
Tomás Lima Coelho, Joaquim Sequeira e Xavier de Figueiredo protagonizaram, no Palácio de Belém, uma sessão marcada por encontros com leitores, conversas sobre a História de Angola e uma renovada procura pelo livro dedicado à conquista portuguesa de Ceuta
A participação da Perfil Criativo | AUTORES.club na Festa do Livro de Belém 2026 viveu, no sábado, 19 de setembro, mais um momento especial com uma tripla sessão de autógrafos que reuniu os autores Tomás Lima Coelho, Joaquim Sequeira e Xavier de Figueiredo.
Ao longo da tarde e do princípio da noite, a Zona da Cascata — Arcadas, nos jardins do Palácio Nacional de Belém, tornou-se um animado ponto de encontro entre autores, leitores e visitantes. Mais do que uma sucessão de assinaturas, a iniciativa deu origem a numerosas conversas sobre literatura, História, memória, identidade, independência e os desafios contemporâneos das sociedades africanas.
O editor e jornalista Sedrick de Carvalho esteve igualmente presente e participou ativamente nos diálogos que se foram formando em redor dos autores e dos livros. A sua presença contribuiu para alargar as conversas à liberdade de expressão, ao papel do jornalismo, à preservação da memória histórica e à responsabilidade dos editores na divulgação de testemunhos que nem sempre encontram espaço nas narrativas oficiais.








Tomás Lima Coelho: uma vida dedicada à investigação da literatura angolana
Um dos autores presentes foi Tomás Lima Coelho, reconhecido como o mais persistente e profundo investigador da literatura angolana publicada desde os seus primórdios.
Ao longo de décadas de investigação, o autor tem realizado um levantamento minucioso de escritores, obras, periódicos e documentos fundamentais para compreender a formação e a evolução da literatura angolana. O seu trabalho recupera títulos esquecidos, identifica autores pouco estudados e devolve visibilidade a uma produção literária que começou muito antes da consolidação das instituições culturais contemporâneas.
Autor de Chão de Kanâmbua, obra já na sua terceira edição, Tomás Lima Coelho cruza investigação, memória cultural e vivências pessoais. O livro conduz o leitor através de diferentes épocas e ambientes da sociedade angolana, preservando referências, personagens e experiências que ajudam a compreender a construção da identidade literária e cultural do país.
Durante a sessão, o investigador conversou com leitores interessados nas origens da literatura angolana, na imprensa que lhe serviu de suporte e na necessidade de proteger um património bibliográfico ainda disperso por bibliotecas, arquivos e coleções particulares.
Cada conversa confirmou a importância de um trabalho paciente e continuado: localizar, registar e estudar os livros publicados por autores angolanos, impedindo que uma parte essencial da memória cultural do país desapareça.

Joaquim Sequeira: o testemunho de um sobrevivente do 27 de Maio
A sessão contou também com a presença de Joaquim Sequeira, sobrevivente dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, uma das páginas mais dolorosas e ainda insuficientemente esclarecidas da história contemporânea de Angola.
Em Ecos da Liberdade, o autor transporta o leitor para um período marcado pelo entusiasmo revolucionário, mas também pelo medo, pela repressão, pelas perseguições e pelo silêncio imposto a milhares de famílias angolanas.
A sua escrita nasce da experiência vivida e da necessidade de preservar a memória dos que foram atingidos pelos acontecimentos e pelas suas consequências. O relato individual transforma-se, assim, num contributo para a compreensão de um trauma coletivo que atravessou gerações e continua presente na sociedade angolana.
Na Festa do Livro de Belém, Joaquim Sequeira teve oportunidade de conversar diretamente com leitores sobre a importância de escutar os sobreviventes, preservar os testemunhos e transmitir às novas gerações aquilo que durante demasiado tempo permaneceu ausente do debate público.
Cada exemplar autografado tornou-se um convite à leitura, mas também ao reconhecimento das vítimas e à construção de uma memória histórica fundada na verdade, na dignidade e na reconciliação.

Xavier de Figueiredo e uma viagem às origens da expansão portuguesa
A tripla sessão ficou completa com a presença do histórico jornalista Xavier de Figueiredo, que aproveitou o encontro para autografar Ceuta: Primeira Conquista de Portugal Além-Mar, livro que tem registado uma procura crescente nos últimos dias.
Nascido no Huambo, em 1947, Xavier de Figueiredo iniciou a carreira jornalística em 1971, no diário A Província de Angola. Especialista em assuntos africanos, acompanhou durante décadas importantes acontecimentos políticos e militares do continente, tornando-se uma presença reconhecida na imprensa e na televisão portuguesas.
Em Ceuta: Primeira Conquista de Portugal Além-Mar, o jornalista e investigador regressa a 1415, ano da conquista portuguesa da cidade norte-africana. A obra revisita as motivações políticas, económicas, religiosas e militares que estiveram na origem da expedição e analisa um acontecimento tradicionalmente apresentado como o ponto de partida da expansão marítima portuguesa.
Mais do que celebrar uma vitória militar, Xavier de Figueiredo procura compreender o significado histórico de Ceuta, as ambiguidades do empreendimento e as suas consequências para Portugal, para o Norte de África e para a posterior expansão europeia.
A atualidade geopolítica de Ceuta e o renovado debate sobre as relações entre a Europa e África ajudam a explicar o interesse crescente pelo livro. Situada no continente africano e administrada por Espanha, a cidade continua a concentrar tensões históricas, políticas e migratórias que tornam particularmente pertinente o regresso às origens da sua ocupação europeia.
Sedrick de Carvalho junta-se à conversa e à investigação literária
O editor e jornalista Sedrick de Carvalho, autor do livro Prisão Política, acompanhou a sessão e participou nas muitas conversas que surgiram espontaneamente entre os autores e os leitores que visitavam os jardins do Palácio de Belém.
Sedrick de Carvalho é também, neste momento, coautor com Tomás Lima Coelho da publicação permanentemente atualizada, em formato de livro, intitulada Autores e Escritores de Angola. O projeto procura identificar, reunir e organizar informação sobre os autores angolanos e as respetivas obras, constituindo um instrumento aberto ao contínuo aparecimento de novos dados, títulos, edições e percursos literários.
A natureza permanentemente atualizada desta publicação responde à amplitude e à dispersão da produção bibliográfica angolana. Mais do que fixar uma lista definitiva, Autores e Escritores de Angola pretende acompanhar uma história literária em movimento, recuperar nomes esquecidos, corrigir omissões e proporcionar a investigadores, estudantes e leitores uma fonte de consulta progressivamente mais completa.
A colaboração entre Tomás Lima Coelho e Sedrick de Carvalho associa a experiência acumulada de um dos maiores investigadores da literatura angolana à prática jornalística e editorial de uma geração empenhada em tornar o conhecimento mais acessível. A presença de ambos na Festa do Livro permitiu, por isso, que muitas das conversas abordassem também os critérios de pesquisa, identificação, organização e valorização dos autores de Angola.
As intervenções ultrapassaram rapidamente os limites de uma sessão convencional de autógrafos. Falou-se das origens e da actualidade da literatura angolana.
Os livros como ponto de partida
A tarde demonstrou que uma sessão de autógrafos pode ser muito mais do que o breve momento de assinatura de um exemplar. Em redor de Tomás Lima Coelho, Joaquim Sequeira, Xavier de Figueiredo e Sedrick de Carvalho formaram-se pequenos círculos de leitores nos quais se cruzaram perguntas, memórias, interpretações históricas e diferentes experiências de vida.
As diferenças de geração e de percurso entre os participantes não impediram o diálogo. Pelo contrário, mostraram como a literatura, o testemunho, o jornalismo, a edição e a investigação histórica se podem complementar na procura de um conhecimento mais livre, plural e rigoroso.
Realizada nos jardins do Palácio Nacional de Belém, a Festa do Livro voltou assim a cumprir uma das suas missões fundamentais: retirar os livros das estantes e colocá-los nas mãos dos leitores, aproximando-os de quem os escreveu.
Entre a investigação das origens da literatura angolana, o testemunho de um sobrevivente do 27 de Maio e uma viagem à Ceuta de 1415, a tarde terminou com muitos livros assinados, reencontros inesperados e debates que continuaram mesmo depois de concluídas as sessões.
Porque há livros que resgatam autores esquecidos. Outros guardam testemunhos que o silêncio tentou apagar. E há encontros em que autores, editores e leitores descobrem que a leitura é apenas o princípio de uma conversa muito maior.

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