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Refletir sobre o colonialismo no Sul, através de pensadores do Sul

Refletir sobre o colonialismo no Sul, através de pensadores do Sul

Centro Nacional de Cultura classifica obra de Luís Gaivão um dos melhores livros de 2023

Texto de introdução ao livro Angola e o Atlântico: Colonialismo, colonialidade e epistemologia descolonial

POR LUÍS GAIVÃO

Quando Descartes (século XVII) elevou o racionalismo ao patamar de modelo superior de pensamento, abriu caminho para uma infindável profusão de filósofos que lhe aprofundaram o élan racionalista e o transformaram em única prática epistemológica possível, desconsiderando todas as outras formas de pensamento. Tratava-se da modernidade.

A situação evoluiu rapidamente: nos territórios coloniais da América ou de África e da Ásia, os europeus impuseram as metodologias do colonialismo. A razia étnica nuns casos, a escravatura em todos, como o domínio político-administrativo e militar e as formas de economia capitalista que a revolução industrial iria reforçar, subjugaram os nativos a práticas de exploração e, sobretudo, de menorização étnico-cultural, conduzindo à alienação, à perda, e à humilhação e afastando-os da ação cívica.

O racismo está, pois, na base da modernidade, bem escondido pelos pensadores eurocêntricos e hegemónicos que não reconheciam aos colonizados, a capacidade de se autogovernarem.

Assim, criaram os estereótipos necessários a um discurso colonial racista e fixaram uma escala humana racial onde os únicos competentes seriam os brancos e, ainda mais, os loiros de olho azul, e os incompetentes seriam os outros.

No entanto, os povos subjugados não quiseram continuar nessa dependência e entabularam os diversos caminhos para a libertação política dos colonizadores, a maior parte das vezes com guerras independentistas. A maioria das nações americanas fizeram-no durante o século XIX e as africanas durante o século XX.

Porém, a mentalidade dos “crioulos” que levaram a cabo as lutas de independência fora formada pelos colonizadores e isso proporcionou-lhes a manutenção da mesma realidade conceptual – a colonialidade – e gerou-se o neocolonialismo.

A razia cultural do colonialismo e do neocolonialismo foi avassaladora, mas não foi definitiva.

Os estudos pós-coloniais surgiram em meados do século XX e têm na sua génese, pensadores, sociólogos e intelectuais que refletem sobre os grandes colonialismos imperiais, mormente o caso do imperialismo inglês, hegemónico entre todos e conotado, sobretudo, com o Oriente (Índia) e Médio Oriente.

Na segunda metade do século XX e neste século, muitos outros pensadores sul-americanos e africanos vêm estudando o fenómeno diverso dos colonialismos no Sul e vêm conseguindo reatar os laços possíveis com as epistemologias e saberes ancestrais, onde o pensamento eurocêntrico não penetrou por completo.

O intuito deste livro é refletir sobre estes colonialismos no Sul, através de pensadores do Sul, cujas realidades são bem distintas dos colonialismos do Norte e ao pensar sobre o passado dos colonialismos ibéricos conhecer o que eles transformaram na História do Atlântico, particularmente, aqui, na de Angola.

No fundo, trata-se de colocar Angola e a sua História diante de si própria, e ajudar a descobrir a união entre o que passou e o que se vai passar, preenchendo com novos padrões societais (ecologia de saberes) os espaços vazios que a permanência colonial provocou, mas aproveitando dela a entrada na modernidade. Não a eurocêntrica, mas humana e natural, do Sul, do Atlântico e de Angola.

“Conhece-se pouco a realidade de Angola” afirmou o Prof. Doutor Guilherme D’Oliveira Martins

Luís Gaivão nasceu em Luanda, em 1948. É licenciado em Filosofia e Humanidades, mestre em Lusofonia e Relações Internacionais e doutor em Sociologia: Pós-colonialismos e Cidadania Global. É agente cultural de inúmeras intervenções quase sempre sobre temática angolana.

ÍNDICE

— Introdução
— O começo das coisas
— Colonialismo
— Ferramentas do colonialismo: fixidez e estereótipo
— Colonialismo ibérico no Atlântico: de exploração, de povoamento e periférico
— Colonialismo periférico português em Angola: subcolonização ou sobrecolonização? Especificidades
— Transculturação nos espaços do colonialismo português – o caso de Angola
— Colonialismo e guerra fria na África Austral
— A longa temporalidade do colonialismo português – dessincronia e rutura do modelo eurocêntrico e a particularidade angolana
— Colonialismo português e o retorno do “império”: colonialismo orgânico de Eduardo Lourenço e o império desterritorializado
— Colonialismo e modernidade
— África às escuras e a Conferência de Berlim
— América “iluminada” e o “ponto zero” racionalista
— Consequências da colonização ibérica na América Latina: colonialidade e hierarquização das raças.
— Culturas atlânticas (do Sul)
— Fronteiras, culturas fronteiriças e novas dinâmicas dos limites
— Tradução cultural, hibridação e entre-espaço
— “Esquecimento” da colonialidade pelo pensamento eurocêntrico
— Colonialismo interno e marginalidade
— Pensamento ameríndio e pensamento africano. Perversa sedução deste último pelo colonialismo
— Teoria do “pensamento abissal”
— “Este lado da linha”
— O “outro lado da linha”
— Ecologia de saberes, pensamento pós-abissal, cosmopolitismo subalterno
— Angola, um Estado moderno pós-colonial e a guerra civil
— Neocolonialismo
— Eurocentrismo: capitalismo e materialismo histórico
— Guerra civil, nomenclatura e corrupção
— O Estado ineficaz e o neocolonialismo – a herança que é necessário mudar
— Desadaptação do Estado-nação em África – colonialidade e Estado quase falhado
— Conclusão
— Glossário
— Referências bibliográficas

Autor: Luís Gaivão

Editora: Perfil Criativo – Edições

Ano de publicação:  Setembro de 2023 – 1ª edição

ISBN: 978-989-35076-8-1

Colecção: Trabalhos Académicos (Volume 2)

Número de páginas: 148

Língua: Português

PVP: 17,00 euros