
A poeta angolana Elsa Major apresentou oficialmente, na tarde de quarta-feira, 29 de Julho, em Luanda, o livro Faro e Enigmas, numa sessão realizada no Memorial Dr. António Agostinho Neto. Perto de uma centena de convidados participou num encontro marcado pela poesia, pela música, pela performance e pela reflexão em torno da mulher e da cultura angolana.
Depois da apresentação pública realizada a 30 de Abril, em Lisboa, com o apoio da Embaixada da República de Angola em Portugal, Faro e Enigmas chegou finalmente ao país que inspira grande parte da sua linguagem poética. O Namibe, o Atlântico, o deserto, o amor, a espiritualidade, a memória e as inquietações do mundo contemporâneo atravessam uma obra profundamente ligada às experiências e às raízes culturais da autora.
A sessão contou com as participações especiais de Conceição Cristóvão e Agnela Barros, responsáveis por diferentes leituras da obra, e do escritor, crítico literário e investigador João Fernando André, que representou a Perfil Criativo | AUTORES.club, editora responsável pela publicação.
Embora o auditório principal do Memorial tenha capacidade para cerca de 300 pessoas, a grandeza do encontro não se mediu pela lotação da sala. O escritor e jornalista José Soares Caetano, também conhecido literariamente como Tazuary Nkeita, classificou o lançamento como um momento de «Cultura Angolana em Grande», considerando que a qualidade e a riqueza cultural da sessão superaram todas as expectativas.

Conceição Cristóvão entre a razão e a emoção
Na sua intervenção, o professor Conceição Cristóvão dirigiu-se a Elsa Major a partir de duas perspectivas complementares: a razão e a emoção. Por um lado, propôs uma leitura reflexiva da obra, destacando a diversidade de interpretações que a poesia de Faro e Enigmas permite; por outro, assumiu uma abordagem afectiva, próxima e profundamente ligada à sensibilidade poética da autora.
A intervenção ganhou uma dimensão especialmente emotiva com a declamação de poemas de outros poetas, escolhidos e dedicados a Elsa Major. Este diálogo entre diferentes vozes literárias transformou a homenagem numa celebração colectiva da poesia, aproximando a autora de outras tradições, sensibilidades e experiências da palavra.

Agnela Barros destaca a artista, a mulher e a mãe
Na sua intervenção, a professora Agnela Barros propôs uma leitura de Faro e Enigmas a partir da condição da mulher africana, recordando a proximidade do Dia da Mulher Africana, assinalado a 31 de Julho.
Agnela Barros identificou na obra um forte hibridismo cultural, traduzido no diálogo permanente com diferentes realidades, culturas, civilizações e expressões artísticas. A música, a dança, a literatura, as línguas angolanas e as referências a diferentes geografias surgem interligadas numa poesia que recusa fronteiras rígidas.
Sem ignorar a presença do amor erótico, a professora preferiu destacar aquilo que considerou ser um dos elementos fundamentais do livro: o amor pela humanidade e a atenção da autora ao sofrimento dos outros. Esta dimensão humanista cruza-se com o amor pelo Namibe, por Luanda, pela história e pelas memórias individuais e colectivas.
Agnela Barros sintetizou a sua leitura em três dimensões fundamentais de Elsa Major: «artista, mulher e mãe». Na sua perspectiva, a autora manifesta uma particular capacidade para acolher as dores e as alegrias do mundo, estabelecendo pontes entre pessoas, lugares, tempos e diferentes formas de conhecimento.

João Fernando André reafirma a missão da editora
Em representação da Perfil Criativo | AUTORES.club, João Fernando André começou por agradecer a todos os que contribuíram para a realização do lançamento, bem como a Conceição Cristóvão e Agnela Barros pelas leituras e interpretações apresentadas.
O escritor e investigador recordou que a editora, embora esteja sediada em Lisboa, definiu como uma das suas prioridades a publicação e divulgação de autores angolanos e de trabalhos dedicados a Angola. Segundo referiu, o catálogo já reúne mais de cinquenta títulos ligados ao país, com especial incidência nas humanidades, na literatura, na poesia e no conto. (Nota do editor: rectificação, são mais de cento e cinquenta títulos)
Para João Fernando André, Faro e Enigmas é uma «obra aberta», capaz de receber diferentes sensibilidades e interpretações. O livro valoriza o amor nas suas várias dimensões, da fraternidade ao erotismo, e recupera a sensibilidade como resposta a um mundo cada vez mais marcado pelo individualismo, pela violência e pela simplificação dos seres humanos.
A intervenção destacou igualmente a intertextualidade da obra, o diálogo com outros campos do saber e aquilo que Conceição Cristóvão definiu como um exercício de «inversão do olhar»: a capacidade de observar a realidade a partir de outras perspectivas, estabelecendo relações entre elementos aparentemente separados.
Outro aspecto salientado foi a incorporação de línguas angolanas, elementos da tradição oral e referências à angolanidade. Numa altura em que muitas línguas nacionais necessitam de maior apoio e valorização, João Fernando André considerou particularmente relevante que Elsa Major lhes conceda espaço dentro da sua criação poética.
O representante da editora chamou ainda a atenção para a desigualdade existente entre homens e mulheres na publicação literária. Citando o levantamento realizado no livro Autores e Escritores de Angola, de Tomás Lima Coelho, referiu que, num universo de aproximadamente 3.300 autores identificados até 2021, apenas 607 eram mulheres. Nesse sentido, apelou à continuidade da produção literária feminina e à valorização do trabalho intelectual das mulheres angolanas.



Elsa Major entrega o livro aos leitores
Visivelmente emocionada, Elsa Major agradeceu aos familiares, amigos, convidados e a todos os que aceitaram participar naquele momento. Dirigiu palavras especiais ao filho, à nora, à neta e aos músicos da Orquestra Camerata de Luanda, que considera companheiros do seu percurso e cuja música também inspira a sua escrita.
Depois de ouvir as intervenções de Conceição Cristóvão, Agnela Barros e João Fernando André, a autora reconheceu ter descoberto novas possibilidades de leitura dentro dos próprios poemas. Afirmou ter sentido, nos rostos e nos gestos do público, que ainda havia muitas palavras por dizer, entregando simbolicamente a continuidade do livro aos leitores.
Elsa Major manifestou o desejo de que o público transportasse consigo o sentido humanitário da obra: a pertença, o respeito pelas tradições, pela cultura, pelas línguas angolanas e pela ancestralidade. Defendeu igualmente a valorização das capacidades individuais e colectivas de Angola, recordando que escolheu as letras como o seu território de intervenção.
A autora explicou ainda que começou a escrever grande parte de Faro e Enigmas durante a pandemia de Covid-19, quando se encontrava a cumprir uma missão diplomática na África do Sul. Separada de parte da família e confrontada com o isolamento e o medo da morte, encontrou na escrita uma forma de enfrentar aquele período profundamente conturbado.
Essa experiência levou-a a reflectir sobre a fragilidade humana, o sofrimento, a violência e aquilo que considera ser uma preocupante perda do amor ao próximo. Para Elsa Major, o mundo tem espaço para todos, independentemente das diferenças, desde que a humanidade recupere a capacidade de cuidar, respeitar e amar.
A intervenção terminou com uma declaração que resume o espírito do livro e do próprio lançamento: «amor é vida, amor é Deus».
De “Manjoro” a “Major”: uma memória familiar recuperada
Um dos momentos mais surpreendentes da tarde surgiu através da intervenção de um membro mais velho da família da autora, que revelou a origem do apelido «Major».
Segundo o testemunho partilhado durante a sessão, «Major» é uma corruptela aportuguesada da palavra cuanhama «Manjoro». O nome original terá sido rejeitado pelos serviços de registo civil durante o regime colonial, acabando por ser adaptado à forma portuguesa pela qual a família passou a ser oficialmente identificada.
A revelação conferiu ao encontro uma dimensão histórica e inesperada. Num livro marcado pela memória, pela pertença e pelas raízes africanas, a recuperação do nome «Manjoro» permitiu também recordar os mecanismos através dos quais a administração colonial alterou nomes africanos e interferiu na transmissão das identidades familiares.
Publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club, Faro e Enigmas conta com prefácios de Sara Jona Laisse e Kátia Guerreiro. Ao chegar oficialmente a Luanda, a obra deixou de pertencer apenas à autora e passou definitivamente para as mãos dos seus leitores, como um faro destinado a iluminar os enigmas do amor, da memória e da condição humana.

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