Kalunga regressa à Feira do Livro de Lisboa com a palavra transformada em sabedoria

Kalunga regressa à Feira do Livro de Lisboa com a palavra transformada em sabedoria

O poeta angolano Kalunga, nome literário de João Fernando André, marcou presença na Feira do Livro de Lisboa no passado dia 4 de junho de 2026, protagonizando mais uma intervenção impactante, marcada pela lucidez, pela profundidade do pensamento e por uma forma muito própria de olhar para a vida.

Perante o público reunido no Parque Eduardo VII, Kalunga voltou a demonstrar que a sua poesia não se limita à leitura de versos. Cada intervenção transforma-se numa reflexão sobre a existência, a identidade, a memória, o sofrimento, o amor e a responsabilidade de cada ser humano perante o mundo.

Com uma comunicação serena, mas intensa, o poeta partilhou ideias que nasceram da literatura, mas rapidamente se alargaram à vida. Com a palavra, construída a partir da experiência angolana e de uma permanente interrogação sobre a condição humana, encontrou em Lisboa um público atento e disponível para escutar.

A presença de Kalunga na edição de 2026 da Feira do Livro de Lisboa constituiu mais uma etapa de um percurso editorial e cultural iniciado há vários anos. Para o editor da Perfil Criativo | Alende | AUTORES.club, o encontro despertou inevitavelmente a memória de outra sessão extraordinária: a apresentação de Evangelho Bantu, realizada pela Alende — Edições, no dia 17 de maio de 2019, na Biblioteca Nacional de Angola, em Luanda.

Aquela tarde de 2019 permanece como um momento inesquecível. Na Biblioteca Nacional de Angola, Kalunga apresentou-se como uma nova voz da poesia angolana, revelando uma escrita que unia a afirmação da identidade bantu, a espiritualidade, o amor, a valorização da mulher, a crítica social e a esperança numa humanidade mais consciente.

Foi também o início de uma relação editorial construída em torno da confiança na palavra e da convicção de que a poesia angolana contemporânea precisava de atravessar fronteiras, chegar a novos leitores e ocupar o seu lugar no espaço literário de língua portuguesa.

Desde então, as apresentações de Kalunga têm adquirido uma dinâmica muito particular. Em vez de sessões convencionais, o poeta cria momentos de participação, diálogo, declamação e pensamento colectivo. O público não permanece apenas como espectador: é frequentemente chamado a entrar no poema, a questionar o seu próprio lugar no mundo e a descobrir a literatura como experiência viva.

Depois da apresentação de Evangelho Bantu em Luanda, em 2019, Kalunga continuou a desenvolver um percurso literário marcado pela publicação, pelo ensino, pela crítica cultural e pela participação em diferentes iniciativas dedicadas à literatura.

O regresso de Evangelho Bantu aos encontros públicos ganhou especial significado em Lisboa. No dia 4 de fevereiro de 2025, a Biblioteca Palácio Galveias recebeu uma apresentação do livro que ultrapassou o formato tradicional e culminou numa surpreendente performance colectiva, com a participação de poetas presentes na sala. A palavra de Kalunga transformou o público numa comunidade momentânea de vozes, ritmos e experiências.

Ainda em 2025, o autor levou Evangelho Bantu à Feira do Livro de Lisboa. A sessão, realizada a 10 de junho, converteu-se numa conversa aberta entre o poeta, o editor e os leitores, permitindo abordar as culturas de Angola, os bantu, a criação literária e o lugar da nova poesia.

Em 2026, esse percurso entrou numa nova fase com a publicação de Matéria Negra. A obra aprofunda a dimensão filosófica e contemplativa da escrita de Kalunga, cruzando memória, resistência, identidade, espiritualidade, fragilidade humana e inquietação perante os problemas do presente.

A apresentação oficial do livro, realizada no dia 13 de maio, na histórica sede d’A Voz do Operário, em Lisboa, abriu o ciclo cultural «A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana». A sessão contou com a participação da professora e ensaísta Ana Mafalda Leite, que estabeleceu uma ponte entre Evangelho Bantu e Matéria Negra, mostrando a evolução de uma poesia que preserva as suas raízes, mas amplia continuamente os seus territórios.

A passagem de Kalunga pela Feira do Livro de Lisboa de 2026 confirmou essa evolução. A sua presença no dia 4 de junho e a posterior apresentação de Matéria Negra, no dia 7, integraram uma programação dedicada à divulgação da literatura, da história e do pensamento angolanos.

No mesmo dia da apresentação de Matéria Negra,Jornal de Angola publicou uma extensa análise de Luísa Fresta, intitulada «Kalunga transforma a palavra em contemplação e resistência». O texto reconheceu a densidade simbólica da obra e a capacidade do poeta para transformar experiências pessoais e colectivas numa linguagem de grande força estética e humana.

De Luanda a Lisboa, da Biblioteca Nacional de Angola à Biblioteca Palácio Galveias, d’A Voz do Operário à Feira do Livro de Lisboa, as apresentações de Kalunga revelam um poeta que não repete simplesmente os seus livros: recria-os diante do público.

Em cada encontro, João Fernando André demonstra que a poesia pode ser escuta, confronto, memória, conhecimento e aproximação entre pessoas. A sua palavra nasce de Angola, mas dirige-se ao ser humano, às suas contradições e à sua permanente procura de sentido.

Para a Perfil Criativo | Alende | AUTORES.club, acompanhar este percurso desde 2019 representa muito mais do que publicar livros. Representa testemunhar o crescimento de uma voz poética singular e renovar, a cada apresentação, a certeza de que a literatura angolana contemporânea possui autores capazes de transformar a palavra em contemplação, resistência e sabedoria.

Jornal de Angola destaca a poesia de Kalunga no dia da sua apresentação na Feira do Livro de Lisboa

Jornal de Angola destaca a poesia de Kalunga no dia da sua apresentação na Feira do Livro de Lisboa

Jornal de Angola publicou hoje, 7 de junho, no suplemento Fim-de-Semana, um amplo texto de Luísa Fresta dedicado ao livro Matéria Negra, de João Fernando André, conhecido nos movimentos literários angolanos como Kalunga.

Sob o título «Kalunga transforma a palavra em contemplação e resistência», a autora apresenta o mais recente livro do poeta angolano como uma obra que alia intensidade, musicalidade, consciência social e reflexão sobre a condição humana.

Luísa Fresta sublinha que, em Matéria Negra, o verso transforma-se num espaço de contemplação e resistência, onde convivem a memória, a dor, a esperança, a espiritualidade e a inquietação perante os grandes desafios do presente.

A análise destaca igualmente a riqueza da linguagem de Kalunga, marcada pelo uso de imagens, símbolos, ritmos e referências culturais diversas. A língua portuguesa surge enriquecida por sonoridades, expressões e memórias angolanas, numa escrita que procura abrir novos caminhos de leitura e interpretação.

Ao longo do artigo, a poesia de Kalunga é apresentada como uma voz atenta às desigualdades, à fragilidade da vida, à liberdade, ao amor, à identidade e à necessidade de reconstrução humana. Luísa Fresta considera que o poeta transforma experiências individuais e colectivas numa linguagem de forte dimensão estética e social.

A publicação acontece precisamente no dia em que Kalunga apresenta Matéria Negra na Feira do Livro de Lisboa. O encontro está marcado para hoje, às 20h00, no Auditório Norte, constituindo uma oportunidade especial para conhecer o autor, ouvir a sua poesia e participar numa conversa sobre uma das mais recentes propostas da literatura angolana contemporânea.

Para o editor da Perfil Criativo | AUTORES.club João Fernando André é um representante da nova poesia de Angola e um verdadeiro embaixador cultural.

Depois da apresentação, Kalunga estará disponível para uma sessão de autógrafos, às 21h00.

7 de junho de 2026, às 20h00
Auditório Norte — Feira do Livro de Lisboa
Sessão de autógrafos às 21h00

Matéria Negra
Matéria Negra

Descobrir a nova literatura de Angola hoje na Feira do Livro de Lisboa

Descobrir a nova literatura de Angola hoje na Feira do Livro de Lisboa

Perfil Criativo | AUTORES.club convida todos os leitores a participarem, neste domingo, 7 de junho, em três encontros especiais dedicados à política, à memória, à poesia e à literatura contemporânea de Angola e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

A programação decorre a partir das 18h00, no Auditório Norte da Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII. Depois de cada apresentação, os autores estarão no Pavilhão D48 — Pavilhão Papa-Letras | Promobooks.net, para conversarem com os leitores e autografarem as suas obras.

Às 18h00, será apresentada a obra coletiva 50 Anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos, coordenada por Rui Verde e Eugénio Costa Almeida. O livro reúne cerca de 40 autores e personalidades dos países africanos de língua portuguesa, que fazem um balanço plural de meio século de independências. Através da memória, do testemunho, da história, da análise política e da reflexão sobre a cidadania, a obra aborda os sonhos das libertações nacionais, os caminhos percorridos pelos novos Estados, os conflitos, os autoritarismos, os processos de democratização e os desafios ainda presentes no desenvolvimento das sociedades africanas. A sessão de autógrafos realiza-se às 19h00.

Às 19h00, terá lugar o lançamento de 42.4 — A Voz dos Dibengo, de Tazuary Nkeita, pseudónimo literário do jornalista José da Costa Soares Caetano. Nesta nova edição revista, o autor dá voz aos Dibengo e a outras experiências humanas ligadas à memória, ao território, à identidade e à consciência social. A obra cruza literatura, cultura e história, revelando uma escrita profundamente ligada às comunidades angolanas e aos seus modos de compreender a vida, a pertença e as transformações da sociedade. Autógrafos às 20h00.

Às 20h00, será apresentado o poemário Matéria Negra, de Kalunga, nome literário de João Fernando André. Numa poesia intensa, contemporânea e surpreendente, Kalunga transforma a palavra num espaço de interrogação sobre Angola, a identidade africana, a memória, o corpo, a ancestralidade e a condição humana. O livro afirma uma voz poética própria, simultaneamente inquieta e consciente, que recupera referências culturais africanas e as coloca em diálogo com as grandes questões do mundo atual. A sessão de autógrafos decorre às 21h00.

Este será um encontro especial para descobrir a nova literatura de Angola, conhecer diferentes gerações de autores e aproximar os leitores de obras que interrogam o passado, interpretam o presente e ajudam a imaginar o futuro.

Hoje, 7 de junho de 2026
Auditório Norte — Feira do Livro de Lisboa
18h00 — 50 Anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos
19h00 — 42.4 — A Voz dos Dibengo
20h00 — Matéria Negra

Sessões de autógrafos no Pavilhão D48 — Pavilhão Papa-Letras | Promobooks.net.

O poeta Kalunga abriu o ciclo literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana”

O poeta Kalunga abriu o ciclo literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana”

A histórica sede d’A Voz do Operário, em Lisboa, acolheu na quarta-feira, 13 de maio de 2026, o primeiro encontro literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana” da editora Perfil Criativo | AUTORES.club. A sessão foi dedicada à apresentação do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, nome literário de João Fernando André.

O encontro marcou o início de uma programação pensada para aproximar autores, leitores e obras num espaço profundamente ligado à educação, à cultura e à intervenção pública. Na abertura da sessão, o editor da Perfil Criativo | AUTORES.club sublinhou precisamente a importância de instituições como A Voz do Operário, lugares históricos que continuam a cumprir uma missão essencial: criar comunidade, promover o conhecimento e manter viva a palavra como instrumento de cidadania.

Num ambiente de grande atenção e proximidade, a convidada especial, Prof. Doutora Ana Mafalda Leite, fez uma apresentação exaustiva e profundamente informada de dois livros do poeta KalungaEvangelho Bantu e Matéria Negra. A sua intervenção surpreendeu os leitores presentes pela densidade da análise, pela sensibilidade crítica e pela forma como situou a obra de Kalunga.

A sessão terminou com uma intervenção do próprio autor. Kalunga conquistou o público com uma presença marcada pela cultura, pelo domínio da palavra e por um virtuosismo raro, transformando a apresentação num momento de grande humanismo.

Foi um encontro inédito e memorável, que confirmou a força da poesia de Kalunga e inaugurou, da melhor forma, este novo ciclo de encontros.

INTER(IN)VENÇÃO DA MATÉRIA NEGRA

KALUNGA (JOÃO FERNANDO ANDRÉ)

Insigne editor João Ricardo, distinta professora Ana Mafalda, dignos convidados, minhas camaradas e meus camaradas da linha da frente cultural, amados leitores, todo o protocolo observado!

Ora, depois da apresentação da minha dileta professora, amiga e camarada Ana Mafalda Leite, cabe-me usar uma outra filosofia com a qual tenho levado a vida: o pragmatismo. Para dizer o seguinte: nestes aproximados 10.958 dias de exercício de viver, dei conta que nasci num mundo violento e capitalista. Até aos 14 anos, não sabia como viver neste mundo. Então, passei a dedicar-me à leitura e aos estudos. Diziam-me “estuda para ser alguém”. Sempre que me diziam esta frase, perguntava-me: “mas já não sou alguém? Foi-me dado um nome, documentos e data de nascimento. Como é que ainda não sou alguém?

Como o personagem do meu grande mestre Fiódor Dostoiévski, percebi então que a vida é como o sonho de um homem rídiculo e que me devia dedicar a aprender e ser melhor para mim mesmo cada dia ao longo do exercício de viver. Estudei o essencial sobre a vida e descobri com o meu grande mestre Charles Munger que “para quem só tem um martelo todo o problema parece um prego.” Então, dediquei-me a ter uma visão multidisciplinar, estudar as terríveis histórias do mundo. Das ideias do surgimento do homem ao surgimento da propriedade privada. Da produção de bens a produção do mal. Da criação dos capitais à obsolescência programada. Dos erros dos julgamentos humanos aos preconceitos. Dos filósofos-reis à Síndrome de Hubris. 

Descobri que “o mundo jaz no maligno”, como o outro João, o que foi decapitado. Mas surgiu outra pergunta: o que é o maligno? Descobri que o maligno é a ganância, a inveja, a violência nas suas várias dimensões e a identidade que pode ser assassina por não buscar a empatia cognitiva e cristalizar os neurónios espelhos. Mas descobri também que a maior parte das pessoas – alfabetizadas e não-alfabetizadas – não sabe o que são neurónios espelhos. Aí percebi que a vida é uma comédia que acaba sempre em tragédia. Percebi que a vida é um milagre perigoso e que, mais importante do que ter exemplos para seguir, é ter exemplos para não seguir. Como alerta o princípio da inversão de Munger. 

Segundo o departamento de Astrofísica da USP, “a matéria negra é uma forma invisível de matéria que compõe cerca de 85% da massa do universo, não emitindo, absorvendo ou refletindo luz. Detectada apenas por sua influência gravitacional em estrelas e galáxias, ela impede que estruturas cósmicas se dispersem, sendo um dos maiores mistérios da física actual.” Daí resultou o grande problema do Agricultor de Imagem João Ricardo: como representar a Matéria Negra? 

Na semiótica, o branco é a cor neutra e o preto representa a absorção da luz visível. Nos primórdios da humanidade, a cor branca representava a vida e a cor preta remetia para a imaginação, a criatividade, a cognição e o divino. Nas sociedades africanas, o branco representa o ficcional, os seres invisíveis e possíveis que nos rodeiam. Enquanto que a vitalidade é representada pelo vermelho. Vê-se isso em memento mori, quando se colocam pedras vermelhas sobre pedras brancas, representando estas pedras um texto lapidar que conecta os seres presentes com os seres ausentes.

Neste misto de significações, este poemário, Matéria Negra, ao contrário das associações que alguns leitores da maravilhosa capa do Agricultor de Imagens da Perfil Criativo, o camarada João Ricardo, fizeram com o “fumus albus papal” ou com rituais místicos, representa o pouco que conhecemos diante do muito que não sabemos do universo, em geral, e da experiência humana, em particular. Deixo aqui um caso como exemplo: raramente veremos um escritor que entende de economia e raramente veremos um economista que entende de literatura no seu sentido mais ficcional.

Quanto às estéticas, trabalho aqui com a estética da existência, da resistência e da regeneração, com fundamentos da ontologia, das teorias das literaturas, da filosofia da linguagem, da filosofia do direito e da filosofia da economia em busca da soberania emocional, da solitude, do amor fati e da luta contra a empresa do mal que governa o mundo.

No que à forma diz respeito, se nas três séries do Evangelho Bantu deslocava o título do texto do princípio para o fim, transformando-o numa espécie de ata-finda, pois primeiro escreve-se o poema e só depois é que se lhe dá título normalmente, em Matéria Negra amplifico este fundamento. O poema resulta da persistência da observação da realidade aumentada e sentida ao longo do exercício de viver. Daí as reticências iniciais. Ele é finalizado num laboratório de dizer mais e escrever menos. Daí a polifonia paremiológica. Cada texto é burilado até à exaustão do predicador, não até a exaustão do texto que ruma ao infinito. Daí as reticências finais. O título aqui é um jogador ou peregrino, para trazer à colação a teoria dos viajantes de Bauman, ele pode ser o primeiro verso, o verso do meio ou os últimos versos, mas é sempre o conjunto lexical fundador do texto-matéria negra. Daí o negrito a iluminar o corpo poético.

O meu acrisolado agradecimento pela vossa presença e camaradagem ao longo do exercício de viver que vamos enfrentando, como Paulo, “combatendo o bom combate e guardando a fé” nas coisas do espírito e na humanidade, esta espécie tão bondosa e tão perigosa que nomeou um planeta composto por 71 por cento de água por Terra, simplesmente porque os homens vivem na terra, que representa só 29 por cento da superfície deste mesmo planeta. Em verdade em verdade, não seria planeta ÁGUA?

Gratidão a todos e boas leituras, pois o texto poético não termina ao contrário da crónica, do conto, do drama e do bem capitalizado romance. Grato! Grato! Grato! Ngasakidila! Ndapandula! Dizemos lá em Angola!

Matéria Negra
Matéria Negra

“A Voz do Operário, Sem Maka”: Kalunga apresenta “Matéria Negra”

“A Voz do Operário, Sem Maka”: Kalunga apresenta “Matéria Negra”

Na próxima quarta-feira, 13 de Maio, Lisboa recebe um encontro especial com a nova poesia angolana contemporânea. O auditório d’ A Voz do Operário acolhe a apresentação oficial do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, numa sessão integrada no ciclo cultural “A Surpreendente e Desconhecida Literatura Angolana”.

Membro da União dos Escritores Angolanos, João Fernando André (Kalunga) é hoje considerado uma das vozes mais inquietas e representativas da nova geração de autores angolanos, afirmando-se como uma referência na intervenção cultural.

Com humor e cumplicidade, o autor já confirmou que este encontro de quarta-feira n’ A Voz do Operário “será sem maka”, prometendo uma conversa aberta, intensa e próxima do público, em torno da poesia, da palavra e dos desafios do presente.

Em Matéria Negra, Kalunga propõe uma escrita de grande densidade simbólica e filosófica, atravessando temas como identidade, memória, esperança, espiritualidade e condição humana. A obra surge como um convite à reflexão e ao mergulho nas zonas invisíveis da existência contemporânea.

O ciclo “A Surpreendente e Desconhecida Literatura Angolana” quer afirmar-se como um dos mais importantes encontros de divulgação da criação literária angolana, aproximando leitores, autores e investigadores de obras que revelam a vitalidade cultural de Angola no século XXI.

Matéria Negra
Matéria Negra

Convidada Especial

A sessão contará com a presença especial de Ana Mafalda Leite, poeta e investigadora científica portuguesa, reconhecida pelo seu importante trabalho académico na área das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

Professora universitária, ensaísta e uma das mais respeitadas especialistas no estudo das literaturas africanas contemporâneas, Ana Mafalda Leite tem desenvolvido um percurso de investigação e divulgação fundamental para a aproximação entre os espaços culturais africanos e portugueses, contribuindo activamente para o reconhecimento internacional de autores africanos de língua portuguesa.

Homenagem a Gonçalves Handyman

O encontro de 13 de Maio será igualmente marcado por um momento especial de homenagem ao jovem editor angolano Gonçalves Handyman, assinalando os quatro anos do seu desaparecimento.

Figura marcante da nova geração angolana, Gonçalves Handyman destacou-se pela sua sensibilidade literária, irreverência criativa e dedicação à edição e promoção de jovens autores. O seu nome permanece ligado ao surgimento de novas linguagens e novas formas de intervenção cultural em Angola.

A evocação da sua memória durante a apresentação de Matéria Negra simboliza também a continuidade de uma geração que acredita na poesia, na palavra e na cultura como instrumentos de transformação, liberdade e resistência.

Onde fica A Voz do Operário?

O histórico edifício A Voz do Operário localiza-se na freguesia da Graça, em Lisboa, numa das zonas culturais e populares mais emblemáticas da cidade.

Fundada no final do século XIX, A Voz do Operário é uma das mais importantes instituições culturais, educativas e associativas, mantendo uma intensa actividade nas áreas da cultura, educação e intervenção cívica. O seu histórico edifício tem acolhido ao longo das décadas debates, concertos, sessões literárias e encontros políticos e culturais marcantes da vida portuguesa.

Morada: Rua da Voz do Operário, n.º 13, 1100-621 Lisboa

Matéria Negra

Matéria Negra

A mais recente obra do poeta angolano KalungaMatéria Negra, já se encontra disponível para encomenda, assinalando a chegada de um livro que promete marcar o panorama literário contemporâneo.

Reconhecido como uma das vozes mais marcantes da nova geração da República de Angola, Kalunga afirma-se hoje, em Portugal, como uma referência na intervenção cultural. A sua escrita, intensa e provocadora, posiciona-o no centro de um diálogo urgente entre memória e futuro.

Em Matéria Negra, o autor apresenta uma poesia densa e multifacetada, onde a palavra se transforma em instrumento de questionamento e criação. A obra percorre temas como o tempo, a dor, a esperança e a condição humana, conduzindo o leitor por territórios invisíveis da existência e desafiando-o a pensar para além do evidente.

Com uma linguagem fortemente imagética e filosófica, os poemas cruzam o íntimo e o coletivo, o sagrado e o quotidiano, levantando interrogações que ecoam muito para além da leitura, como a provocadora questão: “Como se semeia um humano?” 

Matéria Negra surge, assim, como um livro incontornável para quem procura uma poesia contemporânea comprometida, inquieta e transformadora.

O livro já pode ser encomendada na na loja online da Perfil Criativo | AUTORES.club, estando agora ao alcance de todos os leitores que desejam mergulhar na força e profundidade da palavra do poeta Kalunga (João Fernando André).

Biblioteca Palácio Galveias debate as origens da consciência angolana no século XIX

Biblioteca Palácio Galveias debate as origens da consciência angolana no século XIX

No passado dia 1 de abril de 2026, a Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, foi palco do encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, uma iniciativa centrada na apresentação do livro Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, de Tomás Lima Coelho.

O evento reuniu investigadores, escritores e público interessado numa reflexão aprofundada sobre um período decisivo da história de Angola, marcado pela introdução da imprensa, pela presença dos degredados, pela emergência dos primeiros intelectuais africanos e pela formação de uma consciência crítica que antecipa a ideia de nação. Ao longo da sessão, destacou-se o cruzamento entre literatura, história e pensamento político-cultural, num diálogo que permitiu revisitar os contextos, as vozes e os processos que contribuíram para a construção dos primeiros imaginários modernos angolanos.

No âmbito da cobertura do encontro, apresentamos agora os vídeos das intervenções dos convidados especiais, permitindo acompanhar de forma integral os principais momentos de reflexão e debate, com participações de Jorge ArrimarAlberto Oliveira PintoTomás Lima Coelho e João Fernando André.

A iniciativa confirmou a relevância de revisitar o século XIX angolano como momento fundacional de processos culturais e políticos que continuam a marcar o presente. Com a disponibilização dos registos audiovisuais, prolonga-se agora o alcance deste debate, permitindo que um público mais amplo aceda às ideias e interpretações partilhadas na Biblioteca Palácio Galveias.

Tomás Lima Coelho nos agradecimentos durante o encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, momento que serviu para a apresentação da obra Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe

Intervenção de Jorge Arrimar na apresentação do livro Chão de Kanambua, de Tomás Lima Coelho

Intervenção do historiador angolano Alberto Oliveira Pinto, uma das vozes mais dinâmicas na divulgação da História de Angola

João Fernando André (Kalunga): a voz crítica de uma nova geração angolana

Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Terceira Parte

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Terceira Parte

João Fernando André (Kalunga): literatura, história e consciência crítica de Angola

No passado dia 1 de abril, a Biblioteca Palácio Galveias recebeu o encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, momento que serviu para a apresentação da obra Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, de Tomás Lima Coelho.

Entre as intervenções, destacou-se a participação do académico angolano João Fernando André, conhecido no campo literário como Kalunga, escritor, consultor cultural e professor de língua portuguesa e literaturas, atualmente em fase final do seu doutoramento em Lisboa.

Uma leitura crítica do romance histórico

Partindo de uma abordagem sistemática da obra, João Fernando André propõe uma verdadeira “dissecação” do romance, destacando a sua densidade histórica e social.

A obra é apresentada como um romance histórico sobre o florescimento de Malanje, centrado nas relações entre autóctones, degredados e autoridades coloniais.

A narrativa estrutura-se através de memória e movimento, recorrendo a analépses e prolepses que acompanham a trajetória do protagonista Manuel Justino.

O romance oferece um panorama detalhado da sociedade angolana entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX.

Degredo, violência e formação da sociedade colonial

Um dos eixos centrais da intervenção prende-se com a análise do sistema de degredo e do seu impacto na formação social de Angola.

Os degredados são descritos como “indesejados do reino”, enviados para África como instrumento de colonização penal.

A obra revela uma sociedade marcada por exploração, desigualdade social, violência, preconceito e epistemicídio.

Apesar disso, evidencia também relações de fraternidade e humanidade entre degredados e populações locais.

Grande parte da riqueza colonial é apresentada como resultado do trabalho dos autóctones, que paradoxalmente eram os menos beneficiados pelo sistema.

Igreja, ciência e poder colonial sob crítica

A intervenção de João Fernando André destaca o forte teor crítico da obra face às instituições coloniais.

A Igreja surge, em várias passagens, como espaço de poder, injustiça e corrupção, incluindo denúncias de abusos e discriminação.

Os exploradores e cientistas europeus são criticados pela sua incapacidade de reconhecer a igualdade humana, sustentando práticas de superioridade racial e desumanização.

A obra denuncia a coisificação do homem africano e a desvalorização dos saberes endógenos.

Imprensa, pensamento e resistência

A intervenção sublinha ainda o papel histórico da imprensa em Angola.

Desde 1845, com a introdução da imprensa, surgiram dezenas de periódicos, muitos dos quais foram posteriormente encerrados pela administração colonial.

A imprensa é apresentada como espaço de luta contra o racismo e a desigualdade, protagonizada por elites locais e intelectuais africanos.

Entre história e simbolismo: Kanâmbua e Kangombe

João Fernando André chama a atenção para a dimensão simbólica da obra, expressa no título e no pós-título.

Kanâmbua representa o espaço de transformação e renascimento do protagonista.

Kangombe introduz uma dimensão mística, associada a forças sobrenaturais e à memória do trauma.

A obra articula duas narrativas paralelas: a história social de Manuel Justino e uma história simbólica mais profunda.

Literatura como espelho e intervenção

A leitura proposta por João Fernando André reforça a ideia de que a literatura ultrapassa o plano ficcional.

A obra funciona como “radiografia da sociedade colonial angolana”, revelando as suas contradições estruturais.

A literatura é entendida como instrumento de denúncia, memória e reflexão crítica.

Uma voz independente da nova geração

A intervenção confirma João Fernando André como uma das vozes mais consistentes da nova geração intelectual angolana.
Nascido já na República de Angola, afirma-se com um discurso crítico, informado e independente, afastado da propaganda oficial e comprometido com uma leitura profunda da história e da sociedade.

João Fernando André emerge como um verdadeiro embaixador cultural de Angola, articulando investigação académica, pensamento crítico e criação literária.

Brevemente: Matéria Negra

O autor desta intervenção, na voz do poeta Kalunga, prepara-se para apresentar em Portugal o seu novo livro de poesia, Matéria Negra, que deverá prolongar esta mesma linha de reflexão crítica e densidade simbólica.

Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)
Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Primeira Parte

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Primeira Parte

Reportagem — Primeira Parte

No dia 1 de abril de 2026, entre as 18h00 e as 20h00, a Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, acolheu o encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, organizado a partir da apresentação do livro Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, de Tomás Lima Coelho.

Este evento propôs um debate aberto sobre o final do século XIX em Angola, um período marcado pela introdução da imprensa, pela presença dos degredados, pelo surgimento dos primeiros intelectuais africanos e pela formação de uma consciência crítica que antecipa a ideia de país.

O encontro reuniu diferentes vozes, académicas, literárias e ensaísticas, num cruzamento entre literatura, história e pensamento político-cultural, refletindo sobre os imaginários de modernidade, pertença e contestação que começaram a emergir nesse contexto.

Este texto constitui o primeiro registo de reportagem do encontro, centrando-se na intervenção do escritor angolano Jorge Arrimar.

Uma intervenção entre crítica literária e reflexão histórica

Jorge Arrimar iniciou a sua intervenção com um tom próximo e cúmplice, evocando a relação de amizade e reconhecimento mútuo com Tomás Lima Coelho. Sublinhou desde logo o percurso do autor, destacando-o como “um angolano de toda a Angola”, cuja vivência em diferentes regiões do país contribuiu para uma visão ampla e enraizada da realidade angolana.

Ao abordar o romance Chão de Kanâmbua, Jorge Arrimar destacou-o como uma obra que vai além da ficção histórica convencional, propondo uma leitura densa do século XIX angolano. Entre os principais pontos da sua análise, salientam-se:

  • A centralidade da personagem Manuel Justino, um degradado português que se reinventa em Angola, simbolizando processos de transformação individual e cultural.
  • A coexistência de universos culturais distintos, africanos e coloniais, em permanente tensão e negociação.
  • O diálogo entre oralidade africana e escrita europeia, como elemento estruturante da narrativa.
  • O papel das missões religiosas como espaços de mediação cultural.
  • O nascimento de uma consciência crítica, associada ao surgimento de elites africanas com formação ocidental.

Jorge Arrimar enfatizou que o romance funciona como um “dispositivo narrativo” que permite observar o período histórico não apenas nas suas estruturas formais, mas sobretudo na experiência humana, marcada por deslocações, adaptações e reinvenções.

Literatura como espaço de conhecimento

Um dos eixos mais fortes da intervenção foi a ideia de que a ficção histórica desempenha uma função epistemológica. Segundo Jorge Arrimar, obras como Chão de Kanâmbua não se limitam a reconstituir o passado, mas procuram interrogá-lo, ampliá-lo e reinscrevê-lo na memória contemporânea.

Nesse sentido, destacou que a modernidade angolana não deve ser entendida como mera importação de modelos europeus, mas como um processo histórico próprio, resultante de:

  • encontros culturais
  • conflitos e resistências
  • apropriações e reinvenções simbólicas

A literatura como diálogo contínuo

Num momento final particularmente marcante, Jorge Arrimar rompeu com o protocolo habitual e introduziu uma dimensão pessoal à sua intervenção. Refletiu sobre o modo como os livros se influenciam mutuamente, afirmando:

“Um livro nunca nasce isolado, é sempre resposta, continuidade, por vezes ruptura.”

Evocou então o seu próprio romance Cuéle, o pássaro troçador (Ed. 2022), revelando como uma imagem presente na obra de Tomás Lima Coelho, uma fotografia do avô do autor, inspirou a criação de uma personagem no seu livro.

Este gesto sublinhou uma ideia central:
A literatura como uma longa conversa entre autores, tempos e memórias.

A leitura de um excerto do seu romance encerrou a intervenção, num momento que cruzou ficção, história e memória, reforçando o espírito do encontro.

Jorge Arrimar

Jorge Arrimar nasceu em Angola. Na Universidade de Luanda, iniciou os estudos superiores em Letras, concluindo-os em Portugal. Para além de trabalhos de história e de biblioteconomia, é autor de onze títulos de poesia e seis de ficção.

A intervenção de Jorge Arrimar destacou-se pela clareza analítica e pela capacidade de articular literatura e história como campos complementares de conhecimento. Ao centrar-se na obra de Tomás Lima Coelho, abriu também caminhos para uma reflexão mais ampla sobre o século XIX angolano e sobre os processos de formação da identidade cultural do país.

Este primeiro registo deixa evidente que o encontro na Biblioteca Palácio Galveias foi mais do que uma apresentação de livro, foi um espaço de pensamento vivo sobre Angola, a sua história e as suas narrativas.

Jorge Arrimar, Tomás Lima Coelho e João Ricardo Rodrigues

Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)
Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)

Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua

São-tomenses e angolanos celebram lançamento do livro de Rafael Branco

São-tomenses e angolanos celebram lançamento do livro de Rafael Branco

Lisboa recebeu, no dia 3 de setembro, uma animada apresentação do livro Meu Gastoso, minha Gostosa, meu Amor — Crónicas Íntimas, de Rafael Branco, na Biblioteca Palácio Galveias. São-tomenses e angolanos marcaram encontro num evento onde literatura, cultura e reflexão social se cruzaram num ambiente caloroso e participativo.

Num diálogo espontâneo e cativante com o poeta angolano João Fernando André, o autor revelou as motivações para a concretização deste trabalho artístico-literário, assumindo que, depois de uma carreira fulgurante na política e como embaixador da República de São Tomé e Príncipe, é neste exercício mais humano e intimista que agora se sente mais confortável.

O público acompanhou com atenção e aplaudiu as intervenções do escritor, revelando reconhecimento e surpresa perante as temáticas exploradas na obra.

João Fernando André destacou o papel da mulher e da família no livro, ao que Rafael Branco respondeu reconhecendo que a mulher é um dos focos centrais do seu trabalho artístico. O autor confidenciou ainda que a família tradicional em São Tomé e Príncipe deixou de existir, explicando a forma como a poligamia africana continua presente na sociedade e como influencia as relações pessoais.

O encontro terminou com uma forte interação entre autor e público, confirmando Meu Gastoso, minha Gostosa, meu Amor como uma obra que alia literatura e vivências reais, num olhar profundo sobre afetos, identidade e transformação social.

A equipa da RTP entrevistou o escritor Rafael Branco momentos antes da apresentação do livro Meu Gastoso, minha Gostosa, meu Amor

Intervenção do poeta angolano João Fernando André

Meu Gastoso, minha Gostosa, meu Amor — Crónicas Íntimas
Meu Gastoso, minha Gostosa, meu Amor — Crónicas Íntimas
 Meu Gastoso, minha Gostosa, meu Amor — Crónicas Íntimas
Meu Gastoso, minha Gostosa, meu Amor — Crónicas Íntimas

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