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Ana Mafalda Leite revela a densidade poética de Kalunga em noite memorável

Ana Mafalda Leite revela a densidade poética de Kalunga em noite memorável

A apresentação do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, realizada na quarta-feira, 13 de maio de 2026, n’A Voz do Operário, em Lisboa, ficou marcada pela extraordinária intervenção da Prof. Doutora Ana Mafalda Leite, convidada especial da sessão.

Perante uma sala atenta, a investigadora e poeta fez uma leitura profunda da obra de João Fernando André, nome literário de Kalunga, situando-o entre as vozes mais relevantes da nova poesia angolana contemporânea. Ana Mafalda Leite começou por sublinhar a qualidade literária do autor, destacando a originalidade da sua escrita, a maturidade do seu pensamento poético e a forma como a sua obra cruza identidade africana, reflexão filosófica, crítica social e experimentação estética.

A intervenção não se limitou ao livro apresentado. Ana Mafalda Leite estabeleceu uma ponte entre Evangelho Bantu, primeira obra poética de Kalunga, publicada em 2019, e Matéria Negra, ambos os livros publicados pela Perfil Criativo | AUTORES.club. Na sua leitura, Evangelho Bantu já anunciava uma voz literária própria, marcada pela reconstrução identitária, pela valorização da matriz bantu e pela procura de uma espiritualidade africana capaz de dialogar com a modernidade.

Sobre Matéria Negra, Ana Mafalda Leite destacou o alcance simbólico do título, associando-o à ideia científica de uma matéria invisível que sustenta o universo, mas também às zonas obscuras da história, da memória, da consciência e da experiência humana. A partir dessa metáfora central, a obra de Kalunga foi apresentada como uma poesia de grande densidade, onde convivem o metafísico e o social, o íntimo e o coletivo, a dor histórica e a esperança.

A professora chamou ainda a atenção para a dimensão experimental da escrita de Kalunga, marcada por imagens fortes, fragmentação formal, jogos de linguagem, neologismos, referências filosóficas, científicas, políticas e literárias. Segundo a sua leitura, trata-se de uma poesia que exige um leitor atento, disponível para a contemplação, a releitura e a interpretação ativa.

A obra foi também enquadrada na tradição da poesia angolana pós-colonial, em diálogo com a memória histórica, a afirmação africana e a crítica das heranças coloniais. Ana Mafalda Leite sublinhou que Kalunga não escreve apenas a partir de uma experiência individual, mas a partir de uma consciência ampla do mundo, das suas feridas, contradições e possibilidades de recomposição.

Um dos momentos mais fortes da intervenção foi a leitura de vários poemas de Matéria Negra, que permitiram ao público contactar diretamente com a intensidade verbal, a musicalidade e o poder imagético da escrita de Kalunga. A leitura revelou uma poesia atravessada por perguntas sobre o tempo, a morte, a esperança, a violência histórica, o amor, a humanidade e a transcendência.

Para Ana Mafalda LeiteMatéria Negra afirma-se como uma obra intelectualmente ambiciosa, poeticamente ousada e profundamente inquietante. Um livro que não oferece respostas fáceis, mas convida o leitor a pensar aquilo que permanece invisível, obscuro ou por compreender na condição humana e na história coletiva.

A intervenção surpreendeu e emocionou os leitores presentes pela profundidade da análise e pela forma como revelou as múltiplas camadas da poesia de Kalunga. Mais do que uma apresentação académica, foi uma verdadeira leitura crítica e sensível de uma obra que confirma a vitalidade da nova poesia angolana.

Com este encontro literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana” iniciou-se com um momento de grande qualidade literária, reunindo poesia, pensamento crítico e diálogo cultural.

O poeta Kalunga abriu o ciclo literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana”

O poeta Kalunga abriu o ciclo literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana”

A histórica sede d’A Voz do Operário, em Lisboa, acolheu na quarta-feira, 13 de maio de 2026, o primeiro encontro literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana” da editora Perfil Criativo | AUTORES.club. A sessão foi dedicada à apresentação do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, nome literário de João Fernando André.

O encontro marcou o início de uma programação pensada para aproximar autores, leitores e obras num espaço profundamente ligado à educação, à cultura e à intervenção pública. Na abertura da sessão, o editor da Perfil Criativo | AUTORES.club sublinhou precisamente a importância de instituições como A Voz do Operário, lugares históricos que continuam a cumprir uma missão essencial: criar comunidade, promover o conhecimento e manter viva a palavra como instrumento de cidadania.

Num ambiente de grande atenção e proximidade, a convidada especial, Prof. Doutora Ana Mafalda Leite, fez uma apresentação exaustiva e profundamente informada de dois livros do poeta KalungaEvangelho Bantu e Matéria Negra. A sua intervenção surpreendeu os leitores presentes pela densidade da análise, pela sensibilidade crítica e pela forma como situou a obra de Kalunga.

A sessão terminou com uma intervenção do próprio autor. Kalunga conquistou o público com uma presença marcada pela cultura, pelo domínio da palavra e por um virtuosismo raro, transformando a apresentação num momento de grande humanismo.

Foi um encontro inédito e memorável, que confirmou a força da poesia de Kalunga e inaugurou, da melhor forma, este novo ciclo de encontros.

INTER(IN)VENÇÃO DA MATÉRIA NEGRA

KALUNGA (JOÃO FERNANDO ANDRÉ)

Insigne editor João Ricardo, distinta professora Ana Mafalda, dignos convidados, minhas camaradas e meus camaradas da linha da frente cultural, amados leitores, todo o protocolo observado!

Ora, depois da apresentação da minha dileta professora, amiga e camarada Ana Mafalda Leite, cabe-me usar uma outra filosofia com a qual tenho levado a vida: o pragmatismo. Para dizer o seguinte: nestes aproximados 10.958 dias de exercício de viver, dei conta que nasci num mundo violento e capitalista. Até aos 14 anos, não sabia como viver neste mundo. Então, passei a dedicar-me à leitura e aos estudos. Diziam-me “estuda para ser alguém”. Sempre que me diziam esta frase, perguntava-me: “mas já não sou alguém? Foi-me dado um nome, documentos e data de nascimento. Como é que ainda não sou alguém?

Como o personagem do meu grande mestre Fiódor Dostoiévski, percebi então que a vida é como o sonho de um homem rídiculo e que me devia dedicar a aprender e ser melhor para mim mesmo cada dia ao longo do exercício de viver. Estudei o essencial sobre a vida e descobri com o meu grande mestre Charles Munger que “para quem só tem um martelo todo o problema parece um prego.” Então, dediquei-me a ter uma visão multidisciplinar, estudar as terríveis histórias do mundo. Das ideias do surgimento do homem ao surgimento da propriedade privada. Da produção de bens a produção do mal. Da criação dos capitais à obsolescência programada. Dos erros dos julgamentos humanos aos preconceitos. Dos filósofos-reis à Síndrome de Hubris. 

Descobri que “o mundo jaz no maligno”, como o outro João, o que foi decapitado. Mas surgiu outra pergunta: o que é o maligno? Descobri que o maligno é a ganância, a inveja, a violência nas suas várias dimensões e a identidade que pode ser assassina por não buscar a empatia cognitiva e cristalizar os neurónios espelhos. Mas descobri também que a maior parte das pessoas – alfabetizadas e não-alfabetizadas – não sabe o que são neurónios espelhos. Aí percebi que a vida é uma comédia que acaba sempre em tragédia. Percebi que a vida é um milagre perigoso e que, mais importante do que ter exemplos para seguir, é ter exemplos para não seguir. Como alerta o princípio da inversão de Munger. 

Segundo o departamento de Astrofísica da USP, “a matéria negra é uma forma invisível de matéria que compõe cerca de 85% da massa do universo, não emitindo, absorvendo ou refletindo luz. Detectada apenas por sua influência gravitacional em estrelas e galáxias, ela impede que estruturas cósmicas se dispersem, sendo um dos maiores mistérios da física actual.” Daí resultou o grande problema do Agricultor de Imagem João Ricardo: como representar a Matéria Negra? 

Na semiótica, o branco é a cor neutra e o preto representa a absorção da luz visível. Nos primórdios da humanidade, a cor branca representava a vida e a cor preta remetia para a imaginação, a criatividade, a cognição e o divino. Nas sociedades africanas, o branco representa o ficcional, os seres invisíveis e possíveis que nos rodeiam. Enquanto que a vitalidade é representada pelo vermelho. Vê-se isso em memento mori, quando se colocam pedras vermelhas sobre pedras brancas, representando estas pedras um texto lapidar que conecta os seres presentes com os seres ausentes.

Neste misto de significações, este poemário, Matéria Negra, ao contrário das associações que alguns leitores da maravilhosa capa do Agricultor de Imagens da Perfil Criativo, o camarada João Ricardo, fizeram com o “fumus albus papal” ou com rituais místicos, representa o pouco que conhecemos diante do muito que não sabemos do universo, em geral, e da experiência humana, em particular. Deixo aqui um caso como exemplo: raramente veremos um escritor que entende de economia e raramente veremos um economista que entende de literatura no seu sentido mais ficcional.

Quanto às estéticas, trabalho aqui com a estética da existência, da resistência e da regeneração, com fundamentos da ontologia, das teorias das literaturas, da filosofia da linguagem, da filosofia do direito e da filosofia da economia em busca da soberania emocional, da solitude, do amor fati e da luta contra a empresa do mal que governa o mundo.

No que à forma diz respeito, se nas três séries do Evangelho Bantu deslocava o título do texto do princípio para o fim, transformando-o numa espécie de ata-finda, pois primeiro escreve-se o poema e só depois é que se lhe dá título normalmente, em Matéria Negra amplifico este fundamento. O poema resulta da persistência da observação da realidade aumentada e sentida ao longo do exercício de viver. Daí as reticências iniciais. Ele é finalizado num laboratório de dizer mais e escrever menos. Daí a polifonia paremiológica. Cada texto é burilado até à exaustão do predicador, não até a exaustão do texto que ruma ao infinito. Daí as reticências finais. O título aqui é um jogador ou peregrino, para trazer à colação a teoria dos viajantes de Bauman, ele pode ser o primeiro verso, o verso do meio ou os últimos versos, mas é sempre o conjunto lexical fundador do texto-matéria negra. Daí o negrito a iluminar o corpo poético.

O meu acrisolado agradecimento pela vossa presença e camaradagem ao longo do exercício de viver que vamos enfrentando, como Paulo, “combatendo o bom combate e guardando a fé” nas coisas do espírito e na humanidade, esta espécie tão bondosa e tão perigosa que nomeou um planeta composto por 71 por cento de água por Terra, simplesmente porque os homens vivem na terra, que representa só 29 por cento da superfície deste mesmo planeta. Em verdade em verdade, não seria planeta ÁGUA?

Gratidão a todos e boas leituras, pois o texto poético não termina ao contrário da crónica, do conto, do drama e do bem capitalizado romance. Grato! Grato! Grato! Ngasakidila! Ndapandula! Dizemos lá em Angola!

Matéria Negra
Matéria Negra

Blindspot highlights Nuvem Negra: The silenced memory of 27 May reaches international readers

Blindspot highlights Nuvem Negra: The silenced memory of 27 May reaches international readers

In an article by Luís Guita, published on the international platform Blindspot, the book Nuvem Negra, by Michel, published by Perfil Criativo | AUTORES.club, is brought to wider international attention. The work revisits one of the most painful and silenced chapters in Angola’s recent history: the events of 27 May 1977, inviting readers to reflect on memory, justice and the wounds that continue to mark Angolan society.

Read the full article on Blindspot: https://blindspot.world/michel-without-accountability-for-the-1977-purge-there-will-be-no-reconciliation-in-angola/

Obra maior de Mafrano chega à Huíla e reafirma a dignidade da civilização Bantu

Obra maior de Mafrano chega à Huíla e reafirma a dignidade da civilização Bantu

O terceiro volume da colectânea Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias, do escritor, investigador e pensador angolano Maurício Francisco Caetano “Mafrano”, chegou à província da Huíla, reforçando a circulação nacional de uma das mais importantes obras publicadas sobre a cultura, a memória e a civilização Bantu.

A informação foi divulgada pela ANGOP — Agência Angola Press, que assinalou a chegada à Huíla do terceiro volume desta colectânea póstuma, publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club. A obra encerra um projecto editorial de grande fôlego dedicado ao pensamento de Mafrano, figura central da investigação cultural angolana e distinguida com o Prémio Nacional da Cultura e Artes 2024, na modalidade de Investigação em Ciências Humanas e Sociais

O terceiro volume, com cerca de 328 páginas, reúne textos organizados em torno da civilização Bantu, da religiosidade, das questões sociais e de episódios vividos pelo autor, incluindo reflexões que atravessam a história, a antropologia cultural, a ética, a justiça tradicional e a dignidade humana. 

Importa, contudo, fazer uma rectificação relevante: não se trata de uma obra de apenas 327 ou 328 páginas no seu conjunto. Esse número corresponde apenas ao terceiro volume. A colectânea completa Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias, publicada em três volumes, soma oitocentas páginas, constituindo um verdadeiro monumento editorial à memória cultural angolana.

A chegada da obra à Huíla tem especial significado simbólico. O Lubango e a região sul de Angola são espaços fundamentais da história cultural, religiosa e intelectual do país, e a presença desta colectânea nesse território reforça a necessidade de aproximar os leitores angolanos de obras que ajudam a compreender as raízes profundas da sociedade angolana.

Publicada postumamente, a colectânea recupera estudos, crónicas, notas autobiográficas e reflexões que Mafrano escreveu ao longo de décadas, muitas vezes sob pseudónimos como AnatecoVirafroAliquis ou Morais Paixão, estratégia que lhe permitiu intervir no debate público em tempos de censura e vigilância colonial. 

Notícia da ANGOP

Mais do que uma obra de antropologia cultural, Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias é uma afirmação de pensamento africano, uma defesa da dignidade dos povos Bantu e um contributo indispensável para o estudo da identidade angolana. A sua chegada à Huíla confirma que o legado de Mafrano continua vivo, a circular, a interpelar leitores e a abrir caminhos para uma leitura mais profunda da história de Angola.

Mafrano em Malanje

Refletir sobre o colonialismo no Sul, através de pensadores do Sul

Refletir sobre o colonialismo no Sul, através de pensadores do Sul

Centro Nacional de Cultura classifica obra de Luís Gaivão um dos melhores livros de 2023

Texto de introdução ao livro Angola e o Atlântico: Colonialismo, colonialidade e epistemologia descolonial

POR LUÍS GAIVÃO

Quando Descartes (século XVII) elevou o racionalismo ao patamar de modelo superior de pensamento, abriu caminho para uma infindável profusão de filósofos que lhe aprofundaram o élan racionalista e o transformaram em única prática epistemológica possível, desconsiderando todas as outras formas de pensamento. Tratava-se da modernidade.

A situação evoluiu rapidamente: nos territórios coloniais da América ou de África e da Ásia, os europeus impuseram as metodologias do colonialismo. A razia étnica nuns casos, a escravatura em todos, como o domínio político-administrativo e militar e as formas de economia capitalista que a revolução industrial iria reforçar, subjugaram os nativos a práticas de exploração e, sobretudo, de menorização étnico-cultural, conduzindo à alienação, à perda, e à humilhação e afastando-os da ação cívica.

O racismo está, pois, na base da modernidade, bem escondido pelos pensadores eurocêntricos e hegemónicos que não reconheciam aos colonizados, a capacidade de se autogovernarem.

Assim, criaram os estereótipos necessários a um discurso colonial racista e fixaram uma escala humana racial onde os únicos competentes seriam os brancos e, ainda mais, os loiros de olho azul, e os incompetentes seriam os outros.

No entanto, os povos subjugados não quiseram continuar nessa dependência e entabularam os diversos caminhos para a libertação política dos colonizadores, a maior parte das vezes com guerras independentistas. A maioria das nações americanas fizeram-no durante o século XIX e as africanas durante o século XX.

Porém, a mentalidade dos “crioulos” que levaram a cabo as lutas de independência fora formada pelos colonizadores e isso proporcionou-lhes a manutenção da mesma realidade conceptual – a colonialidade – e gerou-se o neocolonialismo.

A razia cultural do colonialismo e do neocolonialismo foi avassaladora, mas não foi definitiva.

Os estudos pós-coloniais surgiram em meados do século XX e têm na sua génese, pensadores, sociólogos e intelectuais que refletem sobre os grandes colonialismos imperiais, mormente o caso do imperialismo inglês, hegemónico entre todos e conotado, sobretudo, com o Oriente (Índia) e Médio Oriente.

Na segunda metade do século XX e neste século, muitos outros pensadores sul-americanos e africanos vêm estudando o fenómeno diverso dos colonialismos no Sul e vêm conseguindo reatar os laços possíveis com as epistemologias e saberes ancestrais, onde o pensamento eurocêntrico não penetrou por completo.

O intuito deste livro é refletir sobre estes colonialismos no Sul, através de pensadores do Sul, cujas realidades são bem distintas dos colonialismos do Norte e ao pensar sobre o passado dos colonialismos ibéricos conhecer o que eles transformaram na História do Atlântico, particularmente, aqui, na de Angola.

No fundo, trata-se de colocar Angola e a sua História diante de si própria, e ajudar a descobrir a união entre o que passou e o que se vai passar, preenchendo com novos padrões societais (ecologia de saberes) os espaços vazios que a permanência colonial provocou, mas aproveitando dela a entrada na modernidade. Não a eurocêntrica, mas humana e natural, do Sul, do Atlântico e de Angola.

“Conhece-se pouco a realidade de Angola” afirmou o Prof. Doutor Guilherme D’Oliveira Martins

Luís Gaivão nasceu em Luanda, em 1948. É licenciado em Filosofia e Humanidades, mestre em Lusofonia e Relações Internacionais e doutor em Sociologia: Pós-colonialismos e Cidadania Global. É agente cultural de inúmeras intervenções quase sempre sobre temática angolana.

ÍNDICE

— Introdução
— O começo das coisas
— Colonialismo
— Ferramentas do colonialismo: fixidez e estereótipo
— Colonialismo ibérico no Atlântico: de exploração, de povoamento e periférico
— Colonialismo periférico português em Angola: subcolonização ou sobrecolonização? Especificidades
— Transculturação nos espaços do colonialismo português – o caso de Angola
— Colonialismo e guerra fria na África Austral
— A longa temporalidade do colonialismo português – dessincronia e rutura do modelo eurocêntrico e a particularidade angolana
— Colonialismo português e o retorno do “império”: colonialismo orgânico de Eduardo Lourenço e o império desterritorializado
— Colonialismo e modernidade
— África às escuras e a Conferência de Berlim
— América “iluminada” e o “ponto zero” racionalista
— Consequências da colonização ibérica na América Latina: colonialidade e hierarquização das raças.
— Culturas atlânticas (do Sul)
— Fronteiras, culturas fronteiriças e novas dinâmicas dos limites
— Tradução cultural, hibridação e entre-espaço
— “Esquecimento” da colonialidade pelo pensamento eurocêntrico
— Colonialismo interno e marginalidade
— Pensamento ameríndio e pensamento africano. Perversa sedução deste último pelo colonialismo
— Teoria do “pensamento abissal”
— “Este lado da linha”
— O “outro lado da linha”
— Ecologia de saberes, pensamento pós-abissal, cosmopolitismo subalterno
— Angola, um Estado moderno pós-colonial e a guerra civil
— Neocolonialismo
— Eurocentrismo: capitalismo e materialismo histórico
— Guerra civil, nomenclatura e corrupção
— O Estado ineficaz e o neocolonialismo – a herança que é necessário mudar
— Desadaptação do Estado-nação em África – colonialidade e Estado quase falhado
— Conclusão
— Glossário
— Referências bibliográficas

Autor: Luís Gaivão

Editora: Perfil Criativo – Edições

Ano de publicação:  Setembro de 2023 – 1ª edição

ISBN: 978-989-35076-8-1

Colecção: Trabalhos Académicos (Volume 2)

Número de páginas: 148

Língua: Português

PVP: 17,00 euros

“A Voz do Operário, Sem Maka”: Kalunga apresenta “Matéria Negra”

“A Voz do Operário, Sem Maka”: Kalunga apresenta “Matéria Negra”

Na próxima quarta-feira, 13 de Maio, Lisboa recebe um encontro especial com a nova poesia angolana contemporânea. O auditório d’ A Voz do Operário acolhe a apresentação oficial do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, numa sessão integrada no ciclo cultural “A Surpreendente e Desconhecida Literatura Angolana”.

Membro da União dos Escritores Angolanos, João Fernando André (Kalunga) é hoje considerado uma das vozes mais inquietas e representativas da nova geração de autores angolanos, afirmando-se como uma referência na intervenção cultural.

Com humor e cumplicidade, o autor já confirmou que este encontro de quarta-feira n’ A Voz do Operário “será sem maka”, prometendo uma conversa aberta, intensa e próxima do público, em torno da poesia, da palavra e dos desafios do presente.

Em Matéria Negra, Kalunga propõe uma escrita de grande densidade simbólica e filosófica, atravessando temas como identidade, memória, esperança, espiritualidade e condição humana. A obra surge como um convite à reflexão e ao mergulho nas zonas invisíveis da existência contemporânea.

O ciclo “A Surpreendente e Desconhecida Literatura Angolana” quer afirmar-se como um dos mais importantes encontros de divulgação da criação literária angolana, aproximando leitores, autores e investigadores de obras que revelam a vitalidade cultural de Angola no século XXI.

Matéria Negra
Matéria Negra

Convidada Especial

A sessão contará com a presença especial de Ana Mafalda Leite, poeta e investigadora científica portuguesa, reconhecida pelo seu importante trabalho académico na área das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

Professora universitária, ensaísta e uma das mais respeitadas especialistas no estudo das literaturas africanas contemporâneas, Ana Mafalda Leite tem desenvolvido um percurso de investigação e divulgação fundamental para a aproximação entre os espaços culturais africanos e portugueses, contribuindo activamente para o reconhecimento internacional de autores africanos de língua portuguesa.

Homenagem a Gonçalves Handyman

O encontro de 13 de Maio será igualmente marcado por um momento especial de homenagem ao jovem editor angolano Gonçalves Handyman, assinalando os quatro anos do seu desaparecimento.

Figura marcante da nova geração angolana, Gonçalves Handyman destacou-se pela sua sensibilidade literária, irreverência criativa e dedicação à edição e promoção de jovens autores. O seu nome permanece ligado ao surgimento de novas linguagens e novas formas de intervenção cultural em Angola.

A evocação da sua memória durante a apresentação de Matéria Negra simboliza também a continuidade de uma geração que acredita na poesia, na palavra e na cultura como instrumentos de transformação, liberdade e resistência.

Onde fica A Voz do Operário?

O histórico edifício A Voz do Operário localiza-se na freguesia da Graça, em Lisboa, numa das zonas culturais e populares mais emblemáticas da cidade.

Fundada no final do século XIX, A Voz do Operário é uma das mais importantes instituições culturais, educativas e associativas, mantendo uma intensa actividade nas áreas da cultura, educação e intervenção cívica. O seu histórico edifício tem acolhido ao longo das décadas debates, concertos, sessões literárias e encontros políticos e culturais marcantes da vida portuguesa.

Morada: Rua da Voz do Operário, n.º 13, 1100-621 Lisboa

Faro e Enigmas ganha destaque na comunicação social

Faro e Enigmas ganha destaque na comunicação social

O lançamento do livro Faro e Enigmas — Poesia, da poetisa angolana Elsa Major, continua a ecoar nos meios de comunicação ligados à cultura e à diáspora angolana em Portugal.

O evento, realizado no Auditório 11 de Novembro, em Lisboa, contou com o importante apoio da Embaixada da República de Angola em Portugal, tanto na realização como na divulgação da iniciativa, reforçando o compromisso institucional com a promoção da literatura e da cultura angolana no espaço da língua portuguesa.

A sessão mereceu uma reportagem especial da TPA – Televisão Pública de Angola, assinada pelo repórter Gabriel Niva, destacando a dimensão literária e cultural da obra, bem como a forte presença da comunidade angolana, de representantes diplomáticos e de personalidades do meio artístico e literário.

A apresentação foi igualmente acompanhada pela plataforma A Voz da Diáspora, através de uma reportagem de Vladimir Prata, que sublinhou a relevância de Faro e Enigmas no contexto da literatura angolana contemporânea e da afirmação cultural da diáspora.

Com esta obra, Elsa Major consolida a sua presença no panorama da poesia contemporânea, reforçando a ligação entre Angola, Portugal e as comunidades da diáspora através da literatura, da memória e da língua portuguesa.

A Voz do Operário dá voz aos nossos autores

A Voz do Operário dá voz aos nossos autores

Há instituições cuja importância ultrapassa largamente a sua própria história. São lugares que resistem ao tempo porque continuam a cumprir uma função essencial: promover a educação, defender a cultura, aproximar pessoas e criar comunidade. A Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário é uma dessas instituições.

Nascida no coração de Lisboa, ligada ao movimento operário, à instrução popular e à intervenção cívica, A Voz do Operário tornou-se, ao longo de mais de um século, um símbolo da força transformadora da educação. As suas escolas, as suas salas, os seus encontros e a sua ação social ajudaram a formar gerações, demonstrando que a cultura não deve ser privilégio de poucos, mas património vivo de todos.

Num tempo em que a sociedade enfrenta novos desafios, da fragmentação social à perda de hábitos de leitura, da desvalorização da memória ao enfraquecimento dos espaços de encontro, torna-se ainda mais urgente reconhecer e apoiar instituições que mantêm abertas as portas do conhecimento. Casas como A Voz do Operário lembram-nos que a educação e a cultura são pilares de cidadania, liberdade e desenvolvimento humano.

É nesse espírito que nasce a parceria cultural entre A Voz do Operário e a editora Perfil Criativo | AUTORES.club, destinada à divulgação de autores e obras nas históricas instalações desta instituição. Mais do que uma programação literária, esta parceria pretende afirmar o livro como instrumento de pensamento, diálogo e participação pública.

A iniciativa procura levar escritores, leitores, investigadores, estudantes e cidadãos a partilharem o mesmo espaço, criando encontros em torno da palavra escrita, da memória histórica, da literatura e das grandes questões do nosso tempo. Porque os livros não existem apenas para serem lidos em silêncio: existem também para provocar conversas, despertar consciências e aproximar comunidades.

Esta missão encontra eco noutras instituições históricas do espaço da língua portuguesa. Em Luanda, a antiga Liga Nacional Africana desempenhou também um papel marcante enquanto espaço de cultura, reflexão, afirmação cívica e encontro entre gerações. Tal como A Voz do Operário, foi uma casa onde a educação, a palavra e a consciência coletiva ganharam dimensão pública.

Separadas pela geografia, mas unidas por uma vocação semelhante, estas instituições mostram como a cultura pode ser uma forma de resistência, de afirmação e de construção de futuro.

A parceria entre A Voz do Operário e Perfil Criativo | AUTORES.club inscreve-se nessa tradição. Ao abrir as suas portas aos autores e às suas obras, A Voz do Operário renova a sua missão histórica. Ao levar os seus livros a este espaço, a editora reforça o compromisso de valorizar autores, promover o pensamento crítico e criar pontes entre culturas, geografias e gerações.

Os primeiros encontros já estão marcados.

No dia 13 de maio de 2026, às 19h00, A Voz do Operário recebe o poeta angolano Kalunga, para uma conversa em torno do seu livro Matéria Negra. Será um encontro com a poesia, com a palavra intensa e com uma das vozes que afirma a vitalidade da criação literária angolana contemporânea.

No dia 5 de junho de 2026, a programação prossegue com uma viagem pela história recente de Angola, através do livro Breve História de Angola desde a Independência (1975-2025), do académico Rui Verde. A obra propõe uma leitura dos últimos cinquenta anos da Angola independente, abrindo espaço para reflexão sobre memória, política, sociedade e futuro.

Num mundo onde tantas vezes se confundem velocidade com conhecimento e ruído com debate, criar espaços de leitura, escuta e reflexão é um ato necessário. A cultura precisa de casas. Os livros precisam de leitores. Os autores precisam de lugares onde possam dialogar com o seu tempo.

A Voz do Operário é uma dessas casas. E, com esta parceria, volta a afirmar-se como lugar de educação, cultura e encontro, agora também como palco para novas vozes literárias, novas memórias e novas formas de pensar o mundo. Ao mesmo tempo, reafirma a força simbólica de uma instituição que dá nome ao mais antigo jornal vivo de Portugal, mantendo viva uma tradição de palavra, cidadania e intervenção pública que atravessa gerações.

Aviso importante: tenham muito cuidado com os vossos vizinhos…

Aviso importante: tenham muito cuidado com os vossos vizinhos…

TEATRO Reunião de Condomínio

Reunião de Condomínio constrói-se sobre o caos hilariante de uma assembleia de vizinhos, utilizando o ambiente de um espetáculo de cabaret.

A história centra-se numa tumultuosa reunião dos condóminos do edifício ao lado do teatro, que devido a uma inundação da garagem, invadem, em acordo com o diretor do teatro, a sala onde decorrerá o cabaret. A assembleia, que deveria ser simples e breve, transforma-se num verdadeiro campo de batalha devido aos egos inflacionados e aos interesses pessoais dos moradores.

O ambiente é de cabaret, uma vez que, supostamente, iniciará um show logo a seguir à reunião: as personagens são caricaturas que muito possivelmente nos farão lembrar algum vizinho, e a ação alterna entre discussões acesas e números performativos inesperados, onde a linha entre a vida real dos condóminos e o palco do cabaret se confunde.

Aviso importante: tenham muito cuidado com os vossos vizinhos…

Ficha técnica

ATORES

Bruno Quaresma

Carmen Loureiro Rosa

Filomena Caxias

Raquel Guiomar

Rute Coelho

Sofia Paredes

Salvador Ferreira

TEXTO

Criação coletiva

ENCENAÇÃO

Lina Paula Pinto

DESENHO DE LUZ

Sebastião Lapa

DATAS DE REPRESENTAÇÃO

29 e 30 de maio – 21h15

LOCAL

Auditório José Melchior dos Reis – Auditório do Grupo Dramático Ramiro José

Rua João Villaret 11, 1000-297 Lisboa | Contacto: 217 973 856

Colectânea “Os Bantu na Visão de Mafrano” chega ao Sul de Angola

Colectânea “Os Bantu na Visão de Mafrano” chega ao Sul de Angola

Terceiro e último volume da obra póstuma de Maurício Francisco Caetano será apresentado na Universidade Mandume Ya Ndemufayo, no Lubango

A Universidade Mandume Ya Ndemufayo, no Lubango, acolhe a apresentação do terceiro e último volume da colectânea póstuma Os Bantu na Visão de Mafrano, da autoria de Maurício Francisco Caetano, escritor, jornalista e investigador distinguido com o Prémio Nacional da Cultura e Artes 2024, na modalidade de Investigação em Ciências Humanas e Sociais.

A apresentação da obra no Sul de Angola insere-se no âmbito das celebrações dos 17 anos de existência daquela instituição académica, que realiza, nos dias 11 e 12 de Maio de 2026, uma Conferência Científica subordinada ao tema “Bioética, Dignidade da Pessoa Humana e Investigação Científica: Fundamentos Éticos e Jurídicos”. O evento decorre no Auditório “Viriato Gaspar Gonçalves”, da Faculdade de Economia.

Intitulado Os Bantu na Visão de Mafrano – Quase Memórias, o volume III reúne 327 páginas distribuídas por 18 capítulos, organizados em três partes. A obra aborda temas ligados à civilização bantu, à religiosidade, às questões sociais e a episódios vividos pelo autor entre 1947 e 1982.

A presença da colectânea no Sul acontece depois de a obra ter sido destacada em Windhoek, na Namíbia. De acordo com uma notícia publicada pelo Jornal de Angola, na edição de 2 de Maio, o Embaixador da República de Angola na Namíbia, Pedro Mutindi, recebeu, na quarta-feira, 30 de Abril, um exemplar do terceiro volume da colectânea. A oferta foi feita por José Soares Caetano, filho do autor, jornalista, escritor e responsável pela edição dos três volumes.

Segundo o Jornal de Angola, a colectânea reúne, no total, 799 páginas em três volumes, agregando reflexões sobre a ancestralidade, os hábitos e os costumes de vários povos africanos. A publicação sublinha ainda que a obra inclui textos como “Crónicas ligeiras”“Notas a lápis”“Episódios vividos” e “Tertúlias”, além de estudos sobre a civilização bantu, tradições, linguagem, crenças alimentares, antropologia, arqueologia e direito costumeiro.

A mesma notícia recorda que o primeiro volume foi apresentado no Lubango, em Abril de 2022, seguindo-se uma sessão em Luanda, em Maio do mesmo ano. O segundo volume chegou ao público em Julho de 2023, enquanto o terceiro foi lançado em Agosto de 2025.

Nascido a 24 de Dezembro de 1916, na cidade do Dondo, Maurício Francisco Caetano dedicou grande parte da sua vida à investigação, à escrita e à preservação da memória cultural africana. Iniciou a actividade literária em 1947, como colaborador do Jornal Angola Norte, em Malanje, tendo posteriormente contribuído para várias publicações angolanas. Faleceu a 25 de Julho de 1982.

Responsável pela edição e divulgação da colectânea, José Soares Caetano acompanha esta missão ao Sul de Angola, dando continuidade ao trabalho de valorização do legado intelectual de Mafrano e ao reconhecimento da sua contribuição para o estudo das sociedades africanas, em particular da civilização bantu.

Pedro Mutinde na imagem acima com NETUMBO NANDI-NDAITWAH, Presidente da República da Namibia: “Angola e a Namíbia têm uma História comum”.


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