Uma leitura crítica de Faro e Enigmas

Uma leitura crítica de Faro e Enigmas

Texto de Mário Máximo | Leitura por Fátima Gorete de Pina

A apresentação do livro Faro e Enigmas — Poesia, de Elsa Major, realizada no Auditório 11 de Novembro, foi marcada por uma leitura crítica profunda e sensível do escritor Mário Máximo, interpretada pela escritora são-tomense Fátima Gorete de Pina.

No seu texto, Mário Máximo destacou a obra como um corpo poético estruturado e de forte intensidade emocional, sublinhando a presença de uma autora que “aloja um coração enorme em cada verso”. Considerou Faro e Enigmas um livro que, embora de leitura inicial fluida, se revela progressivamente mais denso e exigente, convidando o leitor a permanecer em cada poema e a interrogar o sentido profundo das palavras.

O escritor salientou a capacidade da autora em construir uma poesia que convoca todos os sentidos, em consonância com a leitura crítica de Sara Jona Laisse, e que articula sensualidade, reflexão e identidade numa linguagem simultaneamente íntima e universal. Referiu ainda a importância dos prefácios, incluindo o olhar sensorial de Kátia Guerreiro , como portas de entrada para a compreensão da obra.

Na sua análise, Faro e Enigmas surge como um manifesto poético íntimo, marcado por uma alternância entre versos de forte carga sensorial e momentos de reflexão existencial. Mário Máximo destacou a presença de uma “estética da serenidade”, mesmo nos momentos de maior intensidade, e identificou na obra um eixo central onde a poesia se constrói como travessia interior, entre memória, desejo, corpo e paisagem.

A leitura evidenciou também a dimensão simbólica da escrita de Elsa Major, onde cada poema pode funcionar como uma “máscara estética”, revelando e ocultando simultaneamente o universo interior da autora. Ao longo da obra, sobressai uma tensão entre permanência e despedida, amor e ausência, num movimento contínuo que confere unidade ao livro.

O verso “A vida é uma dama completamente nua”, destacado pelo autor, foi apresentado como chave interpretativa da obra, sintetizando a exposição emocional e a entrega total que atravessam a poesia de Elsa Major.

A interpretação de Fátima Gorete de Pina acrescentou expressividade e musicalidade ao texto, reforçando a dimensão oral e performativa da poesia, num momento que celebrou a língua portuguesa como espaço de encontro entre diferentes geografias da lusofonia.

Mário Máximo

Nascido em Lisboa em setembro de 1956, o escritor Mário Máximo tem uma vasta bibliografia: poesia, romance, teatro, crónica, conto e ensaio. Ao todo, são já cerca de trinta os livros publicados, para além da participação em diversas Antologias. 

Os últimos livros editados foramAntologia – Poemas Escolhidos – 30 Anos de Poesia” (Edições Fénix, 2016); “O Heterónimo de Camões” (Romance, Edições Fénix, 2017); “A Era dos Versos” (Poesia, Edições Fénix, 2018); “O Diário dos Silêncios” (Romance, Edições Fénix, 2019); “Quarentena ou a Liberdade Dentro de Uma Caixa” (Conto, Edições Fénix, 2020); “As Portas da Noite” (Poesia, Edições Fénix, 2020) e o livro “O Pêndulo, A Poesia, O labirinto” (Poesia, Edições Fénix, 2022). Em 2024 publica o romance “A Viagem Para a Literatura ou o Destino de Ferreira de Castro” (Edições Fénix). Ainda em 2024 sai o livro de poesia “A Linguagem das Nuvens” (Edições Fénix). Em 2025 é publicado o romance “A Mulher Construída” (Edições Fénix).

Mário Máximo, tem desenvolvido, de modo continuado, um intenso trabalho na área da cidadania de língua portuguesa e da lusofonia. Foi Comissário estratégico da Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas durante dez anos (2006 a 2016), Bienal que contou com a Drª. Maria Barroso como Presidente da respetiva Comissão de Honra. Participou, nacional e internacionalmente, em diversos outros projetos nas áreas da lusofonia. É atualmente o coordenador da Administração da “Gala Prémios da Lusofonia”, bem como do “Fórum Permanente Debates da Lusofonia”. Estabeleceu relacionamento e parcerias ativas com as instituições de maior relevo ligadas ao mundo lusófono, nomeadamente a CPLP, a CE-CPLP e a UCCCLA, para além de outras instituições atuando em áreas confinantes. Foi, ainda, vereador e vice-presidente da Câmara Municipal de Odivelas (2009-2013), bem como Presidente do Conselho de Administração do Centro Cultural Malaposta (2005-2009 e 2013-2014). Durante cinco anos, foi Presidente da Direção da Associação Fernando Pessoa (que contava, aliás, com os sobrinhos do poeta). É cidadão honorário da C. M. da Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha – Cabo Verde). Entre outros, foi agraciado com o Prémio Lusofonia 2017. 

Novo livro de M. Neto Costa revisita os erros e desafios da economia angolana

Novo livro de M. Neto Costa revisita os erros e desafios da economia angolana

Novo livro de M. Neto Costa disponível para encomenda a partir de 15 de maio de 2026

A editora Perfil Criativo | AUTORES.club anuncia a publicação de Angola: Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023), novo livro de M. Neto Costa, obra de reflexão crítica sobre a realidade económica e institucional angolana contemporânea. O livro estará disponível para encomenda a partir de 15 de maio de 2026.

Resultado de um complexo processo edição cuja preparação se prolongou por dois anos, esta publicação reúne 52 textos de análise e opinião, originalmente publicados entre 2021 e 2023 no semanário angolano Novo Jornal, posteriormente revistos e organizados em oito grandes áreas temáticas. 

Ao longo de mais de 280 páginas, o autor examina temas centrais da vida pública angolana, entre os quais a gestão macroeconómica, as finanças públicas, a política monetária e cambial, a dependência petrolífera, o investimento privado, a corrupção, a eficiência do Estado e os desafios da diversificação económica.

Com independência analítica e profundo conhecimento da máquina do Estado, M. Neto Costa propõe uma leitura estruturada de um período decisivo da governação angolana, correspondente aos anos de 2021 a 2023, marcados por fortes expectativas de reforma, constrangimentos estruturais persistentes e importantes escolhas políticas.

Mais do que uma compilação de artigos, esta obra constitui um contributo relevante para o debate público sobre Angola e para todos os leitores interessados nas relações entre economia, governação e desenvolvimento em África.

Sobre o autor

M. Neto Costa, 61 anos, é economista angolano. Licenciou-se pela Universidade Agostinho Neto, em Luanda (1989), e concluiu o mestrado em Assuntos Internacionais pela Columbia University, através da School of International and Public Affairs (SIPA), em Nova Iorque (1998).

Exerceu no Governo de Angola os cargos de Ministro da Economia e Planeamento (2019–2020), Secretário de Estado para o Planeamento (2017–2019) e Secretário de Estado para o Tesouro (2010–2012). Foi igualmente Director do Gabinete de Estudos e Relações Internacionais do Ministério das Finanças, além de funções técnicas no Conselho de Ministros e na Presidência da República de Angola.

Desenvolveu ainda actividade docente na Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto.

É autor de Angola 1975–2020: Um Percurso de Empobrecimento e o Eventual Caminho para a Prosperidade (2022).

25 Abril de 1974: “Angola vai ser independente”

25 Abril de 1974: “Angola vai ser independente”

Hoje 25 de abril de 2026 apresentamos o livro de bolso  Breve História de Angola desde a Independência (1975-2025), do académico e investigador Rui Verde. Este livro será apresentado em Junho de 2026.

 Ao celebrar os cinquenta anos da República de Angola, este livro propõe um olhar claro, sintético e informado sobre o percurso do país desde a proclamação da independência em 1975 até aos desafios do presente. Entre a guerra civil, a consolidação do poder político, o boom petrolífero, as crises económicas e as tentativas recentes de reforma, desenha-se a história de um Estado em constante transformação. 

Com linguagem acessível e espírito crítico, Rui Verde conduz o leitor pelos principais momentos que marcaram estas cinco décadas decisivas, ajudando a compreender como se formou a Angola contemporânea, as suas conquistas, contradições e possibilidades futuras. 

Integrado na colecção “Livros No Bolso”, dedicada a edições acessíveis a todos, este volume oferece uma introdução rigorosa e concisa à história recente de Angola, convidando o leitor a revisitar meio século de independência e a refletir sobre os caminhos do país no século XXI. 

NOTA DO EDITOR JOÃO RICARDO RODRIGUES

O elefante que tarda em acordar 

Em 2026, Angola aproxima-se de um novo ciclo político, com as eleições de 2027 no horizonte. Ao completar cinquenta anos de independência, o país encontra-se num momento decisivo: é tempo de avaliar, com lucidez e sentido crítico, o percurso feito e os resultados das sucessivas governações, abrindo espaço a um debate público mais exigente e participado. 

É neste contexto que a nossa editora independente, sediada fora de Angola, reafirma o seu compromisso: democratizar o conhecimento, promovendo obras de carácter científico e ensaístico que pensem o país com liberdade, identifiquem problemas sem receios e proponham, com audácia, novas vias para o desenvolvimento. Ao longo da última década, temos construído este projeto com o contributo de autores oriundos de várias áreas e com perfis muito distintos, com destaque para a academia e a comunicação social, conscientes da responsabilidade de fomentar um pensamento plural e informado. 

É neste enquadramento que apresentamos BREVE HISTÓRIA DE ANGOLA DESDE A INDEPENDÊNCIA (1975–2025), de Rui Verde, académico e investigador com reconhecida intervenção pública internacional. Com um percurso sólido nas áreas do direito e da análise política, e experiência em instituições académicas de prestígio, Rui Verde tem-se afirmado como uma voz crítica e consistente na reflexão sobre a Angola contemporânea. 

Integrado na colecção “Livros No Bolso”, este volume oferece uma síntese rigorosa e acessível de cinco décadas de história recente, cruzando política, economia e sociedade. Mais do que um olhar sobre o recente passado, este livro constitui um instrumento para compreender o presente e pensar o futuro, num momento em que as escolhas colectivas ganham particular relevância. 

Acreditamos que a circulação de ideias e o diálogo entre autores e leitores são fundamentais para fortalecer a cidadania e apoiar uma governação mais transparente e orientada para o desenvolvimento humano. Com 2027 no horizonte, Angola enfrenta uma oportunidade renovada: transformar reflexão em acção e ambição em progresso. 

Memorial Dr. António Agostinho Neto (Luanda) com obras de referência sobre Angola

Memorial Dr. António Agostinho Neto (Luanda) com obras de referência sobre Angola

A editora independente Perfil Criativo | AUTORES.club informa que alguns dos seus mais importantes títulos encontram-se disponíveis na livraria do Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda, um dos mais emblemáticos espaços culturais e históricos da República de Angola.

A presença destas obras naquele espaço representa uma oportunidade única para estudantes, investigadores, servidores públicos, dirigentes e cidadãos em geral aprofundarem o conhecimento sobre a história, a identidade e os desafios do país. Em particular, os funcionários do Estado e, sobretudo, os pretendentes a ocupar um lugar na Assembleia Nacional de Angola deveriam ser incentivados a conhecer e estudar algumas destas referências fundamentais do pensamento angolano contemporâneo.

Entre os títulos em destaque encontram-se duas trilogias de grande valor intelectual e histórico:

Estas publicações ajudam a compreender melhor o passado e o presente de Angola, oferecendo bases sólidas para decisões políticas, administrativas e legislativas mais conscientes.

Sobre o Memorial Dr. António Agostinho Neto

Memorial Dr. António Agostinho Neto é um dos principais marcos arquitetónicos e culturais de Luanda. Erguido em homenagem ao primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, poeta e figura central da luta de libertação nacional, o memorial preserva documentação histórica, objetos pessoais, exposições permanentes e espaços dedicados à memória nacional.

Além do seu valor simbólico, o Memorial tornou-se também um importante centro de promoção cultural, acolhendo exposições, visitas institucionais, atividades académicas e iniciativas literárias. A existência de uma livraria no espaço reforça essa missão pedagógica e cultural, permitindo o acesso do público a obras essenciais sobre Angola e os seus protagonistas.

Livros para pensar Angola

A disponibilização destas obras na livraria do Memorial Dr. António Agostinho Neto resulta de uma iniciativa do próprio Memorial, em articulação com os autores, que promoveram a colocação dos livros naquele espaço cultural de referência. A presença destes títulos reforça a missão do Memorial na valorização da memória, da reflexão histórica e do pensamento angolano contemporâneo, permitindo ao público acesso a obras fundamentais para compreender Angola e os seus desafios.

Regresso à música do Sul

Regresso à música do Sul

NOTAS DO EDITOR

Há geografias que permanecem na memória como um eco antigo. Há vozes que regressam como o mar. Com Faro e Enigmas, regressamos ao sul, a Moçâmedes, terra de vento, sal, deserto e poesia. É desse território de paisagens intensas que surge Elsa Major, uma voz que celebramos e revelamos.
Filha de uma grande família, nove meninas e três rapazes, cresceu entre leituras, canto e tradições populares. Ainda jovem integrou o Grupo Carnavalesco da Torre do Tombo, influenciada pelos pais e a família onde a música, o ritmo e a palavra começaram a moldar a sua sensibilidade artística.
Aos 12 anos ingressou na organização dos pioneiros de Angola, onde por meio de actividades culturais centradas na literatura nacional, desenvolveu de forma decisiva a sua formação. A sua vida cruza-se com a própria história nacional. Em 1975, no turbilhão da independência, o pai, pescador de atum, conduz a família na sua embarcação até Benguela e depois Luanda. Mais tarde regressaria ao lugar da origem pelo mesmo mar.
Estudou Linguística da Língua Portuguesa e tornou-se professora aos 17 anos, aprendendo com a mãe a disciplina do trabalho, guardada no segredo dos “dez anõezinhos”, as mãos.
O seu percurso foi marcado por uma carreira profissional tendo exercido funções de direcção em vários ministérios e assumindo funções de liderança desportiva. Iniciou-se como atleta de andebol, tendo-se depois tornado dirigente da Federação Angolana de Andebol. Foi ainda membro de organismos desportivos nacionais e africanos. Desempenhou também funções diplomáticas na África do Sul.
A poesia, porém, permaneceu sempre o seu território mais íntimo. O primeiro livro surge em 2010, nascido de rascunhos.
Agora, em Faro e Enigmas (2026), Elsa Major oferece-nos uma obra de maturidade poética. Amor, sensualidade, memória e paisagem africana atravessam estes poemas, onde o Namibe, o Atlântico e o deserto dialogam com o corpo e a alma.
Como escreve Sara Jona Laisse no prefácio, esta obra recorda-nos que “a vida é amiga da arte”, num encontro profundo entre experiência e criação.
Este livro é, acima de tudo, um regresso: um regresso à música do Sul.

Convite para o lançamento oficial em Portugal

A poetisa Elsa Major, a Embaixada da República de Angola em Portugal e o editor da Perfil Criativo | AUTORES.club têm o prazer de convidar V. Exa. para a apresentação em Portugal do livro:

FARO E ENIGMAS – POESIA

O evento terá lugar na quinta-feira, 30 de abril (2026), às 17h30, no Auditório 11 de Novembro, localizado na Rua Leopoldo de Almeida, 6-A, Lumiar, Lisboa.

Contamos com a sua presença!

Uma poesia que respira Angola e dialoga com o mundo

Matéria Negra

Matéria Negra

A mais recente obra do poeta angolano KalungaMatéria Negra, já se encontra disponível para encomenda, assinalando a chegada de um livro que promete marcar o panorama literário contemporâneo.

Reconhecido como uma das vozes mais marcantes da nova geração da República de Angola, Kalunga afirma-se hoje, em Portugal, como uma referência na intervenção cultural. A sua escrita, intensa e provocadora, posiciona-o no centro de um diálogo urgente entre memória e futuro.

Em Matéria Negra, o autor apresenta uma poesia densa e multifacetada, onde a palavra se transforma em instrumento de questionamento e criação. A obra percorre temas como o tempo, a dor, a esperança e a condição humana, conduzindo o leitor por territórios invisíveis da existência e desafiando-o a pensar para além do evidente.

Com uma linguagem fortemente imagética e filosófica, os poemas cruzam o íntimo e o coletivo, o sagrado e o quotidiano, levantando interrogações que ecoam muito para além da leitura, como a provocadora questão: “Como se semeia um humano?” 

Matéria Negra surge, assim, como um livro incontornável para quem procura uma poesia contemporânea comprometida, inquieta e transformadora.

O livro já pode ser encomendada na na loja online da Perfil Criativo | AUTORES.club, estando agora ao alcance de todos os leitores que desejam mergulhar na força e profundidade da palavra do poeta Kalunga (João Fernando André).

Biblioteca Palácio Galveias debate as origens da consciência angolana no século XIX

Biblioteca Palácio Galveias debate as origens da consciência angolana no século XIX

No passado dia 1 de abril de 2026, a Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, foi palco do encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, uma iniciativa centrada na apresentação do livro Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, de Tomás Lima Coelho.

O evento reuniu investigadores, escritores e público interessado numa reflexão aprofundada sobre um período decisivo da história de Angola, marcado pela introdução da imprensa, pela presença dos degredados, pela emergência dos primeiros intelectuais africanos e pela formação de uma consciência crítica que antecipa a ideia de nação. Ao longo da sessão, destacou-se o cruzamento entre literatura, história e pensamento político-cultural, num diálogo que permitiu revisitar os contextos, as vozes e os processos que contribuíram para a construção dos primeiros imaginários modernos angolanos.

No âmbito da cobertura do encontro, apresentamos agora os vídeos das intervenções dos convidados especiais, permitindo acompanhar de forma integral os principais momentos de reflexão e debate, com participações de Jorge ArrimarAlberto Oliveira PintoTomás Lima Coelho e João Fernando André.

A iniciativa confirmou a relevância de revisitar o século XIX angolano como momento fundacional de processos culturais e políticos que continuam a marcar o presente. Com a disponibilização dos registos audiovisuais, prolonga-se agora o alcance deste debate, permitindo que um público mais amplo aceda às ideias e interpretações partilhadas na Biblioteca Palácio Galveias.

Tomás Lima Coelho nos agradecimentos durante o encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, momento que serviu para a apresentação da obra Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe

Intervenção de Jorge Arrimar na apresentação do livro Chão de Kanambua, de Tomás Lima Coelho

Intervenção do historiador angolano Alberto Oliveira Pinto, uma das vozes mais dinâmicas na divulgação da História de Angola

João Fernando André (Kalunga): a voz crítica de uma nova geração angolana

Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Terceira Parte

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Terceira Parte

João Fernando André (Kalunga): literatura, história e consciência crítica de Angola

No passado dia 1 de abril, a Biblioteca Palácio Galveias recebeu o encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, momento que serviu para a apresentação da obra Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, de Tomás Lima Coelho.

Entre as intervenções, destacou-se a participação do académico angolano João Fernando André, conhecido no campo literário como Kalunga, escritor, consultor cultural e professor de língua portuguesa e literaturas, atualmente em fase final do seu doutoramento em Lisboa.

Uma leitura crítica do romance histórico

Partindo de uma abordagem sistemática da obra, João Fernando André propõe uma verdadeira “dissecação” do romance, destacando a sua densidade histórica e social.

A obra é apresentada como um romance histórico sobre o florescimento de Malanje, centrado nas relações entre autóctones, degredados e autoridades coloniais.

A narrativa estrutura-se através de memória e movimento, recorrendo a analépses e prolepses que acompanham a trajetória do protagonista Manuel Justino.

O romance oferece um panorama detalhado da sociedade angolana entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX.

Degredo, violência e formação da sociedade colonial

Um dos eixos centrais da intervenção prende-se com a análise do sistema de degredo e do seu impacto na formação social de Angola.

Os degredados são descritos como “indesejados do reino”, enviados para África como instrumento de colonização penal.

A obra revela uma sociedade marcada por exploração, desigualdade social, violência, preconceito e epistemicídio.

Apesar disso, evidencia também relações de fraternidade e humanidade entre degredados e populações locais.

Grande parte da riqueza colonial é apresentada como resultado do trabalho dos autóctones, que paradoxalmente eram os menos beneficiados pelo sistema.

Igreja, ciência e poder colonial sob crítica

A intervenção de João Fernando André destaca o forte teor crítico da obra face às instituições coloniais.

A Igreja surge, em várias passagens, como espaço de poder, injustiça e corrupção, incluindo denúncias de abusos e discriminação.

Os exploradores e cientistas europeus são criticados pela sua incapacidade de reconhecer a igualdade humana, sustentando práticas de superioridade racial e desumanização.

A obra denuncia a coisificação do homem africano e a desvalorização dos saberes endógenos.

Imprensa, pensamento e resistência

A intervenção sublinha ainda o papel histórico da imprensa em Angola.

Desde 1845, com a introdução da imprensa, surgiram dezenas de periódicos, muitos dos quais foram posteriormente encerrados pela administração colonial.

A imprensa é apresentada como espaço de luta contra o racismo e a desigualdade, protagonizada por elites locais e intelectuais africanos.

Entre história e simbolismo: Kanâmbua e Kangombe

João Fernando André chama a atenção para a dimensão simbólica da obra, expressa no título e no pós-título.

Kanâmbua representa o espaço de transformação e renascimento do protagonista.

Kangombe introduz uma dimensão mística, associada a forças sobrenaturais e à memória do trauma.

A obra articula duas narrativas paralelas: a história social de Manuel Justino e uma história simbólica mais profunda.

Literatura como espelho e intervenção

A leitura proposta por João Fernando André reforça a ideia de que a literatura ultrapassa o plano ficcional.

A obra funciona como “radiografia da sociedade colonial angolana”, revelando as suas contradições estruturais.

A literatura é entendida como instrumento de denúncia, memória e reflexão crítica.

Uma voz independente da nova geração

A intervenção confirma João Fernando André como uma das vozes mais consistentes da nova geração intelectual angolana.
Nascido já na República de Angola, afirma-se com um discurso crítico, informado e independente, afastado da propaganda oficial e comprometido com uma leitura profunda da história e da sociedade.

João Fernando André emerge como um verdadeiro embaixador cultural de Angola, articulando investigação académica, pensamento crítico e criação literária.

Brevemente: Matéria Negra

O autor desta intervenção, na voz do poeta Kalunga, prepara-se para apresentar em Portugal o seu novo livro de poesia, Matéria Negra, que deverá prolongar esta mesma linha de reflexão crítica e densidade simbólica.

Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)
Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)

Faro e Enigmas: a poesia que vem do Sul e atravessa o mundo

Faro e Enigmas: a poesia que vem do Sul e atravessa o mundo

Faro e Enigmas” – Novo livro de poesia de Elsa Major apresentado em Portugal a 30 de abril, no auditório 11 de novembro (Lumiar, Lisboa)

A poetisa angolana Elsa Major lança em Portugal a sua mais recente obra, Faro e Enigmas, um livro de poesia que afirma uma voz intensa, sensorial e profundamente enraizada na identidade cultural africana.

A apresentação oficial terá lugar no final do mês de abril, marcando o encontro entre a autora e o público português, num momento que celebra a literatura lusófona contemporânea e o diálogo cultural entre Portugal e Angola.

Uma poesia entre o corpo, a terra e a memória

Em Faro e Enigmas, Elsa Major conduz o leitor por uma viagem poética onde o amor, a sensualidade, a espiritualidade e a memória se entrelaçam com paisagens marcantes como o Namibe, o Atlântico e o deserto do Kalahari.

A obra revela uma escrita madura, onde a experiência de vida se transforma em linguagem simbólica e emocional, convocando todos os sentidos. Os poemas oscilam entre o íntimo e o coletivo, entre o corpo e a terra, entre o silêncio e a revelação.

Como sublinha a Nota do Editor, trata-se de um verdadeiro regresso à música do Sul, evocando Moçâmedes como espaço de origem, memória e criação, onde a poesia nasce da fusão entre vida, território e identidade.

Prefácios que iluminam a obra

O livro conta com prefácios que enriquecem a leitura e contextualizam a sua dimensão estética e humana.
A escritora Sara Jona Laisse destaca a força da obra ao sublinhar o diálogo entre vida e arte, evocando a ideia de que “a vida é amiga da arte”, numa reflexão que atravessa toda a construção poética do livro.
Já a interpretação sensível da fadista Katia Guerreiro reforça a dimensão emocional da obra, conduzindo o leitor por memórias, paisagens e afetos que ressoam para além das palavras, aproximando poesia e música numa experiência sensorial profunda.

Uma voz da lusofonia contemporânea

Com um percurso consolidado na poesia e participação em diversas antologias lusófonas, Elsa Major afirma-se como uma autora que cruza geografias, experiências e linguagens.
A sua escrita revela uma forte ligação à tradição oral, à cultura angolana e à expressão feminina contemporânea, tornando Faro e Enigmas uma obra relevante no panorama literário atual.

Público-alvo

O público-alvo de Faro e Enigmas centra-se em leitores adultos, sobretudo entre os 30 e os 65 anos, com interesse pela poesia contemporânea e pela literatura lusófona. Trata-se de um público sensível à linguagem simbólica, à expressão emocional e à reflexão sobre temas como o amor, a memória, a identidade e a espiritualidade.

A obra dirige-se também a leitores ligados à realidade cultural entre Angola e Portugal, incluindo a comunidade angolana e todos aqueles que se interessam por referências africanas, tradição oral e paisagem identitária. Paralelamente, encontra particular ressonância junto de mulheres leitoras que valorizam uma escrita intimista e sensorial.

Além do público leitor, o livro tem potencial de alcance junto de artistas, mediadores culturais e meio académico, dada a sua riqueza temática e estética, posicionando-se como uma obra relevante no panorama da poesia de língua portuguesa contemporânea.

Escritores de Portugal e Angola celebram Faro e Enigmas

A apresentação de Faro e Enigmas, no próximo 30 de abril, no auditório 11 de novembro (Lumiar), contará com a presença de dois convidados de reconhecido mérito literário, reforçando a dimensão cultural e a língua portuguesa.

Participará o escritor português Mário Máximo, convidado pela autora Elsa Major. Nascido em Lisboa, em 1956, possui uma vasta obra publicada nos géneros da poesia, romance, teatro, conto, crónica e ensaio, somando cerca de trinta livros. Figura destacada da promoção da cidadania de língua portuguesa e da lusofonia, desenvolveu intensa atividade cultural em Portugal e no espaço CPLP, sendo distinguido, entre outros reconhecimentos, com o Prémio Lusofonia 2017.

Convidado pela editora Perfil Criativo | AUTORES.club estará igualmente presente o escritor angolano João Fernando André, conhecido literariamente por Kalunga, doutorado em Literatura pela Universidade de Lisboa. Escritor, professor e consultor cultural, é autor de obras como Matéria Negra, Evangelho BantuO Dia em que uma Pedra Virou Lua e Lumbu – a Alquimia das Palavras. Com presença regular em jornais e antologias internacionais, destaca-se como uma das vozes jovens mais relevantes da literatura angolana contemporânea.

A participação destes dois autores confere à sessão de lançamento um especial significado, promovendo o diálogo entre gerações, geografias e sensibilidades literárias no espaço da língua portuguesa.

Faro e Enigmas — Poesia

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Segunda Parte

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Segunda Parte

Segunda parte de reportagem | Intervenção de Alberto Oliveira Pinto

Dando continuidade ao registo do encontro realizado no dia 1 de abril de 2026, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, este segundo texto de reportagem centra-se na intervenção do historiador angolano Alberto Oliveira Pinto, uma das vozes mais dinâmicas na divulgação da História de Angola.

Após a análise literária proposta por Jorge Arrimar, a intervenção de Alberto Oliveira Pinto trouxe ao debate uma leitura mais diretamente ancorada na investigação histórica, evidenciando como o romance Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe dialoga com processos reais e complexos do século XIX.

Leitura histórica de um romance

Alberto Oliveira Pinto começou por reconhecer o impacto da leitura da obra, confessando que desta vez a leu “de ponta a ponta”, sem interrupções, sublinhando o seu carácter envolvente e a capacidade de captar a atenção do leitor.

Destacou ainda que já recomendara o livro a várias pessoas, antecipando uma ampla receção e circulação da obra, sobretudo entre leitores interessados na História de Angola.

Temas centrais destacados

A intervenção do historiador organizou-se em torno de alguns eixos fundamentais que, segundo ele, fazem do romance um contributo relevante para a compreensão do século XIX:

Degredo e sistema penal

  • A obra evidencia o papel do degredo como instrumento central da política penal portuguesa.
  • Muitos dos degredados enviados para Angola estavam condenados por crimes como homicídio ou falsificação de moeda.
  • O degredo funcionava também como estratégia de ocupação e povoamento, incluindo o envio de famílias para o território.

Escravatura e tráfico

  • Distinção entre tráfico de escravos e sistema esclavagista interno, frequentemente confundidos.
  • Referência ao processo de abolição e às suas ambiguidades, sublinhando que o fim formal do tráfico não significou o desaparecimento imediato das práticas de exploração.

Dinâmicas comerciais e territoriais

  • O romance capta o momento de transição económica, entre o comércio de escravos e o chamado “comércio legítimo”.
  • Destaque para o papel de regiões como Cassange, que funcionavam como zonas de mediação e controlo das rotas comerciais.
  • Referência às feiras e redes africanas que estruturavam o comércio interno.

Expansão colonial e ocupação do interior

  • A narrativa acompanha o avanço das forças portuguesas para o interior, num contexto de reorganização do domínio colonial.
  • Integração de personagens em expedições militares e administrativas, refletindo processos históricos documentados.

Identidade e mestiçagem

  • Ênfase na formação de identidades híbridas, envolvendo africanos, europeus e descendentes de degredados.
  • Referência à presença, ainda difusa, de ideias libertárias, republicanas e maçónicas, que só se afirmariam plenamente no início do século XX.

Ficção e rigor histórico

O Prof. Doutor Alberto Oliveira Pinto sublinhou que o romance consegue articular, com consistência, elementos ficcionais e dados históricos, tornando-se um ponto de partida relevante para a reflexão académica e pedagógica.

Referiu mesmo que a obra poderá ser utilizada nos seus cursos sobre Angola, reconhecendo-lhe valor formativo e interpretativo.

Um final aberto à história

Um dos aspetos que mais destacou foi o enquadramento temporal do romance, que culmina em 1910, ano da implantação da República em Portugal. Este momento abre novas possibilidades de leitura, sugerindo continuidades e ruturas que poderiam ser exploradas em futuras narrativas.

O historiador confessou, aliás, a expectativa de uma continuação da obra, interessando-se pelo que poderá acontecer às personagens nesse novo contexto político.

Conclusão

A intervenção do historiador Alberto Oliveira Pinto reforçou a dimensão histórica do romance de Tomás Lima Coelho, mostrando como a literatura pode funcionar como instrumento de compreensão de processos complexos, como o degredo, a escravatura, a ocupação territorial e a formação de identidades.

Com uma leitura crítica e fundamentada, o historiador destacou Chão de Kanâmbua como uma obra relevante não apenas no campo literário, mas também no domínio da reflexão histórica sobre Angola.

Este segundo registo confirma a riqueza do encontro, onde diferentes abordagens, literárias e historiográficas, se cruzaram para pensar um dos períodos mais decisivos da história angolana.

Chão de Kanâmbua
Edição em papel de Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)
Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)