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Bisneto de Francisco Castelbranco encontra no presente uma nova História de Angola

Bisneto de Francisco Castelbranco encontra no presente uma nova História de Angola

Visita inesperada ao stand da Perfil Criativo | AUTORES.club, na Festa do Livro de Belém, uniu simbolicamente duas gerações dedicadas a escrever e preservar a memória histórica angolana

Minutos antes do encerramento da Festa do Livro de Belém, no sábado, 19 de setembro de 2026, o stand da Perfil Criativo | AUTORES.club recebeu uma visita tão inesperada quanto simbólica: o bisneto de Francisco Castelbranco, autor de uma das primeiras sínteses históricas escritas por um intelectual angolano, publicada em Luanda em 1932.

O encontro estabeleceu uma ponte singular entre duas épocas da historiografia de Angola. De um lado, a memória de Francisco Castelbranco, membro da geração de intelectuais angolanos que, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, procurou intervir na vida cultural e política através da imprensa e da escrita. Do outro, o monumental trabalho contemporâneo do Prof. Doutor Carlos Mariano Manuel, investigador que assumiu o ambicioso propósito de reconstruir a longa trajetória histórica do território e dos povos que formaram Angola.

Francisco Castelbranco: uma História de Angola escrita a partir de Luanda

Publicada por conta do próprio autor, em Luanda, no ano de 1932, a obra intitula-se integralmente História de Angola: desde o descobrimento até à implantação da República, 1492–1910. Com cerca de 300 páginas, acompanha mais de quatro séculos de acontecimentos, desde os primeiros contactos com os portugueses até à implantação da República em Portugal e às suas repercussões no território angolano.

Francisco Castelbranco pertenceu à pequena burguesia mestiça de Angola e esteve ligado ao movimento intelectual e jornalístico angolano do princípio do século XX. Foi colaborador de publicações e participou no ambiente cultural associado a títulos como Luz e CrençaEnsaios Literários e Voz de Angola clamando no deserto.

Embora não possuísse formação académica especializada em História, construiu uma narrativa mais fluida, descritiva e “africanizada” do que muitos trabalhos coloniais da mesma época. A sua obra representa, por isso, uma tentativa importante de contar a História de Angola a partir de Luanda e do olhar de um intelectual profundamente ligado à sociedade angolana.

Quase um século depois da publicação do livro do seu bisavô, o visitante encontrou no stand da www.AUTORES.club uma nova e vasta tentativa de interpretar o passado angolano.

Uma obra monumental atravessa gerações

O bisneto de Francisco Castelbranco levou consigo o segundo volume do tratado de História de Angola, de Carlos Mariano Manuel, intitulado Angola: desde antes da sua criação pelos portugueses até ao êxodo destes por nossa criação.

Com 606 páginas, o segundo volume percorre o século XIX e parte do século XX, analisando a abolição formal do tráfico de escravos, a persistência da resistência africana, a expansão colonial portuguesa, a Conferência de Berlim, o regime do indigenato, a formação da economia colonial, os caminhos de ferro e as viagens presidenciais portuguesas a Angola.

Um lugar central é reservado à Conferência de Berlim sobre África, realizada entre 15 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885. Carlos Mariano Manuel reconstitui as sessões, os interesses diplomáticos em confronto e as decisões que legitimaram a expansão europeia, apesar de os povos africanos não terem sido chamados a participar na redefinição política e territorial do continente.

A editora apresenta este volume como o trabalho mais exaustivo publicado em língua portuguesa sobre a Conferência de Berlim e as suas consequências em Angola. A obra não se limita a relatar o encontro diplomático: procura mostrar como as decisões tomadas na Europa alteraram profundamente a ocupação territorial, a administração colonial, a economia e a vida das populações africanas. 

Índice do segundo volume

Prefácio II, por Onofre dos Santos

Capítulo XIII — A conjuntura internacional na transição para o século XIX e a abolição formal do tráfico de escravos

  • Acontecimentos históricos iniciados no continente americano e as suas repercussões globais;
  • legislação portuguesa abolicionista do tráfico de escravos;
  • extinção formal da condição de liberto;
  • criação do estatuto de pessoa livre e do regime de trabalho compelido.

Capítulo XIV — A ocupação portuguesa e a resistência africana no século XIX

  • A sedentarização esparsa e tardia dos portugueses no Sul de Angola;
  • a resistência das populações nativas observada através dos relatórios dos governadores-gerais;
  • a invicta região dos Dembos até à segunda década do século XX;
  • a administração colonial assente na guerra e na preparação militar;
  • a incorporação do Leste do atual território na antiga colónia de Angola.

Capítulo XV — A Conferência de Berlim sobre África

  • Organização e funcionamento da Conferência;
  • assuntos tratados nas reuniões preparatórias;
  • análise das sessões plenárias;
  • a proposta norte-americana, recusada, de abordagem do direito inalienável dos africanos a disporem dos seus territórios;
  • a diplomacia que conduziu à criação do Estado Livre do Congo;
  • encerramento formal da Conferência.

Capítulo XVI — Os efeitos da Conferência de Berlim em Angola

  • Contextualização geral das consequências da Conferência;
  • a política de “portas abertas”;
  • a possibilidade de Angola ter passado para a jurisdição colonial alemã;
  • o novo paradigma da colonização portuguesa;
  • comércio colonial e promoção do consumo de álcool;
  • conceção e aplicação do regime do indigenato;
  • Bilhete de Identidade e Estatuto de Assimilado como instrumentos de diferenciação social;
  • impostos da cubata, imposto indígena e taxa anual única como mecanismos de domínio sobre as populações.

Capítulo XVII — História económica de Angola: da pilhagem à valorização colonial

  • O projeto colonial da chamada “Nova Lusitânia”;
  • as épocas do zimbo, da makuta, do angolar, do real, do escudo e das moedas estrangeiras;
  • instituição da atividade bancária;
  • infraestruturas de transporte terrestre;
  • caminhos de ferro de Ambaca/Luanda, Moçâmedes e Benguela;
  • consequências da independência do Congo para o projetado caminho de ferro do Norte de Angola;
  • circulação rodoviária e abertura das primeiras estradas;
  • empreendedorismo e talento profissional dos indígenas;
  • crise económica entre as décadas de 1920 e 1940;
  • primeiro e segundo Planos de Fomento;
  • planos económicos intercalar, terceiro e quarto;
  • contradição entre o crescimento económico colonial e a degradação social da maioria da população africana.

Capítulo XVIII — Do orgulho imperial ao canto do cisne

  • As três viagens de soberania de chefes de Estado portugueses a Angola;
  • evolução demográfica, económica, social e política do território;
  • geografia histórica da cidade de Luanda;
  • Tratados de Simulambuco e do Soio;
  • insalubridade de Luanda e presença de condenados degredados;
  • visita do Presidente António Óscar de Fragoso Carmona;
  • visita do Presidente Francisco Higino Craveiro Lopes;
  • última expressão do império colonial durante a visita do Presidente Américo Tomás.

Uma investigação reconhecida dentro e fora de Angola

Médico, professor catedrático, investigador e historiador, Carlos Mariano Manuel, também conhecido pelo nome Uina yo Nkuau Mbuta, tem desenvolvido uma obra de grande amplitude documental sobre a formação histórica de Angola.

O seu trabalho foi distinguido com o Diploma de Mérito atribuído pelo Ministério da Cultura de Angola por ocasião do Dia da Cultura Nacional, em 2022. Em 2023, recebeu o Prémio MIL — Personalidade Lusófona, atribuído no âmbito do Encontro do Observatório SEDES da CPLP. Em 2025, o tratado foi distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, na categoria de Ciências Humanas e Sociais, uma das mais importantes distinções culturais angolanas.

A obra passou também a integrar coleções de instituições académicas internacionais, incluindo as universidades norte-americanas da Califórnia e de Princeton, além de universidades, bibliotecas e instituições públicas angolanas.

Quando um livro prolonga a memória de uma família

A visita do bisneto de Francisco Castelbranco, quando faltavam apenas alguns minutos para o encerramento, transformou-se num dos momentos mais significativos da participação da Perfil Criativo | AUTORES.club na Festa do Livro de Belém.

Ao escolher o segundo volume do tratado de Carlos Mariano Manuel, o descendente de um dos pioneiros da escrita histórica angolana levou mais do que um livro: levou consigo a continuidade de uma interrogação iniciada pelo seu bisavô há quase cem anos, como contar Angola, compreender o seu passado e devolver aos angolanos o conhecimento da sua própria história?

A resposta de Carlos Mariano Manuel ergue-se em milhares de páginas, documentos, testemunhos e interpretações. É uma obra majestosa pela dimensão, mas sobretudo pela coragem intelectual do seu propósito. Não oferece uma leitura breve nem simplificada: convida o leitor a entrar na longa duração da História, a questionar versões consagradas e a observar Angola para além dos limites impostos pela narrativa colonial.

Entre o livro publicado por Francisco Castelbranco em 1932 e o tratado contemporâneo de Carlos Mariano Manuel existe quase um século de distância. No stand da AUTORES.club, em Belém, essa distância desapareceu por alguns instantes. Restaram dois livros, duas gerações e a mesma vontade de preservar, estudar e transmitir a História de Angola.