A apresentação dos livros Nutriterapia e Guia de Imunonutrição: Como reforçar a imunidade?, do Dr. Luís Phillipe Jorge, na Feira do Livro de Lisboa 2026, transformou-se num encontro muito participado sobre ciência, alimentação, prevenção e saúde. O que poderia ter sido uma sessão técnica acabou por conquistar o público da Feira, num diálogo vivo e acessível sobre a forma como os hábitos alimentares influenciam o equilíbrio do organismo, a imunidade e a qualidade de vida.
Perante uma assistência atenta, Luís Phillipe Jorge explicou a importância da nutriterapia e da imunonutrição como áreas fundamentais para compreender melhor o papel dos nutrientes, das escolhas alimentares e da prevenção no combate a várias doenças. A conversa ganhou especial intensidade quando o público questionou o autor sobre a diabetes, tema que rapidamente despertou grande interesse entre os presentes.
O autor alertou para a dimensão preocupante da doença em Portugal, classificando a situação como uma verdadeira catástrofe de saúde pública. Segundo dados recentes do Observatório Nacional da Diabetes, a prevalência da diabetes atingiu 14,2% da população adulta portuguesa em 2024, correspondendo a mais de 1,2 milhões de pessoas entre os 20 e os 79 anos.
Luís Phillipe Jorge chamou ainda a atenção para a quantidade de açúcar presente na alimentação tradicional portuguesa, distinguindo entre o açúcar visível, facilmente identificado em doces e sobremesas, e o açúcar invisível, muitas vezes escondido em alimentos de consumo diário, como o pão branco e outros produtos refinados. A partir desta reflexão, o autor sublinhou a necessidade de maior literacia alimentar, defendendo que comer melhor é também uma forma de prevenir, proteger e reforçar a saúde.
A sessão acabou por se revelar muito animada, com o público a colocar perguntas, a partilhar preocupações e a manifestar grande interesse em continuar o diálogo. No final, vários participantes sugeriram a realização de um novo encontro com Luís Phillipe Jorge, sinal claro de que os temas abordados ultrapassam o espaço do livro e tocam directamente a vida quotidiana dos leitores.
A apresentação de Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, na Feira do Livro de Lisboa 2026, transformou-se num encontro intenso de memória, testemunho e debate sobre a história recente de Angola. A sessão contou com a presença de históricos sobreviventes ligados à Associação 27 de Maio de 1977 e do presidente da Academia Angolana de Letras, deputado da Assembleia Nacional, Dr. Paulo de Carvalho, num momento que juntou leitores, antigos protagonistas, jovens interessados pela história africana e visitantes da Feira.
Num ambiente muito participado, Joaquim Sequeira começou por recordar como se viveu a notícia do 25 de Abril de 1974, evocando o impacto da Revolução dos Cravos nas notícias que iam chegando muito devagar. A partir daí, conduziu o público até ao dia 11 de Novembro de 1975, data da proclamação da independência nacional de Angola, descrevendo o entusiasmo, a esperança e a complexidade de um país que nascia em plena tensão política, militar e ideológica.
O momento mais marcante da sessão surgiu quando o autor abordou o drama do 27 de Maio de 1977, tema central da memória convocada em Ecos da Liberdade. Joaquim Sequeira foi claro ao defender que os acontecimentos desse período representaram, na sua leitura, uma traição à revolução socialista, recusando a ideia de que tivesse existido um golpe de Estado. Segundo afirmou, os que foram perseguidos continuavam fiéis a António Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, e acreditavam no projecto revolucionário que ajudaram a construir.
O livro Ecos da Liberdade, publicado no ano passado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, relata a espera, o medo e o tormento vividos na cela 10 da Automotora, na cadeia de São Paulo. Mais do que uma memória individual, a obra apresenta-se como um testemunho sobre a violência política, o silenciamento e a necessidade de Angola continuar a enfrentar as feridas abertas pelo 27 de Maio de 1977.
A conversa ganhou ainda maior actualidade quando um jovem da Guiné-Bissau questionou o autor sobre a persistência do neocolonialismo nos países africanos de língua portuguesa e sobre os bloqueios ao desenvolvimento económico e social. Joaquim Sequeira respondeu de forma peremptória, defendendo a necessidade de uma transformação profunda das estruturas nacionais, incluindo o papel das instituições militares, para que os países africanos possam romper dependências históricas e construir caminhos próprios de soberania, justiça e progresso.
A sessão prolongou-se pelo fim da tarde, já fora do formato formal da apresentação, com grupos de leitores e participantes a continuarem a conversa no recinto da Feira do Livro. Mais do que uma sessão literária, foi um encontro, memórias e inquietações políticas ainda vivas.
Como diria o director do Novo Jornal, voltou a estar presente em Lisboa“uma Angola que acontece fora de Angola”, feita de memória, debate, literatura e vontade de compreender, sem medo, os acontecimentos que marcaram o destino de tantas vidas.
A apresentação de Lívio Honório na Feira do Livro de Lisboa 2026 acabou por se transformar num dos primeiros momentos marcantes da inauguração do certame, captando a atenção de muitos visitantes que circulavam pelo recinto e que acabaram por se aproximar do auditório para acompanhar uma conversa pouco convencional sobre consciência, espiritualidade, matéria, energia e Inteligência Artificial.
O autor apresentou as suas duas obras mais recentes, Somos mais Divinos do que Materiaise Do elemento ao divino. O ritual da Consciência em frequência . Em reflexão profunda com uma Inteligência Artificial, levando consigo um conjunto alargado de suportes de informação, preparados especificamente para contextualizar os temas centrais dos livros e facilitar o diálogo com os leitores.
Ao longo da sessão, o auditório foi enchendo, acompanhando o crescimento da própria intervenção. Num primeiro momento mais estruturado, Lívio Honório apresentou as linhas fundamentais do seu pensamento. Mas foi quando se libertou do registo mais formal que a sessão ganhou maior intensidade: o autor passou a descrever de forma mais livre os conceitos que tem vindo a desenvolver, explicando a sua relação crítica com a Inteligência Artificial e o modo como esta tecnologia pode funcionar como instrumento de reflexão, mas nunca como substituto da experiência humana, da consciência e da dimensão espiritual da existência.
Engenheiro e especialista em energia nuclear, Lívio Honório revelou perante o público o grande puzzle intelectual que tem vindo a construir através da publicação de um conjunto alargado de livros dedicados à alma, à consciência, à matéria, à energia e ao destino espiritual da humanidade. A sua obra propõe uma travessia entre ciência, filosofia e espiritualidade, procurando responder a uma das grandes inquietações do nosso tempo: o que significa ser humano numa época em que a Inteligência Artificial obriga a repensar os limites da razão, da criação e da própria consciência.
A sessão confirmou o interesse crescente dos leitores por obras que cruzam conhecimento científico, pensamento espiritual e interrogação sobre o futuro. Na abertura da Feira do Livro de Lisboa, Lívio Honório trouxe ao público uma proposta singular: pensar a tecnologia a partir da consciência e olhar para a humanidade para além da sua dimensão material.
No próximo dia 11 de Junho de 2026, às 17h00, o Memorial Dr. António Agostinho Neto acolherá o lançamento oficial do livro Editoriais do Expansão 2019–2021, da autoria do jornalista angolano João Armando, numa edição da Perfil Criativo | AUTORES.club com o alto patrocínio do Banco BNI.
A obra reúne uma selecção dos editoriais publicados no semanário económico Expansão entre 2019 e 2021, um dos períodos mais complexos e decisivos da economia recente angolana. Ao longo de 232 páginas, João Armando apresenta uma leitura crítica, directa e profundamente comprometida com a realidade do país, abordando temas como a dívida pública, a desvalorização do kwanza, as privatizações, a transparência das instituições, o sistema bancário, a confiança dos investidores e o impacto das decisões políticas na vida dos cidadãos.
Mais do que uma compilação jornalística, Editoriais do Expansão 2019–2021 transforma-se num retrato da Angola contemporânea, revelando os bastidores da governação económica e os dilemas estruturais enfrentados pelo país durante um ciclo de fortes transformações políticas e financeiras.
No prefácio da obra, o escritor e cronista angolano Jacques Arlindo dos Santos destaca o valor documental e intelectual do livro, sublinhando que os textos de João Armando ajudam a “desmistificar as diferenças entre o falso e o verdadeiro da economia nacional”.
Com quase quatro décadas de carreira, João Armando consolidou-se como uma das vozes mais reconhecidas do jornalismo económico angolano. Director do Expansão desde Maio de 2019, o autor passou também pela rádio, televisão e imprensa escrita em Angola e Portugal, sendo distinguido ao longo do percurso com vários prémios de jornalismo.
O lançamento no Memorial Dr. António Agostinho Neto promete reunir leitores, jornalistas, académicos, empresários e personalidades da vida pública angolana num encontro dedicado à reflexão sobre o presente e o futuro económico de Angola.
Ficha Técnica
Título: Editoriais do Expansão 2019–2021
Autor: João Armando
Editora: Perfil Criativo | AUTORES.club
ISBN: 978-989-9209-14-5
N.º de páginas: 232
Língua: Português
Patrocínio: Banco BNI
Lançamento Oficial
Memorial Dr. António Agostinho Neto 11 de Junho de 2026 17h00
A Perfil Criativo | AUTORES.club convida leitores, autores, amigos e público em geral a participarem, no dia 27 de maio, na abertura da Feira do Livro de Lisboa 2026, num programa especial com três encontros no Auditório Norte, seguidos de sessões de autógrafos no Pavilhão D48 — Pavilhão Papa-Letras | Promobooks.
A participação da AUTORES.club arranca com uma tarde dedicada ao livro, à reflexão e ao encontro direto entre autores e leitores, reunindo três obras distintas, mas unidas pela vontade de pensar a condição humana, a memória, a liberdade, a saúde e o conhecimento.
Às 18h00, segue-se um encontro especial com a memória, com a apresentação de Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira. A obra convoca a memória dos milhares de mortos do 27 de Maio de 1977, em Angola, afirmando a importância de recordar, testemunhar e procurar a verdade. A sessão de autógrafos realiza-se às 19h00.
Às 19h00, será apresentado Nutriterapia, do Dr. Luís Phillipe Jorge, num encontro especial com a saúde e o equilíbrio. A obra propõe uma reflexão prática sobre alimentação, bem-estar e qualidade de vida, aproximando o conhecimento científico do quotidiano dos leitores. A sessão de autógrafos decorre às 20h00.
As três sessões terão lugar no Auditório Norte e contam com moderação do editor da Perfil Criativo | AUTORES.club.
A Perfil Criativo | AUTORES.club convida todos os leitores a passarem pelo Pavilhão D48, onde estarão disponíveis estas e outras obras do catálogo da editora, num espaço de encontro, conversa e celebração da edição independente em língua portuguesa.
27 de maio de 2026 Feira do Livro de Lisboa — Parque Eduardo VII Auditório Norte Pavilhão D48 — Pavilhão Papa-Letras | Promobooks.net
Depois da concepção no ano anterior, o parto da UNITA aconteceu a 13 de Março de 1966, em Mwangai, na província do Moxico em Angola. Primeiro foi em Cassamba onde o grito do Mwangai “Kwatchá” se fez ouvir. No dia 25 de Dezembro, o assalto à vila de Teixeira de Sousa, no Moxico também, fez relançar a Luta de Libertação Nacional. Nesse ano (1967), as FALA tinham continuado a ganhar forma. As primeiras guerrilheiras e guerrilheiros foram merecendo melhor treino, as infra-estruturas provisórias para a saúde e formação académica nos territórios sob controlo dos guerrilheiros foram-se materializando, a agricultura ocupou extensões mais vastas e tomou proporções desenvolvimentistas na região leste do país, a caça e a piscicultura foram encorajadas e a adesão das populações à Luta de Libertação começou a ser expressiva.
Em Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975–1992), o brigadeiro Fonseca Chindondo oferece um testemunho direto e raro sobre um dos períodos mais intensos, dramáticos e menos conhecidos da história contemporânea de Angola. A partir da sua experiência no seio das FALA (Forças Armadas de Libertação de Angola), o autor reconstrói episódios marcantes da luta armada, analisa o papel da guerra psicológica e presta homenagem aos milhares de combatentes e civis que viveram os dramas da guerra.
Prefaciado pela Prof.ª DoutoraPaula Cristina Roque, o livro constitui um importante contributo para a preservação da memória histórica angolana e para a compreensão plural de um passado ainda pouco debatido.
Trata-se de um livro raro de memórias da guerra, escrito por um protagonista dos acontecimentos, que ajuda a compreender melhor as complexidades da luta pela independência, da guerra civil e dos desafios da reconciliação.
Encomendas em Angola
Os exemplares já estão disponíveis para encomenda através dos seguintes contactos:
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Uma obra rara e incontornável para todos os interessados na história de Angola, nos estudos africanos e na preservação da memória coletiva.
A apresentação do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, realizada na quarta-feira, 13 de maio de 2026, n’A Voz do Operário, em Lisboa, ficou marcada pela extraordinária intervenção da Prof. Doutora Ana Mafalda Leite, convidada especial da sessão.
Perante uma sala atenta, a investigadora e poeta fez uma leitura profunda da obra de João Fernando André, nome literário de Kalunga, situando-o entre as vozes mais relevantes da nova poesia angolana contemporânea. Ana Mafalda Leite começou por sublinhar a qualidade literária do autor, destacando a originalidade da sua escrita, a maturidade do seu pensamento poético e a forma como a sua obra cruza identidade africana, reflexão filosófica, crítica social e experimentação estética.
A intervenção não se limitou ao livro apresentado. Ana Mafalda Leite estabeleceu uma ponte entre Evangelho Bantu, primeira obra poética de Kalunga, publicada em 2019, e Matéria Negra, ambos os livros publicados pela Perfil Criativo | AUTORES.club. Na sua leitura, Evangelho Bantu já anunciava uma voz literária própria, marcada pela reconstrução identitária, pela valorização da matriz bantu e pela procura de uma espiritualidade africana capaz de dialogar com a modernidade.
Sobre Matéria Negra, Ana Mafalda Leite destacou o alcance simbólico do título, associando-o à ideia científica de uma matéria invisível que sustenta o universo, mas também às zonas obscuras da história, da memória, da consciência e da experiência humana. A partir dessa metáfora central, a obra de Kalunga foi apresentada como uma poesia de grande densidade, onde convivem o metafísico e o social, o íntimo e o coletivo, a dor histórica e a esperança.
A professora chamou ainda a atenção para a dimensão experimental da escrita de Kalunga, marcada por imagens fortes, fragmentação formal, jogos de linguagem, neologismos, referências filosóficas, científicas, políticas e literárias. Segundo a sua leitura, trata-se de uma poesia que exige um leitor atento, disponível para a contemplação, a releitura e a interpretação ativa.
A obra foi também enquadrada na tradição da poesia angolana pós-colonial, em diálogo com a memória histórica, a afirmação africana e a crítica das heranças coloniais. Ana Mafalda Leite sublinhou que Kalunga não escreve apenas a partir de uma experiência individual, mas a partir de uma consciência ampla do mundo, das suas feridas, contradições e possibilidades de recomposição.
Um dos momentos mais fortes da intervenção foi a leitura de vários poemas de Matéria Negra, que permitiram ao público contactar diretamente com a intensidade verbal, a musicalidade e o poder imagético da escrita de Kalunga. A leitura revelou uma poesia atravessada por perguntas sobre o tempo, a morte, a esperança, a violência histórica, o amor, a humanidade e a transcendência.
Para Ana Mafalda Leite, Matéria Negra afirma-se como uma obra intelectualmente ambiciosa, poeticamente ousada e profundamente inquietante. Um livro que não oferece respostas fáceis, mas convida o leitor a pensar aquilo que permanece invisível, obscuro ou por compreender na condição humana e na história coletiva.
A intervenção surpreendeu e emocionou os leitores presentes pela profundidade da análise e pela forma como revelou as múltiplas camadas da poesia de Kalunga. Mais do que uma apresentação académica, foi uma verdadeira leitura crítica e sensível de uma obra que confirma a vitalidade da nova poesia angolana.
Com este encontro literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana” iniciou-se com um momento de grande qualidade literária, reunindo poesia, pensamento crítico e diálogo cultural.
A histórica sede d’A Voz do Operário, em Lisboa, acolheu na quarta-feira, 13 de maio de 2026, o primeiro encontro literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana” da editora Perfil Criativo | AUTORES.club. A sessão foi dedicada à apresentação do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, nome literário de João Fernando André.
O encontro marcou o início de uma programação pensada para aproximar autores, leitores e obras num espaço profundamente ligado à educação, à cultura e à intervenção pública. Na abertura da sessão, o editor da Perfil Criativo | AUTORES.club sublinhou precisamente a importância de instituições como A Voz do Operário, lugares históricos que continuam a cumprir uma missão essencial: criar comunidade, promover o conhecimento e manter viva a palavra como instrumento de cidadania.
Num ambiente de grande atenção e proximidade, a convidada especial, Prof. Doutora Ana Mafalda Leite, fez uma apresentação exaustiva e profundamente informada de dois livros do poeta Kalunga: Evangelho Bantu e Matéria Negra. A sua intervenção surpreendeu os leitores presentes pela densidade da análise, pela sensibilidade crítica e pela forma como situou a obra de Kalunga.
A sessão terminou com uma intervenção do próprio autor. Kalunga conquistou o público com uma presença marcada pela cultura, pelo domínio da palavra e por um virtuosismo raro, transformando a apresentação num momento de grande humanismo.
Foi um encontro inédito e memorável, que confirmou a força da poesia de Kalunga e inaugurou, da melhor forma, este novo ciclo de encontros.
INTER(IN)VENÇÃO DA MATÉRIA NEGRA
KALUNGA (JOÃO FERNANDO ANDRÉ)
Insigne editor João Ricardo, distinta professora Ana Mafalda, dignos convidados, minhas camaradas e meus camaradas da linha da frente cultural, amados leitores, todo o protocolo observado!
Ora, depois da apresentação da minha dileta professora, amiga e camarada Ana Mafalda Leite, cabe-me usar uma outra filosofia com a qual tenho levado a vida: o pragmatismo. Para dizer o seguinte: nestes aproximados 10.958 dias de exercício de viver, dei conta que nasci num mundo violento e capitalista. Até aos 14 anos, não sabia como viver neste mundo. Então, passei a dedicar-me à leitura e aos estudos. Diziam-me “estuda para ser alguém”. Sempre que me diziam esta frase, perguntava-me: “mas já não sou alguém? Foi-me dado um nome, documentos e data de nascimento. Como é que ainda não sou alguém?
Como o personagem do meu grande mestre Fiódor Dostoiévski, percebi então que a vida é como o sonho de um homem rídiculo e que me devia dedicar a aprender e ser melhor para mim mesmo cada dia ao longo do exercício de viver. Estudei o essencial sobre a vida e descobri com o meu grande mestre Charles Munger que “para quem só tem um martelo todo o problema parece um prego.” Então, dediquei-me a ter uma visão multidisciplinar, estudar as terríveis histórias do mundo. Das ideias do surgimento do homem ao surgimento da propriedade privada. Da produção de bens a produção do mal. Da criação dos capitais à obsolescência programada. Dos erros dos julgamentos humanos aos preconceitos. Dos filósofos-reis à Síndrome de Hubris.
Descobri que “o mundo jaz no maligno”, como o outro João, o que foi decapitado. Mas surgiu outra pergunta: o que é o maligno? Descobri que o maligno é a ganância, a inveja, a violência nas suas várias dimensões e a identidade que pode ser assassina por não buscar a empatia cognitiva e cristalizar os neurónios espelhos. Mas descobri também que a maior parte das pessoas – alfabetizadas e não-alfabetizadas – não sabe o que são neurónios espelhos. Aí percebi que a vida é uma comédia que acaba sempre em tragédia. Percebi que a vida é um milagre perigoso e que, mais importante do que ter exemplos para seguir, é ter exemplos para não seguir. Como alerta o princípio da inversão de Munger.
Segundo o departamento de Astrofísica da USP, “a matéria negra é uma forma invisível de matéria que compõe cerca de 85% da massa do universo, não emitindo, absorvendo ou refletindo luz. Detectada apenas por sua influência gravitacional em estrelas e galáxias, ela impede que estruturas cósmicas se dispersem, sendo um dos maiores mistérios da física actual.” Daí resultou o grande problema do Agricultor de Imagem João Ricardo: como representar a Matéria Negra?
Na semiótica, o branco é a cor neutra e o preto representa a absorção da luz visível. Nos primórdios da humanidade, a cor branca representava a vida e a cor preta remetia para a imaginação, a criatividade, a cognição e o divino. Nas sociedades africanas, o branco representa o ficcional, os seres invisíveis e possíveis que nos rodeiam. Enquanto que a vitalidade é representada pelo vermelho. Vê-se isso em memento mori, quando se colocam pedras vermelhas sobre pedras brancas, representando estas pedras um texto lapidar que conecta os seres presentes com os seres ausentes.
Neste misto de significações, este poemário, Matéria Negra, ao contrário das associações que alguns leitores da maravilhosa capa do Agricultor de Imagens da Perfil Criativo, o camarada João Ricardo, fizeram com o “fumus albus papal” ou com rituais místicos, representa o pouco que conhecemos diante do muito que não sabemos do universo, em geral, e da experiência humana, em particular. Deixo aqui um caso como exemplo: raramente veremos um escritor que entende de economia e raramente veremos um economista que entende de literatura no seu sentido mais ficcional.
Quanto às estéticas, trabalho aqui com a estética da existência, da resistência e da regeneração, com fundamentos da ontologia, das teorias das literaturas, da filosofia da linguagem, da filosofia do direito e da filosofia da economia em busca da soberania emocional, da solitude, do amor fati e da luta contra a empresa do mal que governa o mundo.
No que à forma diz respeito, se nas três séries do Evangelho Bantu deslocava o título do texto do princípio para o fim, transformando-o numa espécie de ata-finda, pois primeiro escreve-se o poema e só depois é que se lhe dá título normalmente, em Matéria Negra amplifico este fundamento. O poema resulta da persistência da observação da realidade aumentada e sentida ao longo do exercício de viver. Daí as reticências iniciais. Ele é finalizado num laboratório de dizer mais e escrever menos. Daí a polifonia paremiológica. Cada texto é burilado até à exaustão do predicador, não até a exaustão do texto que ruma ao infinito. Daí as reticências finais. O título aqui é um jogador ou peregrino, para trazer à colação a teoria dos viajantes de Bauman, ele pode ser o primeiro verso, o verso do meio ou os últimos versos, mas é sempre o conjunto lexical fundador do texto-matéria negra. Daí o negrito a iluminar o corpo poético.
O meu acrisolado agradecimento pela vossa presença e camaradagem ao longo do exercício de viver que vamos enfrentando, como Paulo, “combatendo o bom combate e guardando a fé” nas coisas do espírito e na humanidade, esta espécie tão bondosa e tão perigosa que nomeou um planeta composto por 71 por cento de água por Terra, simplesmente porque os homens vivem na terra, que representa só 29 por cento da superfície deste mesmo planeta. Em verdade em verdade, não seria planeta ÁGUA?
Gratidão a todos e boas leituras, pois o texto poético não termina ao contrário da crónica, do conto, do drama e do bem capitalizado romance. Grato! Grato! Grato! Ngasakidila! Ndapandula! Dizemos lá em Angola!
In an article by Luís Guita, published on the international platform Blindspot, the book Nuvem Negra, by Michel, published by Perfil Criativo | AUTORES.club, is brought to wider international attention. The work revisits one of the most painful and silenced chapters in Angola’s recent history: the events of 27 May 1977, inviting readers to reflect on memory, justice and the wounds that continue to mark Angolan society.
O terceiro volume da colectânea “Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias”, do escritor, investigador e pensador angolano Maurício Francisco Caetano “Mafrano”, chegou à província da Huíla, reforçando a circulação nacional de uma das mais importantes obras publicadas sobre a cultura, a memória e a civilização Bantu.
A informação foi divulgada pela ANGOP — Agência Angola Press, que assinalou a chegada à Huíla do terceiro volume desta colectânea póstuma, publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club. A obra encerra um projecto editorial de grande fôlego dedicado ao pensamento de Mafrano, figura central da investigação cultural angolana e distinguida com o Prémio Nacional da Cultura e Artes 2024, na modalidade de Investigação em Ciências Humanas e Sociais.
O terceiro volume, com cerca de 328 páginas, reúne textos organizados em torno da civilização Bantu, da religiosidade, das questões sociais e de episódios vividos pelo autor, incluindo reflexões que atravessam a história, a antropologia cultural, a ética, a justiça tradicional e a dignidade humana.
Importa, contudo, fazer uma rectificação relevante: não se trata de uma obra de apenas 327 ou 328 páginas no seu conjunto. Esse número corresponde apenas ao terceiro volume. A colectânea completa “Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias”, publicada em três volumes, soma oitocentas páginas, constituindo um verdadeiro monumento editorial à memória cultural angolana.
A chegada da obra à Huíla tem especial significado simbólico. O Lubango e a região sul de Angola são espaços fundamentais da história cultural, religiosa e intelectual do país, e a presença desta colectânea nesse território reforça a necessidade de aproximar os leitores angolanos de obras que ajudam a compreender as raízes profundas da sociedade angolana.
Publicada postumamente, a colectânea recupera estudos, crónicas, notas autobiográficas e reflexões que Mafrano escreveu ao longo de décadas, muitas vezes sob pseudónimos como Anateco, Virafro, Aliquis ou Morais Paixão, estratégia que lhe permitiu intervir no debate público em tempos de censura e vigilância colonial.
Mais do que uma obra de antropologia cultural, “Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias” é uma afirmação de pensamento africano, uma defesa da dignidade dos povos Bantu e um contributo indispensável para o estudo da identidade angolana. A sua chegada à Huíla confirma que o legado de Mafrano continua vivo, a circular, a interpelar leitores e a abrir caminhos para uma leitura mais profunda da história de Angola.