propondo a reflexão, o diálogo e a espiritualidade como caminhos possíveis para um mundo mais equilibrado.