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O Abraço da Memória (I)

O Abraço da Memória (I)

TEXTO DE GABRIEL BAGUET JR

Assim sinto os Dias e desde modo escolhi com total desprendimento, mas consciente , que a viagem dos próximos Dias de 2026 são comboios ou autocarros que nos transportam para onde pretendemos ou não. Porque apesar da opção ecológica referida em termos dos transportes citados, também podemos escolher viajar de canoa , de barco, de jangada e cada margem ter uma paragem para parar à semelhança dos apeadeiros e as Estações de Comboios.

Cada Dia é do meu humilde  ponto de vista uma viagem diversa porque diversas são também as viagens do Pensamento e do Olhar em Silêncio ou em ruído sobre os carris, os rios ou os oceanos percorridos ou a percorrer. 

Cada dia deveria ser a Biblioteca aberta e plural   para cada viagem a fazer. Tal como de comboio ou outra opção de transporte temos escolhas a fazer como estar à janela ou em coxia, as viagens têm também essa possibilidade de escolher o livro que desejamos ler. E as Bibliotecas como os Comboios têm destinos de escolha múltiplos. No caso das Bibliotecas, cada instante tem a oferta que desejarmos. Pode ser um Romance, uma Biografia, um livro de Poesia ,de Viagens ou de qualquer outra escolha literária como por exemplo a origem dos Comboios ou de Fricção.

 Porque cada dia é também a combinação da Realidade e da Ficção. E no meio das duas circunstâncias existe o Sonho ou os Desenhos do que projectamos para a estrada das nossas Vidas.

Findo o ano de 2025, ficam Memórias diversas tristes ou alegres . Ficam Falas trocadas, Olhares cruzados, Poemas ditos ou sonhados, Imaginários percorridos ou Jardins sonhados e nunca contemplados.

O final de cada ano implica interrogações diversas e como por exemplo sobre as promessas feitas individualmente ou no plano colectivo, muitas são reais e concretizáveis porque a vontade de quem as promete tem a firme vontade e convicção de as cumprir como desígnio de carácter Humanista e sentido de fazer melhor e Humanizar.

Cada ano que passa por nós e como referi numa Reflexão anterior durante o ano findo, precisamos de novas Esperanças perante quotidianos complexos de Existência Humana. Porque não basta Iluminar as Cidades, as Ruas, as Avenidas e escolher lugares icónicos e patrimoniais das Cidades e muitos deles parte Imaterial da Humanidade como classificado pela UNESCO.

Em meu entender é preciso ir muito mais longe de modo genuíno sem dribles porque esses são necessários nos jogos de futebol. A Vida de cada Ser Humano injustamente encarada por alguns como um jogo de futebol e perdoem-me os amantes do futebol( desporto que respeito ), é muito mais do que uma partida de futebol. A Existência Humana e assumo porque é tão ténue e frágil , precisa de Pessoas de mentes Iluminadas e Humanizadas . Claro e é justo dizê-lo, existem exemplos diferenciados e marcantes face à Condição Humana. Existem, mas são pouco divulgados. Porém esses Iluminados exemplos têm pouca mediatização e não fazem parte das Agendas Políticas Locais e Globais.

Ouvem  muitos Discursos e alguns deles evidenciam preocupações face às realidades concretas da Vida e do compasso do Existir. Mas não se realizam. A História da Humanidade deixou Discursos notáveis de Mulheres e Homens sem visão egocêntrica pois o que escreviam e diziam tinham profundidade e desejo concreto de ver as Pessoas felizes. Por isso as suas marcas de Pensamento ficaram para as Estradas das nossas Esperanças e Inquietações.

A Paz, palavra tão sagrada e fundamental para qualquer Sociedade, é falada, dita, evocada, mas não praticada. Quem recorda e eu bem me lembro por experiência profissional e pessoal vivida, a Cimeira do Milénio no ano 2000, abria portas de vasta esperança que tocava a Humanidade. O brilhante Discurso do histórico Secretário-Geral de Koffi-Annan que tive a honra de conhecer quando recebeu o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Nova de Lisboa em cerimónia presidida pelo  também histórico Presidente Jorge Sampaio, acendia novas Luzes sobre o Mundo.

Essa inesquecível Cimeira do Milénio foi sol de pouca dura como diz o Povo. E decorridos 25 anos o Mundo piorou. Os números oficiais da Pobreza mundial são assustadores. Igual e triste realidade é a condição de ser Migrante ou Imigrante. O número de Refugiados e deslocados de guerra é gritante. O Trafico Humano é devastador, a Prostituição Infantil é um sinal tristíssimo das ruas de muitas Sociedades. Um quadro pouco aceitável à luz dos Dias depois de tanta  Legislação em vigor nas ordens jurídicas de muitos Estados. A violação de Direitos Humanos é inqualificável 70 anos depois da sua vital criação. A Intolerância Religiosa e Cultural estão na pauta das Violações o que é intolerável em pleno Século XXI. 

As Guerras constituem outro cenário que nos interpela a todos os (as ) amantes da Paz. Mas não basta falar para bom registo fotográfico ou nível de audiências a atingir. É preciso sentir a Paz no mais interior dos nossos sentimentos e com essa atitude, dar essa planta ou flor que se chama Paz. A sua ausência mina o Desenvolvimento Humano. Basta ler os Relatórios Internacionais do PNUD e os números não são dados manipulados. São reais e fazem-nos pensar. 

E importam várias perguntas ; a Finlândia é considerada hà mais de 20 anos o país da Felicidade e os demais países dos Países Nórdicos apresentam realidades sociais e públicas distintas de outros Estados do mundo. A questão é da qualidade dos líderes políticos, das exigências das suas Sociedades Civis ou de exigentes praticas de Boa Governação?

A Corrupção existe à escala mundial e as ramificações são extensas a vários sectores das Sociedades. O que impede o seu combate efectivo ? Porque não se vê o seu fim ? O que explica o excesso de Luxo e a Extrema Pobreza? O que explica? O que explica a Exclusão Social e a Discriminação? As perguntas são longas e extensas.

Nesta viagem de Comboio à janela ou em coxia, do destino a percorrer ou na escolha de outra opção, não esqueça a Arte das boas práticas Humanistas, nem tão pouco o BEM em todos os domínios das suas vidas para que não se fixe apenas nas Tradições. As mesmas são respeitáveis. É inquestionável. Mas a prática da Fraternidade genuína, transparente como a Poesia romântica e sem filtros, será certamente o melhor Comboio ou Jangada da Memória para fazer a Viagem da Paz , do Respeito pela Condição Humana e com o necessário Humanismo que se deve impor ao respirar de cada um. Cada Esquina da Vida é uma Viagem diversa e imprevisível.

Não ignore o BEM. Seja praticante do BEM nas diferentes horas da Vida e nas diferentes Geografias.

Criar é governar: a Cultura no centro da República

Criar é governar: a Cultura no centro da República

A Cultura começa a afirmar-se como um dos pilares estratégicos do futuro da República de Angola. Essa visão ganha especial relevo na grande entrevista concedida pelo Ministro da Cultura, Filipe Zau, ao jornal EXPANSÃO, dirigida pelo jornalista e director João Armando, ambos autores da Perfil Criativo | AUTORES.club.

Na conversa, Filipe Zau defende com clareza que “a cultura pode e vai contribuir para a diversificação económica”, sublinhando o papel decisivo das indústrias culturais e criativas na geração de riqueza, emprego e coesão social. Para o governante, não se trata apenas de valor simbólico: a cultura deve ser encarada como factor económico estruturante, capaz de integrar cadeias de valor e atrair investimento.

Entre os principais eixos destacados na entrevista estão:

  • a necessidade de organização e profissionalização do sector cultural;
  • a criação de condições legais e institucionais para o florescimento das indústrias criativas;
  • o reforço da formação artística e técnica, desde a base até ao nível superior;
  • e a valorização da cultura como elemento central da identidade nacional e da cidadania.

Filipe Zau é peremptório ao afirmar que Angola precisa de passar da informalidade à sustentabilidade cultural, defendendo modelos de financiamento mais claros, o envolvimento responsável do mecenato e uma política pública que reconheça o valor económico da criação artística.

A entrevista, conduzida por João Armando com profundidade e sentido estratégico, constitui um marco no debate sobre políticas culturais em Angola, mostrando que a Cultura não é um acessório do Estado, mas um dos seus alicerces para o desenvolvimento.

Quando autores, pensamento crítico e visão de futuro se encontram, a Cultura começa, de facto, a mudar a República.

"Marítimos" de Filipe Zau
Marítimos” de Filipe Zau
"O Canto Terceiro da Sereia — O Encanto" de Filipe Zau e Filipe Mukenga
O Canto Terceiro da Sereia — O Encanto” de Filipe Zau e Filipe Mukenga
"Editoriais do Expansão" de João Armando
Editoriais do Expansão” de João Armando

Apresentação da Feira do Livro de África e Sul Global

Apresentação da Feira do Livro de África e Sul Global

Livraria Lulendo & Fábrica Braço de Prata apresentam “AFRO-SUL…” Feira do Livro de África e Sul Global.

É com grande entusiasmo que convidamos editoras, livrarias, escritores e jornalistas a juntarem-se a nós para um momento especial de pré-anúncio da Feira do Livro de África e Sul Global. Este projeto inovador é organizado pela Livraria Lulendo e a Fábrica Braço de Prata, e será oficialmente lançado no dia 24 de janeiro, dia mundial da cultura africana e afrodescendente.

O evento terá lugar na Fábrica Braço de Prata e contará com a presença de todos aqueles que se interessem pela literatura africana e a do Sul Global. A Feira do Livro será um espaço mensal de celebração, onde exploraremos as diversas vozes e narrativas que emergem do nosso continente e suas diásporas.

Programação Anual Inclui:
•⁠ ⁠Feira com foco em autores africanos e do Sul Global.
•⁠ ⁠Lançamentos de livros.
•⁠ ⁠Conversas e debates com autores.
•⁠ ⁠Conferências.
•⁠ ⁠Leituras de poesia e contos.
•⁠ ⁠Apresentações de spoken word.
•⁠ ⁠Exposições e concertos.
•⁠ ⁠Sessões de DJ e open mic/karaoke.
•⁠ ⁠Cinema e stand up comedy.
•⁠ ⁠Feira de vinil com música africana e Sul Global.
•⁠ ⁠Delícias da gastronomia local.
•⁠ ⁠Desfiles de trajes.
•⁠ ⁠Feira de artesanato e design.
•⁠ ⁠Workshops e oficinas interativas.

A Feira do Livro de África e Sul Global visa fortalecer e posicionar a literatura do “SUL “ nas suas próprias narrativas e saberes, criando um espaço de diálogo e intercâmbio cultural. O Objetivo é Sulear o pensamento.

Para assinalar esta data significativa, teremos uma pequena cerimónia para o pré-anúncio do projeto e gostaríamos muito de contar com a sua presença. Junte-se a nós neste evento especial, onde o futuro da literatura Africana e Sul Global será celebrado!

Data: 24 de Janeiro
Local: Fábrica Braço de Prata
Horário: 16h – 1h. Sala: NIETZSCHE
R. Fábrica de Material de Guerra 1, 1950-128 Lisboa
A FBP- tem condições para acolher a feira no inverno.

Viajante angolano apela à quebra do silêncio

Viajante angolano apela à quebra do silêncio

A participação do público no lançamento do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, voltou a revelar-se um dos momentos mais significativos da sessão, com intervenções que ampliaram o alcance cívico e geográfico do debate.

Entre elas destacou-se a de João St., que se encontrava em Lisboa de passagem e foi surpreendido pelo encontro. Natural de Angola e residente no Lubango, João St. explicou que chegou ao evento por sugestão de amigos, confessando a emoção sentida ao assistir aos testemunhos ali partilhados.

Na sua intervenção, sublinhou o contraste entre a abertura do debate em Lisboa e o silêncio que ainda envolve, em Angola, os acontecimentos do 27 de Maio de 1977. Referindo-se à região da Tundavala, no sul do país, evocou a memória de um local de grande beleza natural, mas também marcado por uma história trágica, associada à morte de milhares de pessoas atiradas para a ravina durante o processo repressivo. Segundo afirmou, trata-se de uma realidade conhecida localmente, mas nunca investigada nem discutida publicamente.

O interveniente lançou um apelo claro à replicação, em Angola, de iniciativas semelhantes às realizadas em Lisboa, defendendo que este tipo de encontro constitui uma forma necessária de catarse coletiva e de reconhecimento das vítimas. Recordou ainda os muitos órfãos e famílias que continuam sem respostas, sem certidões de óbito e sem qualquer forma de reparação ou esclarecimento.

Num registo emotivo, agradeceu o trabalho desenvolvido por autores, associações e editores, sublinhando que “as lágrimas não são vergonha”, mas antes sinal de fertilidade, de vida e de esperança. A sua intervenção reforçou a ideia de que Ecos da Liberdade não é apenas um livro, mas um ponto de partida para levar o debate sobre o 27 de Maio para dentro de Angola, onde o silêncio continua a pesar sobre a memória coletiva.

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
Ecos da Liberdade“, de Joaquim Sequeira

Zeca Ribeiro Telmo evoca Angola plural

Zeca Ribeiro Telmo evoca Angola plural

Como é habitual nos eventos da Perfil Criativo | AUTORES.club, o público foi convidado a intervir no lançamento do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, dando voz a testemunhos que reforçaram o sentido cívico e memorial do encontro.

Entre as intervenções destacou-se a de Zeca Ribeiro Telmo, que evocou a experiência coletiva da geração que viveu a independência de Angola e os seus desdobramentos. Recordando o entusiasmo de 1975, sublinhou que muitos dos presentes não eram colonos, mas angolanos que acreditaram, e continuam a acreditar, numa Angola livre, justa e democrática para todos.

Na sua intervenção, Zeca Ribeiro Telmo chamou a atenção para as desigualdades estruturais do país, lembrando que, apesar da riqueza proclamada, a pobreza sempre esteve presente no quotidiano da maioria da população. Defendeu que os “ecos da liberdade” não se esgotaram com a independência política e continuam a manifestar-se na exigência de mais democracia e inclusão social.

Num tom emocionado, destacou a resiliência dos sobreviventes dos acontecimentos trágicos do pós-independência, afirmando que a sua presença e o seu silêncio quebrado são, em si mesmos, uma afirmação de liberdade. “A liberdade é uma sede que nunca é saciada”, afirmou, agradecendo a Joaquim Sequeira a coragem de transformar a experiência da dor num testemunho público.

A intervenção foi recebida com atenção e aplausos, reforçando a ideia de que Ecos da Liberdade é também um livro que convoca a participação dos cidadãos e prolonga, para além das páginas, o debate sobre o passado, o presente e o futuro de Angola.

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
“Ecos da Liberdade”, de Joaquim Sequeira

Dar nome aos desaparecidos: um apelo contra o silêncio

Dar nome aos desaparecidos: um apelo contra o silêncio

A apresentação do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, foi também marcada por um anúncio de grande relevância histórica e cívica. Durante a sessão, a Associação 27 de Maio revelou que se encontra a desenvolver uma plataforma dedicada à identificação e mapeamento das dezenas de milhares de desaparecidos na sequência dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, em Angola.

Segundo foi explicado, a plataforma pretende reunir informação dispersa ao longo de quase cinco décadas, cruzando testemunhos, nomes, locais de detenção, datas e circunstâncias de desaparecimento, com o objetivo de construir uma base de dados rigorosa que contribua para a verdade histórica, o reconhecimento das vítimas e a preservação da memória coletiva. Nesse sentido, foi lançado um apelo público para que todos os angolanos, dentro e fora do país, reportem casos de familiares ou conhecidos desaparecidos durante o processo repressivo que se seguiu ao 27 de Maio.

Durante a sua intervenção, Verónica Leite de Castro, membro da Associação 27 de Maio, chamou a atenção para uma dimensão ainda pouco conhecida desta tragédia: o caso das mulheres angolanas que foram torturadas, presas e desapareceram, muitas delas sem qualquer reconhecimento público ou registo oficial. Sublinhou igualmente a situação dos órfãos, vítimas diretas e indiretas da repressão, que cresceram marcados pela ausência forçada dos pais e pelo silêncio imposto em torno destes acontecimentos.

A intervenção destacou que a repressão não atingiu apenas militantes ou suspeitos políticos, mas alastrou a famílias inteiras, produzindo um legado de trauma intergeracional que continua a marcar a sociedade angolana. Para a Associação, dar visibilidade às mulheres e aos órfãos é um passo essencial para uma abordagem mais justa e completa da memória do 27 de Maio.

Integrado no lançamento de Ecos da Liberdade, este anúncio reforçou o caráter do evento como espaço de denúncia, reflexão e ação cívica. Mais do que um momento literário, a sessão afirmou-se como um apelo à participação ativa da sociedade na construção da verdade histórica, numa altura em que se aproxima o cinquentenário de uma das páginas mais trágicas da história contemporânea de Angola.

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
Ecos da Liberdade“, de Joaquim Sequeira

Entre lágrimas e silêncio, a memória falou mais alto

Entre lágrimas e silêncio, a memória falou mais alto

A apresentação do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, transformou-se num momento de profunda comoção e reflexão coletiva, com a sala cheia de leitores, sobreviventes e familiares marcados pelos acontecimentos trágicos dos primeiros anos da República Popular de Angola, a tragédia do 27 de Maio de 1977.

Desde as primeiras palavras, ficou claro que não se tratava apenas de um lançamento literário. A sessão assumiu-se como um ato de memória viva. “A vossa presença transforma este encontro num momento de reconhecimento e de dignidade”, foi afirmado na abertura, dirigida especialmente aos sobreviventes dos acontecimentos de 1977, cuja presença conferiu ao evento uma intensidade que ultrapassou o plano cultural.

Foi prestada uma homenagem sentida a Manuel Vidigal, sublinhando o seu percurso de quase cinco décadas na exigência de uma Comissão da Verdade e na afirmação pública de que não existiu qualquer golpe de Estado contra o MPLA ou contra o então Presidente Agostinho Neto. A sua voz foi descrita como “uma voz de resistência democrática e de exigência moral”.

Associação 27 de Maio foi igualmente destacada como um pilar da luta contra a amnésia coletiva, pela preservação da memória das vítimas, pela verdade histórica e pelo direito ao reconhecimento público. A sua intervenção reafirmou que, quase cinquenta anos depois, “continuamos a pugnar pela verdade, pela justiça e pelo fim da impunidade”.

Enquanto editor, João Ricardo Rodrigues, da Perfil Criativo | AUTORES.club, reafirmou o compromisso da edição independente com a publicação de obras sobre os episódios violentos da história angolana, sublinhando que Ecos da Liberdade não nasce do ressentimento, mas da necessidade ética de testemunhar para que a violência não se repita.

A intervenção de José Fuso, autor do prefácio da obra, constituiu um dos momentos mais intensos da sessão. Falando como sobrevivente e como companheiro de percurso do autor, José Fuso destacou a dimensão ética e poética do livro, sublinhando que o testemunho de Joaquim Sequeira transforma a experiência do cárcere e da repressão numa narrativa de resistência e liberdade de pensamento. Afirmou que escrever, e publicar, é um ato político de memória, essencial para impedir o apagamento histórico e para devolver humanidade às vítimas silenciadas.

O testemunho mais cru surgiu também nas palavras do Presidente da Associação 27 de Maio, José Reis, que descreveu com detalhe o sequestro, a tortura, a humilhação e os desaparecimentos forçados ocorridos nas cadeias de São Paulo, na DISA e na Casa de Reclusão. Recordou a chamada “noite das facas longas”, em março de 1978, e afirmou: “Hoje estou a prestar este depoimento para que não fiquem dúvidas quanto ao que vem escrito em Ecos da Liberdade”.

Quando tomou a palavra, Joaquim Sequeira falou não apenas como autor, mas como sobrevivente. Num discurso profundamente literário e humano, evocou a infância, a cidade perdida, os companheiros de prisão e os laços forjados na adversidade. “Este livro é um mapa daquele território sagrado que só nós conhecemos”, afirmou, explicando que Ecos da Liberdade é um gesto coletivo, um “barquinho de papel lançado no rio do nosso passado comum”.

Num dos momentos mais emotivos da sessão, o autor dedicou o livro aos filhos, às netas e aos companheiros de sequestro, afirmando que escreveu para transformar a dor em palavra e a ausência em presença literária. “O corpo pode ser aprisionado, mas o espírito jamais se rendeu”, declarou, resumindo o sentido profundo da obra.

Ao longo da sessão, foi visível a comoção do público. Houve lágrimas contidas, silêncios densos e longos aplausos. Ecos da Liberdade revelou-se não apenas como um testemunho histórico inédito, particularmente sobre a Casa de Reclusão, mas como um ato de resistência contra o apagamento da memória. Um acontecimento extraordinário de reflexão sobre um dos períodos mais trágicos da história contemporânea de Angola, aquele que muitos tentaram, durante décadas, apagar da História.

Gravação do evento por Fernando Kawendimba

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
Ecos da Liberdade“, de Joaquim Sequeira

Escrever para não desaparecer: “Ecos da Liberdade” apresentado em Lisboa

Escrever para não desaparecer: “Ecos da Liberdade” apresentado em Lisboa

O livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, será apresentado na próxima sexta-feira, 16 de janeiro de 2026, às 18h00, na sala polivalente da Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa. A sessão será marcada por um encontro com sobreviventes do 27 de Maio de 1977 em Angola, num momento de partilha, memória e reflexão histórica.

Publicada no final de 2025, a obra é um testemunho direto e profundamente humano sobre a repressão política que se seguiu aos acontecimentos de 27 de Maio de 1977. Joaquim Sequeira, preso político e sobrevivente desse período, reconstrói a experiência do cárcere, da violência institucional e do silêncio imposto, sem abdicar de uma escrita literária marcada pela poesia e pela dignidade.

Ao longo de sete capítulos intensos, Ecos da Liberdade conduz o leitor desde a prisão física até à resistência interior, mostrando como, mesmo nas condições mais desumanas, a palavra, a memória e a solidariedade se tornam formas de sobrevivência. A obra aborda episódios marcantes como a vida na Casa de Reclusão, a chamada “Noite das Facas Longas” e o impacto duradouro da repressão na identidade individual e coletiva.

“A liberdade não é apenas a ausência de grilhões; é a presença do que é possível. Ela conquista-se a cada acto de resistência, a cada momento em que o ser humano recusa ser silenciado.”

Mais do que um relato pessoal, o livro afirma-se como um manifesto contra o esquecimento, num contexto em que a sociedade angolana continua a interrogar-se sobre esse passado traumático. O encontro na Biblioteca Palácio Galveias pretende precisamente abrir espaço ao diálogo entre gerações, dando voz aos sobreviventes e convocando o público para uma escuta ativa da história recente de Angola.

A apresentação é aberta ao público e dirige-se a leitores interessados em História Contemporânea de Angola, Direitos Humanos, memória política, bem como a estudantes, investigadores e todos os que acreditam que recordar é também um acto de justiça.

Ecos da Liberdade

Ecos da Liberdade
Ecos da Liberdade

Entre consenso e crítica, os cidadãos reclamaram o seu lugar na história

Entre consenso e crítica, os cidadãos reclamaram o seu lugar na história

O lançamento do livro 50 anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos, na Biblioteca Palácio Galveias, terminou com um momento de participação ativa do público, que veio confirmar, na prática, uma das ideias centrais defendidas pelos coordenadores da obra: a necessidade de pensar os 50 anos das independências africanas a partir da cidadania e de múltiplos olhares plurais.

Entre as intervenções, registámos a de António Feijó Jr., engenheiro e especialista da indústria petrolífera angolana, que apelou a uma leitura positiva e construtiva do percurso dos países africanos independentes. Reconhecendo que nem tudo foi perfeito ao longo destas cinco décadas, sublinhou, ainda assim, a importância de valorizar o que foi alcançado e de encarar o balanço histórico com espírito crítico, mas também com confiança no futuro.

Já a arquiteta Maria João Teles Grilo reforçou a ideia de que a democracia constrói-se a partir da cidadania e não apenas das estruturas políticas formais. Na sua intervenção, defendeu que a história contemporânea dos países africanos está ainda em construção e que essa história será tanto mais verdadeira quanto mais resultar de contributos plurais, vindos da vida real das pessoas e da sua experiência quotidiana. Para a arquiteta, a riqueza da cidadania é um dos principais recursos para pensar o futuro coletivo.

Num registo mais crítico, o editor Manuel Rodrigues Vaz, da Pangeia, chamou a atenção para a composição do público presente, observando que a sala refletia sobretudo a participação de cidadãos angolanos. Embora reconhecendo o mérito da iniciativa, considerou importante que futuros encontros consigam envolver de forma mais equilibrada cidadãos dos restantes países africanos de língua oficial portuguesa, reforçando a dimensão verdadeiramente plural e transnacional do projeto.

Estas intervenções dialogaram diretamente com as palavras de Eugénio da Costa Almeida, que, na sua apresentação, havia desafiado autores e leitores a não deixarem o livro “morrer numa prateleira”, mas antes a lê-lo, debatê-lo e criticá-lo, transformando-o num instrumento vivo de reflexão cívica. O envolvimento do público no final da sessão confirmou esse apelo, mostrando que o livro já cumpre a sua função essencial: gerar debate, pensamento crítico e participação ativa da sociedade civil.

Organizado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, o lançamento encerrou assim com um diálogo aberto entre autores, leitores e convidados, reforçando a ideia de que os próximos capítulos da história das independências africanas continuam a ser escritos, sobretudo, pelos seus cidadãos.

Biblioteca Palácio Galveias
Biblioteca Palácio Galveias