Ana Mafalda Leite revela a densidade poética de Kalunga em noite memorável

Ana Mafalda Leite revela a densidade poética de Kalunga em noite memorável

A apresentação do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, realizada na quarta-feira, 13 de maio de 2026, n’A Voz do Operário, em Lisboa, ficou marcada pela extraordinária intervenção da Prof. Doutora Ana Mafalda Leite, convidada especial da sessão.

Perante uma sala atenta, a investigadora e poeta fez uma leitura profunda da obra de João Fernando André, nome literário de Kalunga, situando-o entre as vozes mais relevantes da nova poesia angolana contemporânea. Ana Mafalda Leite começou por sublinhar a qualidade literária do autor, destacando a originalidade da sua escrita, a maturidade do seu pensamento poético e a forma como a sua obra cruza identidade africana, reflexão filosófica, crítica social e experimentação estética.

A intervenção não se limitou ao livro apresentado. Ana Mafalda Leite estabeleceu uma ponte entre Evangelho Bantu, primeira obra poética de Kalunga, publicada em 2019, e Matéria Negra, ambos os livros publicados pela Perfil Criativo | AUTORES.club. Na sua leitura, Evangelho Bantu já anunciava uma voz literária própria, marcada pela reconstrução identitária, pela valorização da matriz bantu e pela procura de uma espiritualidade africana capaz de dialogar com a modernidade.

Sobre Matéria Negra, Ana Mafalda Leite destacou o alcance simbólico do título, associando-o à ideia científica de uma matéria invisível que sustenta o universo, mas também às zonas obscuras da história, da memória, da consciência e da experiência humana. A partir dessa metáfora central, a obra de Kalunga foi apresentada como uma poesia de grande densidade, onde convivem o metafísico e o social, o íntimo e o coletivo, a dor histórica e a esperança.

A professora chamou ainda a atenção para a dimensão experimental da escrita de Kalunga, marcada por imagens fortes, fragmentação formal, jogos de linguagem, neologismos, referências filosóficas, científicas, políticas e literárias. Segundo a sua leitura, trata-se de uma poesia que exige um leitor atento, disponível para a contemplação, a releitura e a interpretação ativa.

A obra foi também enquadrada na tradição da poesia angolana pós-colonial, em diálogo com a memória histórica, a afirmação africana e a crítica das heranças coloniais. Ana Mafalda Leite sublinhou que Kalunga não escreve apenas a partir de uma experiência individual, mas a partir de uma consciência ampla do mundo, das suas feridas, contradições e possibilidades de recomposição.

Um dos momentos mais fortes da intervenção foi a leitura de vários poemas de Matéria Negra, que permitiram ao público contactar diretamente com a intensidade verbal, a musicalidade e o poder imagético da escrita de Kalunga. A leitura revelou uma poesia atravessada por perguntas sobre o tempo, a morte, a esperança, a violência histórica, o amor, a humanidade e a transcendência.

Para Ana Mafalda LeiteMatéria Negra afirma-se como uma obra intelectualmente ambiciosa, poeticamente ousada e profundamente inquietante. Um livro que não oferece respostas fáceis, mas convida o leitor a pensar aquilo que permanece invisível, obscuro ou por compreender na condição humana e na história coletiva.

A intervenção surpreendeu e emocionou os leitores presentes pela profundidade da análise e pela forma como revelou as múltiplas camadas da poesia de Kalunga. Mais do que uma apresentação académica, foi uma verdadeira leitura crítica e sensível de uma obra que confirma a vitalidade da nova poesia angolana.

Com este encontro literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana” iniciou-se com um momento de grande qualidade literária, reunindo poesia, pensamento crítico e diálogo cultural.

Obra maior de Mafrano chega à Huíla e reafirma a dignidade da civilização Bantu

Obra maior de Mafrano chega à Huíla e reafirma a dignidade da civilização Bantu

O terceiro volume da colectânea Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias, do escritor, investigador e pensador angolano Maurício Francisco Caetano “Mafrano”, chegou à província da Huíla, reforçando a circulação nacional de uma das mais importantes obras publicadas sobre a cultura, a memória e a civilização Bantu.

A informação foi divulgada pela ANGOP — Agência Angola Press, que assinalou a chegada à Huíla do terceiro volume desta colectânea póstuma, publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club. A obra encerra um projecto editorial de grande fôlego dedicado ao pensamento de Mafrano, figura central da investigação cultural angolana e distinguida com o Prémio Nacional da Cultura e Artes 2024, na modalidade de Investigação em Ciências Humanas e Sociais

O terceiro volume, com cerca de 328 páginas, reúne textos organizados em torno da civilização Bantu, da religiosidade, das questões sociais e de episódios vividos pelo autor, incluindo reflexões que atravessam a história, a antropologia cultural, a ética, a justiça tradicional e a dignidade humana. 

Importa, contudo, fazer uma rectificação relevante: não se trata de uma obra de apenas 327 ou 328 páginas no seu conjunto. Esse número corresponde apenas ao terceiro volume. A colectânea completa Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias, publicada em três volumes, soma oitocentas páginas, constituindo um verdadeiro monumento editorial à memória cultural angolana.

A chegada da obra à Huíla tem especial significado simbólico. O Lubango e a região sul de Angola são espaços fundamentais da história cultural, religiosa e intelectual do país, e a presença desta colectânea nesse território reforça a necessidade de aproximar os leitores angolanos de obras que ajudam a compreender as raízes profundas da sociedade angolana.

Publicada postumamente, a colectânea recupera estudos, crónicas, notas autobiográficas e reflexões que Mafrano escreveu ao longo de décadas, muitas vezes sob pseudónimos como AnatecoVirafroAliquis ou Morais Paixão, estratégia que lhe permitiu intervir no debate público em tempos de censura e vigilância colonial. 

Notícia da ANGOP

Mais do que uma obra de antropologia cultural, Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias é uma afirmação de pensamento africano, uma defesa da dignidade dos povos Bantu e um contributo indispensável para o estudo da identidade angolana. A sua chegada à Huíla confirma que o legado de Mafrano continua vivo, a circular, a interpelar leitores e a abrir caminhos para uma leitura mais profunda da história de Angola.

Mafrano em Malanje

Refletir sobre o colonialismo no Sul, através de pensadores do Sul

Refletir sobre o colonialismo no Sul, através de pensadores do Sul

Centro Nacional de Cultura classifica obra de Luís Gaivão um dos melhores livros de 2023

Texto de introdução ao livro Angola e o Atlântico: Colonialismo, colonialidade e epistemologia descolonial

POR LUÍS GAIVÃO

Quando Descartes (século XVII) elevou o racionalismo ao patamar de modelo superior de pensamento, abriu caminho para uma infindável profusão de filósofos que lhe aprofundaram o élan racionalista e o transformaram em única prática epistemológica possível, desconsiderando todas as outras formas de pensamento. Tratava-se da modernidade.

A situação evoluiu rapidamente: nos territórios coloniais da América ou de África e da Ásia, os europeus impuseram as metodologias do colonialismo. A razia étnica nuns casos, a escravatura em todos, como o domínio político-administrativo e militar e as formas de economia capitalista que a revolução industrial iria reforçar, subjugaram os nativos a práticas de exploração e, sobretudo, de menorização étnico-cultural, conduzindo à alienação, à perda, e à humilhação e afastando-os da ação cívica.

O racismo está, pois, na base da modernidade, bem escondido pelos pensadores eurocêntricos e hegemónicos que não reconheciam aos colonizados, a capacidade de se autogovernarem.

Assim, criaram os estereótipos necessários a um discurso colonial racista e fixaram uma escala humana racial onde os únicos competentes seriam os brancos e, ainda mais, os loiros de olho azul, e os incompetentes seriam os outros.

No entanto, os povos subjugados não quiseram continuar nessa dependência e entabularam os diversos caminhos para a libertação política dos colonizadores, a maior parte das vezes com guerras independentistas. A maioria das nações americanas fizeram-no durante o século XIX e as africanas durante o século XX.

Porém, a mentalidade dos “crioulos” que levaram a cabo as lutas de independência fora formada pelos colonizadores e isso proporcionou-lhes a manutenção da mesma realidade conceptual – a colonialidade – e gerou-se o neocolonialismo.

A razia cultural do colonialismo e do neocolonialismo foi avassaladora, mas não foi definitiva.

Os estudos pós-coloniais surgiram em meados do século XX e têm na sua génese, pensadores, sociólogos e intelectuais que refletem sobre os grandes colonialismos imperiais, mormente o caso do imperialismo inglês, hegemónico entre todos e conotado, sobretudo, com o Oriente (Índia) e Médio Oriente.

Na segunda metade do século XX e neste século, muitos outros pensadores sul-americanos e africanos vêm estudando o fenómeno diverso dos colonialismos no Sul e vêm conseguindo reatar os laços possíveis com as epistemologias e saberes ancestrais, onde o pensamento eurocêntrico não penetrou por completo.

O intuito deste livro é refletir sobre estes colonialismos no Sul, através de pensadores do Sul, cujas realidades são bem distintas dos colonialismos do Norte e ao pensar sobre o passado dos colonialismos ibéricos conhecer o que eles transformaram na História do Atlântico, particularmente, aqui, na de Angola.

No fundo, trata-se de colocar Angola e a sua História diante de si própria, e ajudar a descobrir a união entre o que passou e o que se vai passar, preenchendo com novos padrões societais (ecologia de saberes) os espaços vazios que a permanência colonial provocou, mas aproveitando dela a entrada na modernidade. Não a eurocêntrica, mas humana e natural, do Sul, do Atlântico e de Angola.

“Conhece-se pouco a realidade de Angola” afirmou o Prof. Doutor Guilherme D’Oliveira Martins

Luís Gaivão nasceu em Luanda, em 1948. É licenciado em Filosofia e Humanidades, mestre em Lusofonia e Relações Internacionais e doutor em Sociologia: Pós-colonialismos e Cidadania Global. É agente cultural de inúmeras intervenções quase sempre sobre temática angolana.

ÍNDICE

— Introdução
— O começo das coisas
— Colonialismo
— Ferramentas do colonialismo: fixidez e estereótipo
— Colonialismo ibérico no Atlântico: de exploração, de povoamento e periférico
— Colonialismo periférico português em Angola: subcolonização ou sobrecolonização? Especificidades
— Transculturação nos espaços do colonialismo português – o caso de Angola
— Colonialismo e guerra fria na África Austral
— A longa temporalidade do colonialismo português – dessincronia e rutura do modelo eurocêntrico e a particularidade angolana
— Colonialismo português e o retorno do “império”: colonialismo orgânico de Eduardo Lourenço e o império desterritorializado
— Colonialismo e modernidade
— África às escuras e a Conferência de Berlim
— América “iluminada” e o “ponto zero” racionalista
— Consequências da colonização ibérica na América Latina: colonialidade e hierarquização das raças.
— Culturas atlânticas (do Sul)
— Fronteiras, culturas fronteiriças e novas dinâmicas dos limites
— Tradução cultural, hibridação e entre-espaço
— “Esquecimento” da colonialidade pelo pensamento eurocêntrico
— Colonialismo interno e marginalidade
— Pensamento ameríndio e pensamento africano. Perversa sedução deste último pelo colonialismo
— Teoria do “pensamento abissal”
— “Este lado da linha”
— O “outro lado da linha”
— Ecologia de saberes, pensamento pós-abissal, cosmopolitismo subalterno
— Angola, um Estado moderno pós-colonial e a guerra civil
— Neocolonialismo
— Eurocentrismo: capitalismo e materialismo histórico
— Guerra civil, nomenclatura e corrupção
— O Estado ineficaz e o neocolonialismo – a herança que é necessário mudar
— Desadaptação do Estado-nação em África – colonialidade e Estado quase falhado
— Conclusão
— Glossário
— Referências bibliográficas

Autor: Luís Gaivão

Editora: Perfil Criativo – Edições

Ano de publicação:  Setembro de 2023 – 1ª edição

ISBN: 978-989-35076-8-1

Colecção: Trabalhos Académicos (Volume 2)

Número de páginas: 148

Língua: Português

PVP: 17,00 euros

Faro e Enigmas ganha destaque na comunicação social

Faro e Enigmas ganha destaque na comunicação social

O lançamento do livro Faro e Enigmas — Poesia, da poetisa angolana Elsa Major, continua a ecoar nos meios de comunicação ligados à cultura e à diáspora angolana em Portugal.

O evento, realizado no Auditório 11 de Novembro, em Lisboa, contou com o importante apoio da Embaixada da República de Angola em Portugal, tanto na realização como na divulgação da iniciativa, reforçando o compromisso institucional com a promoção da literatura e da cultura angolana no espaço da língua portuguesa.

A sessão mereceu uma reportagem especial da TPA – Televisão Pública de Angola, assinada pelo repórter Gabriel Niva, destacando a dimensão literária e cultural da obra, bem como a forte presença da comunidade angolana, de representantes diplomáticos e de personalidades do meio artístico e literário.

A apresentação foi igualmente acompanhada pela plataforma A Voz da Diáspora, através de uma reportagem de Vladimir Prata, que sublinhou a relevância de Faro e Enigmas no contexto da literatura angolana contemporânea e da afirmação cultural da diáspora.

Com esta obra, Elsa Major consolida a sua presença no panorama da poesia contemporânea, reforçando a ligação entre Angola, Portugal e as comunidades da diáspora através da literatura, da memória e da língua portuguesa.

A Voz do Operário dá voz aos nossos autores

A Voz do Operário dá voz aos nossos autores

Há instituições cuja importância ultrapassa largamente a sua própria história. São lugares que resistem ao tempo porque continuam a cumprir uma função essencial: promover a educação, defender a cultura, aproximar pessoas e criar comunidade. A Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário é uma dessas instituições.

Nascida no coração de Lisboa, ligada ao movimento operário, à instrução popular e à intervenção cívica, A Voz do Operário tornou-se, ao longo de mais de um século, um símbolo da força transformadora da educação. As suas escolas, as suas salas, os seus encontros e a sua ação social ajudaram a formar gerações, demonstrando que a cultura não deve ser privilégio de poucos, mas património vivo de todos.

Num tempo em que a sociedade enfrenta novos desafios, da fragmentação social à perda de hábitos de leitura, da desvalorização da memória ao enfraquecimento dos espaços de encontro, torna-se ainda mais urgente reconhecer e apoiar instituições que mantêm abertas as portas do conhecimento. Casas como A Voz do Operário lembram-nos que a educação e a cultura são pilares de cidadania, liberdade e desenvolvimento humano.

É nesse espírito que nasce a parceria cultural entre A Voz do Operário e a editora Perfil Criativo | AUTORES.club, destinada à divulgação de autores e obras nas históricas instalações desta instituição. Mais do que uma programação literária, esta parceria pretende afirmar o livro como instrumento de pensamento, diálogo e participação pública.

A iniciativa procura levar escritores, leitores, investigadores, estudantes e cidadãos a partilharem o mesmo espaço, criando encontros em torno da palavra escrita, da memória histórica, da literatura e das grandes questões do nosso tempo. Porque os livros não existem apenas para serem lidos em silêncio: existem também para provocar conversas, despertar consciências e aproximar comunidades.

Esta missão encontra eco noutras instituições históricas do espaço da língua portuguesa. Em Luanda, a antiga Liga Nacional Africana desempenhou também um papel marcante enquanto espaço de cultura, reflexão, afirmação cívica e encontro entre gerações. Tal como A Voz do Operário, foi uma casa onde a educação, a palavra e a consciência coletiva ganharam dimensão pública.

Separadas pela geografia, mas unidas por uma vocação semelhante, estas instituições mostram como a cultura pode ser uma forma de resistência, de afirmação e de construção de futuro.

A parceria entre A Voz do Operário e Perfil Criativo | AUTORES.club inscreve-se nessa tradição. Ao abrir as suas portas aos autores e às suas obras, A Voz do Operário renova a sua missão histórica. Ao levar os seus livros a este espaço, a editora reforça o compromisso de valorizar autores, promover o pensamento crítico e criar pontes entre culturas, geografias e gerações.

Os primeiros encontros já estão marcados.

No dia 13 de maio de 2026, às 19h00, A Voz do Operário recebe o poeta angolano Kalunga, para uma conversa em torno do seu livro Matéria Negra. Será um encontro com a poesia, com a palavra intensa e com uma das vozes que afirma a vitalidade da criação literária angolana contemporânea.

No dia 5 de junho de 2026, a programação prossegue com uma viagem pela história recente de Angola, através do livro Breve História de Angola desde a Independência (1975-2025), do académico Rui Verde. A obra propõe uma leitura dos últimos cinquenta anos da Angola independente, abrindo espaço para reflexão sobre memória, política, sociedade e futuro.

Num mundo onde tantas vezes se confundem velocidade com conhecimento e ruído com debate, criar espaços de leitura, escuta e reflexão é um ato necessário. A cultura precisa de casas. Os livros precisam de leitores. Os autores precisam de lugares onde possam dialogar com o seu tempo.

A Voz do Operário é uma dessas casas. E, com esta parceria, volta a afirmar-se como lugar de educação, cultura e encontro, agora também como palco para novas vozes literárias, novas memórias e novas formas de pensar o mundo. Ao mesmo tempo, reafirma a força simbólica de uma instituição que dá nome ao mais antigo jornal vivo de Portugal, mantendo viva uma tradição de palavra, cidadania e intervenção pública que atravessa gerações.

Uma leitura crítica de Faro e Enigmas

Uma leitura crítica de Faro e Enigmas

Texto de Mário Máximo | Leitura por Fátima Gorete de Pina

A apresentação do livro Faro e Enigmas — Poesia, de Elsa Major, realizada no Auditório 11 de Novembro, foi marcada por uma leitura crítica profunda e sensível do escritor Mário Máximo, interpretada pela escritora são-tomense Fátima Gorete de Pina.

No seu texto, Mário Máximo destacou a obra como um corpo poético estruturado e de forte intensidade emocional, sublinhando a presença de uma autora que “aloja um coração enorme em cada verso”. Considerou Faro e Enigmas um livro que, embora de leitura inicial fluida, se revela progressivamente mais denso e exigente, convidando o leitor a permanecer em cada poema e a interrogar o sentido profundo das palavras.

O escritor salientou a capacidade da autora em construir uma poesia que convoca todos os sentidos, em consonância com a leitura crítica de Sara Jona Laisse, e que articula sensualidade, reflexão e identidade numa linguagem simultaneamente íntima e universal. Referiu ainda a importância dos prefácios, incluindo o olhar sensorial de Kátia Guerreiro , como portas de entrada para a compreensão da obra.

Na sua análise, Faro e Enigmas surge como um manifesto poético íntimo, marcado por uma alternância entre versos de forte carga sensorial e momentos de reflexão existencial. Mário Máximo destacou a presença de uma “estética da serenidade”, mesmo nos momentos de maior intensidade, e identificou na obra um eixo central onde a poesia se constrói como travessia interior, entre memória, desejo, corpo e paisagem.

A leitura evidenciou também a dimensão simbólica da escrita de Elsa Major, onde cada poema pode funcionar como uma “máscara estética”, revelando e ocultando simultaneamente o universo interior da autora. Ao longo da obra, sobressai uma tensão entre permanência e despedida, amor e ausência, num movimento contínuo que confere unidade ao livro.

O verso “A vida é uma dama completamente nua”, destacado pelo autor, foi apresentado como chave interpretativa da obra, sintetizando a exposição emocional e a entrega total que atravessam a poesia de Elsa Major.

A interpretação de Fátima Gorete de Pina acrescentou expressividade e musicalidade ao texto, reforçando a dimensão oral e performativa da poesia, num momento que celebrou a língua portuguesa como espaço de encontro entre diferentes geografias da lusofonia.

Mário Máximo

Nascido em Lisboa em setembro de 1956, o escritor Mário Máximo tem uma vasta bibliografia: poesia, romance, teatro, crónica, conto e ensaio. Ao todo, são já cerca de trinta os livros publicados, para além da participação em diversas Antologias. 

Os últimos livros editados foramAntologia – Poemas Escolhidos – 30 Anos de Poesia” (Edições Fénix, 2016); “O Heterónimo de Camões” (Romance, Edições Fénix, 2017); “A Era dos Versos” (Poesia, Edições Fénix, 2018); “O Diário dos Silêncios” (Romance, Edições Fénix, 2019); “Quarentena ou a Liberdade Dentro de Uma Caixa” (Conto, Edições Fénix, 2020); “As Portas da Noite” (Poesia, Edições Fénix, 2020) e o livro “O Pêndulo, A Poesia, O labirinto” (Poesia, Edições Fénix, 2022). Em 2024 publica o romance “A Viagem Para a Literatura ou o Destino de Ferreira de Castro” (Edições Fénix). Ainda em 2024 sai o livro de poesia “A Linguagem das Nuvens” (Edições Fénix). Em 2025 é publicado o romance “A Mulher Construída” (Edições Fénix).

Mário Máximo, tem desenvolvido, de modo continuado, um intenso trabalho na área da cidadania de língua portuguesa e da lusofonia. Foi Comissário estratégico da Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas durante dez anos (2006 a 2016), Bienal que contou com a Drª. Maria Barroso como Presidente da respetiva Comissão de Honra. Participou, nacional e internacionalmente, em diversos outros projetos nas áreas da lusofonia. É atualmente o coordenador da Administração da “Gala Prémios da Lusofonia”, bem como do “Fórum Permanente Debates da Lusofonia”. Estabeleceu relacionamento e parcerias ativas com as instituições de maior relevo ligadas ao mundo lusófono, nomeadamente a CPLP, a CE-CPLP e a UCCCLA, para além de outras instituições atuando em áreas confinantes. Foi, ainda, vereador e vice-presidente da Câmara Municipal de Odivelas (2009-2013), bem como Presidente do Conselho de Administração do Centro Cultural Malaposta (2005-2009 e 2013-2014). Durante cinco anos, foi Presidente da Direção da Associação Fernando Pessoa (que contava, aliás, com os sobrinhos do poeta). É cidadão honorário da C. M. da Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha – Cabo Verde). Entre outros, foi agraciado com o Prémio Lusofonia 2017. 

Morreu Manuel Vidigal — A Gratidão por um Amigo Vertical e a Memória de um Homem da Verdade

Morreu Manuel Vidigal — A Gratidão por um Amigo Vertical e a Memória de um Homem da Verdade

TEXTO DE JOAQUIM SEQUEIRA PUBLICADO NO KESONGO — O EMISSÁRIO DO SOBERANO

Margarida, Frederico e Rita,Amigos, familiares, companheiros de luta e de ideais

Estamos todos unidos com o coração pesado, mas também com a alma cheia de gratidão. Despedimo-nos do nosso Manuel da Fátima Alberto Augusto de Sá da Silva Vidigal, falecido ontem (sábado, 28). E, ao fazê-lo, temos a consciência de que não perdemos apenas um amigo. Perdemos um pilar, um exemplo raro de como se deve viver e lutar.

Conheci o camarada Manuel Vidigal num tempo em que as convicções se mediam pela coragem com que se assumiam.

E ele foi, até ao último dos seus dias, um homem de convicções inabaláveis. A sua seriedade não era uma máscara para o mundo, era a própria textura do seu carácter. A sua verticalidade não era uma pose; era a espinha dorsal de uma vida dedicada aos outros e às causas em que acreditava.

O Manuel Vidigal tinha um amor profundo pela verdade e pelo povo angolano. Não uma verdade conveniente, mas a verdade histórica, a que exige escavação, estudo, confronto e, acima de tudo, coragem para a defender, mesmo quando ela é desconfortável. Nesta luta pela memória e pela justiça do nosso país, ele foi um gigante. Deixou-nos um legado de integridade intelectual que será farol para todos os que continuam a remar contra a maré do esquecimento e da manipulação.

Mas, para mim, e para todos os que tiveram o privilégio de tê-lo por perto, ele foi muito mais do que isto. O Manuel Vidigal foi um humanista na acepção mais pura da palavra. A sua solidariedade não era teórica, era prática, estendia-se em gestos diários de cuidado e atenção.

A sua palavra era um porto seguro, e o seu ombro amigo, um amparo nos momentos de incerteza.

Como profissional, cumpriu os seus deveres com uma dedicação que beirava a devoção. Mas o que o distinguia era a forma como aliava o rigor técnico a uma ética inegociável. Sabia que o trabalho era um serviço, e serviu sempre com excelência e humildade.

E nos seus compromissos políticos, Manuel Vidigal foi um homem de causas. Não das causas que dão votos ou protagonismo, mas daquelas que constroem dignidade.

Lutou por um país mais justo, mais livre, mais esclarecido.

Fez da política a mais nobre das actividades: a de construir um futuro melhor para todos, com os pés bem assentes na verdade do presente e na lição do passado.

Amigo Manuel Vidigal, a tua partida deixa um vazio que não se preenche. Fica a saudade imensa dos teus abraços, da tua palavra, da tua presença firme e serena.

Fica o exemplo. E fica a certeza de que a tua luta não foi em vão. A verdade que defendeste, a seriedade que encarnaste e o humanismo que espalhaste continuarão vivos em cada um de nós.

Obrigado por tudo, meu amigo. Descansa em paz. A tua memória será para sempre uma bênção e uma bandeira.

Dar nome aos desaparecidos: um apelo contra o silêncio

Dar nome aos desaparecidos: um apelo contra o silêncio

A apresentação do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, foi também marcada por um anúncio de grande relevância histórica e cívica. Durante a sessão, a Associação 27 de Maio revelou que se encontra a desenvolver uma plataforma dedicada à identificação e mapeamento das dezenas de milhares de desaparecidos na sequência dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, em Angola.

Segundo foi explicado, a plataforma pretende reunir informação dispersa ao longo de quase cinco décadas, cruzando testemunhos, nomes, locais de detenção, datas e circunstâncias de desaparecimento, com o objetivo de construir uma base de dados rigorosa que contribua para a verdade histórica, o reconhecimento das vítimas e a preservação da memória coletiva. Nesse sentido, foi lançado um apelo público para que todos os angolanos, dentro e fora do país, reportem casos de familiares ou conhecidos desaparecidos durante o processo repressivo que se seguiu ao 27 de Maio.

Durante a sua intervenção, Verónica Leite de Castro, membro da Associação 27 de Maio, chamou a atenção para uma dimensão ainda pouco conhecida desta tragédia: o caso das mulheres angolanas que foram torturadas, presas e desapareceram, muitas delas sem qualquer reconhecimento público ou registo oficial. Sublinhou igualmente a situação dos órfãos, vítimas diretas e indiretas da repressão, que cresceram marcados pela ausência forçada dos pais e pelo silêncio imposto em torno destes acontecimentos.

A intervenção destacou que a repressão não atingiu apenas militantes ou suspeitos políticos, mas alastrou a famílias inteiras, produzindo um legado de trauma intergeracional que continua a marcar a sociedade angolana. Para a Associação, dar visibilidade às mulheres e aos órfãos é um passo essencial para uma abordagem mais justa e completa da memória do 27 de Maio.

Integrado no lançamento de Ecos da Liberdade, este anúncio reforçou o caráter do evento como espaço de denúncia, reflexão e ação cívica. Mais do que um momento literário, a sessão afirmou-se como um apelo à participação ativa da sociedade na construção da verdade histórica, numa altura em que se aproxima o cinquentenário de uma das páginas mais trágicas da história contemporânea de Angola.

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
Ecos da Liberdade“, de Joaquim Sequeira

Patas Arriba regressa à Catalunha com humor, música e poesia

Patas Arriba regressa à Catalunha com humor, música e poesia

Sant Cugat del Vallès, outubro de 2025 — O outono chega com energia renovada e com o regresso de Patas Arriba, o espetáculo irreverente e cheio de humor de Gemma Almagro e música de Izaskun Barbarie, que volta aos palcos catalães no sábado, 18 de outubro, às 19h30, no La Unió Centre Cultural (Av. Josep Anselm Clavé 13-17, Sant Cugat).

Com a sua habitual mistura de humor, música, poesia e cumplicidade com o públicoPatas Arriba promete uma noite tão crítica quanto divertida. “Voltamos com as pilhas carregadas e a mesma má disposição de sempre”, anuncia Almagro, convidando o público a desfrutar do espetáculo antes do início da digressão pelo País Basco.

A sessão contará ainda com uma performance reivindicativa do coletivo Don’t Hit a la Negra, residentes em La Unió, que abrirão a noite com a sua habitual força cénica.

O espaço é 100% acessível e dispõe de casas de banho adaptadas, reforçando o compromisso do centro com a inclusão.

Os bilhetes já estão à venda em culturasantcugat.koobin.cat, e a organização avisa que estão a esgotar rapidamente.

“Se ainda não o viste, esta é a tua oportunidade. E se já o viste, traz o teu cunhado, o teu sogro ou aquela amiga perdida na vida”, brinca a artista, que promete ainda uma menção especial a quem repete o espetáculo várias vezes.

“Vem divertir-te! Um abraço, saúde e até breve!”

Patas Arriba
Patas Arriba

Uma história esquecida. Um feito notável. Um reencontro com a verdade

Uma história esquecida. Um feito notável. Um reencontro com a verdade

Lançamento oficial do livroA Primeira Travessia da África Austral” (Ed. 2025) de José Bento Duarte

Padrão dos Descobrimentos, Belém – Lisboa
29 de Outubro de 2025 (quarta-feira), 16h30
Entrada livre (sujeita a reserva)

No coração da História de África, há uma travessia épica que o tempo tentou apagar. Dois homens africanos sob bandeira portuguesa, Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, pombeiros angolanos, atravessaram o continente, de Malange a Tete, entre 1802 e 1814. Fizeram-no sem mapas, sem tecnologias modernas, mas com conhecimento profundo das rotas, povos e geografia do interior africano. Foram os primeiros a realizar e a documentar uma travessia completa da África Austral, de ida e volta.

Curiosamente, exploradores europeus como o escocês David Livingstone ou o português Francisco de Lacerda e Almeida, cujos nomes foram imortalizados na História oficial, beneficiaram das informações, rotas e registos produzidos por estes dois africanos — cuja memória, porém, foi injustamente silenciada. Este livro vem corrigir essa omissão histórica, devolvendo a Pedro João Baptista e Anastácio Francisco o lugar que lhes pertence.

PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

O lançamento contará com a presença de personalidades de relevo de Portugal, Angola e Moçambique, num momento simbólico de reencontro entre os dois países e de justa homenagem ao protagonismo africano na História.

SOBRE O LIVRO

A Primeira Travessia da África Austral (Ed. 2025) propõe uma leitura crítica e rigorosa da expansão portuguesa em África, desde os mitos europeus sobre o continente até à instalação do sistema colonial. O autor percorre os episódios fundamentais das descobertas, da ocupação e do contacto entre civilizações, culminando na epopeia dos dois pombeiros, baseada em fontes documentais e análises historiográficas.

A obra inclui ainda um prefácio de Uina yo Nkuau Mbuta (Prof. Doutor Carlos Mariano Manuel), médico patologia, investigador e Prémio Personalidade Lusófona 2023, que sublinha a relevância histórica e política desta recuperação da memória.

SOBRE O AUTOR

José Bento Duarte, natural de Moçâmedes, é ensaísta e investigador, com um percurso dedicado ao estudo da História de Angola e Portugal. Autor de três livros que aliam rigor e sensibilidade humanista, tem sido uma voz ativa na divulgação de episódios esquecidos da História Portugal em África.

Em A Primeira Travessia da África Austral, José Bento Duarte recupera com lucidez e profundidade uma narrativa que honra a coragem de dois luso-angolanos e reequilibra o olhar sobre o passado comum, revelando os fundamentos de uma História partilhada que urge ser contada com verdade.

Peregrinos da Eternidade
Peregrinos da Eternidade — Crónicas Ibéricas Medievais
A primeira Travessia da África Austral
A Primeira Travessia da África Austral
Senhores do Sol e do Vento
Senhores do Sol e do Vento

RESERVAS

A entrada é livre, mas o espaço é limitado.
Reserve com antecedência através do telefone: 214 001 788
Ou envie um e-mail para: encomendas@autores.club

Organização: Autores.club | com o apoio do Padrão dos Descobrimentos
Data: Quarta-feira, 29 de Outubro de 2025
Hora: 16h30
Local: Auditório do Padrão dos Descobrimentos, Belém – Lisboa

Padrão dos Descobrimentos
Padrão dos Descobrimentos em Belém, Lisboa

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