No passado dia 1 de abril de 2026, a Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, foi palco do encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, uma iniciativa centrada na apresentação do livro Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, de Tomás Lima Coelho.
O evento reuniu investigadores, escritores e público interessado numa reflexão aprofundada sobre um período decisivo da história de Angola, marcado pela introdução da imprensa, pela presença dos degredados, pela emergência dos primeiros intelectuais africanos e pela formação de uma consciência crítica que antecipa a ideia de nação. Ao longo da sessão, destacou-se o cruzamento entre literatura, história e pensamento político-cultural, num diálogo que permitiu revisitar os contextos, as vozes e os processos que contribuíram para a construção dos primeiros imaginários modernos angolanos.
No âmbito da cobertura do encontro, apresentamos agora os vídeos das intervenções dos convidados especiais, permitindo acompanhar de forma integral os principais momentos de reflexão e debate, com participações de Jorge Arrimar, Alberto Oliveira Pinto, Tomás Lima Coelho e João Fernando André.
A iniciativa confirmou a relevância de revisitar o século XIX angolano como momento fundacional de processos culturais e políticos que continuam a marcar o presente. Com a disponibilização dos registos audiovisuais, prolonga-se agora o alcance deste debate, permitindo que um público mais amplo aceda às ideias e interpretações partilhadas na Biblioteca Palácio Galveias.
Tomás Lima Coelho nos agradecimentos durante o encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, momento que serviu para a apresentação da obra Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe
Intervenção de Jorge Arrimar na apresentação do livro Chão de Kanambua, de Tomás Lima Coelho
Intervenção do historiador angolano Alberto Oliveira Pinto, uma das vozes mais dinâmicas na divulgação da História de Angola
João Fernando André (Kalunga): a voz crítica de uma nova geração angolana
Segunda parte de reportagem | Intervenção de Alberto Oliveira Pinto
Dando continuidade ao registo do encontro realizado no dia 1 de abril de 2026, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, este segundo texto de reportagem centra-se na intervenção do historiador angolano Alberto Oliveira Pinto, uma das vozes mais dinâmicas na divulgação da História de Angola.
Após a análise literária proposta por Jorge Arrimar, a intervenção de Alberto Oliveira Pinto trouxe ao debate uma leitura mais diretamente ancorada na investigação histórica, evidenciando como o romance Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe dialoga com processos reais e complexos do século XIX.
Leitura histórica de um romance
Alberto Oliveira Pinto começou por reconhecer o impacto da leitura da obra, confessando que desta vez a leu “de ponta a ponta”, sem interrupções, sublinhando o seu carácter envolvente e a capacidade de captar a atenção do leitor.
Destacou ainda que já recomendara o livro a várias pessoas, antecipando uma ampla receção e circulação da obra, sobretudo entre leitores interessados na História de Angola.
Temas centrais destacados
A intervenção do historiador organizou-se em torno de alguns eixos fundamentais que, segundo ele, fazem do romance um contributo relevante para a compreensão do século XIX:
Degredo e sistema penal
A obra evidencia o papel do degredo como instrumento central da política penal portuguesa.
Muitos dos degredados enviados para Angola estavam condenados por crimes como homicídio ou falsificação de moeda.
O degredo funcionava também como estratégia de ocupação e povoamento, incluindo o envio de famílias para o território.
Escravatura e tráfico
Distinção entre tráfico de escravos e sistema esclavagista interno, frequentemente confundidos.
Referência ao processo de abolição e às suas ambiguidades, sublinhando que o fim formal do tráfico não significou o desaparecimento imediato das práticas de exploração.
Dinâmicas comerciais e territoriais
O romance capta o momento de transição económica, entre o comércio de escravos e o chamado “comércio legítimo”.
Destaque para o papel de regiões como Cassange, que funcionavam como zonas de mediação e controlo das rotas comerciais.
Referência às feiras e redes africanas que estruturavam o comércio interno.
Expansão colonial e ocupação do interior
A narrativa acompanha o avanço das forças portuguesas para o interior, num contexto de reorganização do domínio colonial.
Integração de personagens em expedições militares e administrativas, refletindo processos históricos documentados.
Identidade e mestiçagem
Ênfase na formação de identidades híbridas, envolvendo africanos, europeus e descendentes de degredados.
Referência à presença, ainda difusa, de ideias libertárias, republicanas e maçónicas, que só se afirmariam plenamente no início do século XX.
Ficção e rigor histórico
O Prof. Doutor Alberto Oliveira Pinto sublinhou que o romance consegue articular, com consistência, elementos ficcionais e dados históricos, tornando-se um ponto de partida relevante para a reflexão académica e pedagógica.
Referiu mesmo que a obra poderá ser utilizada nos seus cursos sobre Angola, reconhecendo-lhe valor formativo e interpretativo.
Um final aberto à história
Um dos aspetos que mais destacou foi o enquadramento temporal do romance, que culmina em 1910, ano da implantação da República em Portugal. Este momento abre novas possibilidades de leitura, sugerindo continuidades e ruturas que poderiam ser exploradas em futuras narrativas.
O historiador confessou, aliás, a expectativa de uma continuação da obra, interessando-se pelo que poderá acontecer às personagens nesse novo contexto político.
Conclusão
A intervenção do historiador Alberto Oliveira Pinto reforçou a dimensão histórica do romance de Tomás Lima Coelho, mostrando como a literatura pode funcionar como instrumento de compreensão de processos complexos, como o degredo, a escravatura, a ocupação territorial e a formação de identidades.
Com uma leitura crítica e fundamentada, o historiador destacou Chão de Kanâmbua como uma obra relevante não apenas no campo literário, mas também no domínio da reflexão histórica sobre Angola.
Este segundo registo confirma a riqueza do encontro, onde diferentes abordagens, literárias e historiográficas, se cruzaram para pensar um dos períodos mais decisivos da história angolana.
A partir da apresentação do livro Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, este encontro propõe um debate livre sobre o final do século XIX em Angola, um período marcado pela introdução da imprensa, pela presença dos degredados, pela emergência dos primeiros intelectuais africanos e pela formação de uma consciência crítica que antecipa a ideia de país.
Num cruzamento entre literatura, história e pensamento político-cultural, abre-se espaço para refletir sobre as vozes, os textos e os contextos, africanos, coloniais e mestiços, que, em tensão e diálogo, contribuíram para moldar os primeiros imaginários angolanos de modernidade, pertença e contestação.
Convidados: Tomás Lima Coelho (autor), Jorge Arrimar, Alberto Oliveira Pinto, João Fernando André
Data: 1 de Abril de 2026, das 18h00 às 20h00
Local: Biblioteca Palácio Galveias
Exposição e venda de livros a preços especiais. Entrada livre.