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Sala esgotada na apresentação do livro Mitos Económicos de Angola

Sala esgotada na apresentação do livro Mitos Económicos de Angola

Oscar da Mata levou à Biblioteca Palácio Galveias um debate aberto sobre liberdade económica, intervenção do Estado e criação de riqueza em Angola

Fotografias: Ricardo Leote — NOS RAIZ

A apresentação oficial em Portugal do livro Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza, do economista e professor universitário angolano Oscar da Mata, realizou-se no dia 3 de setembro de 2026, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, perante uma sala completamente esgotada várias horas antes do início do encontro.

A forte adesão do público confirmou o interesse despertado por uma obra que questiona algumas das ideias mais persistentes do debate económico angolano e que propõe uma reflexão exigente sobre a liberdade de empreender, o funcionamento dos mercados, a intervenção do Estado e as condições necessárias para transformar os recursos de Angola em riqueza, desenvolvimento e bem-estar para a população.

Entre académicos, economistas, autores, leitores e membros da comunidade angolana, estiveram também presentes várias personalidades ligadas à história política e institucional de Angola, entre as quais o Dr. Onofre dos Santos e o Professor Doutor Marcolino Moco.

O encontro, promovido pela Perfil Criativo | AUTORES.club, contou com quatro intervenções principais: a abertura do editor João Ricardo; uma mensagem gravada do Prof. Doutor Manuel Alves da Rocha, enviada a partir de Luanda; a apresentação crítica do Prof. Doutor Fernando Jorge Cardoso; e, por fim, a intervenção do autor, Oscar da Mata. Como é habitual nos encontros organizados pela editora, a sessão terminou com um pequeno debate com o público.

Um livro publicado para provocar reflexão e debate

Na abertura, o editor da Perfil Criativo | AUTORES.club agradeceu à equipa da Biblioteca Palácio Galveias e à cidade de Lisboa a possibilidade de realizar mais um encontro entre autores, leitores, académicos e cidadãos. Foram igualmente dirigidos agradecimentos ao Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, ao Prof. Doutor Manuel Alves da Rocha, ao Prof. Doutor Jesús Huerta de Soto, autor do prefácio, e ao Prof. Doutor Fernando Jorge Cardoso, responsável pela apresentação da obra.

Ao apresentar Oscar da Mata, o editor destacou o seu percurso como economista, gestor e professor universitário, com experiência nos sectores da banca, do investimento e da consultoria estratégica, bem como a sua atividade docente na Universidade Católica de Angola.

João Ricardo sublinhou que Mitos Económicos de Angolanão pretende encerrar uma discussão nem impor uma interpretação única sobre a economia angolana. Pelo contrário, a publicação procura criar condições para que diferentes ideias possam circular, ser confrontadas e debatidas publicamente.

“Não esperamos que todos concordem com o autor. Esperamos, isso sim, que o leiam, que o questionem e que debatam as suas ideias”, afirmou.

A intervenção do editor enquadrou a obra no compromisso assumido pela Perfil Criativo | AUTORES.club de democratizar o acesso ao conhecimento e de publicar trabalhos científicos e de ensaio capazes de analisar Angola com liberdade, identificar problemas e apresentar novos caminhos para o desenvolvimento.

Angola, recordou, possui um território vasto, importantes recursos naturais, uma população jovem, conhecimento acumulado e uma extraordinária energia humana. A questão decisiva é compreender de que modo todo esse potencial pode ser convertido em desenvolvimento humano, prosperidade e oportunidades efetivas para os cidadãos.

É neste espaço de interrogação que a nova obra de Oscar da Mata procura intervir: questionando certezas, contrariando ideias instaladas e abrindo caminho à discussão de alternativas.

Manuel Alves da Rocha: uma obra para uma universidade de pensamento livre

A segunda intervenção chegou de Luanda, através de uma mensagem gravada pelo Professor Doutor Manuel Alves da Rocha, economista, investigador e antigo colega de Oscar da Mata na Universidade Católica de Angola.

Manuel Alves da Rocha começou por reconhecer o carácter abrangente e potencialmente polémico da obra, sobretudo porque o autor coloca em confronto diferentes conceções sobre o funcionamento da economia, o papel do Estado, a liberdade económica, o investimento privado, a formação dos preços e a capacidade do mercado para orientar decisões.

O académico considerou que o livro realiza uma análise dos principais equívocos associados aos modelos económicos que atribuem ao Estado uma posição dominante na dinamização do circuito económico. Ao transportar essa discussão para a realidade angolana, a obra ganha particular relevância devido à permanência de práticas e referências herdadas do período da economia centralizada.

“O livro é excelente”, declarou Manuel Alves da Rocha, descrevendo a leitura como “uma viagem muito interessante pelos mitos da economia”.

Apesar de reconhecer que praticamente já ninguém defenderá em Angola um modelo integralmente centralizado no Estado, Alves da Rocha advertiu que a realidade do país continua a exigir uma discussão cuidadosa sobre os limites e as responsabilidades da intervenção pública. Angola permanece, nas suas palavras, uma “economia por fazer”, com grandes necessidades ao nível das infraestruturas, da educação e da saúde.

A sua mensagem não procurou, por isso, reduzir a questão a uma oposição simples entre Estado e mercado. Chamou antes a atenção para a necessidade de estudar qual o modelo económico mais adequado às condições concretas do país.

No final, deixou um desafio aos docentes e investigadores das áreas da macroeconomia, da política monetária e da política financeira: que encontrem na obra novos elementos para prosseguir o debate académico e para afirmar a Universidade Católica de Angola como uma instituição de pensamento livre.

Fernando Jorge Cardoso: “O livro é deliberadamente polémico e defende uma tese”

Seguiu-se a intervenção do Professor Doutor Fernando Jorge Cardoso, professor catedrático da Universidade Autónoma de Lisboa e diretor executivo do Clube de Lisboa, que começou por recordar a relação académica que mantém com Oscar da Mata desde os finais do século passado: primeiro, na condição de professor e estudante; agora, como apresentador e autor.

Fernando Jorge Cardoso definiu desde logo a natureza da obra: “Mitos Económicos de Angola não é um tratado académico de economia.” Trata-se, como indica o subtítulo, de um ensaio sobre liberdade e criação de riqueza.

“O livro é deliberadamente polémico e defende uma tese”, acrescentou.

Na sua leitura, o autor parte da convicção de que determinadas ideias, profundamente enraizadas na sociedade angolana e repetidas ao longo de décadas, adquiriram o estatuto de verdades aparentemente evidentes. Entre elas encontram-se explicações sobre a inflação, os efeitos dos controlos administrativos de preços, os subsídios, a criação de emprego público, as margens de lucro, o planeamento centralizado, a tributação e a própria relação entre socialismo, pobreza e proteção social.

Fernando Jorge Cardoso identificou três méritos fundamentais na obra. O primeiro é a clareza do argumento em defesa da liberdade económica e contra o excesso de intervenção administrativa do Estado. O segundo é a atenção dada aos incentivos, lembrando que cidadãos, empresas, funcionários públicos e investidores adaptam os seus comportamentos às condições criadas pelas políticas económicas. O terceiro é a insistência numa ideia essencial: a riqueza precisa de ser criada antes de poder ser distribuída.

Nas economias muito dependentes dos recursos naturais, observou, existe o risco de confundir a apropriação de rendimentos provenientes desses recursos com a verdadeira criação de riqueza. Receber receitas da exportação de petróleo não equivale a construir uma economia capaz de produzir bens e serviços de forma sustentável, inovar, aumentar a produtividade, criar empresas e elevar os rendimentos das famílias.

O apresentador aproximou algumas das ideias do livro do pensamento de Friedrich Hayek e de Milton Friedman. Destacou, em particular, a importância atribuída ao sistema de preços como mecanismo de transmissão de informação e a crítica às decisões administrativas que podem distorcer os sinais recebidos pelos produtores, consumidores e investidores.

“O preço não é apenas aquilo que se paga por uma mercadoria, é também informação”, afirmou.

Fernando Jorge Cardoso introduziu, contudo, importantes elementos de problematização. Recordou que os mercados necessitam de instituições sólidas, regras previsíveis e uma governação capaz de garantir a concorrência. “A concorrência não nasce espontaneamente da privatização. Mercados eficientes pressupõem governação eficiente”, salientou.

Defendeu ainda que um monopólio público pode ser privatizado e continuar a funcionar como monopólio, sintetizando a questão numa formulação particularmente expressiva: “O oposto de mercado é monopólio, não é Estado.”

A partir das experiências de desenvolvimento da Coreia do Sul, de Taiwan, de Singapura e da China, Fernando Jorge Cardoso colocou uma das questões centrais da sua intervenção: talvez o problema não seja apenas determinar se uma economia necessita de mais ou de menos Estado, mas perceber que tipo de Estado existe, qual é a sua capacidade de atuação, a quem serve e perante quem responde.

A análise avançou depois para a ligação entre economia, instituições e poder político. A liberdade económica, argumentou, só pode ser exercida plenamente quando existem condições institucionais que garantam que as mesmas regras se aplicam a todos, e não apenas aos agentes que dispõem de acesso privilegiado ao poder.

Neste contexto, abordou também a ética, a corrupção, o clientelismo e a competição pelo acesso às rendas públicas. Quando a proximidade do poder oferece maiores vantagens do que a inovação, o investimento produtivo ou o risco empresarial, os agentes económicos respondem racionalmente a esse sistema de incentivos. A competição pela criação de riqueza pode, então, ser substituída pela competição pelo acesso a contratos, licenças, créditos, concessões e privatizações.

Fernando Jorge Cardoso concluiu que o livro deve ser entendido “menos [como] um ponto de chegada do que um excelente ponto de partida”. O seu mérito está em incomodar, questionar ideias instaladas e deixar o leitor com vontade de prosseguir a discussão.

Oscar da Mata: transformar recursos em bem-estar

Na intervenção final, Oscar da Mata agradeceu a presença do público e reconheceu o contributo de Fernando Jorge Cardoso, recordando a relação de muitos anos que os une.

O autor explicou que a decisão de escrever o livro nasceu de um “imperativo de consciência”. Ao longo de sucessivas gerações, afirmou, muitos angolanos foram confrontados com a distância entre as expectativas criadas em torno de um país com enormes possibilidades e os resultados efetivamente alcançados.

A obra foi sendo construída a partir de notas acumuladas durante anos, da experiência profissional do autor no sector financeiro e da observação direta da economia angolana. Oscar da Mata esclareceu também que procurou escrever numa linguagem acessível, apoiada em exemplos concretos e dirigida a um público mais vasto.

“Eu não escrevi para economistas”, afirmou, explicando que o seu objetivo foi tornar a reflexão compreensível e intuitiva, sem abandonar o rigor do raciocínio económico.

Acima de tudo, acrescentou, “o que me moveu foi tentar estabelecer um ponto de discussão, uma visão diferente sobre o país, e tentar que essa discussão fosse aberta”.

O autor reconheceu que o livro foi concebido para provocar, retirar os leitores de uma certa zona de conforto e suscitar discordâncias, mas insistiu que essa provocação deve conduzir a um debate construtivo.

Oscar da Mata rejeitou uma leitura simplista da sua posição: “Eu não tenho nenhum dogma contra o Estado.” A questão central da obra não é definir, de forma abstrata, todos os sectores pelos quais o Estado deve ou não ser responsável. O problema é compreender o paradoxo de um país dotado de tantos recursos que continua a revelar dificuldades em convertê-los em riqueza e bem-estar para a população.

Para que os recursos naturais possam adquirir verdadeiro valor económico e social, explicou, é necessário que existam condições para investir, arriscar capital, empreender, produzir, criar empregos e transformar esses recursos em bens úteis à sociedade. Sem segurança jurídica, regras claras, proteção dos contratos, estabilidade monetária e condições favoráveis ao investimento produtivo, a riqueza pode permanecer no subsolo sem produzir desenvolvimento.

O autor afirmou que o referencial da economia angolana continuou fortemente centrado no Estado, mesmo depois do abandono formal do planeamento central. Na sua leitura, a abertura ao mercado não foi acompanhada por uma transferência efetiva de protagonismo para a sociedade civil e para a iniciativa empresarial independente.

A forte gravitação da economia em torno do Orçamento Geral do Estado, os processos de licenciamento, a imprevisibilidade das regras e as dificuldades na proteção dos contratos foram apontados como obstáculos à atração de investimento estruturado e de longo prazo.

Oscar da Mata deu especial atenção à moeda e aos problemas monetários. A instabilidade cambial, observou, obriga muitos empresários a desviarem tempo e recursos da produção, da gestão e da criação de emprego para a proteção financeira do capital acumulado. Sem previsibilidade monetária, torna-se muito mais difícil planear investimentos e construir uma economia orientada para o futuro.

A formação dos preços surgiu igualmente como um elemento central. Para o autor, os preços transportam conhecimento e permitem que produtores e consumidores avaliem custos, escassez, procura e oportunidades. A sua manipulação administrativa pode esconder problemas e produzir decisões económicas desajustadas.

Na parte final, Oscar da Mata defendeu que os chamados mitos económicos persistem porque podem ser convenientes e porque, muitas vezes, a racionalidade política se sobrepõe ao diagnóstico económico. Sem um diagnóstico correto, advertiu, as políticas públicas dificilmente encontrarão soluções adequadas.

O autor terminou deixando claro que a obra não foi escrita apenas para interpretar o caminho percorrido por Angola desde a independência. “Eu não escrevi este livro para interpretar 50 anos de história”, declarou, projetando a reflexão para as decisões que irão marcar as próximas décadas do país.

O debate continuou com o público

Depois das quatro intervenções, a sessão abriu-se à participação da assistência. Mais do que procurar respostas definitivas, o encontro confirmou o objetivo central da obra: criar um espaço livre para confrontar ideias, rever diagnósticos e discutir o futuro económico de Angola.

Com a lotação esgotada muito antes da abertura das portas, a apresentação de Mitos Económicos de Angola transformou a Sala Polivalente da Biblioteca Palácio Galveias num lugar de reflexão intensa sobre um dos maiores desafios do país: como construir uma economia mais produtiva, mais livre, institucionalmente mais sólida e capaz de colocar a criação de riqueza ao serviço do desenvolvimento humano.

Mitos Económicos de Angola de Oscar da Mata
Mitos Económicos de Angola de Oscar da Mata

Este livro pode ser encomendado na Bertrand e Wook

Loja dos Autores regressa com segurança reforçada, novas campanhas e novidades editoriais

Loja dos Autores regressa com segurança reforçada, novas campanhas e novidades editoriais

Loja dos Autores | AUTORES.club está novamente disponível e preparada para receber encomendas dos livros publicados pela editora Perfil Criativo | AUTORES.club.

O regresso da loja online assinala uma nova etapa, depois de um período de instabilidade provocado por sucessivos ataques informáticos. O reforço das medidas de segurança e a melhoria do funcionamento da plataforma permitem agora proporcionar aos leitores uma experiência de compra mais segura, estável e eficiente.

Além das novidades editoriais, a reabertura será acompanhada por novas campanhas promocionais. Entre as iniciativas previstas encontra-se a disponibilização, a preços muito acessíveis, de obras raras e de títulos publicados há mais de dois anos. Será uma excelente oportunidade para descobrir livros que permanecem atuais, completar coleções e reencontrar autores fundamentais do catálogo da editora.

História, literatura, poesia, ensaio, investigação académica, cultura e pensamento continuam a ocupar um lugar central na seleção da Loja dos Autores.

As campanhas serão anunciadas progressivamente nos canais da editora, no AUTORES.club — Boletim Informativo em papel e postais de novidades Os leitores deverão, por isso, permanecer atentos: vêm aí novas publicações, condições especiais de compra e oportunidades únicas para adquirir títulos do catálogo da Perfil Criativo | AUTORES.club.

A Loja dos Autores está de volta. Visite-nos, descubra os nossos livros e fique atento às próximas novidades editoriais.

Informações e encomendas: encomendas@autores.club

Oscar da Mata propõe um debate sobre liberdade e criação de riqueza em Angola

Oscar da Mata propõe um debate sobre liberdade e criação de riqueza em Angola

Novo ensaio da Perfil Criativo | AUTORES.club questiona ideias profundamente enraizadas no debate económico e defende que, antes de distribuir riqueza, é necessário criá-la

A Perfil Criativo | AUTORES.club anuncia a publicação de Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza, da autoria do economista e professor universitário Oscar da Mata. Com prefácio do Professor Jesús Huerta de Soto, a obra analisa e desconstrói dezoito ideias amplamente difundidas no debate económico angolano, procurando demonstrar como determinadas soluções apresentadas como inevitáveis podem, na realidade, prolongar os problemas que pretendem resolver.

«Antes de distribuir riqueza, é preciso criá-la» é a ideia fundamental que percorre este ensaio. Partindo do contraste entre racionalidade económica e racionalidade política, Oscar da Mata questiona políticas orientadas para resultados imediatos que, embora possam produzir vantagens no curto prazo, acabam por comprometer a estabilidade monetária, enfraquecer as instituições, limitar a iniciativa individual e dificultar a criação sustentável de prosperidade.

Ao longo de cinco grandes áreas: mercado monetário; mercado e preços; trabalho e produtividade; intervenção estatal generalizada; instituições e liberdade económica. O autor examina com determinação temas centrais para o presente e o futuro da República de Angola. Entre eles encontram-se a inflação, as taxas de juro, os bancos públicos, o crédito barato, o endividamento do Estado, o controlo de preços, os subsídios, os salários, o emprego público, as margens de lucro, o planeamento central, a tributação, o socialismo, a qualidade das instituições e a acumulação de capital.

O livro procura desmontar afirmações que se tornaram recorrentes, como a ideia de que a inflação resulta apenas da falta de produção local, de que os bancos públicos são indispensáveis ao desenvolvimento, de que o controlo de preços protege necessariamente os consumidores, de que sem subsídios não pode existir progresso económico ou de que a criação de mais empregos no sector público resolve o desemprego.

Para Oscar da Mata, muitos dos bloqueios da economia angolana não resultam da escassez de recursos naturais, mas de escolhas institucionais e de concepções económicas que favoreceram o dirigismo, a dependência do Estado e a substituição da iniciativa individual por mecanismos centralizados. A obra sustenta que a abundância de recursos, por si só, não garante prosperidade e que o desenvolvimento depende sobretudo da qualidade das instituições, da estabilidade das regras, da poupança, do investimento produtivo, do mérito e da liberdade para empreender.

O ensaio dedica também especial atenção à pressão demográfica e à necessidade de Angola criar oportunidades para uma população jovem e em rápido crescimento. Neste contexto, o autor considera insuficiente multiplicar programas públicos, subsídios ou mecanismos administrativos sem enfrentar problemas estruturais como a baixa produtividade, a fragilidade da moeda, a burocracia, a deficiente formação do capital humano e a limitada capacidade de criação de emprego produtivo.

No prefácio, Jesús Huerta de Soto considera que o livro representa um contributo inovador para a recuperação da racionalidade económica no contexto africano. O prefaciador destaca a combinação entre rigor intelectual e vocação pedagógica, sublinhando que a obra ultrapassa o caso angolano e participa num debate mais amplo sobre o futuro do pensamento económico em África. Para o Professor Huerta de Soto, «a liberdade económica não é apenas um ideal ético; é uma condição funcional para qualquer sociedade que deseje gerar riqueza de forma sustentável».

Economista e professor universitário, Oscar da Mata possui experiência executiva na banca e na consultoria financeira. O seu percurso tem sido marcado pelo estudo da moeda, das instituições e da relação entre os sistemas políticos e a organização da vida económica. Influenciado pela tradição do liberalismo clássico e por abordagens que valorizam a coordenação descentralizada dos mercados e a estabilidade monetária, o autor articula teoria económica, história e análise institucional numa reflexão directamente relacionada com os desafios do desenvolvimento de Angola.

Com uma linguagem clara, firme e acessível, Mitos Económicos de Angola dirige-se não apenas a economistas e especialistas, mas também a estudantes, professores, empresários, decisores públicos, jornalistas e leitores interessados em compreender as causas profundas dos problemas económicos do país. Mais do que apresentar um diagnóstico, o livro pretende provocar um debate informado e incentivar uma mudança de mentalidade: deixar de procurar respostas em promessas fáceis e reconhecer o papel decisivo do indivíduo, do trabalho, da poupança, do investimento e das instituições na criação de riqueza.

A publicação conta com o apoio do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola.

Ficha técnica

Título: Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza
Autor: Oscar da Mata
Prefácio: Jesús Huerta de Soto
Editora: Perfil Criativo – Edições | AUTORES.club
Primeira edição: Setembro de 2026
Número de páginas: 116
ISBN: 978-989-9209-43-5
PVP em Portugal: 18,00 euros
Encomendas: encomendas@autores.club
Informações: portal.autores.club
Loja online: www.AUTORES.club

Lançamento oficial em Portugal

O lançamento oficial de Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza terá lugar no dia 3 de Setembro de 2026, entre as 18h30 e as 20h00, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa.

Participação especial: Prof. Doutor Fernando Jorge Cardoso, Prof. Doutor Manuel Alves da Rocha e Prof. Doutor Jesús Huerta de Soto*

*Intervenção por videoconferência

O evento conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e das Bibliotecas de Lisboa.

Para uma melhor organização do evento, agradecemos que efectue a reserva dos lugares pretendidos para o lançamento oficial, em Portugal, do livro Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza, de Oscar da Mata. RESERVAR LUGAR

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«Faro e Enigmas» transformou o Memorial num encontro especial

«Faro e Enigmas» transformou o Memorial num encontro especial

A poeta angolana Elsa Major apresentou oficialmente, na tarde de quarta-feira, 29 de Julho, em Luanda, o livro Faro e Enigmas, numa sessão realizada no Memorial Dr. António Agostinho Neto. Perto de uma centena de convidados participou num encontro marcado pela poesia, pela música, pela performance e pela reflexão em torno da mulher e da cultura angolana.

Depois da apresentação pública realizada a 30 de Abril, em Lisboa, com o apoio da Embaixada da República de Angola em PortugalFaro e Enigmas chegou finalmente ao país que inspira grande parte da sua linguagem poética. O Namibe, o Atlântico, o deserto, o amor, a espiritualidade, a memória e as inquietações do mundo contemporâneo atravessam uma obra profundamente ligada às experiências e às raízes culturais da autora.

A sessão contou com as participações especiais de Conceição Cristóvão e Agnela Barros, responsáveis por diferentes leituras da obra, e do escritor, crítico literário e investigador João Fernando André, que representou a Perfil Criativo | AUTORES.club, editora responsável pela publicação.

Embora o auditório principal do Memorial tenha capacidade para cerca de 300 pessoas, a grandeza do encontro não se mediu pela lotação da sala. O escritor e jornalista José Soares Caetano, também conhecido literariamente como Tazuary Nkeita, classificou o lançamento como um momento de «Cultura Angolana em Grande», considerando que a qualidade e a riqueza cultural da sessão superaram todas as expectativas.

Conceição Cristóvão entre a razão e a emoção

Na sua intervenção, o professor Conceição Cristóvão dirigiu-se a Elsa Major a partir de duas perspectivas complementares: a razão e a emoção. Por um lado, propôs uma leitura reflexiva da obra, destacando a diversidade de interpretações que a poesia de Faro e Enigmas permite; por outro, assumiu uma abordagem afectiva, próxima e profundamente ligada à sensibilidade poética da autora.

A intervenção ganhou uma dimensão especialmente emotiva com a declamação de poemas de outros poetas, escolhidos e dedicados a Elsa Major. Este diálogo entre diferentes vozes literárias transformou a homenagem numa celebração colectiva da poesia, aproximando a autora de outras tradições, sensibilidades e experiências da palavra.

Agnela Barros destaca a artista, a mulher e a mãe

Na sua intervenção, a professora Agnela Barros propôs uma leitura de Faro e Enigmas a partir da condição da mulher africana, recordando a proximidade do Dia da Mulher Africana, assinalado a 31 de Julho.

Agnela Barros identificou na obra um forte hibridismo cultural, traduzido no diálogo permanente com diferentes realidades, culturas, civilizações e expressões artísticas. A música, a dança, a literatura, as línguas angolanas e as referências a diferentes geografias surgem interligadas numa poesia que recusa fronteiras rígidas.

Sem ignorar a presença do amor erótico, a professora preferiu destacar aquilo que considerou ser um dos elementos fundamentais do livro: o amor pela humanidade e a atenção da autora ao sofrimento dos outros. Esta dimensão humanista cruza-se com o amor pelo Namibe, por Luanda, pela história e pelas memórias individuais e colectivas.

Agnela Barros sintetizou a sua leitura em três dimensões fundamentais de Elsa Major: «artista, mulher e mãe». Na sua perspectiva, a autora manifesta uma particular capacidade para acolher as dores e as alegrias do mundo, estabelecendo pontes entre pessoas, lugares, tempos e diferentes formas de conhecimento.

João Fernando André reafirma a missão da editora

Em representação da Perfil Criativo | AUTORES.club, João Fernando André começou por agradecer a todos os que contribuíram para a realização do lançamento, bem como a Conceição Cristóvão e Agnela Barros pelas leituras e interpretações apresentadas.

O escritor e investigador recordou que a editora, embora esteja sediada em Lisboa, definiu como uma das suas prioridades a publicação e divulgação de autores angolanos e de trabalhos dedicados a Angola. Segundo referiu, o catálogo já reúne mais de cinquenta títulos ligados ao país, com especial incidência nas humanidades, na literatura, na poesia e no conto. (Nota do editor: rectificação, são mais de cento e cinquenta títulos)

Para João Fernando AndréFaro e Enigmas é uma «obra aberta», capaz de receber diferentes sensibilidades e interpretações. O livro valoriza o amor nas suas várias dimensões, da fraternidade ao erotismo, e recupera a sensibilidade como resposta a um mundo cada vez mais marcado pelo individualismo, pela violência e pela simplificação dos seres humanos.

A intervenção destacou igualmente a intertextualidade da obra, o diálogo com outros campos do saber e aquilo que Conceição Cristóvão definiu como um exercício de «inversão do olhar»: a capacidade de observar a realidade a partir de outras perspectivas, estabelecendo relações entre elementos aparentemente separados.

Outro aspecto salientado foi a incorporação de línguas angolanas, elementos da tradição oral e referências à angolanidade. Numa altura em que muitas línguas nacionais necessitam de maior apoio e valorização, João Fernando André considerou particularmente relevante que Elsa Major lhes conceda espaço dentro da sua criação poética.

O representante da editora chamou ainda a atenção para a desigualdade existente entre homens e mulheres na publicação literária. Citando o levantamento realizado no livro Autores e Escritores de Angola, de Tomás Lima Coelho, referiu que, num universo de aproximadamente 3.300 autores identificados até 2021, apenas 607 eram mulheres. Nesse sentido, apelou à continuidade da produção literária feminina e à valorização do trabalho intelectual das mulheres angolanas.

Elsa Major entrega o livro aos leitores

Visivelmente emocionada, Elsa Major agradeceu aos familiares, amigos, convidados e a todos os que aceitaram participar naquele momento. Dirigiu palavras especiais ao filho, à nora, à neta e aos músicos da Orquestra Camerata de Luanda, que considera companheiros do seu percurso e cuja música também inspira a sua escrita.

Depois de ouvir as intervenções de Conceição Cristóvão, Agnela Barros e João Fernando André, a autora reconheceu ter descoberto novas possibilidades de leitura dentro dos próprios poemas. Afirmou ter sentido, nos rostos e nos gestos do público, que ainda havia muitas palavras por dizer, entregando simbolicamente a continuidade do livro aos leitores.

Elsa Major manifestou o desejo de que o público transportasse consigo o sentido humanitário da obra: a pertença, o respeito pelas tradições, pela cultura, pelas línguas angolanas e pela ancestralidade. Defendeu igualmente a valorização das capacidades individuais e colectivas de Angola, recordando que escolheu as letras como o seu território de intervenção.

A autora explicou ainda que começou a escrever grande parte de Faro e Enigmas durante a pandemia de Covid-19, quando se encontrava a cumprir uma missão diplomática na África do Sul. Separada de parte da família e confrontada com o isolamento e o medo da morte, encontrou na escrita uma forma de enfrentar aquele período profundamente conturbado.

Essa experiência levou-a a reflectir sobre a fragilidade humana, o sofrimento, a violência e aquilo que considera ser uma preocupante perda do amor ao próximo. Para Elsa Major, o mundo tem espaço para todos, independentemente das diferenças, desde que a humanidade recupere a capacidade de cuidar, respeitar e amar.

A intervenção terminou com uma declaração que resume o espírito do livro e do próprio lançamento: «amor é vida, amor é Deus».

De “Manjoro” a “Major”: uma memória familiar recuperada

Um dos momentos mais surpreendentes da tarde surgiu através da intervenção de um membro mais velho da família da autora, que revelou a origem do apelido «Major».

Segundo o testemunho partilhado durante a sessão, «Major» é uma corruptela aportuguesada da palavra cuanhama «Manjoro». O nome original terá sido rejeitado pelos serviços de registo civil durante o regime colonial, acabando por ser adaptado à forma portuguesa pela qual a família passou a ser oficialmente identificada.

A revelação conferiu ao encontro uma dimensão histórica e inesperada. Num livro marcado pela memória, pela pertença e pelas raízes africanas, a recuperação do nome «Manjoro» permitiu também recordar os mecanismos através dos quais a administração colonial alterou nomes africanos e interferiu na transmissão das identidades familiares.

Publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.clubFaro e Enigmas conta com prefácios de Sara Jona Laisse e Kátia Guerreiro. Ao chegar oficialmente a Luanda, a obra deixou de pertencer apenas à autora e passou definitivamente para as mãos dos seus leitores, como um faro destinado a iluminar os enigmas do amor, da memória e da condição humana.

Elsa Major leva Faro e Enigmas às ondas da rádio CEFOJOR

Elsa Major leva Faro e Enigmas às ondas da rádio CEFOJOR

Na manhã de 25 de junho de 2026, a poetisa angolana Elsa Major esteve na rádio CEFOJOR para uma breve entrevista dedicada à sua mais recente obra poética, Faro e Enigmas. A conversa decorreu no espaço «Páginas e Vozes», integrado no programa Manhã de Cacimbo, e serviu também para anunciar a apresentação oficial do livro em Luanda.

Parceira na divulgação da literatura e da cultura, a rádio CEFOJOR recebeu a autora num ambiente que Elsa Major considerou já familiar. Cumprindo uma promessa anteriormente assumida, a poeta regressou à estação não apenas para falar da obra, mas também para oferecer um exemplar à rádio e ao programa.

Publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.clubFaro e Enigmas reúne poemas atravessados pelo amor, pela sensualidade, pela memória, pela identidade e pelas paisagens africanas. A presença do Namibe, terra natal da autora, do deserto e do mar constitui uma das marcas mais fortes do livro, prolongando uma ligação afectiva e literária ao Sul de Angola.

A obra não se limita, porém, à contemplação da paisagem ou à dimensão íntima dos sentimentos. Durante a entrevista, Elsa Major destacou igualmente as inquietações sociais presentes nos poemas, incluindo a guerra, a instabilidade internacional e os seus efeitos sobre a vida das pessoas, mesmo quando os conflitos decorrem longe das nossas fronteiras.

A espiritualidade e a fé ocupam também um lugar central. Para a autora, num mundo afectado pela violência e pela incerteza, o amor continua a ser uma força necessária à convivência humana: «O mundo precisa de amor», afirmou, deixando igualmente um apelo para que não se perca a fé.

Poesia escrita, dramatizada e cantada

Depois da primeira apresentação pública, realizada a 30 de abril de 2026, no Auditório 11 de Novembro, em PortugalFaro e Enigmas conhecerá a sua apresentação oficial em Angola na quarta-feira, 29 de julho de 2026, às 16h30, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda.

A sessão contará com as participações de Conceição Cristóvão, Agnela Barros e João Fernando André, escritor, crítico literário e autor de Matéria Negra, que já havia intervindo na apresentação da obra em Portugal. Elsa Major recordou ainda o contributo do escritor e crítico Mário Máximo, responsável pelo texto principal de apresentação na sessão realizada em Lisboa.

O encontro no Memorial pretende ultrapassar o formato convencional de lançamento literário. O público será convidado a experimentar três dimensões complementares da criação artística: a poesia escrita, a poesia dramatizada e a poesia transformada em música. Estão previstas interpretações cénicas dos poemas por estudantes ligados ao ensino das artes, bem como um momento musical.

Será, nas palavras da autora, uma oportunidade para aproximar diferentes linguagens e mostrar como a literatura pode conviver com o teatro e a música, dando uma nova vida ao texto poético.

Com entrada livre, a apresentação de Faro e Enigmas propõe-se como um momento solene de celebração da palavra e da cultura. Elsa Major deixou, através dos microfones da rádio CEFOJOR, um convite aos leitores, aos amantes da poesia e a todos os que desejem partilhar consigo este novo percurso da obra em Angola.

Final Volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision» to be launched in London

Final Volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision» to be launched in London

London, 27th July 2026 – The third and final volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision – Almost Memories», a posthumous cultural anthropology work by Angolan writer and ethnologist Maurício Caetano, known as “Mafrano,” will be launched in London on 26th September, at 11H30 am.

The event will take place at the «Adventure Playground Conference Centre», 55 Willington Road, SW9 9NB, in South London, and is expected to bring together members of the academic, cultural, and Lusophone communities.

This final volume spans 327 pages and is structured across eighteen chapters and more than sixty texts. It explores themes related to Bantu civilization, religious thought, and social experiences documented by the author between 1947 and 1982.

Alongside the launch, the family will also announce a forthcoming English-language edition featuring a curated selection of key texts, aimed at expanding the work’s international reach.

The whole collection highlights historically significant essays such as “The Ethnographic Profile of the Black Jinga” (1947) and “The Bantu Slave Before the Slave Traders” (1981), reflecting Mafrano’s long-standing contribution to the study of African societies and cultural identity.

The publication is part of a trilogy compiled posthumously by the author’s family, drawing on decades of writings originally published in Angolan newspapers and magazines. Together, the three volumes total approximately 800 pages.

The first two volumes were presented in London in November 2024 at Birkbeck University, attracting a wide audience. Since then, the work has reached readers and academic institutions across several countries, including Mozambique, Cape Verde, São Tomé and Príncipe, Germany, Portugal, and Brazil.

Notable figures who have engaged with the collection include United Nations Secretary-General Antonio Guterres, Portuguese President Marcelo Rebelo de Sousa, and Cardinal José Tolentino de Mendonça, among others from cultural and academic circles.

Mauricio Caetano, awarded Angola’s National Prize for Culture and Arts in 2004, is recognised for his contribution to research in the human and social sciences. The prize jury described his work as a landmark of historical and cultural value.

The trilogy traces its origins to articles published over a 35-year period, offering a unique perspective on African history, identity, and social transformation.

Prémio Nacional de Cultura
Angola’s National Prize for Culture and Arts in 2004

Cosmopolitismo e palavra: «Matéria Negra» esgota na União dos Escritores Angolanos

Cosmopolitismo e palavra: «Matéria Negra» esgota na União dos Escritores Angolanos

Edmira Cariango destacou o diálogo entre civilizações e a ousadia estética de uma obra que transforma a palavra num instrumento de conhecimento, crítica e esperança

O livro Matéria Negra, de Kalunga, foi apresentado na quarta-feira, 22 de Julho de 2026, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, numa sessão marcada pela leitura crítica de Edmira Cariango e pelo forte interesse do público. Os raros exemplares disponíveis esgotaram-se, confirmando a procura em torno de uma obra especial, tanto pela singularidade da sua proposta poética como pela reduzida disponibilidade no mercado.

Editado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, o poemário constitui a quarta obra a solo de Kalunga, nome literário de João Fernando André. Na sua intervenção, Edmira Cariango enquadrou o autor na geração literária angolana do pós-quatro de Abril, cuja presença se tornou mais visível a partir da década de 2010, e destacou o trabalho exigente que o poeta realiza sobre a palavra, simultaneamente matéria, instrumento e tema da sua criação.

Segundo a apresentadora, a «matéria negra» evocada no título remete para uma energia invisível que sustenta o todo e funciona, na obra, como metáfora de uma força profunda, difícil de apreender, mas perceptível nos seres, na História e na consciência. É a partir dessa substância que Kalunga procura forjar uma sabedoria capaz de afirmar a autonomia dos conhecimentos africanos, sem os isolar da experiência universal.

Edmira Cariango salientou que a poesia de Kalunga estabelece um diálogo constante entre o património tradicional e as linguagens da modernidade. A palavra surge como meio de interpretar a experiência humana, ultrapassar a aparência das coisas e revelar as contradições entre o belo e o feio, o natural e o artificial, o justo e o injusto. Por isso, a leitura de Matéria Negra exige atenção, releitura e disponibilidade para descobrir os vários sentidos contidos nos poemas.

Na dimensão estética, a obra combina verso livre, repetições, jogos de palavras, imagens simbólicas, paradoxos e outros recursos sonoros e semânticos. Essa construção formal não é apresentada como um simples exercício de estilo: serve uma poesia interventiva, atenta aos mecanismos que produzem desigualdade, sofrimento, guerra e exclusão.

Ao analisar o poema «Para Onde Vão os Sinos», Edmira Cariango mostrou como as imagens do mar, dos peixes e dos coletes salva-vidas podem sugerir um mundo em que muitos são asfixiados por desigualdades persistentes e por promessas continuamente adiadas:

«Peixes em fragmentos, em afogamento, procurando coletes salva-vidas na retina dos corações. Mosseques abissais espreitando-se no tempo, fedem de promessas. A dor, a dor, a dor assedia.»

Para a oradora, a literatura é uma construção humana e racional que obriga quem escreve e quem lê a questionar o mundo. Em Matéria Negra, essa dimensão adquire também um sentido histórico e político: os poemas observam criticamente os discursos do poder, recordam experiências de guerra, interrogam o capitalismo e alertam para a possibilidade de novas formas de autoritarismo ou colonialismo surgirem sob a aparência da igualdade e da autonomia cultural.

Mas a poesia de Kalunga não se limita à denúncia. Entre a inquietação e o desconforto, abre espaço à reconstrução, à renovação das crenças e à possibilidade de «refazer amanhãs». Edmira Cariango sublinhou a presença de uma voz poética que aconselha o leitor a enfrentar a dureza da vida, a transpor caminhos e, se necessário, a «reinventar o sol».

O cosmopolitismo de Matéria Negra manifesta-se precisamente nessa capacidade de fazer conviver referências africanas e universais, experiências terrestres e celestes, memória histórica e interrogações contemporâneas. Ao valorizar diferentes vozes e saberes, o livro contesta hierarquias culturais e crenças de superioridade, propondo uma ideia de humanidade para além das divisões raciais e das linhas abissais que continuam a organizar o mundo.

O interesse demonstrado pelos leitores na UEA teve uma expressão imediata: todos os exemplares disponíveis esgotaram-se. Perante a procura, João Ricardo Rodrigues, editor da Perfil Criativo | AUTORES.club, comprometeu-se a enviar mais exemplares raros para Luanda, de modo a responder ao interesse manifestado e a permitir que Matéria Negra chegue a um número mais alargado de leitores.

Matéria Negra
Matéria Negra

M. Neto Costa apresentou em Luanda um «perfil do Estado» traçado pelas políticas públicas

M. Neto Costa apresentou em Luanda um «perfil do Estado» traçado pelas políticas públicas

O economista M. Neto Costa apresentou oficialmente, na quinta-feira, 9 de Julho de 2026, na Academia BAI, em Luanda, o livro Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023), uma edição da Perfil Criativo | AUTORES.club que reúne artigos de opinião e análise económica publicados no Novo Jornal entre 2021 e 2023.

A mesa de honra foi constituída por Armindo Laureano, Director do Novo Jornal, em representação da editora; pelo Doutor Fernandes Wanda, Coordenador do Centro de Investigação Social e Económica (CISE) da Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto; e pelo autor, M. Neto Costa.

Na sua intervenção, Armindo Laureano recordou as circunstâncias que estiveram na origem da colaboração de M. Neto Costa com o Novo Jornal. O convite surgiu depois de o economista apresentar uma espécie de «defesa de honra», na sequência de um artigo publicado pelo semanário sobre a sua participação num concurso para juízes do Tribunal de Contas.
O Director do Novo Jornal destacou igualmente que a obra reúne textos dedicados à economia e às políticas públicas angolanas, publicados ao longo de três anos. O livro ficou preparado para edição em 2024, mas, devido a constrangimentos editoriais, apenas viria a ser publicado, pela Perfil Criativo | AUTORES.club, em Maio de 2026.

Uma crítica fundamentada que aponta alternativas

Responsável pela apresentação e comentário da obra, Fernandes Wanda salientou o carácter diversificado dos textos e a apreciação crítica da governação, sustentada por fundamentos técnicos e acompanhada pela apresentação de possíveis soluções.

Embora escritos entre 2021 e 2023, muitos dos artigos mantêm plena actualidade. Algumas matérias analisadas pelo autor foram entretanto objecto de intervenção governativa, pelo menos no plano legal, designadamente as Parcerias Público-Privadas enquanto instrumento de financiamento do investimento público e a criação de uma base de dados dos beneficiários efectivos das empresas.

Para Fernandes Wanda, os textos reunidos no livro constituem um contributo relevante para a reflexão e para o debate nacional em torno das respostas aos problemas económicos e sociais que Angola continua a enfrentar.

Das instituições aos resultados concretos

M. Neto Costa estabeleceu uma relação entre esta obra e o seu primeiro livro. Se, no trabalho anterior, analisou a situação económica de Angola após 45 anos de Independência através de uma abordagem top-down, começando pela natureza das instituições políticas e económicas que definiram o quadro político-institucional e condicionaram as políticas públicas, em Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023) parte de exemplos concretos.

Os artigos apresentam resultados de políticas públicas consideradas ineficientes ou ineficazes, cujos efeitos, quando observados em conjunto, permitem traçar o perfil do Estado existente. O autor sintetizou, assim, o sentido da obra:

«Um livro; o perfil de um Estado traçado pelas suas acções e omissões; e as alternativas para o futuro.»

Liberdade técnica e responsabilidade pública

A apresentação prosseguiu com uma animada interacção entre o autor e os participantes. Uma das questões colocadas procurou saber se M. Neto Costa se sentia inteiramente à vontade para assumir uma posição crítica perante a governação, tendo em conta que integrou anteriormente o Governo angolano.

O economista respondeu que sempre manifestou os seus pontos de vista com liberdade técnica, autonomia e independência. Enquanto membro do Executivo, explicou, defendia as suas posições através dos canais institucionais adequados.

A sessão confirmou a importância de preservar espaços públicos de análise e contraditório sobre a governação. Ao reunir três anos de observação crítica das políticas públicas, a obra não se limita a registar os problemas: procura identificar as suas causas e colocar em debate alternativas para o futuro de Angola.

Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023) encontra-se disponível em Luanda, na Livraria e Papelaria Komutú, no Largo das Escolas, com entrada pelo pátio da União dos Escritores Angolanos.

Kalunga regressa à União dos Escritores Angolanos

Kalunga regressa à União dos Escritores Angolanos

A União dos Escritores Angolanos (UEA) recebe, no dia 22 de Julho de 2026, quarta-feira, às 16h30, mais uma edição da iniciativa cultural “Maka à Quarta-Feira”. A sessão, marcada para a Sala de Conferências da instituição, em Luanda, será dedicada ao tema “Gerações Literárias em Angola: o caso do Ohandanji” e culminará com a apresentação de Matéria Negra, a mais recente obra poética de Kalunga.

O encontro propõe uma reflexão sobre a evolução da literatura angolana, o contributo das sucessivas gerações de escritores e o lugar ocupado pelo Ohandanji. Surgido em Luanda, em 1984, este colectivo ficou associado à chamada Geração de 80 e à procura de novas linguagens e rupturas estéticas no período posterior à Independência.

A prelecção estará a cargo do escritor, investigador e crítico literário João Fernando André, nome do poeta Kalunga, que analisará o surgimento, os propósitos, o manifesto e os principais protagonistas do Ohandanji. A escolha do prelector aproxima duas gerações: a que procurou renovar a literatura angolana nos anos 1980 e uma nova geração que continua a interrogar a história, a identidade e as transformações da sociedade através da palavra.

Natural da Cahama, província do Cunene, João Fernando André é professor, investigador, ensaísta, jornalista cultural e consultor. Mestre em Literaturas em Língua Portuguesa pela Universidade Agostinho Neto, encontra-se a realizar o doutoramento em Literaturas, Artes e Culturas Modernas na Universidade de Lisboa. É membro da União dos Escritores Angolanos, instituição em que se destacou como um dos membros mais jovens, e tem desenvolvido uma presença regular em encontros, conferências, feiras do livro e projectos culturais em Angola e Portugal. É também autor de títulos como Evangelho BantuO Dia em que uma Pedra Virou Lua e Lumbu — A Alquimia das Palavras.

Depois da reflexão sobre o Ohandanji, será apresentada a obra Matéria Negra, por Edmira Cariango Manuel. Publicado em 2026 pela editora Perfil Criativo | AUTORES.club, com sede em Portugal e um catálogo fortemente dedicado aos autores angolanos, o livro assinala uma nova etapa na trajectória literária de Kalunga.

Em Matéria Negra, a palavra assume-se como espaço de contemplação, inquietação e resistência. A experiência individual cruza-se com uma consciência mais ampla das feridas do mundo, da memória africana e das tensões do presente. Depois da apresentação oficial realizada em Maio, no histórico edifício de A Voz do Operário, em Lisboa, e da sua passagem pela Feira do Livro de Lisboa, a obra chega agora à UEA, reencontrando o espaço institucional da literatura.

Durante a sessão, Matéria Negra poderá ser adquirida pelo preço de 10.000 kwanzas. Para compra antecipada, os interessados poderão enviar uma mensagem através do Messenger ou WhatsApp. A edição é limitada.

Integrada no programa cultural permanente da União dos Escritores Angolanos, a “Maka à Quarta-Feira” procura fomentar o diálogo literário, incentivar a leitura e aproximar escritores, investigadores, estudantes e leitores.

Data: 22 de Julho de 2026
Hora: 16h30
Local: Sala de Conferências da União dos Escritores Angolanos, Luanda
Entrada: aberta ao público

Memórias das FALA chegam às mãos da investigadora brasileira Jéssica Höring

Memórias das FALA chegam às mãos da investigadora brasileira Jéssica Höring

O brigadeiro Fonseca Chindondo recebeu recentemente a visita da investigadora brasileira Jéssica da Silva Höring, num encontro dedicado à História contemporânea de Angola e à preservação da memória dos seus protagonistas.

Na biblioteca pessoal do autor, Jéssica Höring teve acesso ao livro Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975–1992), publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.club. A obra constitui uma importante fonte documental para as investigações que a académica vem desenvolvendo sobre a trajectória da UNITA, os seus militantes e os diferentes momentos da luta de libertação e do conflito armado angolano.

Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo e licenciada em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jéssica Höring tem dedicado uma parte significativa do seu percurso académico ao estudo de Angola. Entre os seus trabalhos encontram-se investigações sobre o processo constitucional angolano, as origens da UNITA e as trajectórias de diferentes gerações de activistas ligados ao movimento.

Escrito a partir da experiência directa do brigadeiro Fonseca ChindondoMemórias das FALA recupera episódios relacionados com o avanço militar no Norte de Angola, a organização das Forças Armadas de Libertação de Angola e o papel da guerra psicológica entre 1975 e 1992. Prefaciado pela investigadora Paula Cristina Roque, o livro contribui para uma leitura mais ampla e plural de um período determinante da história nacional.

O encontro ficou registado numa fotografia para memória futura, na biblioteca do autor, simbolizando a necessária aproximação entre os testemunhos dos protagonistas e o trabalho rigoroso da investigação académica.

Em Angola, o livro está disponível pelo preço de 22.000,00 Kz e pode ser encomendado através dos contactos:

  • +244 922 752 494
  • +244 936 023 299
Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975-1992)", do brigadeiro Fonseca Chindondo
Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975-1992), do brigadeiro Fonseca Chindondo


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