O professor catedrático Luís Nuno Rodrigues destacou hoje, 28 de Outubro, em sala de aula no ISCTE, em Lisboa, o rigor científico e a relevância histórica do livro Portugal e Angola: O Difícil Reencontro — Relações político-diplomáticas no pós-independência, 1976–1985, de Salomão Arão Chipeco, publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.club. A apresentação constituiu uma oportunidade para revisitar uma das décadas mais complexas das relações entre os dois países
Na sua intervenção Luís Nuno Rodrigues, que orientou a investigação de doutoramento que deu origem à obra e assina o respectivo prefácio, considerou que o livro representa «um contributo da maior relevância para o estudo das relações entre Portugal e Angola», abordando um período particularmente sensível e ainda insuficientemente explorado pela historiografia.
O académico começou por contextualizar a profunda transformação da política externa portuguesa depois do 25 de Abril de 1974 e da descolonização. Portugal, confrontado com o fim de um império que durante séculos condicionara a sua identidade e a sua presença internacional, procurava redefinir o seu lugar no mundo.
Segundo Luís Nuno Rodrigues, a política externa portuguesa passou a organizar-se em torno de três grandes eixos: a integração europeia, a dimensão atlântica e a reconstrução das relações com os novos Estados africanos independentes.
Da desconfiança à reconstrução do diálogo
Um dos aspectos mais importantes da intervenção foi a análise das dificuldades que marcaram o relacionamento entre Lisboa e Luanda após a independência de Angola, em Novembro de 1975.
O processo de descolonização, a guerra civil angolana, as divergências políticas e as relações de alguns protagonistas portugueses com diferentes movimentos políticos angolanos contribuíram para um ambiente de profunda desconfiança.
O professor recordou que Portugal apenas reconheceu a República Popular de Angola em Fevereiro de 1976 e que, poucos meses depois, as relações diplomáticas entre os dois países foram interrompidas.
Contudo, como demonstra a investigação de Salomão Arão Chipeco, os contactos nunca desapareceram completamente. Os interesses políticos, económicos e diplomáticos acabariam por criar condições para uma reaproximação gradual.
Neste processo, Luís Nuno Rodrigues destacou o papel determinante do Presidente da República português, general António Ramalho Eanes, cuja intervenção diplomática contribuiu para a recuperação da confiança entre os dois Estados.
Entre os momentos fundamentais desse percurso, recordou o encontro entre José Eduardo dos Santos e José Medeiros Ferreira, em Setembro de 1976, o apoio português à admissão de Angola nas Nações Unidas, o encontro entre Agostinho Neto e Ramalho Eanes, em Bissau, e a visita oficial do Presidente português a Angola, em Abril de 1982.
Uma investigação que ultrapassa as memórias políticas
Luís Nuno Rodrigues valorizou especialmente o extenso trabalho de investigação realizado pelo autor, que consultou arquivos diplomáticos, documentação governamental, correspondência oficial, discursos, imprensa portuguesa e angolana e numerosas fontes históricas.
Esta diversidade documental permitiu reconstruir os acontecimentos com rigor, confrontando diferentes perspectivas e ultrapassando interpretações frequentemente condicionadas por memórias políticas, silêncios institucionais e narrativas parcelares.
O académico salientou que o mérito da obra não está apenas na descrição dos acontecimentos, mas sobretudo na capacidade de explicar as decisões políticas e os factores que determinaram os avanços e recuos nas relações entre os dois países.
A intervenção abordou igualmente as dificuldades verificadas durante os sucessivos governos constitucionais portugueses, incluindo os governos da Aliança Democrática e do Bloco Central, demonstrando como a política interna portuguesa e a guerra civil angolana influenciaram permanentemente o relacionamento bilateral.
Um contributo para compreender cinquenta anos de relações entre Portugal e Angola
A publicação deste livro ganha particular significado no contexto das comemorações dos cinquenta anos da independência de Angola e da aproximação diplomática entre os dois Estados.
Ao transformar uma investigação académica numa obra acessível ao público, Salomão Arão Chipeco coloca à disposição de investigadores, estudantes, diplomatas, jornalistas e leitores interessados um importante instrumento para compreender as raízes históricas das relações luso-angolanas.
Na parte final da sua intervenção, Luís Nuno Rodrigues deixou ainda palavras de reconhecimento pelo trabalho editorial da Perfil Criativo | AUTORES.club, destacando a qualidade gráfica da publicação, a capa, as ilustrações e o cuidado colocado na produção do livro.
A apresentação no ISCTE voltou assim a demonstrar a importância de publicar e divulgar investigação histórica fundamentada, contribuindo para um conhecimento mais profundo das relações entre Portugal e Angola.
Mais do que revisitar um passado marcado por dificuldades e desconfianças, Portugal e Angola: O Difícil Reencontro convida os leitores a compreender como dois países, depois de uma ruptura histórica profunda, começaram a reconstruir as suas relações políticas e diplomáticas.
Doutoramento em História, Estudos de Segurança e Defesa Doutoramento em História Moderna e Contemporânea
Perfil Criativo | AUTORES.club — Lisboa, 28 de Outubro de 2026
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A propósito do livro Angola: Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023), o economista e antigo ministro da Economia analisa os desafios da governação angolana. Entre os temas abordados estão a aplicação dos recursos públicos e a distância entre as verbas previstas para sectores essenciais, como a educação e a saúde, e a sua execução efectiva.
Publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club, a obra prolonga este debate e convida os leitores a reflectir sobre uma pergunta que diz respeito a toda a sociedade: como transformar as decisões políticas em melhores condições de vida para os angolanos?
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Windhoek, 22nd October 2026 —TheNational Library of Namibia (NL) has welcomed the donation of the Portuguese edition of «The Bantu in Mafrano’s Version – Almost Memories», a significant cultural and anthropological work by the late Angolan writer and ethnologist Maurício Francisco Caetano (1916–1982).
Donated through the Embassy of Angola in Namibia on 31 August 2026, the collection represents a valuable contribution to the preservation of Angola’s literary and cultural heritage and the documentation of Bantu history, traditions and social life.
The National Library has expressed its willingness to assist with venue arrangements for the forthcoming launch of the English edition in Windhoek, which will make the work accessible to a wider readership.
The donation underscores the importance of cultural cooperation and the preservation of historical knowledge across national and linguistic boundaries. The National Library welcomes this gesture and reaffirms its commitment to promoting access to information resources and safeguarding literary and cultural heritage for present and future generations. The handover and discussions were done with National Library of Namibia staff members.
Windhoek, 22 de Outubro de 2026 — A Biblioteca Nacional da Namíbia, em Windhoek, manifestou nesta quinta-feira, 22 de Outubro, total disponibilidade em acolher a cerimónia de lançamento da próxima versão na língua inglesa da colectânea póstuma angolana «Os Bantu na Visão de Mafrano – Quase Memórias», do escritor e etnólogo Maurício Francisco Caetano (1916-1982), Prémio Nacional de Cultura e Artes 2024.
A garantia foi prestada esta manhã na capital namibiana durante um encontro que serviu para selar depósito legal, e o autógrafo, da versão em português desta mesma obra, oferecida à Biblioteca Nacional no passado dia 31 de Agosto, através da Embaixada de Angola. Participaram no encontro de hoje as senhoras Aina Sakaria e Maria Nepolo, ambas assistentes da Direcção-Geral da Biblioteca Nacional da Namíbia, enquanto que pela família do autor angolano esteve presente o jornalista e escritor José Soares Caetano, autor secundário da referida obra.
Prevista para aparecer ao público até aproximadamente 200 páginas, contra as 800 da versão original em português, a edição inglesa de «Os Bantu na Visão de Mafrano» será editada em data a anunciar em Luanda e em Windhoek num formato reduzido que continuará a ter como foco a civilização Bantu, incluindo temas como o matrimónio entre os povos bantu, a formação profissional, a solidariedade humana, a sucessão por morte, a vida social, usos, costumes, tradição política e outras questões de interesse social.
A Biblioteca Nacional da Namíbia voltou a agradecer a oferta, e manifestou total disponibilidade em prosseguir contactos regulares com a família do escritor angolano até ao lançamento desta obra, em Windhoek.
O encontro serviu também para dar a conhecer a biografia do autor e os passos empreendidos pela família para a recuperação dos textos então dispersos em jornais e revistas publicados em Angola, entre 1947 e 1982, com enfase para «O APOSTOLADO», «ANGOLA NORTE», «O ANGOLENSE» e a Revista «ANGOLA» da Liga Nacional Africana de que era um colaborador assíduo.
Num encontro de cortesia realizado dias antes na Embaixada de Angola na Namíbia, também foi garantido o empenho desta Missão diplomática para o sucesso da cerimónia de lançamento da versão inglesa de «Os Bantu na visão de Mafrano», em Windhoek.
Dividida em três volumes, a versão portuguesa de «Os Bantu na Versão de Mafrano – Quase Memórias» foi prefaciada pelo já falecido arcebispo emérito do Lubango, Dom Zacarias Kamwenho, e apresentada solenemente na Universidade Católica de Angola (UCAN), em Luanda, no dia 14 de Maio de 2022.
«Aquele senhor é angolano e dá aulas, aqui…»
Chama-se Alfredo Khianda, tem 31 anos de idade, é angolano, residente em Windhoek, há mais de dez anos e ministra aulas de inglês na Biblioteca Nacional da Namíbia, em Windhoek.
Conhecemo-nos por um mero acaso, na manhã desta quinta-feira, dia 22 de Outubro, nos corredores da Biblioteca Nacional da Namíbia, em Windhoek, onde estivemos com o propósito de testemunhar o depósito legal, e, autografar, também, o Volume III da versão em português da colectânea póstuma angolana «OS BANTU NA VERSÃO DE MAFRANO – QUASE MEMÓRIAS», do escritor e etnólogo Maurício Francisco Caetano (1916-1982).
Foi Aina Sakaria, uma das assistentes da direcção-geral da Biblioteca Nacional da Namíbia quem nos informou, depois de o ver a circular pelo corredor desta instituição:
«Aquele senhor é angolano e dá aulas, aqui…».
«Posso conhecê-lo…?», perguntei, sem resistir à curiosidade.
Alfredo Khianda foi chamado e compareceu diante de nós. Trocamos contactos, depois de o ter informado sobre o que me levou até à Biblioteca Nacional da Namíbia.
Mas, o nosso KHIANDA, não é apenas professor de inglês.
«Sou paramédico, formado em Serviços Médicos de Emergência , e também dou aulas neste ramo», disse-me ele.
No final da nossa breve conversa, Alfredo Khianda aceitou o nosso amável Convite para assistir à próxima cerimónia de Windhoek, onde tencionamos apresentar ao mundo a versão inglesa de «OS BANTU NA VISÃO DE MAFRANO» em aproximadamente 200 páginas!
A preparação da edição em língua inglesa de Os Bantu na Visão de Mafrano, de Maurício Francisco Caetano, representa uma oportunidade para levar o pensamento e o legado cultural do autor a novos leitores, investigadores e universidades, ampliando o conhecimento sobre Angola e as culturas bantu. Este esforço da família de Mafrano merece ser acompanhado por um compromisso efectivo das instituições angolanas: é tempo de dar um passo em frente e apoiar a tradução, a edição e a divulgação internacional desta obra. Valorizar este património é também investir na projecção de Angola como país que produz conhecimento, preserva a sua memória e partilha com o mundo a riqueza das suas culturas. Mais do que uma iniciativa familiar, este projecto deve ser reconhecido como uma causa de interesse cultural nacional, capaz de reforçar positivamente a imagem da República de Angola no mundo.
Publicamos o discurso de Fernando Jorge Cardoso no lançamento oficial de Mitos Económicos de Angola, de Óscar da Mata, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa. Uma intervenção que convida à leitura de uma obra que tem despertado muita curiosidade e alimentado um forte debate nos bastidores.
O livro Mitos Económicos de Angola será apresentado em Luanda, no início de Novembro, na Universidade Católica de Angola. Entretanto, em Lisboa, está já a ser preparada a segunda edição, prolongando um debate sobre as ideias e as escolhas que condicionam o futuro económico de Angola.
Fernando Jorge Cardoso é economista e professor catedrático convidado da Universidade Autónoma de Lisboa. Doutorado e agregado em Economia pelo ISEG, desenvolve investigação sobre desenvolvimento, geoeconomia e segurança, com especial atenção ao continente africano. Foi director da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, e tem uma vasta experiência de investigação e consultoria em países africanos, incluindo Angola. É autor de mais de uma centena de publicações.
Lisboa, Palácio Galveias, 3 de setembro de 2026
FERNANDO JORGE CARDOSO, Professor Catedrático da Universidade Autónoma de Lisboa
Boa tarde.
Começaria por uma nota pessoal.
Conheci pela primeira vez o Oscar da Mata nos finais do século passado ele na qualidade de estudante, eu de docente. Entretanto, encontrámo-nos e conversámos algumas vezes, principalmente em Luanda, momentos de que guardo boa memória. Reencontramo-nos agora em Lisboa – ele na qualidade de autor, eu de apresentador do seu livro.
Mitos Económicos de Angola não é um tratado académico de economia. É, como o subtítulo prudentemente indica, um «ensaio sobre liberdade ecriação de riqueza».
O livro é deliberadamente polémico e defende uma tese. Percebemos que o Oscar da Mata escreveu este livro porque considera que algumas ideias enraizadas na sociedade angolana precisam de ser discutidas.
É convicção do autor de que muitas das dificuldades económicas de Angola não resultam da escassez da oferta, nem sequer principalmente dela. Resultam essencialmente de ideias equivocadas sobre o funcionamento da economia que, repetidas durante décadas, acabaram por adquirir o estatuto de verdades quase evidentes – conhecendo um pouco o país, acrescentaria: convenientes também…
Ao longo das suas diferentes partes, o autor discute sucessivos «mitos»:
— Que a inflação decorre fundamentalmente da escassez da produção local;
— Que basta aumentar as taxas de juro para a combater;
— Que o controlo administrativo dos preços protege os consumidores;
— Que os subsídios crónicos são indispensáveis ao progresso económico;
— Que a criação de emprego público é a principal forma de combater o desemprego;
— Que o Estado deve controlar as margens de lucro das empresas;
— Que o planeamento centralizado é indispensável ao crescimento;
— Que aumentar impostos significa necessariamente aumentar receitas;
— Que o socialismo é o sistema que melhor protege os pobres.
Um primeiro mérito do livro é o fio condutor e a clareza do seu argumento principal ou seja, a defesa da liberdade económica contra o excesso de intervenção administrativa do Estado.
A história contemporânea de Angola é marcada primeiro por uma economia colonial fortemente administrada; depois da independência, por uma experiência de economia centralmente planificada, num contexto de duas guerras simultâneas, uma de agressão externa, outra civil; e, finalmente, após o fim da guerra, pela transição para uma economia de mercado tutelada pelo Estado. Neste contexto, interrogar os pressupostos da intervenção estatal é não só legítimo, mas também necessário, até porque, quem conhece Angola, sabe que as aberturas políticas e económicas foram operadas sem mudança de regime – situação, aliás, bastante comum a muitos países, africanos e não africanos, no pós-Guerra Fria.
Um segundo mérito é que nos obriga a pensar sobre o papel dos incentivos:
— Os indivíduos respondem a incentivos;
— As empresas respondem a incentivos;
— Os funcionários públicos respondem a incentivos;
— Os investidores respondem a incentivos.
Ignorar esta realidade na formulação de políticas económicas pode produzir resultados opostos aos pretendidos, precisamente porque essas políticas alteram incentivos e, através deles, condicionam os comportamentos dos agentes económicos.
É uma velha lição da economia, mas é uma lição que os decisores políticos tendem frequentemente a esquecer – ou a desconsiderar. Em Angola também.
Um terceiro mérito é a insistência do autor em que a riqueza tem de ser criada antes depoder serdistribuída.
Parece uma banalidade. Mas não é.
Sobretudo em economias assentes na exploração de recursos naturais, é muito fácil confundir a apropriação de uma renda com a criação de riqueza. Receber receitas provenientes da exportação de petróleo não é exatamente a mesma coisa que construir uma economia capaz de produzir sustentadamente bens e serviços, aumentar a produtividade, inovar, criar empresas e emprego e elevar o rendimento das famílias. E esta distinção parece particularmente evidente no caso angolano.
Salientados estes méritos, gostaria de colocar algumas questões que a leitura me suscitou.
Uma dessas questões é de natureza económica. Ao ler o livro, ocorreu-me repetidamente uma pergunta: quais são as referências do pensamento económico do autor?
Duas referências vieram-me imediatamente à cabeça: Friedrich Hayek eMilton Friedman.
Comecemos por Hayek.
Há uma ideia profundamente hayekiana que atravessa o livro: ninguém, nem mesmo o mais competente dos governos, possui toda a informação necessária para dirigir uma economia complexa. O conhecimento encontra-se disperso por milhões de indivíduos e empresas. E o sistema de preços constitui precisamente um mecanismo através do qual essa informação dispersa é transmitida e utilizada.
Quando o autor critica preços administrados, margens definidas burocraticamente, subsídios que distorcem sinais ou decisões centralizadas sobre aquilo que deve ser produzido, encontramos esta intuição fundamental de Hayek: o preço não é apenas aquilo que se paga por uma mercadoria; é também informação.
Alterar administrativamente um preço significa, portanto, alterar o sinal que produtores e consumidores recebem.
Assim, Hayek dá-nos sobretudo uma explicação da razão pela qual uma ordem descentralizada pode utilizar melhor o conhecimento disperso pela sociedade do que um sistema de planificação central.
Faço aqui um parêntesis para lembrar que Hayek, detentor de um prémio Nobel, é o nome mais sonante da escola austríaca de pensamento económico criada por Ludwig von Mises – não é de admirar que o autor se insira nesta corrente de pensamento, afinal de contas ele é um colaborador ativo do Instituto Mises em Portugal…
Mas o livro também se alinha com alguns dos postulados defendidos pela Escola de Chicago, no caso pelo seu principal expoente, Milton Friedman.
Friedman partilha com Hayek a defesa da liberdade individual, da propriedade privada e dos mercados competitivos. Mas acrescenta-lhe um conjunto muito mais concreto de proposições sobre política monetária — bem evidentes neste livro.
Para Friedman, a inflação persistente não pode ser compreendida sem olhar para a
quantidade de moeda e para a política monetária. Esta deslocação do olhar — da explicação da inflação centrada na escassez física de bens para a procura das suas causas monetárias —está claramente próxima de uma das teses centrais que Oscar da Mata defende.
Mas a afinidade intelectual com Friedman vai bastante além do monetarismo.
Encontramos também a sua desconfiança relativamente à capacidade do Estado para substituir decisões descentralizadas; a preferência por regras gerais e previsíveis em lugar da discricionariedade administrativa; a defesa da concorrência; a crítica a muitos controlos de preços; a preocupação com os efeitos perversos de subsídios e de determinados impostos; e, sobretudo, a ideia de que a liberdade económica não é apenas um instrumento de eficiência: constitui ela própria uma dimensão da liberdade individual.
Atenção que ao referir Friedman, estou a situar-me no plano das afinidades do pensamento económico, e não a atribuir ao autor as opções políticas ou experiências históricas posteriormente associadas à Escola de Chicago.
Poderia acrescentar ainda uma terceira linha de raciocínio que encontro na obra, neste caso\ menos sobre pensamento teórico, mais sobre modelos e postulados de políticas económicas.
Refiro-me ao “Consenso de Washington”.
Quando John Williamson criou a expressão, em 1989, não estava a propor uma nova teoria económica nem sequer a escrever um manifesto neoliberal. Procurava identificar um conjunto de reformas sobre as quais considerava existir então um razoável consenso entre as instituições económicas sediadas em Washington acerca dos problemas que enfrentavam, em particular, as economias latino-americanas dos anos 1970 e 1980: inflação elevada, défices públicos, crises da dívida, protecionismo, empresas públicas frequentemente ineficientes e mercados fortemente regulamentados. Políticas semelhantes viriam depois a originar programas de ajustamento estrutural, bem conhecidos em África.
Williamson admitia, porém, um papel importante para o Estado, incluindo investimento público em infraestruturas e despesa em educação e saúde. Ele viria a insistir que disciplina macroeconómica não era sinónimo de monetarismo e que a redução de um Estado sobredimensionado não significava a criação de um Estado mínimo.
Porém, como bem sabemos, os documentos, com o tempo, tornam-se independentes do criador e das suas opiniões. Na verdade, o termo “Consenso de Washington” ganhou vida própria e tornou-se sinónimo de um programa de reformas a que genericamente chamamos neoliberalismo.
Chegado aqui deixem-me acrescentar uma consideração pessoal, que faço sem esconder alguma ironia e também admiração pela coragem do autor que, não obstante a moderação e a racionalidade dos seus argumentos, colocou-se bem perto da “fogueira” onde, ainda hoje, alguns queimam, simbolicamente claro, “hereges” acusados de simpatias neoliberais.
Talvez esses não saibam que o neoliberalismo não é uma teoria económica, é uma ideologia. Oscar da Mata situa-se no campo da teoria política económica.
Apesar de ter trazido propositadamente esta consideração à apresentação, para lhe dar um pouco de “salero”, irei continuar a minha apreciação da obra sem qualificações deste tipo, que prejudicam mais do que favorecem o debate. Sabemos que os mercados precisam de instituições para funcionar. A concorrência não nasce espontaneamente da privatização. Mercados eficientes pressupõem governação eficiente. E um monopólio público pode ser privatizado e continuar a ser um monopólio. É neste aspeto que encontramos o oposto de mercado, que é monopólio e não é “Estado”.
E aqui, na relação entre público e privado, tlvez residam algumas diferenças entre proposições do livro e o que sabemos sobre processos de desenvolvimento no Leste asiático.
Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e, de forma muito diferente, a China não se desenvolveram porque o Estado se retirou da economia. O regime chinês, aliás, continua a definir-se como comunista, e o país é governado por um partido leninista – tal como o Vietname, aliás. E, não obstante, neste caso os pobres têm ficado mais ricos. Mas deixemos essa discussão para outra ocasião.
As experiências no Leste asiático são diferentes, mas têm algo em comum: Estados com elevada capacidade de intervenção económica.
Coreia do Sul e Taiwan orientaram recursos, promoveram exportações e disciplinaram empresas; Singapura combinou uma economia muito aberta com uma forte orientação estatal; e a China introduziu progressivamente mecanismos de mercado sem abdicar da direção económica do Estado.
O problema, portanto, talvez não seja saber se queremos mais ou menos Estado, mas sim quetipo de Estado temos, que capacidade possui e para o quê e a quem serve.
Falemos agora de instituições. O autor sabe — e diz — que as economias não existem num vazio político. Nada mais certo.
A própria conclusão do livro nos conduz nessa direção. O autor termina insistindo em instituições, previsibilidade, propriedade, responsabilidade, confiança e liberdade económica.
Oscar Mata pergunta: de onde vêm essas instituições?
E responde dizendo que as instituições resultam de processos eminentemente sociais. Tal é, genericamente, observável. Mas, na sua criação ou posteriormente, intervém quase sempre, uma síndrome que tem acompanhado o Homo Sapiens sempre que tem poder: a pulsão para moldar, controlar ou apropriar-se das instituições em função dos seus interesses.
Ou seja, a argumentação do autor que a génese das instituições tem a ver com necessidades que se impõem e que elas sobrevivem porque são economicamente eficientes, necessita de alguma qualificação. Na verdade, sempre que as sociedades são frágeis ou não dispõem de mecanismos eficazes de controlo, muitas instituições tendem a ser criadas, moldadas ou utilizadas como instrumentos de poder – não meramente económico, mas eminentemente político e, não raramente, servindo intuitos pessoais.
Para comprovarmos isto basta, aliás, perguntarmos:
— Quem decide os subsídios?
— Quem beneficia dos contratos públicos?
— Quem recebe crédito?
— Quem consegue uma licença de importação?
— Quem obtém acesso à terra?
— Quem beneficia de uma privatização?
— Quem controla uma empresa pública?
— Quem consegue transformar proximidade política em oportunidade económica?
— E, inversamente, que instituições existem para assegurar que as mesmas regras se aplicam a todos?
E aqui encontramos, creio, uma questão central para Angola: a razão pela qual não é viável uma separação entre economia e política.
A liberdade económica que o autor reivindica pressupõe condições políticas einstitucionais que permitam que essa liberdade seja efetivamente exercida por todos, e não apenas por aqueles que dispõem de acesso privilegiado ao poder. E, atenção, agora digo isto não para discordar do Óscar que, aliás, suspeito que sabe muito bem do que falo.
Por outras palavras, a análise económica não é separável da realidade política. E esta asserção conduz-me a duas questões que atravessam as diferentes formas de governação e de exercício do poder —em todo o mundo e, seguramente, em Angola também: a ética e acorrupção.
Comecemos pela ética.
A ética não é apenas uma questão individual, nem uma espécie de ornamento moral que acrescentamos à economia depois de resolvidos os problemas da eficiência. Coloca uma questão prévia: que limites devem existir no exercício do poder político e económico,mesmo quando determinados comportamentos são formalmente legais?
Nem tudo o que é legal é necessariamente legítimo. Nem tudo o que uma instituição permite é necessariamente eticamente aceitável. E nenhuma arquitetura institucional, por mais sofisticada que seja, elimina inteiramente a necessidade de responsabilidade individual no exercício do poder. A experiência angolana dar-nos-ia certamente bastante matéria para desenvolver esta questão.
A corrupção coloca-nos num patamar diferente.
Ela é, evidentemente, uma questão ética e jurídica. Mas é também — e para a discussão deste livro — uma questão de economia política.
E aqui podemos regressar a uma das argumentações mais interessantes discutidas pelo autor: a dos incentivos.
E porquê? Porque a corrupção é também um sistema de incentivos.
Se o acesso ao poder, ou a proximidade de quem o exerce, proporcionar uma remuneração esperada superior à inovação, ao investimento produtivo, à concorrência ou ao risco empresarial, os agentes económicos adaptarão racionalmente o seu comportamento a esse sistema de incentivos.
Em vez de competir pela criação de riqueza, pode tornar-se mais vantajoso competir pelo acesso à renda.
Em vez de investir na produtividade de uma empresa, pode tornar-se mais rentável investir na relação com quem decide uma licença, um contrato, um crédito, uma concessão ou uma privatização.
E, quando isso acontece de forma suficientemente generalizada, a corrupção deixa de poder ser entendida apenas como o comportamento desviante de alguns indivíduos. Articulada com mecanismos de clientelismo e patronagem, a corrupção pode transformar-se num mecanismo de distribuição de rendas, de construção de dependências, de recompensa de lealdades e, no limite, de reprodução do próprio poder.
É precisamente por isso que esta questão assume uma importância particular nas economias dependentes de recursos naturais.
E, a propósito de ética, corrupção e recursos, não posso deixar de lembrar que a principal fonte de receitas externas e de financiamento do Estado angolano é o petróleo.
Quando uma parcela muito significativa dos recursos à disposição do Estado não provém da tributação da atividade económica interna, mas de uma renda externa, apropriada e distribuída pelo Estado, a disputa pelo acesso ao Estado pode tornar-se economicamente tão importante como a disputa pelo mercado.
Há aqui ainda um efeito político importante. Quando o Estado depende pouco da tributação dos cidadãos para financiar-se, enfraquece-se um dos mecanismos através dos quais as sociedades exigem prestação de contas aos governos. Num Estado rentista, a relação pode parcialmente inverter-se: em vez de o Estado depender fiscalmente da sociedade, é uma parte importante da sociedade que passa a depender do acesso aos recursos distribuídos pelo Estado.
E regressamos, assim, a distinções que o próprio autor faz: apropriar-se de uma renda nãoéo mesmo que criar riqueza; os incentivos não existem apenas no mercado. Existem igualmentenapolítica e nasrelações entre política e economia.
E isso transporta-nos finalmente para o terreno onde estas questões se encontram: oda governaçãoedopoder.É aí que, em última análise, se define o modelo de desenvolvimento e de sociedade que tem vindo a ser construído em Angola – para ser claro, um modelo que permanece estruturalmente rentista, não obstante as reiteradas intenções de diversificar a economia.
Por isso, talvez eu dissesse que este livro constitui menos um ponto de chegada do que um excelente ponto de partida.
Tem o mérito de incomodar.
Tem o mérito de questionar ideias instaladas.
Mas deixa-nos também perante uma pergunta óbvia: como construir, em Angola, uma economia simultaneamente mais livre, mais produtiva emais inclusiva, quandoa estrutura da economia e a estrutura do poder estiveram durantetanto tempo profundamente interligadas?
Neste livro, o autor dá-nos uma parte da resposta.
Cabe aos leitores — e sobretudo aos angolanos — continuar a discussão.
E talvez seja esse, afinal, um dos maiores elogios que se pode fazer a um livro: terminarmos a última página não com a sensação de que a discussão acabou, mas com vontade de a recomeçar.
Obrigado, Wakolapo, Kizakulu, Matondo, Sakuili.
Na mesa de honra o editor, o autor, Oscar da Mata, e o apresentador da obra Fernando Jorge Cardoso
Manuel Neto Costa esteve na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, para uma conversa sobre as decisões que condicionam o desenvolvimento de Angola. A apresentação do seu livro Angola: Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023) reuniu o autor, o jornalista Xavier de Figueiredo e o investigador Rui Verde, com participação do público e uma intervenção de Armindo Laureano, a partir de Luanda
A distância entre os investimentos anunciados e as condições concretas de vida da população marcou o encontro «Angola: Que Escolhas para o Futuro?», promovido pela Perfil Criativo | AUTORES.club em 15 de Outubro, na Biblioteca Palácio Galveias. Num formato de conversa e entrevista ao vivo, a sessão colocou em discussão o investimento produtivo, o emprego, as prioridades da despesa pública, a confiança nas instituições e o papel da imprensa independente.
Na abertura, o editor João Ricardo Rodrigues explicou o sentido do encontro: criar um espaço onde diferentes experiências e opiniões pudessem contribuir para uma reflexão sobre o país. A apresentação de um livro seria, assim, o ponto de partida para ouvir perguntas, críticas e propostas.
«Estamos longe da nossa terra natal, mas Angola nunca está verdadeiramente longe de nós», afirmou. Evocando as notícias de grandes obras e novos investimentos, mas também os relatos de familiares e amigos sobre o custo de vida, a falta de oportunidades e a pobreza, deixou as perguntas que orientariam a conversa: «Estão a fazer as escolhas certas? Estão a investir nas prioridades certas? E como podem transformar os recursos de Angola em desenvolvimento que chegue efectivamente aos angolanos?»
Uma edição que venceu dois anos de dificuldades
João Ricardo Rodrigues recordou que a publicação nasceu no seguimento de uma iniciativa do Novo Jornal, reconhecendo o contributo do seu director, Armindo Laureano. O projecto sofreu um atraso de cerca de dois anos, durante os quais as circunstâncias e o enquadramento editorial se alteraram, obrigando a encontrar novas soluções.
Publicado em 2026 e já apresentado em Luanda, na Academia BAI, o livro chegou a Lisboa para um encontro há muito desejado.
«Conseguir publicar um livro que questiona as políticas públicas e convida os cidadãos a discutir as decisões dos seus governantes é uma responsabilidade editorial que assumimos com particular orgulho», salientou o editor.
A obra reúne 52 artigos publicados no Novo Jornal entre Setembro de 2021 e Setembro de 2023, organizados em oito capítulos. A dependência do petróleo, o Orçamento Geral do Estado, a corrupção, a inflação, o investimento privado e a diversificação económica cruzam-se com questões directamente ligadas à vida dos cidadãos, como a educação, a saúde, os serviços públicos e a desigualdade social.
Da experiência governativa ao escrutínio público
Economista formado pela Universidade Agostinho Neto e mestre em Assuntos Internacionais pela Universidade Columbia, Manuel Neto Costa foi Secretário de Estado do Tesouro, Secretário de Estado para o Planeamento e Ministro da Economia e Planeamento. Essa experiência no interior da administração pública deu particular significado às perguntas iniciais do editor: como viveu o exercício de publicar livremente análises críticas depois de desempenhar responsabilidades governativas e que importância atribui a uma imprensa independente?
Na resposta, o autor sublinhou o valor da independência técnica e apresentou a escrita como uma forma de continuar a contribuir para a discussão dos problemas do país. Destacou também o papel da imprensa no escrutínio das políticas públicas e na abertura do debate à sociedade.
A expressão «derivas», que dá título à obra, ganhou depois uma explicação concreta: na perspectiva de Manuel Neto Costa, os resultados podem ser comprometidos por diagnósticos incorrectos, por soluções inadequadas ou por ambos. A qualidade das instituições e as condições de execução das políticas são, por isso, determinantes para compreender a distância entre os objectivos anunciados e os efeitos alcançados.
Investir, criar emprego e recuperar a confiança
Xavier de Figueiredo centrou a sua intervenção nas condições necessárias para atrair investimento. O jornalista e escritor chamou a atenção para a segurança jurídica, a aplicação das leis e os obstáculos burocráticos, destacando o papel dos pequenos e médios investidores na criação de riqueza e emprego.
Manuel Neto Costa colocou a fome, a pobreza e os rendimentos das famílias no centro da resposta. Defendeu a necessidade de investimento produtivo com horizonte de longo prazo e questionou a eficácia de medidas pontuais quando permanecem por resolver problemas estruturais.
A discussão estendeu-se à qualidade da despesa pública e à sua capacidade de melhorar infra-estruturas, formar pessoas e apoiar a actividade económica. Mais do que avaliar intenções, o autor propôs olhar para os resultados das decisões e para a sua tradução em melhores condições de vida.
Rui Verde trouxe ao debate a leitura dos indicadores económicos, alertando para a necessidade de distinguir alterações reais na economia de mudanças nas metodologias estatísticas. Sublinhou a importância de conhecer os critérios de construção dos números e de assegurar comparações rigorosas antes de retirar conclusões sobre os progressos do país.
A diferença entre a letra das leis e a sua aplicação prática foi outro dos temas abordados, pela influência que exerce sobre a confiança dos cidadãos, dos empresários e dos investidores.
A imprensa como espaço de liberdade
A partir de Luanda, Armindo Laureano recordou a colaboração de Manuel Neto Costa com o Novo Jornal, destacando a regularidade dos seus textos, a liberdade com que foram publicados e o interesse despertado junto de diferentes leitores.
O director enquadrou a obra como o registo de uma primeira etapa dessa colaboração e valorizou a presença de uma voz crítica com experiência governativa no espaço de opinião do jornal. A publicação em livro permite agora reler esses artigos em conjunto, relacionar temas e prolongar uma discussão que ultrapassa a actualidade em que cada texto foi escrito.
As intervenções da assistência alargaram a conversa à educação, à preparação dos jovens para o mercado de trabalho e às perspectivas de futuro das famílias. Os obstáculos quotidianos à actividade produtiva também foram abordados, aproximando o debate económico das dificuldades concretas de quem procura produzir, trabalhar e investir.
Um convite para continuar a conversa
Na abertura, João Ricardo Rodrigues agradeceu o acolhimento da Câmara Municipal de Lisboa e da equipa da Biblioteca Palácio Galveias, assim como o acompanhamento da Rádio Marginal e da Rádio France Internacional. Destacou ainda o contributo de Víctor Hugo Mendes, cujo canal de YouTube, VHMendes, assegurou a transmissão em directo, permitindo acompanhar o encontro à distância, nomeadamente em Angola.
«Não esperamos encontrar hoje todas as respostas. Mas esperamos sair daqui com melhores perguntas, mais conhecimento e, sobretudo, com vontade de continuar esta discussão», afirmou João Ricardo Rodrigues.
A sessão concretizou o propósito anunciado pelo editor: fazer da apresentação uma conversa aberta, plural e participada. O livro de Manuel Neto Costa ficou no centro desse exercício, como instrumento para compreender problemas, confrontar escolhas e discutir alternativas.
Lamentamos os eventuais transtornos e agradecemos a compreensão da Direcção da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, dos nossos convidados especiais, da comunicação social, dos amigos e dos leitores.
O livro encontra-se disponível na loja online da editora, em www.AUTORES.club.
Dança, música, canto e boa disposição marcaram a apresentação de «AKOMBE», pela Companhia de Artes Kupolo Njila, no renovado Nacional Cine-Teatro, em Luanda. Fomos ver e gostámos: um reencontro com a alegria num palco que guarda uma parte importante da memória cultural da cidade. Foi pena a sala não estar cheia
O Nacional voltou a receber artistas e público, e com eles regressaram a música, a dança e as gargalhadas. No dia 10 de Outubro, a Companhia de Artes Kupolo Njila apresentou «AKOMBE», integrado no programa de reabertura deste espaço histórico, conhecido por muitos luandenses pela sua ligação à Associação Cultural Chá de Caxinde.
Foi uma noite de celebração, com a energia dos artistas a dar vida ao palco e a proporcionar momentos de alegria e boa disposição. Entre dança, música e canto, o espectáculo recordou como as artes podem criar uma ligação imediata entre quem se apresenta e quem assiste. A nossa impressão foi clara: gostámos e queremos voltar.
Esta apresentação aconteceu dois dias depois da reabertura oficial do Nacional, realizada a 8 de Outubro de 2026, após obras de reabilitação e modernização. A intervenção melhorou as condições de conforto, segurança e funcionamento do edifício, preservando as características Art Déco que fazem parte da sua identidade.
Um palco com quase um século de história
Inaugurado em 1 de Janeiro de 1932, o Nacional Cine-Teatro atravessou diferentes épocas da vida de Luanda e tornou-se uma referência para o cinema e as artes de palco. A sua importância foi oficialmente reconhecida em 27 de Setembro de 1994, quando foi classificado como Património Histórico-Cultural. No ano seguinte, a Associação Chá de Caxinde assumiu a gestão do espaço, contribuindo para a sua recuperação e dinamização. Entre dificuldades, encerramentos e regressos, o Nacional manteve um lugar especial na memória cultural angolana.
Chá de Caxinde: unir pela cultura
A história da Associação Cultural Chá de Caxinde começou em 28 de Janeiro de 1989, por iniciativa de um grupo de cidadãos. A proclamação formal aconteceu um ano depois, subscrita por uma centena de pessoas. Num país marcado pela guerra e pelas limitações à vida cultural, a associação nasceu para abrir espaço ao encontro, à criação e ao debate.
Sob o lema «Unir pela Cultura», associado a Pepetela, a Chá de Caxinde desenvolveu actividades ligadas à literatura, à edição de livros, à música, ao teatro e à reflexão pública. As noites da Banda Maravilha tornaram-se uma das suas marcas. A ligação ao Nacional, sede da associação desde 1995, ajudou a aproximar o nome Chá de Caxinde da própria identidade do edifício.
Kupolo Njila: as tradições ganham vida em palco
Também conhecida pelo trabalho desenvolvido como Bailados Kupolo Njila, a companhia tem apostado na valorização da identidade tradicional angolana. Entre as figuras centrais desse percurso encontra-se Felicidade Manuel Cassule, «Fely», apresentada numa entrevista de 2024 como directora-geral e coreógrafa do grupo.
Uma das suas criações, «Antropogéneses», cruza dança, música e teatro, apoiando-se na pesquisa de canções, rituais, indumentárias e costumes de diferentes regiões de Angola. Um trabalho que procura transmitir conhecimento através do espectáculo e aproximar o público da diversidade cultural do país.
Com «AKOMBE», esse encontro entre expressão artística e público ganhou lugar no regresso do Nacional. Para quem esteve presente, ficou a alegria de voltar a ver este palco vivo. Que venham mais espectáculos, mais encontros e mais motivos para regressar.
A newsletter 2025–2026 do African Studies Centre da Universidade de Oxford dedica uma página ao trabalho de Rui Verde, com referência e destaque visual à capa de Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025), publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club. Uma presença que leva esta edição em língua portuguesa ao encontro de uma comunidade internacional dedicada ao estudo de África
A história recente de Angola encontra espaço na newsletter do African Studies Centre da Universidade de Oxford. Na página 17, Rui Verde apresenta um balanço da sua actividade de investigação e das suas publicações, aproximando dois universos que se complementam: a produção académica especializada e a divulgação do conhecimento junto de um público mais amplo.
É neste segundo domínio que o autor enquadra Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025), publicada em Lisboa em Junho de 2026. No texto, apresenta a obra como uma síntese histórica acessível, destinada a um público alargado de língua portuguesa. A reprodução da capa, junto de uma fotografia de Rui Verde, reforça a visibilidade do livro nesta publicação.
Para a Perfil Criativo | AUTORES.club, esta presença constitui uma oportunidade de ampliar a divulgação de uma obra que convida a conhecer e a discutir o percurso político de Angola ao longo de cinquenta anos de independência. Dirigido a leitores que procuram uma introdução à história contemporânea do país, o livro aproxima o conhecimento histórico de estudantes, membros da diáspora e de todos os que desejam compreender melhor a realidade angolana.
Angola no centro da investigação de Rui Verde
O contributo de Rui Verde, integrado na secção dedicada aos investigadores associados, revela um trabalho que cruza história, política, relações internacionais e os desafios da fiscalização democrática.
O autor apresenta dois artigos científicos, desenvolvidos em co-autoria e com apoio da British Academy, destinados ao Journal of Contemporary African Studies. Os estudos analisam a influência das heranças coloniais na supervisão pública da vigilância digital na África Austral e comparam as respostas institucionais aos conflitos em torno da vigilância na África do Sul, em Angola e na República Democrática do Congo.
A estes trabalhos junta-se um capítulo publicado na obra colectiva Democratising Spy Watching, no qual Rui Verde examina o caso angolano dos «15+2». A análise explora as tensões entre legados autoritários e mecanismos de escrutínio público, interrogando os limites e as possibilidades de fiscalização em regimes híbridos.
Outro destaque é o livro Redefining the China–Angola Relationship: Privatization, Development, and Disenchantment, da Bloomsbury Academic. Segundo o resumo apresentado na newsletter, a obra reavalia duas décadas de envolvimento chinês em Angola: da cooperação em grandes infra-estruturas a uma relação mais complexa, marcada pela renegociação da dívida, pela diversificação de parcerias e por mudanças nos alinhamentos geopolíticos.
Ao lado desta produção especializada, Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025) surge como uma ponte para os leitores de língua portuguesa. Rui Verde sublinha ainda a dimensão colectiva da investigação, reconhecendo a importância das redes de colaboração, dos seminários, do acesso a fontes e do ambiente interdisciplinar de Oxford. O texto identifica também dificuldades decorrentes do Brexit e das limitações de financiamento, sobretudo em projectos que exigem trabalho de campo e cooperação internacional.
Uma newsletter que aproxima a investigação dos debates sobre África
Ao longo de 32 páginas, a newsletter apresenta um panorama da actividade do African Studies Centre no ano lectivo de 2025–2026, reunindo investigação, conferências, publicações, testemunhos de antigos alunos e projectos dos estudantes.
Entre os principais destaques encontra-se a conferência anual de Mahmood Mamdani, dedicada à descolonização e à experiência do Uganda pós-colonial. A publicação aborda também as relações entre produção de cacau, alterações climáticas e condições de trabalho na África Ocidental, o ensino da história e dos legados imperiais, a diplomacia africana e os debates sobre as transformações políticas e sociais do continente.
Particularmente próxima da missão de divulgação cultural e editorial da Perfil Criativo | AUTORES.club é a apresentação do Oxford Africa Forum, uma plataforma que procura tornar a investigação sobre África mais acessível. Através de textos breves e claros, a iniciativa pretende aproximar o trabalho académico de leitores, jornalistas, decisores e comunidades africanas, alargando a circulação do conhecimento para além das universidades.
A newsletter assinala igualmente os dez anos da Africa Oxford Initiative, dedicada à cooperação entre Oxford e instituições africanas, e dá conta de encontros e investigações que ligam diferentes regiões, disciplinas e gerações.
É neste contexto de diálogo internacional que surge o trabalho de Rui Verde e a referência à edição da Perfil Criativo | AUTORES.club: um convite a colocar a história de Angola ao alcance de mais leitores e a fazer do livro um ponto de partida para novas perguntas sobre o país.
O antigo ministro da Economia e Planeamento do Governo de João Lourenço é o convidado de um encontro promovido pela Perfil Criativo | AUTORES.club, com Xavier de Figueiredo e Rui Verde. Uma conversa sobre política, economia e governação, aberta às perguntas do público, que parte do livro Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023) para reflectir os caminhos do país
Que decisões podem transformar o potencial de Angola em melhores condições de vida? Que lições oferece a experiência de governação e que alternativas merecem ser debatidas? Estas são algumas das perguntas que dão o mote a «Angola: que escolhas para o futuro?», encontro com M. Neto Costa na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa.
A iniciativa propõe um formato próximo de um podcast ao vivo: o jornalista Xavier de Figueiredo e o jurista e analista político Rui Verde conduzem uma conversa com o autor, cruzando a sua experiência governativa com a reflexão crítica que tem desenvolvido no espaço público. Os participantes poderão colocar perguntas e trazer outras perspectivas para o debate.
No centro da conversa estará também o livro Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023). Antes de chegarem às páginas desta edição, os textos passaram pelo crivo dos leitores do Novo Jornal, em Angola. Reunidos em livro, ganham uma continuidade que permite revisitar argumentos, relacionar decisões e acompanhar três anos de reflexão sobre as políticas públicas e os seus efeitos na vida do país.
O encontro será, assim, uma oportunidade para descobrir o conteúdo da obra e interrogar o seu autor: retomar questões levantadas na imprensa, aprofundar ideias e discutir a sua pertinência para o futuro de Angola.
Ao reunir experiência política, análise e participação do público, a Perfil Criativo | AUTORES.club convida leitores, estudantes, investigadores, empresários e representantes institucionais a integrar uma conversa plural. Um espaço para ouvir posições diferentes, confrontar argumentos e pensar nas escolhas que o país tem pela frente.
15 de Outubro de 2026 · 18h30 Biblioteca Palácio Galveias · Lisboa Entrada livre
Venha ouvir. Traga as suas perguntas. Faça parte da conversa.
Durante o encontro, estarão também disponíveis livros sobre Angola com descontos especiais, numa oportunidade para descobrir autores e aprofundar leituras sobre a história, a cultura e os desafios do país.