Morreu em Luanda Dom Zacarias Kamwenho, uma das grandes referências morais da Igreja Católica em Angola

Morreu em Luanda Dom Zacarias Kamwenho, uma das grandes referências morais da Igreja Católica em Angola

A Perfil Criativo | AUTORES.club manifesta profundo pesar pelo falecimento de Dom Zacarias Kamwenho, arcebispo emérito do Lubango, ocorrido em Luanda, no dia 29 de Maio de 2026, aos 91 anos de idade.

Com Dom Zacarias desaparece uma das figuras maiores da Igreja Católica em Angola, um pastor profundamente ligado à defesa da paz, da reconciliação nacional, da justiça social e da dignidade do povo angolano. A sua vida atravessou alguns dos períodos mais decisivos da história contemporânea de Angola, desde o tempo colonial, passando pela independência, pela longa guerra civil e pelos difíceis caminhos da paz.

Nascido no Huambo, no município do Bailundo, em 1934, Dom Zacarias foi ordenado sacerdote em 1961. Em 1974 recebeu a ordenação episcopal, tendo servido a Igreja como bispo auxiliar de Luanda, primeiro bispo do Sumbe e, mais tarde, arcebispo do Lubango. O seu percurso ficou marcado por uma rara autoridade moral, reconhecida dentro e fora de Angola, nomeadamente através da atribuição do Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, em 2001, pelo seu papel persistente na defesa da paz, da democracia e dos direitos humanos.

Recordar as sábias palavras de Dom Zacarias Kamwenho, arcebispo emérito do Lubango, em Luanda, Abril de 2022: Agostinho Neto foi e é poeta maior, Mafrano foi e é antropólogo maior. Na sua obra, que a partir deste primeiro volume que hoje apresentamos, o leitor verá como lhe caem os mistérios e preconceitos, os civilizados e os superiores descobrem, querendo ou não, a força dos fracos, a inteligência dos ignorantes, a civilização dos incivilizados, a superioridade dos inferiores, e vice-versa, e cada um dirá, afinal, são como nós.

Para a Perfil Criativo | AUTORES.club, Dom Zacarias Kamwenho foi também uma presença amiga, próxima e decisiva na valorização da obra de Maurício Francisco Caetano — Mafrano, autor da colectânea Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias. A obra póstuma “Os Bantu na Visão de Mafrano“, da autoria do etnólogo angolano Maurício Francisco Caetano (“Mafrano”), foi distinguida com o Prémio Nacional de Cultura e Artes de Angola em Novembro de 2024. O galardão foi atribuído pelo Ministério da Cultura na modalidade de Investigação em Ciências Humanas e Sociais.

Foi Dom Zacarias quem assinou o prefácio do primeiro volume desta obra maior da antropologia cultural angolana, publicada a título póstumo pela família de Mafrano e pela Perfil Criativo | AUTORES.club. Nesse texto, escreveu como “mais-velho” que trabalhou com Mafrano, manifestando a sua alegria pela publicação do primeiro volume e dos volumes seguintes, saudando a família do autor pela iniciativa de devolver ao público uma memória que parecia perdida. Recorrendo ao Evangelho de São Lucas, comparou esse reencontro com a alegria de quem encontra a moeda perdida e chama os amigos e vizinhos para partilhar a descoberta.

No seu prefácio, Dom Zacarias apresentou uma leitura profundamente humana, espiritual e intelectual de Maurício Francisco Caetano. Viu em Mafrano não apenas um escritor ou etnólogo, mas um pensador atento à cultura, à fé, à missão, à dignidade dos povos africanos e à complexidade das sociedades Bantu. A sua leitura ajudou a reconhecer Mafrano como uma figura maior do pensamento angolano, chegando a considerá-lo um verdadeiro “Antropólogo Maior”.

A ligação entre Dom Zacarias e Mafrano não foi apenas literária. Foi também uma relação de memória, de geração, de Igreja, de cultura e de amizade. Em Abril de 2022, no Lubango, Dom Zacarias testemunhou o anúncio oficial do primeiro volume de Os Bantu na Visão de Mafrano, perante os alunos do Seminário de Filosofia do Lubango. Semanas depois, a 14 de Maio de 2022, deslocou-se a Luanda para a apresentação da mesma obra na Universidade Católica de Angola, ajudando a inscrever Mafrano no lugar que lhe pertence na história intelectual de Angola.

Em Novembro de 2024, quando celebrava cinquenta anos de episcopado, Dom Zacarias enviou à família de Maurício Francisco Caetano uma mensagem de rara ternura, afirmando que o seu jubileu era também de Mafrano, pois ambos tinham vivido, em comunhão de tempo e de memória, esses cinquenta anos de episcopado. Essa frase ficará como uma das mais belas sínteses da amizade espiritual e intelectual que uniu estas duas figuras.

Mesmo nos seus últimos anos, Dom Zacarias continuou a acompanhar com atenção e alegria o percurso da colectânea Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias. Em Junho de 2025, recebeu em Luanda um dos primeiros exemplares do terceiro e último volume da obra, mostrando grande satisfação pela conclusão deste projecto editorial que devolveu ao país mais de mil páginas de reflexão sobre a cultura Bantu, a espiritualidade, a história social e a memória angolana.

A Perfil Criativo | AUTORES.club recorda Dom Zacarias Kamwenho com gratidão, respeito e comoção. A sua palavra, o seu testemunho e a sua presença ajudaram a iluminar a importância da obra de Mafrano e a afirmar a necessidade de Angola preservar, estudar e valorizar os seus grandes pensadores.

Neste momento de luto, endereçamos à Igreja Católica em Angola, à Arquidiocese do Lubango, à Diocese do Sumbe, à Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, à família de Dom Zacarias e de Mafrano e a todos os que nele reconheceram um pastor da paz e da reconciliação, as nossas mais sentidas condolências.

Dom Zacarias Kamwenho parte deste mundo deixando uma herança de fé, coragem, cultura e humanidade. Para nós, ficará também como o prefaciador atento, o amigo generoso e o mais-velho que soube reconhecer em Mafrano uma das grandes vozes da memória profunda de Angola.

Perfil Criativo | AUTORES.club
Lisboa / Luanda, Maio de 2026

Dom Zacarias Kamwenho nas palavras de José Soares Caetano

Dom Zacarias Kamwenho foi o autor do Prefácio da colectânea póstuma “Os Bantu na visão de Mafrano – Quase Memórias”.
Para ele, Mafrano era “O Antropólogo Maior de Angola”.
Durante a visita do Papa Leão XIV an Angola, o Arcebispo Emérito do Lubango tudo fez para que os três volumes da colectânea de Mafrano fossem oferecidos ao Sumo Pontífice.
O acto esteve previsto para se realizar numa manhã de Domingo, dia 19 de Abril, em Luanda. Só não se concretizou porque Infelizmente, a essa hora, o membro da Fanilia de Mafrano chamado para o efeito (de imprevisto), encontrava-se no novo Aeroporto do Bom Jesus!

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