Perfil Criativo leva autores à Festa do Livro em Belém 2026

Perfil Criativo leva autores à Festa do Livro em Belém 2026

Editora promove sessões de autógrafos todos os dias, entre 17 e 20 de setembro, nos jardins do Palácio Nacional de Belém

A Perfil Criativo | AUTORES.club volta a marcar presença na Festa do Livro em Belém, que decorrerá entre os dias 17 e 20 de setembro de 2026, nos jardins do Palácio Nacional de Belém, em Lisboa. Ao longo dos quatro dias, a editora apresentará ao público uma seleção do seu catálogo e promoverá sessões de autógrafos diárias com 14 autores, a partir do período da tarde.

História, economia, poesia, literatura, espiritualidade, saúde e memória contemporânea estarão representadas num programa que aproxima escritores e leitores num dos espaços mais emblemáticos da Presidência da República. As sessões decorrerão na Praça dos Autores e na Zona da Cascata — Arcadas.

Em 2024, sessão de autógrafos com o director do Novo Jornal revelou momentos inéditos

Programa de sessões de autógrafos

Data e hora — Autores — Local
17 de setembro, 17h00 — Lívio Honório e Luís Philippe Jorge — Praça dos Autores
18 de setembro, 17h00 — Hugo Henriques e Hajnalka Henriques — Praça dos Autores
19 de setembro, 16h00 — Tomás Lima Coelho e Salomão Arão Chipeco — Zona da Cascata — Arcadas
19 de setembro, 18h00 — Joaquim Sequeira e Eugénio Monteiro Ferreira — Zona da Cascata — Arcadas
19 de setembro, 19h00 — Tazuary Nkeita e Xavier de Figueiredo — Zona da Cascata — Arcadas
20 de setembro, 16h00 — Oscar da Mata e Álvaro Henriques do Vale — Zona da Cascata — Arcadas
20 de setembro, 19h00 — Rui Verde e José Bento Duarte — Zona da Cascata — Arcadas

A presença da Perfil Criativo | AUTORES.club reforça a missão editorial de divulgar autores, criar espaços de diálogo entre diferentes geografias e gerações e tornar o conhecimento mais próximo e acessível. Os visitantes poderão conhecer as novidades da editora, conversar diretamente com os autores e adquirir exemplares autografados.

Quatro dias de celebração do livro e da leitura

Criada em 2016, a Festa do Livro em Belém é organizada pela Presidência da República, em parceria com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros — APEL, e já recebeu mais de 145 mil visitantes. Durante quatro dias, os jardins do Palácio Nacional de Belém transformam-se num grande espaço cultural, com editoras, livreiros, apresentações de obras, debates, sessões de autógrafos, concertos e jogos didáticos. A entrada é livre.

O recinto estará aberto nos seguintes horários:

  • 17 de setembro: das 16h00 às 21h30;
  • 18, 19 e 20 de setembro: das 11h00 às 21h30.

Como entrar nos jardins do Palácio de Belém

O público poderá aceder à Festa do Livro por duas entradas:

  • pela Loja do Museu da Presidência da República, situada na fachada principal do Palácio Nacional de Belém, na Praça Afonso de Albuquerque;
  • pelo Jardim Botânico Tropical, junto ao Largo dos Jerónimos.

A zona é facilmente alcançada através da estação ferroviária de Belém, na Linha de Cascais, do elétrico 15E e de diferentes carreiras da Carris. A Estação Fluvial de Belém encontra-se igualmente a curta distância.

Por se tratar de um espaço sensível de segurança, não é permitida a entrada com facas, garrafas de vidro, ferramentas ou outros objetos considerados perigosos. Também não é autorizado o acesso de animais, com exceção de cães-guia.

Entre 17 e 20 de setembro, a Perfil Criativo | AUTORES.club espera pelos leitores em Belém para quatro dias de livros, encontros e conversas com os seus autores. Durante o evento, os visitantes poderão ainda beneficiar de descontos especiais de 50% nos livros editados há mais de 24 meses e de 20% nas publicações mais recentes, uma iniciativa promocional realizada nos termos do Regime Jurídico do Preço Fixo do Livro. Uma oportunidade especial para conhecer, adquirir e levar para casa algumas das obras mais representativas do catálogo da editora.

Encontros especiais nos jardins do Palácio de Belém

Presidente da Casa de Angola em Itália
Presidente da Casa de Angola em Itália com o editor da Perfil Criativo AUTORES.club, em 2025

Sala esgotada na apresentação do livro Mitos Económicos de Angola

Sala esgotada na apresentação do livro Mitos Económicos de Angola

Oscar da Mata levou à Biblioteca Palácio Galveias um debate aberto sobre liberdade económica, intervenção do Estado e criação de riqueza em Angola

Fotografias: Ricardo Leote — NOS RAIZ

A apresentação oficial em Portugal do livro Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza, do economista e professor universitário angolano Oscar da Mata, realizou-se no dia 3 de setembro de 2026, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, perante uma sala completamente esgotada várias horas antes do início do encontro.

A forte adesão do público confirmou o interesse despertado por uma obra que questiona algumas das ideias mais persistentes do debate económico angolano e que propõe uma reflexão exigente sobre a liberdade de empreender, o funcionamento dos mercados, a intervenção do Estado e as condições necessárias para transformar os recursos de Angola em riqueza, desenvolvimento e bem-estar para a população.

Entre académicos, economistas, autores, leitores e membros da comunidade angolana, estiveram também presentes várias personalidades ligadas à história política e institucional de Angola, entre as quais o Dr. Onofre dos Santos e o Professor Doutor Marcolino Moco.

O encontro, promovido pela Perfil Criativo | AUTORES.club, contou com quatro intervenções principais: a abertura do editor João Ricardo; uma mensagem gravada do Prof. Doutor Manuel Alves da Rocha, enviada a partir de Luanda; a apresentação crítica do Prof. Doutor Fernando Jorge Cardoso; e, por fim, a intervenção do autor, Oscar da Mata. Como é habitual nos encontros organizados pela editora, a sessão terminou com um pequeno debate com o público.

Um livro publicado para provocar reflexão e debate

Na abertura, o editor da Perfil Criativo | AUTORES.club agradeceu à equipa da Biblioteca Palácio Galveias e à cidade de Lisboa a possibilidade de realizar mais um encontro entre autores, leitores, académicos e cidadãos. Foram igualmente dirigidos agradecimentos ao Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, ao Prof. Doutor Manuel Alves da Rocha, ao Prof. Doutor Jesús Huerta de Soto, autor do prefácio, e ao Prof. Doutor Fernando Jorge Cardoso, responsável pela apresentação da obra.

Ao apresentar Oscar da Mata, o editor destacou o seu percurso como economista, gestor e professor universitário, com experiência nos sectores da banca, do investimento e da consultoria estratégica, bem como a sua atividade docente na Universidade Católica de Angola.

João Ricardo sublinhou que Mitos Económicos de Angolanão pretende encerrar uma discussão nem impor uma interpretação única sobre a economia angolana. Pelo contrário, a publicação procura criar condições para que diferentes ideias possam circular, ser confrontadas e debatidas publicamente.

“Não esperamos que todos concordem com o autor. Esperamos, isso sim, que o leiam, que o questionem e que debatam as suas ideias”, afirmou.

A intervenção do editor enquadrou a obra no compromisso assumido pela Perfil Criativo | AUTORES.club de democratizar o acesso ao conhecimento e de publicar trabalhos científicos e de ensaio capazes de analisar Angola com liberdade, identificar problemas e apresentar novos caminhos para o desenvolvimento.

Angola, recordou, possui um território vasto, importantes recursos naturais, uma população jovem, conhecimento acumulado e uma extraordinária energia humana. A questão decisiva é compreender de que modo todo esse potencial pode ser convertido em desenvolvimento humano, prosperidade e oportunidades efetivas para os cidadãos.

É neste espaço de interrogação que a nova obra de Oscar da Mata procura intervir: questionando certezas, contrariando ideias instaladas e abrindo caminho à discussão de alternativas.

Manuel Alves da Rocha: uma obra para uma universidade de pensamento livre

A segunda intervenção chegou de Luanda, através de uma mensagem gravada pelo Professor Doutor Manuel Alves da Rocha, economista, investigador e antigo colega de Oscar da Mata na Universidade Católica de Angola.

Manuel Alves da Rocha começou por reconhecer o carácter abrangente e potencialmente polémico da obra, sobretudo porque o autor coloca em confronto diferentes conceções sobre o funcionamento da economia, o papel do Estado, a liberdade económica, o investimento privado, a formação dos preços e a capacidade do mercado para orientar decisões.

O académico considerou que o livro realiza uma análise dos principais equívocos associados aos modelos económicos que atribuem ao Estado uma posição dominante na dinamização do circuito económico. Ao transportar essa discussão para a realidade angolana, a obra ganha particular relevância devido à permanência de práticas e referências herdadas do período da economia centralizada.

“O livro é excelente”, declarou Manuel Alves da Rocha, descrevendo a leitura como “uma viagem muito interessante pelos mitos da economia”.

Apesar de reconhecer que praticamente já ninguém defenderá em Angola um modelo integralmente centralizado no Estado, Alves da Rocha advertiu que a realidade do país continua a exigir uma discussão cuidadosa sobre os limites e as responsabilidades da intervenção pública. Angola permanece, nas suas palavras, uma “economia por fazer”, com grandes necessidades ao nível das infraestruturas, da educação e da saúde.

A sua mensagem não procurou, por isso, reduzir a questão a uma oposição simples entre Estado e mercado. Chamou antes a atenção para a necessidade de estudar qual o modelo económico mais adequado às condições concretas do país.

No final, deixou um desafio aos docentes e investigadores das áreas da macroeconomia, da política monetária e da política financeira: que encontrem na obra novos elementos para prosseguir o debate académico e para afirmar a Universidade Católica de Angola como uma instituição de pensamento livre.

Fernando Jorge Cardoso: “O livro é deliberadamente polémico e defende uma tese”

Seguiu-se a intervenção do Professor Doutor Fernando Jorge Cardoso, professor catedrático da Universidade Autónoma de Lisboa e diretor executivo do Clube de Lisboa, que começou por recordar a relação académica que mantém com Oscar da Mata desde os finais do século passado: primeiro, na condição de professor e estudante; agora, como apresentador e autor.

Fernando Jorge Cardoso definiu desde logo a natureza da obra: “Mitos Económicos de Angola não é um tratado académico de economia.” Trata-se, como indica o subtítulo, de um ensaio sobre liberdade e criação de riqueza.

“O livro é deliberadamente polémico e defende uma tese”, acrescentou.

Na sua leitura, o autor parte da convicção de que determinadas ideias, profundamente enraizadas na sociedade angolana e repetidas ao longo de décadas, adquiriram o estatuto de verdades aparentemente evidentes. Entre elas encontram-se explicações sobre a inflação, os efeitos dos controlos administrativos de preços, os subsídios, a criação de emprego público, as margens de lucro, o planeamento centralizado, a tributação e a própria relação entre socialismo, pobreza e proteção social.

Fernando Jorge Cardoso identificou três méritos fundamentais na obra. O primeiro é a clareza do argumento em defesa da liberdade económica e contra o excesso de intervenção administrativa do Estado. O segundo é a atenção dada aos incentivos, lembrando que cidadãos, empresas, funcionários públicos e investidores adaptam os seus comportamentos às condições criadas pelas políticas económicas. O terceiro é a insistência numa ideia essencial: a riqueza precisa de ser criada antes de poder ser distribuída.

Nas economias muito dependentes dos recursos naturais, observou, existe o risco de confundir a apropriação de rendimentos provenientes desses recursos com a verdadeira criação de riqueza. Receber receitas da exportação de petróleo não equivale a construir uma economia capaz de produzir bens e serviços de forma sustentável, inovar, aumentar a produtividade, criar empresas e elevar os rendimentos das famílias.

O apresentador aproximou algumas das ideias do livro do pensamento de Friedrich Hayek e de Milton Friedman. Destacou, em particular, a importância atribuída ao sistema de preços como mecanismo de transmissão de informação e a crítica às decisões administrativas que podem distorcer os sinais recebidos pelos produtores, consumidores e investidores.

“O preço não é apenas aquilo que se paga por uma mercadoria, é também informação”, afirmou.

Fernando Jorge Cardoso introduziu, contudo, importantes elementos de problematização. Recordou que os mercados necessitam de instituições sólidas, regras previsíveis e uma governação capaz de garantir a concorrência. “A concorrência não nasce espontaneamente da privatização. Mercados eficientes pressupõem governação eficiente”, salientou.

Defendeu ainda que um monopólio público pode ser privatizado e continuar a funcionar como monopólio, sintetizando a questão numa formulação particularmente expressiva: “O oposto de mercado é monopólio, não é Estado.”

A partir das experiências de desenvolvimento da Coreia do Sul, de Taiwan, de Singapura e da China, Fernando Jorge Cardoso colocou uma das questões centrais da sua intervenção: talvez o problema não seja apenas determinar se uma economia necessita de mais ou de menos Estado, mas perceber que tipo de Estado existe, qual é a sua capacidade de atuação, a quem serve e perante quem responde.

A análise avançou depois para a ligação entre economia, instituições e poder político. A liberdade económica, argumentou, só pode ser exercida plenamente quando existem condições institucionais que garantam que as mesmas regras se aplicam a todos, e não apenas aos agentes que dispõem de acesso privilegiado ao poder.

Neste contexto, abordou também a ética, a corrupção, o clientelismo e a competição pelo acesso às rendas públicas. Quando a proximidade do poder oferece maiores vantagens do que a inovação, o investimento produtivo ou o risco empresarial, os agentes económicos respondem racionalmente a esse sistema de incentivos. A competição pela criação de riqueza pode, então, ser substituída pela competição pelo acesso a contratos, licenças, créditos, concessões e privatizações.

Fernando Jorge Cardoso concluiu que o livro deve ser entendido “menos [como] um ponto de chegada do que um excelente ponto de partida”. O seu mérito está em incomodar, questionar ideias instaladas e deixar o leitor com vontade de prosseguir a discussão.

Oscar da Mata: transformar recursos em bem-estar

Na intervenção final, Oscar da Mata agradeceu a presença do público e reconheceu o contributo de Fernando Jorge Cardoso, recordando a relação de muitos anos que os une.

O autor explicou que a decisão de escrever o livro nasceu de um “imperativo de consciência”. Ao longo de sucessivas gerações, afirmou, muitos angolanos foram confrontados com a distância entre as expectativas criadas em torno de um país com enormes possibilidades e os resultados efetivamente alcançados.

A obra foi sendo construída a partir de notas acumuladas durante anos, da experiência profissional do autor no sector financeiro e da observação direta da economia angolana. Oscar da Mata esclareceu também que procurou escrever numa linguagem acessível, apoiada em exemplos concretos e dirigida a um público mais vasto.

“Eu não escrevi para economistas”, afirmou, explicando que o seu objetivo foi tornar a reflexão compreensível e intuitiva, sem abandonar o rigor do raciocínio económico.

Acima de tudo, acrescentou, “o que me moveu foi tentar estabelecer um ponto de discussão, uma visão diferente sobre o país, e tentar que essa discussão fosse aberta”.

O autor reconheceu que o livro foi concebido para provocar, retirar os leitores de uma certa zona de conforto e suscitar discordâncias, mas insistiu que essa provocação deve conduzir a um debate construtivo.

Oscar da Mata rejeitou uma leitura simplista da sua posição: “Eu não tenho nenhum dogma contra o Estado.” A questão central da obra não é definir, de forma abstrata, todos os sectores pelos quais o Estado deve ou não ser responsável. O problema é compreender o paradoxo de um país dotado de tantos recursos que continua a revelar dificuldades em convertê-los em riqueza e bem-estar para a população.

Para que os recursos naturais possam adquirir verdadeiro valor económico e social, explicou, é necessário que existam condições para investir, arriscar capital, empreender, produzir, criar empregos e transformar esses recursos em bens úteis à sociedade. Sem segurança jurídica, regras claras, proteção dos contratos, estabilidade monetária e condições favoráveis ao investimento produtivo, a riqueza pode permanecer no subsolo sem produzir desenvolvimento.

O autor afirmou que o referencial da economia angolana continuou fortemente centrado no Estado, mesmo depois do abandono formal do planeamento central. Na sua leitura, a abertura ao mercado não foi acompanhada por uma transferência efetiva de protagonismo para a sociedade civil e para a iniciativa empresarial independente.

A forte gravitação da economia em torno do Orçamento Geral do Estado, os processos de licenciamento, a imprevisibilidade das regras e as dificuldades na proteção dos contratos foram apontados como obstáculos à atração de investimento estruturado e de longo prazo.

Oscar da Mata deu especial atenção à moeda e aos problemas monetários. A instabilidade cambial, observou, obriga muitos empresários a desviarem tempo e recursos da produção, da gestão e da criação de emprego para a proteção financeira do capital acumulado. Sem previsibilidade monetária, torna-se muito mais difícil planear investimentos e construir uma economia orientada para o futuro.

A formação dos preços surgiu igualmente como um elemento central. Para o autor, os preços transportam conhecimento e permitem que produtores e consumidores avaliem custos, escassez, procura e oportunidades. A sua manipulação administrativa pode esconder problemas e produzir decisões económicas desajustadas.

Na parte final, Oscar da Mata defendeu que os chamados mitos económicos persistem porque podem ser convenientes e porque, muitas vezes, a racionalidade política se sobrepõe ao diagnóstico económico. Sem um diagnóstico correto, advertiu, as políticas públicas dificilmente encontrarão soluções adequadas.

O autor terminou deixando claro que a obra não foi escrita apenas para interpretar o caminho percorrido por Angola desde a independência. “Eu não escrevi este livro para interpretar 50 anos de história”, declarou, projetando a reflexão para as decisões que irão marcar as próximas décadas do país.

O debate continuou com o público

Depois das quatro intervenções, a sessão abriu-se à participação da assistência. Mais do que procurar respostas definitivas, o encontro confirmou o objetivo central da obra: criar um espaço livre para confrontar ideias, rever diagnósticos e discutir o futuro económico de Angola.

Com a lotação esgotada muito antes da abertura das portas, a apresentação de Mitos Económicos de Angola transformou a Sala Polivalente da Biblioteca Palácio Galveias num lugar de reflexão intensa sobre um dos maiores desafios do país: como construir uma economia mais produtiva, mais livre, institucionalmente mais sólida e capaz de colocar a criação de riqueza ao serviço do desenvolvimento humano.

Mitos Económicos de Angola de Oscar da Mata
Mitos Económicos de Angola de Oscar da Mata

Este livro pode ser encomendado na Bertrand e Wook

«Em Angola não se lê pouco, lê-se mal»: Kalunga alerta para uma crise cultural e ontológica

O escritor, poeta e académico João Fernando André, conhecido literariamente como Kalunga, foi o convidado da “Grande Entrevista” da Rádio Mais. Numa conversa dedicada à literatura, à educação e à sociedade angolana, o autor de Matéria Negra apresentou um diagnóstico frontal sobre os principais desafios culturais do país.

Ao longo da entrevista, o Prof. Doutor João Fernando André destacou a força histórica da literatura angolana, que considera uma das mais robustas do espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. No entanto, advertiu que Angola começa a perder terreno para países como Moçambique, devido à ausência de uma verdadeira indústria cultural, à fragilidade do mercado editorial e à falta de políticas consistentes de apoio ao livro, à leitura, aos escritores e aos editores.

Kalunga chamou igualmente a atenção para o elevado preço do livro, a inexistência de uma indústria nacional de papel e celulose e as dificuldades enfrentadas pelos editores no acesso ao crédito. Para o escritor, Angola precisa de criar condições estruturais que permitam transformar a sua tradição literária numa indústria cultural sólida, capaz de ampliar a produção, a circulação e o acesso ao livro.

Um dos momentos mais marcantes da conversa surgiu quando afirmou: «Eu não acho que se esteja a ler pouco; acho que se esteja a ler mal.» O problema, explicou, não reside apenas na quantidade de informação consumida, mas sobretudo na qualidade das leituras e na relação cada vez mais frágil entre os cidadãos, o livro e o pensamento crítico. Nesse sentido, defendeu a presença de bibliotecas nas escolas, a inclusão da grande literatura angolana nos manuais de Língua Portuguesa e a implementação efetiva de uma política nacional do livro e da leitura.

O escritor foi também contundente ao abordar as insuficiências do sistema educativo: «Temos de deixar de inaugurar salas de aula. Temos de começar a inaugurar escolas.» Para João Fernando André, uma verdadeira escola não pode limitar-se às salas de aula: deve possuir bibliotecas, espaços desportivos, condições sanitárias adequadas e recursos que favoreçam uma aprendizagem completa e despertem, desde cedo, o gosto pela leitura.

A entrevista avança ainda para uma reflexão mais profunda sobre aquilo que Kalunga identifica como uma crise ontológica na sociedade angolana: uma progressiva valorização do “ter” em detrimento do “ser”, visível na perda de referências, na corrupção, no plágio e no enfraquecimento dos valores cívicos e morais. A inversão desse processo, sustenta o poeta, exige mais educação, instituições sólidas, uma comunicação social responsável e espaços de debate capazes de devolver centralidade ao conhecimento, à memória e à cultura.

Autor de Matéria Negra, obra publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club, Kalunga reafirma nesta entrevista a dimensão crítica e interventiva do seu pensamento. 

Vale a pena escutar o áudio da “Grande Entrevista” da Rádio Mais e acompanhar, na voz do próprio autor, esta importante reflexão sobre literatura, sociedade, educação e o futuro cultural de Angola.

Matéria Negra
Matéria Negra

Loja dos Autores regressa com segurança reforçada, novas campanhas e novidades editoriais

Loja dos Autores regressa com segurança reforçada, novas campanhas e novidades editoriais

Loja dos Autores | AUTORES.club está novamente disponível e preparada para receber encomendas dos livros publicados pela editora Perfil Criativo | AUTORES.club.

O regresso da loja online assinala uma nova etapa, depois de um período de instabilidade provocado por sucessivos ataques informáticos. O reforço das medidas de segurança e a melhoria do funcionamento da plataforma permitem agora proporcionar aos leitores uma experiência de compra mais segura, estável e eficiente.

Além das novidades editoriais, a reabertura será acompanhada por novas campanhas promocionais. Entre as iniciativas previstas encontra-se a disponibilização, a preços muito acessíveis, de obras raras e de títulos publicados há mais de dois anos. Será uma excelente oportunidade para descobrir livros que permanecem atuais, completar coleções e reencontrar autores fundamentais do catálogo da editora.

História, literatura, poesia, ensaio, investigação académica, cultura e pensamento continuam a ocupar um lugar central na seleção da Loja dos Autores.

As campanhas serão anunciadas progressivamente nos canais da editora, no AUTORES.club — Boletim Informativo em papel e postais de novidades Os leitores deverão, por isso, permanecer atentos: vêm aí novas publicações, condições especiais de compra e oportunidades únicas para adquirir títulos do catálogo da Perfil Criativo | AUTORES.club.

A Loja dos Autores está de volta. Visite-nos, descubra os nossos livros e fique atento às próximas novidades editoriais.

Informações e encomendas: encomendas@autores.club

Oscar da Mata propõe um debate sobre liberdade e criação de riqueza em Angola

Oscar da Mata propõe um debate sobre liberdade e criação de riqueza em Angola

Novo ensaio da Perfil Criativo | AUTORES.club questiona ideias profundamente enraizadas no debate económico e defende que, antes de distribuir riqueza, é necessário criá-la

A Perfil Criativo | AUTORES.club anuncia a publicação de Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza, da autoria do economista e professor universitário Oscar da Mata. Com prefácio do Professor Jesús Huerta de Soto, a obra analisa e desconstrói dezoito ideias amplamente difundidas no debate económico angolano, procurando demonstrar como determinadas soluções apresentadas como inevitáveis podem, na realidade, prolongar os problemas que pretendem resolver.

«Antes de distribuir riqueza, é preciso criá-la» é a ideia fundamental que percorre este ensaio. Partindo do contraste entre racionalidade económica e racionalidade política, Oscar da Mata questiona políticas orientadas para resultados imediatos que, embora possam produzir vantagens no curto prazo, acabam por comprometer a estabilidade monetária, enfraquecer as instituições, limitar a iniciativa individual e dificultar a criação sustentável de prosperidade.

Ao longo de cinco grandes áreas: mercado monetário; mercado e preços; trabalho e produtividade; intervenção estatal generalizada; instituições e liberdade económica. O autor examina com determinação temas centrais para o presente e o futuro da República de Angola. Entre eles encontram-se a inflação, as taxas de juro, os bancos públicos, o crédito barato, o endividamento do Estado, o controlo de preços, os subsídios, os salários, o emprego público, as margens de lucro, o planeamento central, a tributação, o socialismo, a qualidade das instituições e a acumulação de capital.

O livro procura desmontar afirmações que se tornaram recorrentes, como a ideia de que a inflação resulta apenas da falta de produção local, de que os bancos públicos são indispensáveis ao desenvolvimento, de que o controlo de preços protege necessariamente os consumidores, de que sem subsídios não pode existir progresso económico ou de que a criação de mais empregos no sector público resolve o desemprego.

Para Oscar da Mata, muitos dos bloqueios da economia angolana não resultam da escassez de recursos naturais, mas de escolhas institucionais e de concepções económicas que favoreceram o dirigismo, a dependência do Estado e a substituição da iniciativa individual por mecanismos centralizados. A obra sustenta que a abundância de recursos, por si só, não garante prosperidade e que o desenvolvimento depende sobretudo da qualidade das instituições, da estabilidade das regras, da poupança, do investimento produtivo, do mérito e da liberdade para empreender.

O ensaio dedica também especial atenção à pressão demográfica e à necessidade de Angola criar oportunidades para uma população jovem e em rápido crescimento. Neste contexto, o autor considera insuficiente multiplicar programas públicos, subsídios ou mecanismos administrativos sem enfrentar problemas estruturais como a baixa produtividade, a fragilidade da moeda, a burocracia, a deficiente formação do capital humano e a limitada capacidade de criação de emprego produtivo.

No prefácio, Jesús Huerta de Soto considera que o livro representa um contributo inovador para a recuperação da racionalidade económica no contexto africano. O prefaciador destaca a combinação entre rigor intelectual e vocação pedagógica, sublinhando que a obra ultrapassa o caso angolano e participa num debate mais amplo sobre o futuro do pensamento económico em África. Para o Professor Huerta de Soto, «a liberdade económica não é apenas um ideal ético; é uma condição funcional para qualquer sociedade que deseje gerar riqueza de forma sustentável».

Economista e professor universitário, Oscar da Mata possui experiência executiva na banca e na consultoria financeira. O seu percurso tem sido marcado pelo estudo da moeda, das instituições e da relação entre os sistemas políticos e a organização da vida económica. Influenciado pela tradição do liberalismo clássico e por abordagens que valorizam a coordenação descentralizada dos mercados e a estabilidade monetária, o autor articula teoria económica, história e análise institucional numa reflexão directamente relacionada com os desafios do desenvolvimento de Angola.

Com uma linguagem clara, firme e acessível, Mitos Económicos de Angola dirige-se não apenas a economistas e especialistas, mas também a estudantes, professores, empresários, decisores públicos, jornalistas e leitores interessados em compreender as causas profundas dos problemas económicos do país. Mais do que apresentar um diagnóstico, o livro pretende provocar um debate informado e incentivar uma mudança de mentalidade: deixar de procurar respostas em promessas fáceis e reconhecer o papel decisivo do indivíduo, do trabalho, da poupança, do investimento e das instituições na criação de riqueza.

A publicação conta com o apoio do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola.

Ficha técnica

Título: Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza
Autor: Oscar da Mata
Prefácio: Jesús Huerta de Soto
Editora: Perfil Criativo – Edições | AUTORES.club
Primeira edição: Setembro de 2026
Número de páginas: 116
ISBN: 978-989-9209-43-5
PVP em Portugal: 18,00 euros
Encomendas: encomendas@autores.club
Informações: portal.autores.club
Loja online: www.AUTORES.club

Lançamento oficial em Portugal

O lançamento oficial de Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza terá lugar no dia 3 de Setembro de 2026, entre as 18h30 e as 20h00, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa.

Participação especial: Prof. Doutor Fernando Jorge Cardoso, Prof. Doutor Manuel Alves da Rocha e Prof. Doutor Jesús Huerta de Soto*

*Intervenção por videoconferência

O evento conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e das Bibliotecas de Lisboa.

Para uma melhor organização do evento, agradecemos que efectue a reserva dos lugares pretendidos para o lançamento oficial, em Portugal, do livro Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza, de Oscar da Mata. RESERVAR LUGAR

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«Faro e Enigmas» transformou o Memorial num encontro especial

«Faro e Enigmas» transformou o Memorial num encontro especial

A poeta angolana Elsa Major apresentou oficialmente, na tarde de quarta-feira, 29 de Julho, em Luanda, o livro Faro e Enigmas, numa sessão realizada no Memorial Dr. António Agostinho Neto. Perto de uma centena de convidados participou num encontro marcado pela poesia, pela música, pela performance e pela reflexão em torno da mulher e da cultura angolana.

Depois da apresentação pública realizada a 30 de Abril, em Lisboa, com o apoio da Embaixada da República de Angola em PortugalFaro e Enigmas chegou finalmente ao país que inspira grande parte da sua linguagem poética. O Namibe, o Atlântico, o deserto, o amor, a espiritualidade, a memória e as inquietações do mundo contemporâneo atravessam uma obra profundamente ligada às experiências e às raízes culturais da autora.

A sessão contou com as participações especiais de Conceição Cristóvão e Agnela Barros, responsáveis por diferentes leituras da obra, e do escritor, crítico literário e investigador João Fernando André, que representou a Perfil Criativo | AUTORES.club, editora responsável pela publicação.

Embora o auditório principal do Memorial tenha capacidade para cerca de 300 pessoas, a grandeza do encontro não se mediu pela lotação da sala. O escritor e jornalista José Soares Caetano, também conhecido literariamente como Tazuary Nkeita, classificou o lançamento como um momento de «Cultura Angolana em Grande», considerando que a qualidade e a riqueza cultural da sessão superaram todas as expectativas.

Conceição Cristóvão entre a razão e a emoção

Na sua intervenção, o professor Conceição Cristóvão dirigiu-se a Elsa Major a partir de duas perspectivas complementares: a razão e a emoção. Por um lado, propôs uma leitura reflexiva da obra, destacando a diversidade de interpretações que a poesia de Faro e Enigmas permite; por outro, assumiu uma abordagem afectiva, próxima e profundamente ligada à sensibilidade poética da autora.

A intervenção ganhou uma dimensão especialmente emotiva com a declamação de poemas de outros poetas, escolhidos e dedicados a Elsa Major. Este diálogo entre diferentes vozes literárias transformou a homenagem numa celebração colectiva da poesia, aproximando a autora de outras tradições, sensibilidades e experiências da palavra.

Agnela Barros destaca a artista, a mulher e a mãe

Na sua intervenção, a professora Agnela Barros propôs uma leitura de Faro e Enigmas a partir da condição da mulher africana, recordando a proximidade do Dia da Mulher Africana, assinalado a 31 de Julho.

Agnela Barros identificou na obra um forte hibridismo cultural, traduzido no diálogo permanente com diferentes realidades, culturas, civilizações e expressões artísticas. A música, a dança, a literatura, as línguas angolanas e as referências a diferentes geografias surgem interligadas numa poesia que recusa fronteiras rígidas.

Sem ignorar a presença do amor erótico, a professora preferiu destacar aquilo que considerou ser um dos elementos fundamentais do livro: o amor pela humanidade e a atenção da autora ao sofrimento dos outros. Esta dimensão humanista cruza-se com o amor pelo Namibe, por Luanda, pela história e pelas memórias individuais e colectivas.

Agnela Barros sintetizou a sua leitura em três dimensões fundamentais de Elsa Major: «artista, mulher e mãe». Na sua perspectiva, a autora manifesta uma particular capacidade para acolher as dores e as alegrias do mundo, estabelecendo pontes entre pessoas, lugares, tempos e diferentes formas de conhecimento.

João Fernando André reafirma a missão da editora

Em representação da Perfil Criativo | AUTORES.club, João Fernando André começou por agradecer a todos os que contribuíram para a realização do lançamento, bem como a Conceição Cristóvão e Agnela Barros pelas leituras e interpretações apresentadas.

O escritor e investigador recordou que a editora, embora esteja sediada em Lisboa, definiu como uma das suas prioridades a publicação e divulgação de autores angolanos e de trabalhos dedicados a Angola. Segundo referiu, o catálogo já reúne mais de cinquenta títulos ligados ao país, com especial incidência nas humanidades, na literatura, na poesia e no conto. (Nota do editor: rectificação, são mais de cento e cinquenta títulos)

Para João Fernando AndréFaro e Enigmas é uma «obra aberta», capaz de receber diferentes sensibilidades e interpretações. O livro valoriza o amor nas suas várias dimensões, da fraternidade ao erotismo, e recupera a sensibilidade como resposta a um mundo cada vez mais marcado pelo individualismo, pela violência e pela simplificação dos seres humanos.

A intervenção destacou igualmente a intertextualidade da obra, o diálogo com outros campos do saber e aquilo que Conceição Cristóvão definiu como um exercício de «inversão do olhar»: a capacidade de observar a realidade a partir de outras perspectivas, estabelecendo relações entre elementos aparentemente separados.

Outro aspecto salientado foi a incorporação de línguas angolanas, elementos da tradição oral e referências à angolanidade. Numa altura em que muitas línguas nacionais necessitam de maior apoio e valorização, João Fernando André considerou particularmente relevante que Elsa Major lhes conceda espaço dentro da sua criação poética.

O representante da editora chamou ainda a atenção para a desigualdade existente entre homens e mulheres na publicação literária. Citando o levantamento realizado no livro Autores e Escritores de Angola, de Tomás Lima Coelho, referiu que, num universo de aproximadamente 3.300 autores identificados até 2021, apenas 607 eram mulheres. Nesse sentido, apelou à continuidade da produção literária feminina e à valorização do trabalho intelectual das mulheres angolanas.

Elsa Major entrega o livro aos leitores

Visivelmente emocionada, Elsa Major agradeceu aos familiares, amigos, convidados e a todos os que aceitaram participar naquele momento. Dirigiu palavras especiais ao filho, à nora, à neta e aos músicos da Orquestra Camerata de Luanda, que considera companheiros do seu percurso e cuja música também inspira a sua escrita.

Depois de ouvir as intervenções de Conceição Cristóvão, Agnela Barros e João Fernando André, a autora reconheceu ter descoberto novas possibilidades de leitura dentro dos próprios poemas. Afirmou ter sentido, nos rostos e nos gestos do público, que ainda havia muitas palavras por dizer, entregando simbolicamente a continuidade do livro aos leitores.

Elsa Major manifestou o desejo de que o público transportasse consigo o sentido humanitário da obra: a pertença, o respeito pelas tradições, pela cultura, pelas línguas angolanas e pela ancestralidade. Defendeu igualmente a valorização das capacidades individuais e colectivas de Angola, recordando que escolheu as letras como o seu território de intervenção.

A autora explicou ainda que começou a escrever grande parte de Faro e Enigmas durante a pandemia de Covid-19, quando se encontrava a cumprir uma missão diplomática na África do Sul. Separada de parte da família e confrontada com o isolamento e o medo da morte, encontrou na escrita uma forma de enfrentar aquele período profundamente conturbado.

Essa experiência levou-a a reflectir sobre a fragilidade humana, o sofrimento, a violência e aquilo que considera ser uma preocupante perda do amor ao próximo. Para Elsa Major, o mundo tem espaço para todos, independentemente das diferenças, desde que a humanidade recupere a capacidade de cuidar, respeitar e amar.

A intervenção terminou com uma declaração que resume o espírito do livro e do próprio lançamento: «amor é vida, amor é Deus».

De “Manjoro” a “Major”: uma memória familiar recuperada

Um dos momentos mais surpreendentes da tarde surgiu através da intervenção de um membro mais velho da família da autora, que revelou a origem do apelido «Major».

Segundo o testemunho partilhado durante a sessão, «Major» é uma corruptela aportuguesada da palavra cuanhama «Manjoro». O nome original terá sido rejeitado pelos serviços de registo civil durante o regime colonial, acabando por ser adaptado à forma portuguesa pela qual a família passou a ser oficialmente identificada.

A revelação conferiu ao encontro uma dimensão histórica e inesperada. Num livro marcado pela memória, pela pertença e pelas raízes africanas, a recuperação do nome «Manjoro» permitiu também recordar os mecanismos através dos quais a administração colonial alterou nomes africanos e interferiu na transmissão das identidades familiares.

Publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.clubFaro e Enigmas conta com prefácios de Sara Jona Laisse e Kátia Guerreiro. Ao chegar oficialmente a Luanda, a obra deixou de pertencer apenas à autora e passou definitivamente para as mãos dos seus leitores, como um faro destinado a iluminar os enigmas do amor, da memória e da condição humana.

Elsa Major leva «Faro e Enigmas» ao programa Janela Aberta antes do lançamento em Luanda

Elsa Major leva «Faro e Enigmas» ao programa Janela Aberta antes do lançamento em Luanda

A poeta angolana Elsa Major foi convidada do programa Janela Aberta, da Televisão Pública de Angola (TPA), onde apresentou o seu percurso literário e anunciou o lançamento oficial, em Luanda, do livro «Faro e Enigmas», publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.club.

A obra será lançada hoje, 29 de Julho, às 16h30, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, num encontro dedicado à poesia, à palavra, à dramatização e à música. Esta será a primeira apresentação do livro em Angola, depois do lançamento realizado em Portugal, que contou com o apoio da Embaixada da República de Angola em Portugal.

Durante a conversa no Janela Aberta, Elsa Major recordou que começou a escrever ainda na adolescência e falou das quatro obras que integram o seu percurso como autora. Para além dos livros publicados, participa regularmente em antologias de autores de diferentes países de língua portuguesa, experiência que considera essencial para manter o diálogo e o intercâmbio entre as várias geografias da lusofonia.

A poeta abordou também a sua ligação à família, à educação e à transmissão do gosto pela leitura às novas gerações. A neta Ainara, uma das suas fontes de inspiração, dá nome a uma colecção de contos infanto-juvenis ilustrados que a autora está a preparar.

Outro dos momentos marcantes da entrevista foi a declamação de um poema dedicado à sua terra natal. Elsa Major destacou Moçâmedes, o mar e o deserto como elementos permanentes da sua criação literária, afirmando que são paisagens inseparáveis da sua memória, da sua sensibilidade e da sua escrita.

A autora pronunciou-se igualmente sobre o actual panorama literário angolano, que considera dinâmico e enriquecido pela participação de uma nova geração de escritores. Contudo, chamou a atenção para os elevados custos de edição e para as dificuldades que muitos autores e artistas enfrentam para publicar e divulgar os seus trabalhos. Na sua perspectiva, são necessárias políticas capazes de apoiar a criação e de levar os valores culturais angolanos para além das fronteiras do país.

No final da entrevista, Elsa Major ofereceu um exemplar de «Faro e Enigmas» ao programa e escolheu «Força Estranha», na voz de Gal Costa, como uma das músicas marcantes da sua vida — uma escolha associada à força, ao amor e à energia que também atravessam a sua poesia.

O público terá hoje a oportunidade de conhecer essa «força estranha» da palavra poética no lançamento oficial de «Faro e Enigmas», às 16h30, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda.

Kalunga defende a literatura como espaço de resistência num mundo líquido

Kalunga defende a literatura como espaço de resistência num mundo líquido

Em entrevista ao programa «Entre Linhas», da Rádio UNIA, o escritor e crítico literário João Fernando André, conhecido no meio literário como Kalunga, reflectiu sobre cosmopolitismo, modernidade líquida, crítica literária e os desafios da promoção do livro e da leitura em Angola. A conversa destacou ainda a sua mais recente obra poética, Matéria Negra, publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club.

Partindo do pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman e do conceito de «modernidade líquida», João Fernando André analisou as profundas transformações provocadas pela globalização, pelas tecnologias digitais e pelo crescente individualismo. Para o autor, estas mudanças estão a alterar valores, identidades e relações sociais, fornecendo simultaneamente novos temas e problemas à criação literária.

Kalunga considerou que a literatura continua a ser uma das artes que melhor interpreta as sociedades, não apenas porque proporciona prazer estético, mas também porque recria criticamente os fenómenos sociais. Num tempo marcado pela pós-verdade, alertou para a substituição da análise crítica por opiniões construídas sobretudo a partir das emoções.

Ao abordar o cosmopolitismo, o escritor defendeu que o universal não deve significar o desaparecimento das culturas nacionais. Pelo contrário, a verdadeira dimensão universal resulta da soma dos valores locais. As literaturas nacionais permitem compreender as realidades particulares, mas também revelam questões comuns à humanidade, como o amor, a segurança, a fraternidade, a ganância, a desigualdade e a procura de sentido.

Segundo João Fernando André, a literatura angolana mantém, desde cedo, um diálogo com o mundo sem abandonar as suas raízes históricas, culturais e linguísticas. Recordou autores que souberam relacionar as experiências locais com problemas universais e destacou a capacidade da criação literária angolana para interpretar a história, as relações de poder e as transformações da sociedade.

Uma outra imagem de África

A residir há cerca de cinco anos em Portugal, onde desenvolve trabalho académico e de investigação, Kalunga afirmou que uma das suas preocupações é divulgar internacionalmente os valores e as potencialidades de Angola e do continente africano.

Na sua perspectiva, África continua frequentemente a ser apresentada no Ocidente como uma realidade única e homogénea, associada quase exclusivamente à violência, ao medo e à desesperança. O escritor contrapôs a essa representação a diversidade cultural do continente, a juventude da sua população, a criatividade, a resiliência, a solidariedade e o respeito pelas pessoas mais velhas.

O investigador salientou igualmente as possibilidades abertas pelo chamado «cibercontinente». As plataformas digitais permitem que escritores, académicos e críticos angolanos publiquem os seus trabalhos, participem em revistas internacionais e estabeleçam um diálogo mais rápido com investigadores de outras geografias. No entanto, a velocidade da informação também favorece opiniões instantâneas e pouco fundamentadas, colocando novos desafios ao exercício rigoroso da crítica literária.

Angola precisa de devolver o livro às escolas

Um dos pontos centrais da entrevista foi a necessidade de formar novos leitores. Kalunga manifestou preocupação com a redução progressiva das tiragens dos livros em Angola, lembrando que, no período posterior à Independência, algumas edições atingiam milhares de exemplares, enquanto actualmente muitas publicações se limitam a algumas centenas ou mesmo dezenas.

Para inverter esta tendência, defendeu a aplicação efectiva de uma política nacional do livro, a criação de um fundo de apoio à edição e a reposição do livro no centro da vida escolar. Alertou também que muitas infra-estruturas apresentadas como escolas são, na prática, apenas conjuntos de salas de aula, sem bibliotecas, espaços desportivos ou outras condições indispensáveis à formação integral dos estudantes.

Entre as medidas sugeridas, apontou a possibilidade de criação de um cartão que permitisse aos estudantes adquirir livros com uma redução significativa do preço, sendo a diferença suportada pelo Estado, pelas universidades ou por outras instituições.

O escritor reconheceu que Angola possui crítica literária, instituições universitárias, cursos de Letras e Humanidades, leitores e um dos sistemas literários mais antigos do espaço africano de língua portuguesa. Considerou, contudo, indispensável profissionalizar e valorizar o trabalho dos críticos, criando condições para que a actividade intelectual seja exercida com maior estabilidade.

Matéria Negra: do local para o universal

Durante a entrevista, João Fernando André falou também de Matéria Negra, a sua quarta obra individual, recentemente apresentada em Luanda e publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club.

O livro reúne poemas que relacionam valores locais e universais, reflectindo a experiência cosmopolita e o percurso do autor entre Angola e Portugal. Entre os temas presentes encontram-se as crises familiares, a condição ontológica do ser humano, a relação com o macrocosmo e a natureza, as questões ecológicas e o desmatamento.

Kalunga reafirmou, neste contexto, o poder transformador da poesia. Para o autor, o texto poético permite dizer muito através de poucas palavras, exige uma participação activa do leitor e abre sucessivas possibilidades de interpretação. É precisamente essa capacidade crítica que faz da poesia uma forma de resistência perante o totalitarismo, o mercado e a sociedade de consumo.

Além de Matéria Negra, o escritor anunciou que prepara uma nova obra de ensaios e a futura publicação da sua tese de doutoramento. A entrevista no «Entre Linhas» confirmou, assim, uma trajectória que cruza criação poética, investigação académica e intervenção cultural, colocando a literatura no centro do debate sobre Angola e o mundo contemporâneo.

Matéria Negra
Matéria Negra
Evangelho Bantu
Evangelho Bantu

Elsa Major leva Faro e Enigmas às ondas da rádio CEFOJOR

Elsa Major leva Faro e Enigmas às ondas da rádio CEFOJOR

Na manhã de 25 de junho de 2026, a poetisa angolana Elsa Major esteve na rádio CEFOJOR para uma breve entrevista dedicada à sua mais recente obra poética, Faro e Enigmas. A conversa decorreu no espaço «Páginas e Vozes», integrado no programa Manhã de Cacimbo, e serviu também para anunciar a apresentação oficial do livro em Luanda.

Parceira na divulgação da literatura e da cultura, a rádio CEFOJOR recebeu a autora num ambiente que Elsa Major considerou já familiar. Cumprindo uma promessa anteriormente assumida, a poeta regressou à estação não apenas para falar da obra, mas também para oferecer um exemplar à rádio e ao programa.

Publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.clubFaro e Enigmas reúne poemas atravessados pelo amor, pela sensualidade, pela memória, pela identidade e pelas paisagens africanas. A presença do Namibe, terra natal da autora, do deserto e do mar constitui uma das marcas mais fortes do livro, prolongando uma ligação afectiva e literária ao Sul de Angola.

A obra não se limita, porém, à contemplação da paisagem ou à dimensão íntima dos sentimentos. Durante a entrevista, Elsa Major destacou igualmente as inquietações sociais presentes nos poemas, incluindo a guerra, a instabilidade internacional e os seus efeitos sobre a vida das pessoas, mesmo quando os conflitos decorrem longe das nossas fronteiras.

A espiritualidade e a fé ocupam também um lugar central. Para a autora, num mundo afectado pela violência e pela incerteza, o amor continua a ser uma força necessária à convivência humana: «O mundo precisa de amor», afirmou, deixando igualmente um apelo para que não se perca a fé.

Poesia escrita, dramatizada e cantada

Depois da primeira apresentação pública, realizada a 30 de abril de 2026, no Auditório 11 de Novembro, em PortugalFaro e Enigmas conhecerá a sua apresentação oficial em Angola na quarta-feira, 29 de julho de 2026, às 16h30, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda.

A sessão contará com as participações de Conceição Cristóvão, Agnela Barros e João Fernando André, escritor, crítico literário e autor de Matéria Negra, que já havia intervindo na apresentação da obra em Portugal. Elsa Major recordou ainda o contributo do escritor e crítico Mário Máximo, responsável pelo texto principal de apresentação na sessão realizada em Lisboa.

O encontro no Memorial pretende ultrapassar o formato convencional de lançamento literário. O público será convidado a experimentar três dimensões complementares da criação artística: a poesia escrita, a poesia dramatizada e a poesia transformada em música. Estão previstas interpretações cénicas dos poemas por estudantes ligados ao ensino das artes, bem como um momento musical.

Será, nas palavras da autora, uma oportunidade para aproximar diferentes linguagens e mostrar como a literatura pode conviver com o teatro e a música, dando uma nova vida ao texto poético.

Com entrada livre, a apresentação de Faro e Enigmas propõe-se como um momento solene de celebração da palavra e da cultura. Elsa Major deixou, através dos microfones da rádio CEFOJOR, um convite aos leitores, aos amantes da poesia e a todos os que desejem partilhar consigo este novo percurso da obra em Angola.

Final Volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision» to be launched in London

Final Volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision» to be launched in London

London, 27th July 2026 – The third and final volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision – Almost Memories», a posthumous cultural anthropology work by Angolan writer and ethnologist Maurício Caetano, known as “Mafrano,” will be launched in London on 26th September, at 11H30 am.

The event will take place at the «Adventure Playground Conference Centre», 55 Willington Road, SW9 9NB, in South London, and is expected to bring together members of the academic, cultural, and Lusophone communities.

This final volume spans 327 pages and is structured across eighteen chapters and more than sixty texts. It explores themes related to Bantu civilization, religious thought, and social experiences documented by the author between 1947 and 1982.

Alongside the launch, the family will also announce a forthcoming English-language edition featuring a curated selection of key texts, aimed at expanding the work’s international reach.

The whole collection highlights historically significant essays such as “The Ethnographic Profile of the Black Jinga” (1947) and “The Bantu Slave Before the Slave Traders” (1981), reflecting Mafrano’s long-standing contribution to the study of African societies and cultural identity.

The publication is part of a trilogy compiled posthumously by the author’s family, drawing on decades of writings originally published in Angolan newspapers and magazines. Together, the three volumes total approximately 800 pages.

The first two volumes were presented in London in November 2024 at Birkbeck University, attracting a wide audience. Since then, the work has reached readers and academic institutions across several countries, including Mozambique, Cape Verde, São Tomé and Príncipe, Germany, Portugal, and Brazil.

Notable figures who have engaged with the collection include United Nations Secretary-General Antonio Guterres, Portuguese President Marcelo Rebelo de Sousa, and Cardinal José Tolentino de Mendonça, among others from cultural and academic circles.

Mauricio Caetano, awarded Angola’s National Prize for Culture and Arts in 2004, is recognised for his contribution to research in the human and social sciences. The prize jury described his work as a landmark of historical and cultural value.

The trilogy traces its origins to articles published over a 35-year period, offering a unique perspective on African history, identity, and social transformation.

Prémio Nacional de Cultura
Angola’s National Prize for Culture and Arts in 2004