A poeta angolana Elsa Major foi convidada do programa Janela Aberta, da Televisão Pública de Angola (TPA), onde apresentou o seu percurso literário e anunciou o lançamento oficial, em Luanda, do livro «Faro e Enigmas», publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.club.
A obra será lançada hoje, 29 de Julho, às 16h30, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, num encontro dedicado à poesia, à palavra, à dramatização e à música. Esta será a primeira apresentação do livro em Angola, depois do lançamento realizado em Portugal, que contou com o apoio da Embaixada da República de Angola em Portugal.
Durante a conversa no Janela Aberta, Elsa Major recordou que começou a escrever ainda na adolescência e falou das quatro obras que integram o seu percurso como autora. Para além dos livros publicados, participa regularmente em antologias de autores de diferentes países de língua portuguesa, experiência que considera essencial para manter o diálogo e o intercâmbio entre as várias geografias da lusofonia.
A poeta abordou também a sua ligação à família, à educação e à transmissão do gosto pela leitura às novas gerações. A neta Ainara, uma das suas fontes de inspiração, dá nome a uma colecção de contos infanto-juvenis ilustrados que a autora está a preparar.
Outro dos momentos marcantes da entrevista foi a declamação de um poema dedicado à sua terra natal. Elsa Major destacou Moçâmedes, o mar e o deserto como elementos permanentes da sua criação literária, afirmando que são paisagens inseparáveis da sua memória, da sua sensibilidade e da sua escrita.
A autora pronunciou-se igualmente sobre o actual panorama literário angolano, que considera dinâmico e enriquecido pela participação de uma nova geração de escritores. Contudo, chamou a atenção para os elevados custos de edição e para as dificuldades que muitos autores e artistas enfrentam para publicar e divulgar os seus trabalhos. Na sua perspectiva, são necessárias políticas capazes de apoiar a criação e de levar os valores culturais angolanos para além das fronteiras do país.
No final da entrevista, Elsa Major ofereceu um exemplar de «Faro e Enigmas» ao programa e escolheu «Força Estranha», na voz de Gal Costa, como uma das músicas marcantes da sua vida — uma escolha associada à força, ao amor e à energia que também atravessam a sua poesia.
O público terá hoje a oportunidade de conhecer essa «força estranha» da palavra poética no lançamento oficial de «Faro e Enigmas», às 16h30, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda.
Em entrevista ao programa «Entre Linhas», da Rádio UNIA, o escritor e crítico literário João Fernando André, conhecido no meio literário como Kalunga, reflectiu sobre cosmopolitismo, modernidade líquida, crítica literária e os desafios da promoção do livro e da leitura em Angola. A conversa destacou ainda a sua mais recente obra poética, Matéria Negra, publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club.
Partindo do pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman e do conceito de «modernidade líquida», João Fernando André analisou as profundas transformações provocadas pela globalização, pelas tecnologias digitais e pelo crescente individualismo. Para o autor, estas mudanças estão a alterar valores, identidades e relações sociais, fornecendo simultaneamente novos temas e problemas à criação literária.
Kalunga considerou que a literatura continua a ser uma das artes que melhor interpreta as sociedades, não apenas porque proporciona prazer estético, mas também porque recria criticamente os fenómenos sociais. Num tempo marcado pela pós-verdade, alertou para a substituição da análise crítica por opiniões construídas sobretudo a partir das emoções.
Ao abordar o cosmopolitismo, o escritor defendeu que o universal não deve significar o desaparecimento das culturas nacionais. Pelo contrário, a verdadeira dimensão universal resulta da soma dos valores locais. As literaturas nacionais permitem compreender as realidades particulares, mas também revelam questões comuns à humanidade, como o amor, a segurança, a fraternidade, a ganância, a desigualdade e a procura de sentido.
Segundo João Fernando André, a literatura angolana mantém, desde cedo, um diálogo com o mundo sem abandonar as suas raízes históricas, culturais e linguísticas. Recordou autores que souberam relacionar as experiências locais com problemas universais e destacou a capacidade da criação literária angolana para interpretar a história, as relações de poder e as transformações da sociedade.
Uma outra imagem de África
A residir há cerca de cinco anos em Portugal, onde desenvolve trabalho académico e de investigação, Kalunga afirmou que uma das suas preocupações é divulgar internacionalmente os valores e as potencialidades de Angola e do continente africano.
Na sua perspectiva, África continua frequentemente a ser apresentada no Ocidente como uma realidade única e homogénea, associada quase exclusivamente à violência, ao medo e à desesperança. O escritor contrapôs a essa representação a diversidade cultural do continente, a juventude da sua população, a criatividade, a resiliência, a solidariedade e o respeito pelas pessoas mais velhas.
O investigador salientou igualmente as possibilidades abertas pelo chamado «cibercontinente». As plataformas digitais permitem que escritores, académicos e críticos angolanos publiquem os seus trabalhos, participem em revistas internacionais e estabeleçam um diálogo mais rápido com investigadores de outras geografias. No entanto, a velocidade da informação também favorece opiniões instantâneas e pouco fundamentadas, colocando novos desafios ao exercício rigoroso da crítica literária.
Angola precisa de devolver o livro às escolas
Um dos pontos centrais da entrevista foi a necessidade de formar novos leitores. Kalunga manifestou preocupação com a redução progressiva das tiragens dos livros em Angola, lembrando que, no período posterior à Independência, algumas edições atingiam milhares de exemplares, enquanto actualmente muitas publicações se limitam a algumas centenas ou mesmo dezenas.
Para inverter esta tendência, defendeu a aplicação efectiva de uma política nacional do livro, a criação de um fundo de apoio à edição e a reposição do livro no centro da vida escolar. Alertou também que muitas infra-estruturas apresentadas como escolas são, na prática, apenas conjuntos de salas de aula, sem bibliotecas, espaços desportivos ou outras condições indispensáveis à formação integral dos estudantes.
Entre as medidas sugeridas, apontou a possibilidade de criação de um cartão que permitisse aos estudantes adquirir livros com uma redução significativa do preço, sendo a diferença suportada pelo Estado, pelas universidades ou por outras instituições.
O escritor reconheceu que Angola possui crítica literária, instituições universitárias, cursos de Letras e Humanidades, leitores e um dos sistemas literários mais antigos do espaço africano de língua portuguesa. Considerou, contudo, indispensável profissionalizar e valorizar o trabalho dos críticos, criando condições para que a actividade intelectual seja exercida com maior estabilidade.
Matéria Negra: do local para o universal
Durante a entrevista, João Fernando André falou também de Matéria Negra, a sua quarta obra individual, recentemente apresentada em Luanda e publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club.
O livro reúne poemas que relacionam valores locais e universais, reflectindo a experiência cosmopolita e o percurso do autor entre Angola e Portugal. Entre os temas presentes encontram-se as crises familiares, a condição ontológica do ser humano, a relação com o macrocosmo e a natureza, as questões ecológicas e o desmatamento.
Kalunga reafirmou, neste contexto, o poder transformador da poesia. Para o autor, o texto poético permite dizer muito através de poucas palavras, exige uma participação activa do leitor e abre sucessivas possibilidades de interpretação. É precisamente essa capacidade crítica que faz da poesia uma forma de resistência perante o totalitarismo, o mercado e a sociedade de consumo.
Além de Matéria Negra, o escritor anunciou que prepara uma nova obra de ensaios e a futura publicação da sua tese de doutoramento. A entrevista no «Entre Linhas» confirmou, assim, uma trajectória que cruza criação poética, investigação académica e intervenção cultural, colocando a literatura no centro do debate sobre Angola e o mundo contemporâneo.
Na manhã de 25 de junho de 2026, a poetisa angolana Elsa Major esteve na rádio CEFOJOR para uma breve entrevista dedicada à sua mais recente obra poética, Faro e Enigmas. A conversa decorreu no espaço «Páginas e Vozes», integrado no programa Manhã de Cacimbo, e serviu também para anunciar a apresentação oficial do livro em Luanda.
Parceira na divulgação da literatura e da cultura, a rádio CEFOJOR recebeu a autora num ambiente que Elsa Major considerou já familiar. Cumprindo uma promessa anteriormente assumida, a poeta regressou à estação não apenas para falar da obra, mas também para oferecer um exemplar à rádio e ao programa.
Publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, Faro e Enigmas reúne poemas atravessados pelo amor, pela sensualidade, pela memória, pela identidade e pelas paisagens africanas. A presença do Namibe, terra natal da autora, do deserto e do mar constitui uma das marcas mais fortes do livro, prolongando uma ligação afectiva e literária ao Sul de Angola.
A obra não se limita, porém, à contemplação da paisagem ou à dimensão íntima dos sentimentos. Durante a entrevista, Elsa Major destacou igualmente as inquietações sociais presentes nos poemas, incluindo a guerra, a instabilidade internacional e os seus efeitos sobre a vida das pessoas, mesmo quando os conflitos decorrem longe das nossas fronteiras.
A espiritualidade e a fé ocupam também um lugar central. Para a autora, num mundo afectado pela violência e pela incerteza, o amor continua a ser uma força necessária à convivência humana: «O mundo precisa de amor», afirmou, deixando igualmente um apelo para que não se perca a fé.
Poesia escrita, dramatizada e cantada
Depois da primeira apresentação pública, realizada a 30 de abril de 2026, no Auditório 11 de Novembro, em Portugal, Faro e Enigmas conhecerá a sua apresentação oficial em Angola na quarta-feira, 29 de julho de 2026, às 16h30, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda.
A sessão contará com as participações de Conceição Cristóvão, Agnela Barros e João Fernando André, escritor, crítico literário e autor de Matéria Negra, que já havia intervindo na apresentação da obra em Portugal. Elsa Major recordou ainda o contributo do escritor e crítico Mário Máximo, responsável pelo texto principal de apresentação na sessão realizada em Lisboa.
O encontro no Memorial pretende ultrapassar o formato convencional de lançamento literário. O público será convidado a experimentar três dimensões complementares da criação artística: a poesia escrita, a poesia dramatizada e a poesia transformada em música. Estão previstas interpretações cénicas dos poemas por estudantes ligados ao ensino das artes, bem como um momento musical.
Será, nas palavras da autora, uma oportunidade para aproximar diferentes linguagens e mostrar como a literatura pode conviver com o teatro e a música, dando uma nova vida ao texto poético.
Com entrada livre, a apresentação de Faro e Enigmas propõe-se como um momento solene de celebração da palavra e da cultura. Elsa Major deixou, através dos microfones da rádio CEFOJOR, um convite aos leitores, aos amantes da poesia e a todos os que desejem partilhar consigo este novo percurso da obra em Angola.
London, 27th July 2026 – The third and final volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision – Almost Memories», a posthumous cultural anthropology work by Angolan writer and ethnologist Maurício Caetano, known as “Mafrano,” will be launched in London on 26th September, at 11H30 am.
The event will take place at the «Adventure Playground Conference Centre», 55 Willington Road, SW9 9NB, in South London, and is expected to bring together members of the academic, cultural, and Lusophone communities.
This final volume spans 327 pages and is structured across eighteen chapters and more than sixty texts. It explores themes related to Bantu civilization, religious thought, and social experiences documented by the author between 1947 and 1982.
Alongside the launch, the family will also announce a forthcoming English-language edition featuring a curated selection of key texts, aimed at expanding the work’s international reach.
The whole collection highlights historically significant essays such as “The Ethnographic Profile of the Black Jinga” (1947) and “The Bantu Slave Before the Slave Traders” (1981), reflecting Mafrano’s long-standing contribution to the study of African societies and cultural identity.
The publication is part of a trilogy compiled posthumously by the author’s family, drawing on decades of writings originally published in Angolan newspapers and magazines. Together, the three volumes total approximately 800 pages.
The first two volumes were presented in London in November 2024 at Birkbeck University, attracting a wide audience. Since then, the work has reached readers and academic institutions across several countries, including Mozambique, Cape Verde, São Tomé and Príncipe, Germany, Portugal, and Brazil.
Notable figures who have engaged with the collection include United Nations Secretary-General Antonio Guterres, Portuguese President Marcelo Rebelo de Sousa, and Cardinal José Tolentino de Mendonça, among others from cultural and academic circles.
Mauricio Caetano, awarded Angola’s National Prize for Culture and Arts in 2004, is recognised for his contribution to research in the human and social sciences. The prize jury described his work as a landmark of historical and cultural value.
The trilogy traces its origins to articles published over a 35-year period, offering a unique perspective on African history, identity, and social transformation.
TEXTO DE EDMIRA CARIANGO (Licenciada em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa. Ensaísta e crítica literária. Membro do Círculo de Estudos Literários e Linguísticos Litteragris). Este texto foi apresentado na União dos Escritores Angolanos a 22 de julho de 2026.
I
A palavra forjando sabedoria, o olhar forjando poesia, pela autonomia universal dos saberes…
Neste dia, fruímos, uma vez mais, do néctar da poesia. Quem nos traz para cá é o escritor João Fernandes André, crítico literário, doutor em Literatura, Artes e Culturas Modernas, que enquanto Kalunga, no seu nome artístico, assina esta Matéria Negra, sua quarta obra a solo, juntando-se aos títulos Evangelho Bantu, O Dia em que uma Pedra Virou Lua, Lumbu – A Alquimia das Palavras.
A poética deste autor da geração do pós 4 de Abril (da paz efectiva), que emerge mais concretamente na cena literária entre os anos 2010, de acordo com as recentes propostas de periodização da literatura angolana (Simbad, 2023), privilegia o trabalho à palavra, usando-a como uma das principais substâncias da sua matéria que é a poesia, não ainda esta matéria negra, referência à energia que suporta o todo “ininteligível”, mas sensível. É também esta palavra um elemento em transformação e reconstrução a favor da forja de uma sabedoria que se vem afirmando no conjunto dos conhecimentos em defesa das sabedorias dos povos africanos, que aliás é também universal.
Basta nos lembrarmos que uma grande parte dos seus poemas tem a palavra como instrumento e tema. O título Evangelho Bantu já vem afirmando uma autonomia os povos africanos, acusado de falta de tradição, no sentido de herança patrimonial da sapiência – filha da experiência de viver e de criar –, como detentores de uma sabedoria, que, aliás, é natural e universal. Além dos poemas que defendem a palavra como um instrumento universal e humano, e por isso, usada por todos para interpretar a experiência humana, Matéria Negra vem, nesta perspectiva, reafirmar a forja desta sabedoria, que já existia, que é autónoma também, sendo que aqui a poesia é usada como o lugar em que a palavra e a sabedoria natural, universal e africana também se afirma para notoriamente conviver com as coisas terrestres e celestes.
II
Da Natureza da Matéria Negra
No seu fundo, a poesia é construída com elementos do saber e através da interpretação da essência dos objectos terrenos, palpáveis e abstractos, como a vida no seu todo, principalmente o seu modo, a natureza e os procedimentos existenciais humanos. A palavra é um instrumento de manusear a linguagem, que desnuda a aparência das coisas e revela nelas o belo e feio, o acidental e o provocado, o natural e o artificial, o bom e o mau e conjectura ideias, reconstruindo-as a partir de outros saberes, e insiste na busca dos sentidos, bem como reafirma o valor da palavra enquanto meio de expressão.
Ler poesia é um desafio de leitura, releituras e descoberta de mundos, ela é uma construção de ideias e sentidos.
Usando-se, na sua forma, do verso livre e da construção de poemas ora monósticos ora dísticos, assim como na sua forma contemporânea de organização em versos e agrupados em estrofes, interpondo recurso aos trocadilhos versejados, anáforas que enfatizam a permanência das ocorrências, e ao mesmo tempo de recursos fonéticos e semânticos de construção do verso tais como a assonância e aliterações, paradoxos, a poesia de Matéria Negra expõe procedimentos corrosivos da vida promovidos por sistemas organizados, realçando o poder da palavra ao serviço da verdade, como podemos ler nos versos a seguir:
Peixes em afogamento/ Procurando coletes salva-vidas/ Na retina dos corações/ Musseques abissais/Espraiando-se no tempo/ Fedem de promessas/ A dor/ A dor/ A dor/ Acedia/para onde vão os sinos?
Numa composição à maneira agristética – aquela que se serve da desfixação, concebe o título como tema, pospondo-o no final de todos os versos, e que advoga uma escrita automática, consciente, trabalhando com diferentes orientações estéticas de diferentes escolas literária – as metáforas nos versos supracitados evocam, pela sugestão, o mar como o mundo, com as suas diferentes nomenclaturas e os seus programas, como um lugar onde os seres humanos, como peixes, são asfixiados pelas ondas das desigualdades absurdas em que “muitos têm quase tudo e outros têm absolutamente nada”, parafraseando um poeta, e ainda assim os vêm mais promessas, que na sua constância necessária, reforçada pelo descumprimento, alongam a dor “dos tais peixes”, como se diz no poema, assediando-os. É em face disso, chamado à acção através do verbo, que o poeta questiona: para onde vão os sinos?, constituindo-se também como uma metáfora que pode aludir, pelo símbolo, a diferentes objectos e experiências.
História, guerras, capitalismo, política
A literatura é concebida como uma construção humana e racional, cuja acção impõe, a quem a cria, pratica ou lê, um desdobramento constante de questionamentos e provocações. A língua, que é uma das suas principais ferramentas, desempenha a sua função comunicativa e, através das operações filosóficas que se prendem no acto de escrever, conjectura e questiona ideias sobre realidades, matérias, seres e coisas, sendo estes, referentes do mundo real, inteligível ou não, relacionados ao sujeito, a uma individualidade ou reconstruindo uma identidade colectiva, uma ordem, um programa, talvez, etc.
E processo interligado e funcional carrega uma dimensão histórica e política. Em vista disto, a obra Matéria Negra configura-se como um objecto que faz dialogar em si essas diferentes dimensões, na medida em que ela é produzida num intervalo de tempo em que convergem discursos e momentos que evidenciam experiências de guerras construídas e derivadas, a sua poesia grita o regresso de máquinas a favor de objectivos nem tanto pró humanidade, pressagia, pelo exemplo da história e mediante as suas diferentes menções, as diferentes influencias que essas experiências exercem à própria realização da vida humana.
Ao se impor diante dessas experiências, tecendo observações e críticas, essa obra cumpre a sua função interventiva, correspondendo à sua necessidade de marcar o seu tempo. A sua dimensão política reside também no facto de ela se constituir em si mesma como uma matéria construída para dizer ou falar, e no acto de falar, declarar o estado das coisas, agindo sobre elas na sua consequente reforma ou impondo um certo despertar. Faz-se pela evocação da história de Angola, evidenciando-se nela uma influência das forças externas que a impulsionaram por razões diversas. (ver os poemas nas páginas 41; 33; 21, etc).
Além disso, nos seus poemas, há a exaltação do absurdo, pelo mecanismo da repetição dos ciclos, mas ao mesmo tempo, Matéria Negra propõe-se como um lugar a partir do qual se forjam esperanças para refazer amanhãs. (ler as páginas 25, 49 e outros).
Reflectir, reavaliar as crenças e forjar novas esperanças
Através de trocadilhos, diferentes poemas reafirmam a importância da valorização das vozes e dos diferentes saberes (32), não deixando de lado a visão perscrutadora aos novos discursos que constroem apologias de igualdade e autonomias das diferentes culturas, sendo também hipoteticamente, como nos sugere a palavra poética, a edificação de novos autoritarismos ou colonialismos, é através da palavra que Kalunga vem, com os seus sujeitos, digladiar:
Trago das mãos do tempo
Os sons do silêncio
A fúria da palavra
A cinzenta ousadia do desejo
A amargura dos metais
I o olfacto das ideias (p.39)
O seu valor reside também no facto de dizer muito com pouco e suscitar constante reflexão e pode ser muito incómoda, porque diz coisas que são do senhor, permitidas a poucos…(ler também as páginas 32; 34; 37).
…O contexto do pré texto
Contesta o pretexto
Do protesto contra
O texto do sul global
Vigilante mente
A epistemologia vergada
Proclama novos pássaros
De asas de ouro (p.32)
Para aqueles que procuram apenas o deleite, vão encontrar um conjunto de ferramentas para solidificar as esperanças ou refazer lições (páginas 49; 40; 41; 42).
Marcado pela valorização do dialogismo, este poemário, mais do que se fundamentar no conhecimento profundo das realidades histórica, económica, política e sociocultural local e universal, erige vozes que dialogam com diferentes sons poéticos das distintas vanguardas contemporaneidade da poesia nacional e internacional, onde a forma é já um dos seus maiores exemplos: esperança árida/Cá indo/Em pé lá/No vale da morte.
Matéria Negra traz um discurso que nos remete para uma proposta de reavaliação das crenças de superioridade: nas catedrais da história/derramando o mito da cor/nem negros demais para sermos brancos/nem brancos demais para sermos negros/nem vermelhos demais para sermos amarelos/nem amarelos demais para sermos vermelhos (…) Assim/Nós/ Como o anjo da humanização/Devorando a linha abissal do estado das coisas…(p.11)
Porquanto, pela sua configuração e sugestão ao propor um diálogo entre o tradicional e o moderno, captando da natureza das coisas, as suas atitudes, essências e qualidades, este poemário propõe-nos a forja de uma sabedoria através do reconhecimento da autonomia dos saberes, do provérbio, construindo máximas, da palavra captando a matéria negra dos universos e da consciência da renovação e circularidade como leis na base substancial de qualquer corpo:
Integrada na colecção “Trabalhos Académicos”, a obra resulta da tese de doutoramento em História, Estudos de Segurança e Defesa desenvolvida pelo autor no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, sob orientação do Professor Catedrático Luís Nuno Rodrigues. O estudo analisa um dos períodos mais sensíveis e menos explorados da história contemporânea das relações entre Angola e Portugal: a primeira década que se seguiu à independência angolana e à consolidação do regime democrático português.
Entre 1976 e 1985, Lisboa e Luanda viveram uma relação marcada por desconfianças herdadas do passado colonial, tensões políticas, suspensões diplomáticas, tentativas de normalização e interesses económicos que mantiveram abertos os canais de diálogo. O livro acompanha o reconhecimento da República Popular de Angola pelo Governo português, a suspensão e o restabelecimento das relações diplomáticas, a nomeação de embaixadores, o papel da Presidência da República Portuguesa, o Acordo Geral de Cooperação e os trabalhos da Comissão Mista Luso-Angolana. Analisa ainda o impacto da Guerra Fria e das actividades desenvolvidas em Portugal pela UNITA e pela FNLA no relacionamento entre os dois Estados.
Os jornais como fonte da História
Um dos aspectos mais relevantes desta investigação é o amplo levantamento da imprensa portuguesa e angolana da época. Salomão Arão Chipeco consultou inúmeros artigos de jornais e revistas, cruzando-os com documentação diplomática, correspondência oficial, relatórios governamentais, debates parlamentares, programas dos governos constitucionais e testemunhos contemporâneos. Este confronto entre diferentes fontes permite reconstruir, com maior minúcia, a forma como as decisões políticas foram tomadas, divulgadas e interpretadas nos dois países.
A imprensa não surge apenas como registo dos acontecimentos. O livro demonstra que os jornais participaram activamente na construção das percepções políticas, na divulgação das actividades dos movimentos angolanos em Portugal e, em determinados momentos, no agravamento das tensões entre os governos de Lisboa e Luanda. Entre os periódicos mobilizados encontram-se títulos como A Província de Angola, o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, o Expresso, o Jornal de Angola e o África Jornal, entre outros. Um exemplo analisado é a cobertura das actividades da UNITA em Portugal e a forma como essas notícias interferiram no debate sobre as relações “Estado a Estado”.
Ao colocar lado a lado notícias, documentos oficiais e decisões governamentais, o autor permite ao leitor observar não apenas o que aconteceu, mas também como os acontecimentos foram apresentados à opinião pública e utilizados no confronto diplomático. A obra revela, assim, o valor dos jornais como fonte histórica e como intervenientes na própria evolução das relações luso-angolanas.
No prefácio, Luís Nuno Rodrigues destaca a amplitude do levantamento documental, o rigor metodológico e a capacidade do autor para cruzar perspectivas frequentemente divergentes, considerando a publicação um contributo duradouro para o conhecimento histórico das relações entre os dois países.
Com esta nova edição da colecção “Trabalhos Académicos”, a Perfil Criativo | AUTORES.club reforça o seu compromisso de aproximar investigações universitárias rigorosas de um público leitor mais vasto e de fortalecer as pontes históricas, culturais e intelectuais entre Angola e Portugal.
Uma obra destinada a investigadores, estudantes, diplomatas, jornalistas e leitores interessados na história contemporânea de Angola e Portugal, nas relações internacionais e no papel da imprensa na construção do debate político-diplomático.
Prefácio de Luís Nuno Rodrigues Resumo Abstract Glossário de Siglas
INTRODUÇÃO Objeto de Estudo e Escolha do Tema Escolha da Cronologia Objetivos da Investigação A Problemática Hipóteses Metodologia de Investigação Fontes Estado da Questão
CAPÍTULO I – CONTEXTO HISTÓRICO DAS RELAÇÕES ENTRE PORTUGAL E ANGOLA Nota Introdutória O Golpe de Estado do 25 de abril de 1974 em Lisboa Angola, período da transferência do poder: Do 25 de abril ao Alvor Acordos de Cessar-fogo entre autoridades portuguesas com FNLA e o MPLA Do Alvor à independência da República Popular de Angola A internacionalização da Guerra Civil Proclamação da Independência e Reconhecimento da RPA Campanha Diplomática dos EUA para não reconhecer a R.P. de Angola Nota Conclusiva do Capítulo
CAPÍTULO II – CONTEXTO INTERNACIONAL DAS RELAÇÕES ENTRE PORTUGAL E ANGOLA Nota Introdutória A legitimação Internacional da RPA junto da OUA, dos países da CEE e Portugal Reconhecimento da RPA pelos países da CEE e pelo Governo português Estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e Angola As tropas sul-africanas retiram-se de Angola Deterioração das Relações Luso-Angolanas Suspensão das Relações Diplomáticas por iniciativa de Angola Nota Conclusiva do Capítulo
CAPÍTULO III – I E II GOVERNOS CONSTITUCIONAIS E AS RELAÇÕES COM ANGOLA Nota Introdutória Portugal: Breve Contextualização Política Angola: Breve Contextualização Política Contactos bilaterais Portugal e Angola Portugal e a Admissão de Angola na ONU Institucionalização da normalização das relações Portugal e Angola Chegada do primeiro Embaixador angolano em Portugal Importância da Cimeira de Bissau na normalização das Relações Luso-Angolanas Nota Conclusiva do Capítulo
CAPÍTULO IV – III, IV E V GOVERNOS CONSTITUCIONAIS DE INICIATIVA PRESIDENCIAL E AS RELAÇÕES COM ANGOLA Nota Introdutória Portugal: Breve Contextualização Política Angola: Breve Contextualização Política Contactos bilaterais entre Portugal e Angola 4.1. Ratificação do Acordo Geral de Cooperação Início dos Trabalhos da Comissão Mista Luso-Angolana Nota Conclusiva do Capítulo
CAPÍTULO V – VI, VII E VIII GOVERNOS CONSTITUCIONAIS E AS RELAÇÕES COM ANGOLA Nota Introdutória Portugal: Breve Contextualização Política Angola: Breve Contextualização Política Contactos bilaterais Portugal e Angola Incremento das relações Luso-Angolanas Fases do desbloqueamento nas Relações Luso-Angolanas II Sessão da Comissão Mista Permanente Luso-Angolana Nota Conclusiva do capítulo
CAPÍTULO VI – IX GOVERNO CONSTITUCIONAL E AS RELAÇÕES COM ANGOLA Nota Introdutória Portugal: Breve Contextualização Política Angola: Breve Contextualização Política Contactos bilaterais Portugal e Angola Dificuldades nas Relações Luso-Angolanas A RPA opta pelo incremento da Cooperação com Espanha em vez de Lisboa Nota Conclusiva do capítulo Conclusão Geral Referências Bibliográficas
ANEXOS ANEXO A – Quadro I – Evolução da Balança Comercial entre Portugal e a República Papular de Angola (1982-1985) ANEXO B – Quadro II – Principais Produtos Importados de Angola (1982-1985) ANEXO C – Quadro III – Principais Produtos Exportados de Angola (por classe e produtos) ANEXO D – Quadro IV – Principais Produtos Exportados para Angola (por artigos e pauta)
Edmira Cariango destacou o diálogo entre civilizações e a ousadia estética de uma obra que transforma a palavra num instrumento de conhecimento, crítica e esperança
O livro Matéria Negra, de Kalunga, foi apresentado na quarta-feira, 22 de Julho de 2026, na União dos Escritores Angolanos(UEA), em Luanda, numa sessão marcada pela leitura crítica de Edmira Cariango e pelo forte interesse do público. Os raros exemplares disponíveis esgotaram-se, confirmando a procura em torno de uma obra especial, tanto pela singularidade da sua proposta poética como pela reduzida disponibilidade no mercado.
Editado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, o poemário constitui a quarta obra a solo de Kalunga, nome literário de João Fernando André. Na sua intervenção, Edmira Cariango enquadrou o autor na geração literária angolana do pós-quatro de Abril, cuja presença se tornou mais visível a partir da década de 2010, e destacou o trabalho exigente que o poeta realiza sobre a palavra, simultaneamente matéria, instrumento e tema da sua criação.
Segundo a apresentadora, a «matéria negra» evocada no título remete para uma energia invisível que sustenta o todo e funciona, na obra, como metáfora de uma força profunda, difícil de apreender, mas perceptível nos seres, na História e na consciência. É a partir dessa substância que Kalunga procura forjar uma sabedoria capaz de afirmar a autonomia dos conhecimentos africanos, sem os isolar da experiência universal.
Edmira Cariango salientou que a poesia de Kalunga estabelece um diálogo constante entre o património tradicional e as linguagens da modernidade. A palavra surge como meio de interpretar a experiência humana, ultrapassar a aparência das coisas e revelar as contradições entre o belo e o feio, o natural e o artificial, o justo e o injusto. Por isso, a leitura de Matéria Negra exige atenção, releitura e disponibilidade para descobrir os vários sentidos contidos nos poemas.
Na dimensão estética, a obra combina verso livre, repetições, jogos de palavras, imagens simbólicas, paradoxos e outros recursos sonoros e semânticos. Essa construção formal não é apresentada como um simples exercício de estilo: serve uma poesia interventiva, atenta aos mecanismos que produzem desigualdade, sofrimento, guerra e exclusão.
Ao analisar o poema «Para Onde Vão os Sinos», Edmira Cariango mostrou como as imagens do mar, dos peixes e dos coletes salva-vidas podem sugerir um mundo em que muitos são asfixiados por desigualdades persistentes e por promessas continuamente adiadas:
«Peixes em fragmentos, em afogamento, procurando coletes salva-vidas na retina dos corações. Mosseques abissais espreitando-se no tempo, fedem de promessas. A dor, a dor, a dor assedia.»
Para a oradora, a literatura é uma construção humana e racional que obriga quem escreve e quem lê a questionar o mundo. Em Matéria Negra, essa dimensão adquire também um sentido histórico e político: os poemas observam criticamente os discursos do poder, recordam experiências de guerra, interrogam o capitalismo e alertam para a possibilidade de novas formas de autoritarismo ou colonialismo surgirem sob a aparência da igualdade e da autonomia cultural.
Mas a poesia de Kalunga não se limita à denúncia. Entre a inquietação e o desconforto, abre espaço à reconstrução, à renovação das crenças e à possibilidade de «refazer amanhãs». Edmira Cariango sublinhou a presença de uma voz poética que aconselha o leitor a enfrentar a dureza da vida, a transpor caminhos e, se necessário, a «reinventar o sol».
O cosmopolitismo de Matéria Negra manifesta-se precisamente nessa capacidade de fazer conviver referências africanas e universais, experiências terrestres e celestes, memória histórica e interrogações contemporâneas. Ao valorizar diferentes vozes e saberes, o livro contesta hierarquias culturais e crenças de superioridade, propondo uma ideia de humanidade para além das divisões raciais e das linhas abissais que continuam a organizar o mundo.
O interesse demonstrado pelos leitores na UEA teve uma expressão imediata: todos os exemplares disponíveis esgotaram-se. Perante a procura, João Ricardo Rodrigues, editor da Perfil Criativo | AUTORES.club, comprometeu-se a enviar mais exemplares raros para Luanda, de modo a responder ao interesse manifestado e a permitir que Matéria Negra chegue a um número mais alargado de leitores.
O economista M. Neto Costa apresentou oficialmente, na quinta-feira, 9 de Julho de 2026, na Academia BAI, em Luanda, o livro Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023), uma edição da Perfil Criativo | AUTORES.club que reúne artigos de opinião e análise económica publicados no Novo Jornal entre 2021 e 2023.
A mesa de honra foi constituída por Armindo Laureano, Director do Novo Jornal, em representação da editora; pelo Doutor Fernandes Wanda, Coordenador do Centro de Investigação Social e Económica (CISE) da Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto; e pelo autor, M. Neto Costa.
Na sua intervenção, Armindo Laureano recordou as circunstâncias que estiveram na origem da colaboração de M. Neto Costa com o Novo Jornal. O convite surgiu depois de o economista apresentar uma espécie de «defesa de honra», na sequência de um artigo publicado pelo semanário sobre a sua participação num concurso para juízes do Tribunal de Contas. O Director do Novo Jornal destacou igualmente que a obra reúne textos dedicados à economia e às políticas públicas angolanas, publicados ao longo de três anos. O livro ficou preparado para edição em 2024, mas, devido a constrangimentos editoriais, apenas viria a ser publicado, pela Perfil Criativo | AUTORES.club, em Maio de 2026.
Uma crítica fundamentada que aponta alternativas
Responsável pela apresentação e comentário da obra, Fernandes Wanda salientou o carácter diversificado dos textos e a apreciação crítica da governação, sustentada por fundamentos técnicos e acompanhada pela apresentação de possíveis soluções.
Embora escritos entre 2021 e 2023, muitos dos artigos mantêm plena actualidade. Algumas matérias analisadas pelo autor foram entretanto objecto de intervenção governativa, pelo menos no plano legal, designadamente as Parcerias Público-Privadas enquanto instrumento de financiamento do investimento público e a criação de uma base de dados dos beneficiários efectivos das empresas.
Para Fernandes Wanda, os textos reunidos no livro constituem um contributo relevante para a reflexão e para o debate nacional em torno das respostas aos problemas económicos e sociais que Angola continua a enfrentar.
Das instituições aos resultados concretos
M. Neto Costa estabeleceu uma relação entre esta obra e o seu primeiro livro. Se, no trabalho anterior, analisou a situação económica de Angola após 45 anos de Independência através de uma abordagem top-down, começando pela natureza das instituições políticas e económicas que definiram o quadro político-institucional e condicionaram as políticas públicas, em Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023) parte de exemplos concretos.
Os artigos apresentam resultados de políticas públicas consideradas ineficientes ou ineficazes, cujos efeitos, quando observados em conjunto, permitem traçar o perfil do Estado existente. O autor sintetizou, assim, o sentido da obra:
«Um livro; o perfil de um Estado traçado pelas suas acções e omissões; e as alternativas para o futuro.»
Liberdade técnica e responsabilidade pública
A apresentação prosseguiu com uma animada interacção entre o autor e os participantes. Uma das questões colocadas procurou saber se M. Neto Costa se sentia inteiramente à vontade para assumir uma posição crítica perante a governação, tendo em conta que integrou anteriormente o Governo angolano.
O economista respondeu que sempre manifestou os seus pontos de vista com liberdade técnica, autonomia e independência. Enquanto membro do Executivo, explicou, defendia as suas posições através dos canais institucionais adequados.
A sessão confirmou a importância de preservar espaços públicos de análise e contraditório sobre a governação. Ao reunir três anos de observação crítica das políticas públicas, a obra não se limita a registar os problemas: procura identificar as suas causas e colocar em debate alternativas para o futuro de Angola.
Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023)encontra-se disponível em Luanda, na Livraria e Papelaria Komutú, no Largo das Escolas, com entrada pelo pátio da União dos Escritores Angolanos.
A União dos Escritores Angolanos (UEA) recebe, no dia 22 de Julho de 2026, quarta-feira, às 16h30, mais uma edição da iniciativa cultural “Maka à Quarta-Feira”. A sessão, marcada para a Sala de Conferências da instituição, em Luanda, será dedicada ao tema “Gerações Literárias em Angola: o caso do Ohandanji” e culminará com a apresentação de Matéria Negra, a mais recente obra poética de Kalunga.
O encontro propõe uma reflexão sobre a evolução da literatura angolana, o contributo das sucessivas gerações de escritores e o lugar ocupado pelo Ohandanji. Surgido em Luanda, em 1984, este colectivo ficou associado à chamada Geração de 80 e à procura de novas linguagens e rupturas estéticas no período posterior à Independência.
A prelecção estará a cargo do escritor, investigador e crítico literário João Fernando André, nome do poeta Kalunga, que analisará o surgimento, os propósitos, o manifesto e os principais protagonistas do Ohandanji. A escolha do prelector aproxima duas gerações: a que procurou renovar a literatura angolana nos anos 1980 e uma nova geração que continua a interrogar a história, a identidade e as transformações da sociedade através da palavra.
Natural da Cahama, província do Cunene, João Fernando André é professor, investigador, ensaísta, jornalista cultural e consultor. Mestre em Literaturas em Língua Portuguesa pela Universidade Agostinho Neto, encontra-se a realizar o doutoramento em Literaturas, Artes e Culturas Modernas na Universidade de Lisboa. É membro da União dos Escritores Angolanos, instituição em que se destacou como um dos membros mais jovens, e tem desenvolvido uma presença regular em encontros, conferências, feiras do livro e projectos culturais em Angola e Portugal. É também autor de títulos como Evangelho Bantu, O Dia em que uma Pedra Virou Lua e Lumbu — A Alquimia das Palavras.
Depois da reflexão sobre o Ohandanji, será apresentada a obra Matéria Negra, por Edmira Cariango Manuel. Publicado em 2026 pela editora Perfil Criativo | AUTORES.club, com sede em Portugal e um catálogo fortemente dedicado aos autores angolanos, o livro assinala uma nova etapa na trajectória literária de Kalunga.
Em Matéria Negra, a palavra assume-se como espaço de contemplação, inquietação e resistência. A experiência individual cruza-se com uma consciência mais ampla das feridas do mundo, da memória africana e das tensões do presente. Depois da apresentação oficial realizada em Maio, no histórico edifício de A Voz do Operário, em Lisboa, e da sua passagem pela Feira do Livro de Lisboa, a obra chega agora à UEA, reencontrando o espaço institucional da literatura.
Durante a sessão, Matéria Negra poderá ser adquirida pelo preço de 10.000 kwanzas. Para compra antecipada, os interessados poderão enviar uma mensagem através do Messenger ou WhatsApp. A edição é limitada.
Integrada no programa cultural permanente da União dos Escritores Angolanos, a “Maka à Quarta-Feira” procura fomentar o diálogo literário, incentivar a leitura e aproximar escritores, investigadores, estudantes e leitores.
Data: 22 de Julho de 2026 Hora: 16h30 Local: Sala de Conferências da União dos Escritores Angolanos, Luanda Entrada: aberta ao público
A institucionalização da Orquestra Nacional de Angola representa um dos mais relevantes investimentos culturais realizados pela República de Angola nos últimos anos. Mais do que criar uma formação destinada a interpretar música clássica, o projecto abre caminho para a formação de músicos, para a valorização do património musical nacional e para uma presença mais afirmativa nos grandes palcos internacionais.
A Orquestra Nacional de Angola, abreviadamente designada por ONA, recebeu enquadramento jurídico através do Decreto Presidencial n.º 69/26, de 20 de Abril, publicado no Diário da República. O diploma reconhece-a como um serviço de interesse público do Estado, sujeito a gestão privada e habilitado a desenvolver actividades em todo o território nacional.
O documento estabelece como finalidades da ONA a promoção da cultura e da música clássica angolana, a realização de concertos no país e no estrangeiro e a formação artística e profissional de músicos, gestores e técnicos. A instituição deverá igualmente fomentar a música erudita nas suas diferentes manifestações, aproximá-la de outras expressões artísticas e contribuir para que um público mais amplo possa participar na criação e fruição cultural.
Uma orquestra construída com jovens angolanos
O projecto começou a ganhar visibilidade pública antes da sua institucionalização formal. Em Janeiro de 2025, a Orquestra Nacional apresentou-se no Centro de Conferências de Belas, em Luanda.
A formação reuniu então 107 adolescentes e jovens, com idades entre os 14 e os 30 anos, provenientes de várias províncias e seleccionados através de um processo de inscrição e avaliação. Sob a direcção do maestro brasileiro Ricardo Castro, os jovens interpretaram o Hino Nacional e obras de compositores angolanos e internacionais, dos séculos XVII ao XXI.
A iniciativa foi inicialmente impulsionada pela Fundação Ngana Zenza para o Desenvolvimento Comunitário, instituição que tem desenvolvido programas dirigidos às comunidades, aos jovens e a outros grupos socialmente vulneráveis. A passagem de um projecto apoiado pela sociedade civil para uma instituição reconhecida pelo Estado permite-lhe agora adquirir maior continuidade, responsabilidade pública e capacidade de intervenção nacional.
Em Março de 2026, o Conselho de Ministros apreciou formalmente o projecto de criação da ONA, definindo-a como uma instituição centrada na inclusão social e na formação artística, destinada a divulgar a tradição musical angolana através de uma actividade sinfónica de dimensão internacional. A institucionalização seria confirmada no mês seguinte pelo Decreto Presidencial.
Levar a música angolana para o universo sinfónico
A importância da Orquestra Nacional não deve ser medida apenas pelo número de concertos realizados. A sua verdadeira dimensão estará na capacidade de construir uma escola, formar profissionais e criar um repertório que transporte para a linguagem sinfónica a diversidade cultural.
Angola possui uma extraordinária riqueza musical, resultante das culturas e línguas presentes no seu território, dos instrumentos tradicionais, das expressões religiosas, dos cantos de trabalho, das músicas urbanas e da criação de sucessivas gerações de compositores e intérpretes.
Uma Orquestra Nacional pode estudar, transcrever, preservar e reinterpretar esse património. Pode aproximar a música erudita das tradições populares, encomendar obras a compositores angolanos e criar novas leituras de géneros como a semba, a rebita, a kazukuta, o kilapanga e outras manifestações musicais das diferentes regiões do país.
O próprio diploma de institucionalização aponta para o cruzamento da música erudita com outras expressões artísticas. Esta abertura será essencial para evitar que a Orquestra Nacional se limite à reprodução do repertório clássico europeu. O seu maior contributo poderá estar precisamente na construção de uma linguagem sinfónica angolana, contemporânea e reconhecível.
Formar músicos, técnicos e públicos
Uma orquestra desta natureza necessita de violinistas, violoncelistas, contrabaixistas, instrumentistas de sopro, percussionistas, pianistas e maestros. Mas depende igualmente de afinadores, técnicos de som e iluminação, arquivistas musicais, produtores, gestores culturais, compositores e professores.
Por esse motivo, a ONA pode tornar-se uma verdadeira plataforma de profissionalização do sector musical. A criação de bolsas de estudo, academias, programas de iniciação musical, estágios e parcerias com instituições nacionais e estrangeiras ajudaria a consolidar carreiras que ainda encontram poucas oportunidades profissionais no país.
O projecto poderá também desempenhar um papel decisivo na formação de públicos. Concertos pedagógicos nas escolas, apresentações nas províncias, programas para crianças e famílias e transmissões através da televisão, rádio e plataformas digitais permitiriam retirar a música sinfónica dos espaços exclusivamente institucionais e colocá-la ao alcance da população.
O facto de o regime jurídico determinar que a ONA pode actuar em qualquer parte do território nacional é especialmente relevante. A sua verdadeira vocação nacional dependerá da capacidade de realizar concertos para além de Luanda, identificar talentos nas diferentes províncias e colaborar com escolas, igrejas, grupos corais, bandas e projectos musicais locais.
Uma responsabilidade para o futuro
A criação da Orquestra Nacional é uma conquista cultural, mas representa igualmente uma grande responsabilidade. Uma orquestra não se constrói apenas com uma apresentação solene ou com a aquisição de instrumentos. Exige financiamento regular, direcção artística competente, instalações apropriadas, programas de formação permanentes e critérios transparentes de recrutamento e gestão.
Será também importante tornar públicos o plano de actividades, o modelo de financiamento, a programação anual e a estratégia de implantação territorial. A continuidade do projecto dependerá da sua capacidade de se afirmar como uma instituição nacional aberta, profissional e independente dos ciclos políticos.
Ao institucionalizar a ONA, Angola reconhece que a música não é apenas entretenimento: é educação, memória, conhecimento, disciplina, criação e representação nacional.
Num país jovem, diverso e com uma tradição musical de enorme vitalidade, a Orquestra Nacional pode transformar-se num espaço onde diferentes gerações, províncias e sensibilidades culturais aprendem a escutar-se mutuamente. Tal como numa orquestra, cada voz mantém a sua identidade, mas contribui para uma obra comum.
A grande expectativa é que este projecto seja capaz de colocar a riqueza musical angolana no centro do seu repertório e de mostrar, dentro e fora do país, que Angola também pode contar a sua História através da força universal da música.
Orquestra Nacional de Angola durante uma apresentação em Luanda. Fotografia cedida pela Orquestra Nacional de Angola.
A Cultura nos cinquenta anos da República
Este projecto ganha também particular significado por decorrer sob a tutela do ministro da Cultura, Filipe Silvino de Pina Zau, académico, escritor, músico e investigador com uma longa ligação à educação e à reflexão sobre a identidade cultural angolana.
Filipe Zau, que é igualmente autor publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, tem defendido uma compreensão da cultura que ultrapassa o entretenimento e coloca-a no centro da educação, da construção da cidadania e do desenvolvimento nacional. A consolidação da Orquestra Nacional de Angola poderá, assim, representar uma das expressões mais relevantes dessa visão: formar jovens, preservar a memória musical do país e projectar a criação angolana no mundo.