Matéria Negra, de Kalunga: Questionando saberes e propondo sabedorias

Matéria Negra, de Kalunga: Questionando saberes e propondo sabedorias

TEXTO DE EDMIRA CARIANGO (Licenciada em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa. Ensaísta e crítica literária. Membro do Círculo de Estudos Literários e Linguísticos Litteragris). Este texto foi apresentado na União dos Escritores Angolanos a 22 de julho de 2026.

I

A palavra forjando sabedoria, o olhar forjando poesia, pela autonomia universal dos saberes…

Neste dia, fruímos, uma vez mais, do néctar da poesia. Quem nos traz para cá é o escritor João Fernandes André, crítico literário, doutor em Literatura, Artes e Culturas Modernas, que enquanto Kalunga, no seu nome artístico, assina esta Matéria Negra, sua quarta obra a solo, juntando-se aos títulos Evangelho Bantu, O Dia em que uma Pedra Virou Lua, Lumbu – A Alquimia das Palavras

A poética deste autor da geração do pós 4 de Abril (da paz efectiva), que emerge mais concretamente na cena literária entre os anos 2010, de acordo com as recentes propostas de periodização da literatura angolana (Simbad, 2023), privilegia o trabalho à palavra, usando-a como uma das principais substâncias da sua matéria que é a poesia, não ainda esta matéria negra, referência à energia que suporta o todo “ininteligível”, mas sensível. É também esta palavra um elemento em transformação e reconstrução a favor da forja de uma sabedoria que se vem afirmando no conjunto dos conhecimentos em defesa das sabedorias dos povos africanos, que aliás é também universal.

Basta nos lembrarmos que uma grande parte dos seus poemas tem a palavra como instrumento e tema. O título Evangelho Bantu já vem afirmando uma autonomia os povos africanos, acusado de falta de tradição, no sentido de herança patrimonial da sapiência – filha da experiência de viver e de criar –, como detentores de uma sabedoria, que, aliás, é natural e universal. Além dos poemas que defendem a palavra como um instrumento universal e humano, e por isso, usada por todos para interpretar a experiência humana, Matéria Negra vem, nesta perspectiva, reafirmar a forja desta sabedoria, que já existia, que é autónoma também, sendo que aqui a poesia é usada como o lugar em que a palavra e a sabedoria natural, universal e africana também se afirma para notoriamente conviver com as coisas terrestres e celestes.

II

Da Natureza da Matéria Negra

No seu fundo, a poesia é construída com elementos do saber e através da interpretação da essência dos objectos terrenos, palpáveis e abstractos, como a vida no seu todo, principalmente o seu modo, a natureza e os procedimentos existenciais humanos. A palavra é um instrumento de manusear a linguagem, que desnuda a aparência das coisas e revela nelas o belo e feio, o acidental e o provocado, o natural e o artificial, o bom e o mau e conjectura ideias, reconstruindo-as a partir de outros saberes, e insiste na busca dos sentidos, bem como reafirma o valor da palavra enquanto meio de expressão.

Ler poesia é um desafio de leitura, releituras e descoberta de mundos, ela é uma construção de ideias e sentidos.

Usando-se, na sua forma, do verso livre e da construção de poemas ora monósticos ora dísticos, assim como na sua forma contemporânea de organização em versos e agrupados em estrofes, interpondo recurso aos trocadilhos versejados, anáforas que enfatizam a permanência das ocorrências, e ao mesmo tempo de recursos fonéticos e semânticos de construção do verso tais como a assonância e aliterações, paradoxos, a poesia de Matéria Negra expõe procedimentos corrosivos da vida promovidos por sistemas organizados, realçando o poder da palavra ao serviço da verdade, como podemos ler nos versos a seguir:

Peixes em afogamento/ Procurando coletes salva-vidas/ Na retina dos corações/ Musseques abissais/Espraiando-se no tempo/ Fedem de promessas/ A dor/ A dor/ A dor/ Acedia/para onde vão os sinos?

Numa composição à maneira agristética – aquela que se serve da desfixação, concebe o título como tema, pospondo-o no final de todos os versos, e que advoga uma escrita automática, consciente, trabalhando com diferentes orientações estéticas de diferentes escolas literária – as metáforas nos versos supracitados evocam, pela sugestão, o mar como o mundo, com as suas diferentes nomenclaturas e os seus programas, como um lugar onde os seres humanos, como peixes, são asfixiados pelas ondas das desigualdades absurdas em que “muitos têm quase tudo e outros têm absolutamente nada”, parafraseando um poeta, e ainda assim os vêm mais promessas, que na sua constância necessária, reforçada pelo descumprimento, alongam a dor “dos tais peixes”, como se diz no poema, assediando-os. É em face disso, chamado à acção através do verbo, que o poeta questiona: para onde vão os sinos?, constituindo-se também como uma metáfora que pode aludir, pelo símbolo, a diferentes objectos e experiências.

História, guerras, capitalismo, política

A literatura é concebida como uma construção humana e racional, cuja acção impõe, a quem a cria, pratica ou lê, um desdobramento constante de questionamentos e provocações. A língua, que é uma das suas principais ferramentas, desempenha a sua função comunicativa e, através das operações filosóficas que se prendem no acto de escrever, conjectura e questiona ideias sobre realidades, matérias, seres e coisas, sendo estes, referentes do mundo real, inteligível ou não, relacionados ao sujeito, a uma individualidade ou reconstruindo uma identidade colectiva, uma ordem, um programa, talvez, etc. 

E processo interligado e funcional carrega uma dimensão histórica e política. Em vista disto, a obra Matéria Negra configura-se como um objecto que faz dialogar em si essas diferentes dimensões, na medida em que ela é produzida num intervalo de tempo em que convergem discursos e momentos que evidenciam experiências de guerras construídas e derivadas, a sua poesia grita o regresso de máquinas a favor de objectivos nem tanto pró humanidade, pressagia, pelo exemplo da história e mediante as suas diferentes menções, as diferentes influencias que essas experiências exercem à própria realização da vida humana. 

Ao se impor diante dessas experiências, tecendo observações e críticas, essa obra cumpre a sua função interventiva, correspondendo à sua necessidade de marcar o seu tempo. A sua dimensão política reside também no facto de ela se constituir em si mesma como uma matéria construída para dizer ou falar, e no acto de falar, declarar o estado das coisas, agindo sobre elas na sua consequente reforma ou impondo um certo despertar. Faz-se pela evocação da história de Angola, evidenciando-se nela uma influência das forças externas que a impulsionaram por razões diversas. (ver os poemas nas páginas 41; 33; 21, etc).

 Além disso, nos seus poemas, há a exaltação do absurdo, pelo mecanismo da repetição dos ciclos, mas ao mesmo tempo, Matéria Negra propõe-se como um lugar a partir do qual se forjam esperanças para refazer amanhãs. (ler as páginas 25, 49 e outros).

Reflectir, reavaliar as crenças e forjar novas esperanças

Através de trocadilhos, diferentes poemas reafirmam a importância da valorização das vozes e dos diferentes saberes (32), não deixando de lado a visão perscrutadora aos novos discursos que constroem apologias de igualdade e autonomias das diferentes culturas, sendo também hipoteticamente, como nos sugere a palavra poética, a edificação de novos autoritarismos ou colonialismos, é através da palavra que Kalunga vem, com os seus sujeitos, digladiar:

Trago das mãos do tempo

Os sons do silêncio

A fúria da palavra

A cinzenta ousadia do desejo

A amargura dos metais

I o olfacto das ideias (p.39)

O seu valor reside também no facto de dizer muito com pouco e suscitar constante reflexão e pode ser muito incómoda, porque diz coisas que são do senhor, permitidas a poucos…(ler também as páginas 32; 34; 37).

…O contexto do pré texto

Contesta o pretexto

Do protesto contra

O texto do sul global

Vigilante mente

A epistemologia vergada 

Proclama novos pássaros

De asas de ouro (p.32)

Para aqueles que procuram apenas o deleite, vão encontrar um conjunto de ferramentas para solidificar as esperanças ou refazer lições (páginas 49; 40; 41; 42).

Marcado pela valorização do dialogismo, este poemário, mais do que se fundamentar no conhecimento profundo das realidades histórica, económica, política e sociocultural local e universal, erige vozes que dialogam com diferentes sons poéticos das distintas vanguardas contemporaneidade da poesia nacional e internacional, onde a forma é já um dos seus maiores exemplos: esperança árida/Cá indo/Em pé lá/No vale da morte.

Matéria Negra traz um discurso que nos remete para uma proposta de reavaliação das crenças de superioridade: nas catedrais da história/derramando o mito da cor/nem negros demais para sermos brancos/nem brancos demais para sermos negros/nem vermelhos demais para sermos amarelos/nem amarelos demais para sermos vermelhos (…) Assim/Nós/ Como o anjo da humanização/Devorando a linha abissal do estado das coisas…(p.11)

 Porquanto, pela sua configuração e sugestão ao propor um diálogo entre o tradicional e o moderno, captando da natureza das coisas, as suas atitudes, essências e qualidades, este poemário propõe-nos a forja de uma sabedoria através do reconhecimento da autonomia dos saberes, do provérbio, construindo máximas, da palavra captando a matéria negra dos universos e da consciência da renovação e circularidade como leis na base substancial de qualquer corpo: 

…O velho de novo

De novo o velho

No novo o velho

No velho o novo

Está escrito:

O que é já foi…(p.9).

Bibliografia

Kalunga. (2026). Matéria Negra. Perfil Criativo.

Kalunga. (2018). Evangelho Bantu. Perfil Criativo.

Kalunga. (2022). O dia em que uma Pedra Virou Lua. Projecto Ler e Contar.

Maestro, J. G. (2017). Crítica de la razón literária. Academia del Hispanismo.

Santos, B. S. (2023). O fim do império cognitivo. Mayamba Editora.

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