Windhoek, 22nd October 2026 —TheNational Library of Namibia (NL) has welcomed the donation of the Portuguese edition of «The Bantu in Mafrano’s Version – Almost Memories», a significant cultural and anthropological work by the late Angolan writer and ethnologist Maurício Francisco Caetano (1916–1982).
Donated through the Embassy of Angola in Namibia on 31 August 2026, the collection represents a valuable contribution to the preservation of Angola’s literary and cultural heritage and the documentation of Bantu history, traditions and social life.
The National Library has expressed its willingness to assist with venue arrangements for the forthcoming launch of the English edition in Windhoek, which will make the work accessible to a wider readership.
The donation underscores the importance of cultural cooperation and the preservation of historical knowledge across national and linguistic boundaries. The National Library welcomes this gesture and reaffirms its commitment to promoting access to information resources and safeguarding literary and cultural heritage for present and future generations. The handover and discussions were done with National Library of Namibia staff members.
Windhoek, 22 de Outubro de 2026 — A Biblioteca Nacional da Namíbia, em Windhoek, manifestou nesta quinta-feira, 22 de Outubro, total disponibilidade em acolher a cerimónia de lançamento da próxima versão na língua inglesa da colectânea póstuma angolana «Os Bantu na Visão de Mafrano – Quase Memórias», do escritor e etnólogo Maurício Francisco Caetano (1916-1982), Prémio Nacional de Cultura e Artes 2024.
A garantia foi prestada esta manhã na capital namibiana durante um encontro que serviu para selar depósito legal, e o autógrafo, da versão em português desta mesma obra, oferecida à Biblioteca Nacional no passado dia 31 de Agosto, através da Embaixada de Angola. Participaram no encontro de hoje as senhoras Aina Sakaria e Maria Nepolo, ambas assistentes da Direcção-Geral da Biblioteca Nacional da Namíbia, enquanto que pela família do autor angolano esteve presente o jornalista e escritor José Soares Caetano, autor secundário da referida obra.
Prevista para aparecer ao público até aproximadamente 200 páginas, contra as 800 da versão original em português, a edição inglesa de «Os Bantu na Visão de Mafrano» será editada em data a anunciar em Luanda e em Windhoek num formato reduzido que continuará a ter como foco a civilização Bantu, incluindo temas como o matrimónio entre os povos bantu, a formação profissional, a solidariedade humana, a sucessão por morte, a vida social, usos, costumes, tradição política e outras questões de interesse social.
A Biblioteca Nacional da Namíbia voltou a agradecer a oferta, e manifestou total disponibilidade em prosseguir contactos regulares com a família do escritor angolano até ao lançamento desta obra, em Windhoek.
O encontro serviu também para dar a conhecer a biografia do autor e os passos empreendidos pela família para a recuperação dos textos então dispersos em jornais e revistas publicados em Angola, entre 1947 e 1982, com enfase para «O APOSTOLADO», «ANGOLA NORTE», «O ANGOLENSE» e a Revista «ANGOLA» da Liga Nacional Africana de que era um colaborador assíduo.
Num encontro de cortesia realizado dias antes na Embaixada de Angola na Namíbia, também foi garantido o empenho desta Missão diplomática para o sucesso da cerimónia de lançamento da versão inglesa de «Os Bantu na visão de Mafrano», em Windhoek.
Dividida em três volumes, a versão portuguesa de «Os Bantu na Versão de Mafrano – Quase Memórias» foi prefaciada pelo já falecido arcebispo emérito do Lubango, Dom Zacarias Kamwenho, e apresentada solenemente na Universidade Católica de Angola (UCAN), em Luanda, no dia 14 de Maio de 2022.
«Aquele senhor é angolano e dá aulas, aqui…»
Chama-se Alfredo Khianda, tem 31 anos de idade, é angolano, residente em Windhoek, há mais de dez anos e ministra aulas de inglês na Biblioteca Nacional da Namíbia, em Windhoek.
Conhecemo-nos por um mero acaso, na manhã desta quinta-feira, dia 22 de Outubro, nos corredores da Biblioteca Nacional da Namíbia, em Windhoek, onde estivemos com o propósito de testemunhar o depósito legal, e, autografar, também, o Volume III da versão em português da colectânea póstuma angolana «OS BANTU NA VERSÃO DE MAFRANO – QUASE MEMÓRIAS», do escritor e etnólogo Maurício Francisco Caetano (1916-1982).
Foi Aina Sakaria, uma das assistentes da direcção-geral da Biblioteca Nacional da Namíbia quem nos informou, depois de o ver a circular pelo corredor desta instituição:
«Aquele senhor é angolano e dá aulas, aqui…».
«Posso conhecê-lo…?», perguntei, sem resistir à curiosidade.
Alfredo Khianda foi chamado e compareceu diante de nós. Trocamos contactos, depois de o ter informado sobre o que me levou até à Biblioteca Nacional da Namíbia.
Mas, o nosso KHIANDA, não é apenas professor de inglês.
«Sou paramédico, formado em Serviços Médicos de Emergência , e também dou aulas neste ramo», disse-me ele.
No final da nossa breve conversa, Alfredo Khianda aceitou o nosso amável Convite para assistir à próxima cerimónia de Windhoek, onde tencionamos apresentar ao mundo a versão inglesa de «OS BANTU NA VISÃO DE MAFRANO» em aproximadamente 200 páginas!
A preparação da edição em língua inglesa de Os Bantu na Visão de Mafrano, de Maurício Francisco Caetano, representa uma oportunidade para levar o pensamento e o legado cultural do autor a novos leitores, investigadores e universidades, ampliando o conhecimento sobre Angola e as culturas bantu. Este esforço da família de Mafrano merece ser acompanhado por um compromisso efectivo das instituições angolanas: é tempo de dar um passo em frente e apoiar a tradução, a edição e a divulgação internacional desta obra. Valorizar este património é também investir na projecção de Angola como país que produz conhecimento, preserva a sua memória e partilha com o mundo a riqueza das suas culturas. Mais do que uma iniciativa familiar, este projecto deve ser reconhecido como uma causa de interesse cultural nacional, capaz de reforçar positivamente a imagem da República de Angola no mundo.
Publicamos o discurso de Fernando Jorge Cardoso no lançamento oficial de Mitos Económicos de Angola, de Óscar da Mata, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa. Uma intervenção que convida à leitura de uma obra que tem despertado muita curiosidade e alimentado um forte debate nos bastidores.
O livro Mitos Económicos de Angola será apresentado em Luanda, no início de Novembro, na Universidade Católica de Angola. Entretanto, em Lisboa, está já a ser preparada a segunda edição, prolongando um debate sobre as ideias e as escolhas que condicionam o futuro económico de Angola.
Fernando Jorge Cardoso é economista e professor catedrático convidado da Universidade Autónoma de Lisboa. Doutorado e agregado em Economia pelo ISEG, desenvolve investigação sobre desenvolvimento, geoeconomia e segurança, com especial atenção ao continente africano. Foi director da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, e tem uma vasta experiência de investigação e consultoria em países africanos, incluindo Angola. É autor de mais de uma centena de publicações.
Lisboa, Palácio Galveias, 3 de setembro de 2026
FERNANDO JORGE CARDOSO, Professor Catedrático da Universidade Autónoma de Lisboa
Boa tarde.
Começaria por uma nota pessoal.
Conheci pela primeira vez o Oscar da Mata nos finais do século passado ele na qualidade de estudante, eu de docente. Entretanto, encontrámo-nos e conversámos algumas vezes, principalmente em Luanda, momentos de que guardo boa memória. Reencontramo-nos agora em Lisboa – ele na qualidade de autor, eu de apresentador do seu livro.
Mitos Económicos de Angola não é um tratado académico de economia. É, como o subtítulo prudentemente indica, um «ensaio sobre liberdade ecriação de riqueza».
O livro é deliberadamente polémico e defende uma tese. Percebemos que o Oscar da Mata escreveu este livro porque considera que algumas ideias enraizadas na sociedade angolana precisam de ser discutidas.
É convicção do autor de que muitas das dificuldades económicas de Angola não resultam da escassez da oferta, nem sequer principalmente dela. Resultam essencialmente de ideias equivocadas sobre o funcionamento da economia que, repetidas durante décadas, acabaram por adquirir o estatuto de verdades quase evidentes – conhecendo um pouco o país, acrescentaria: convenientes também…
Ao longo das suas diferentes partes, o autor discute sucessivos «mitos»:
— Que a inflação decorre fundamentalmente da escassez da produção local;
— Que basta aumentar as taxas de juro para a combater;
— Que o controlo administrativo dos preços protege os consumidores;
— Que os subsídios crónicos são indispensáveis ao progresso económico;
— Que a criação de emprego público é a principal forma de combater o desemprego;
— Que o Estado deve controlar as margens de lucro das empresas;
— Que o planeamento centralizado é indispensável ao crescimento;
— Que aumentar impostos significa necessariamente aumentar receitas;
— Que o socialismo é o sistema que melhor protege os pobres.
Um primeiro mérito do livro é o fio condutor e a clareza do seu argumento principal ou seja, a defesa da liberdade económica contra o excesso de intervenção administrativa do Estado.
A história contemporânea de Angola é marcada primeiro por uma economia colonial fortemente administrada; depois da independência, por uma experiência de economia centralmente planificada, num contexto de duas guerras simultâneas, uma de agressão externa, outra civil; e, finalmente, após o fim da guerra, pela transição para uma economia de mercado tutelada pelo Estado. Neste contexto, interrogar os pressupostos da intervenção estatal é não só legítimo, mas também necessário, até porque, quem conhece Angola, sabe que as aberturas políticas e económicas foram operadas sem mudança de regime – situação, aliás, bastante comum a muitos países, africanos e não africanos, no pós-Guerra Fria.
Um segundo mérito é que nos obriga a pensar sobre o papel dos incentivos:
— Os indivíduos respondem a incentivos;
— As empresas respondem a incentivos;
— Os funcionários públicos respondem a incentivos;
— Os investidores respondem a incentivos.
Ignorar esta realidade na formulação de políticas económicas pode produzir resultados opostos aos pretendidos, precisamente porque essas políticas alteram incentivos e, através deles, condicionam os comportamentos dos agentes económicos.
É uma velha lição da economia, mas é uma lição que os decisores políticos tendem frequentemente a esquecer – ou a desconsiderar. Em Angola também.
Um terceiro mérito é a insistência do autor em que a riqueza tem de ser criada antes depoder serdistribuída.
Parece uma banalidade. Mas não é.
Sobretudo em economias assentes na exploração de recursos naturais, é muito fácil confundir a apropriação de uma renda com a criação de riqueza. Receber receitas provenientes da exportação de petróleo não é exatamente a mesma coisa que construir uma economia capaz de produzir sustentadamente bens e serviços, aumentar a produtividade, inovar, criar empresas e emprego e elevar o rendimento das famílias. E esta distinção parece particularmente evidente no caso angolano.
Salientados estes méritos, gostaria de colocar algumas questões que a leitura me suscitou.
Uma dessas questões é de natureza económica. Ao ler o livro, ocorreu-me repetidamente uma pergunta: quais são as referências do pensamento económico do autor?
Duas referências vieram-me imediatamente à cabeça: Friedrich Hayek eMilton Friedman.
Comecemos por Hayek.
Há uma ideia profundamente hayekiana que atravessa o livro: ninguém, nem mesmo o mais competente dos governos, possui toda a informação necessária para dirigir uma economia complexa. O conhecimento encontra-se disperso por milhões de indivíduos e empresas. E o sistema de preços constitui precisamente um mecanismo através do qual essa informação dispersa é transmitida e utilizada.
Quando o autor critica preços administrados, margens definidas burocraticamente, subsídios que distorcem sinais ou decisões centralizadas sobre aquilo que deve ser produzido, encontramos esta intuição fundamental de Hayek: o preço não é apenas aquilo que se paga por uma mercadoria; é também informação.
Alterar administrativamente um preço significa, portanto, alterar o sinal que produtores e consumidores recebem.
Assim, Hayek dá-nos sobretudo uma explicação da razão pela qual uma ordem descentralizada pode utilizar melhor o conhecimento disperso pela sociedade do que um sistema de planificação central.
Faço aqui um parêntesis para lembrar que Hayek, detentor de um prémio Nobel, é o nome mais sonante da escola austríaca de pensamento económico criada por Ludwig von Mises – não é de admirar que o autor se insira nesta corrente de pensamento, afinal de contas ele é um colaborador ativo do Instituto Mises em Portugal…
Mas o livro também se alinha com alguns dos postulados defendidos pela Escola de Chicago, no caso pelo seu principal expoente, Milton Friedman.
Friedman partilha com Hayek a defesa da liberdade individual, da propriedade privada e dos mercados competitivos. Mas acrescenta-lhe um conjunto muito mais concreto de proposições sobre política monetária — bem evidentes neste livro.
Para Friedman, a inflação persistente não pode ser compreendida sem olhar para a
quantidade de moeda e para a política monetária. Esta deslocação do olhar — da explicação da inflação centrada na escassez física de bens para a procura das suas causas monetárias —está claramente próxima de uma das teses centrais que Oscar da Mata defende.
Mas a afinidade intelectual com Friedman vai bastante além do monetarismo.
Encontramos também a sua desconfiança relativamente à capacidade do Estado para substituir decisões descentralizadas; a preferência por regras gerais e previsíveis em lugar da discricionariedade administrativa; a defesa da concorrência; a crítica a muitos controlos de preços; a preocupação com os efeitos perversos de subsídios e de determinados impostos; e, sobretudo, a ideia de que a liberdade económica não é apenas um instrumento de eficiência: constitui ela própria uma dimensão da liberdade individual.
Atenção que ao referir Friedman, estou a situar-me no plano das afinidades do pensamento económico, e não a atribuir ao autor as opções políticas ou experiências históricas posteriormente associadas à Escola de Chicago.
Poderia acrescentar ainda uma terceira linha de raciocínio que encontro na obra, neste caso\ menos sobre pensamento teórico, mais sobre modelos e postulados de políticas económicas.
Refiro-me ao “Consenso de Washington”.
Quando John Williamson criou a expressão, em 1989, não estava a propor uma nova teoria económica nem sequer a escrever um manifesto neoliberal. Procurava identificar um conjunto de reformas sobre as quais considerava existir então um razoável consenso entre as instituições económicas sediadas em Washington acerca dos problemas que enfrentavam, em particular, as economias latino-americanas dos anos 1970 e 1980: inflação elevada, défices públicos, crises da dívida, protecionismo, empresas públicas frequentemente ineficientes e mercados fortemente regulamentados. Políticas semelhantes viriam depois a originar programas de ajustamento estrutural, bem conhecidos em África.
Williamson admitia, porém, um papel importante para o Estado, incluindo investimento público em infraestruturas e despesa em educação e saúde. Ele viria a insistir que disciplina macroeconómica não era sinónimo de monetarismo e que a redução de um Estado sobredimensionado não significava a criação de um Estado mínimo.
Porém, como bem sabemos, os documentos, com o tempo, tornam-se independentes do criador e das suas opiniões. Na verdade, o termo “Consenso de Washington” ganhou vida própria e tornou-se sinónimo de um programa de reformas a que genericamente chamamos neoliberalismo.
Chegado aqui deixem-me acrescentar uma consideração pessoal, que faço sem esconder alguma ironia e também admiração pela coragem do autor que, não obstante a moderação e a racionalidade dos seus argumentos, colocou-se bem perto da “fogueira” onde, ainda hoje, alguns queimam, simbolicamente claro, “hereges” acusados de simpatias neoliberais.
Talvez esses não saibam que o neoliberalismo não é uma teoria económica, é uma ideologia. Oscar da Mata situa-se no campo da teoria política económica.
Apesar de ter trazido propositadamente esta consideração à apresentação, para lhe dar um pouco de “salero”, irei continuar a minha apreciação da obra sem qualificações deste tipo, que prejudicam mais do que favorecem o debate. Sabemos que os mercados precisam de instituições para funcionar. A concorrência não nasce espontaneamente da privatização. Mercados eficientes pressupõem governação eficiente. E um monopólio público pode ser privatizado e continuar a ser um monopólio. É neste aspeto que encontramos o oposto de mercado, que é monopólio e não é “Estado”.
E aqui, na relação entre público e privado, tlvez residam algumas diferenças entre proposições do livro e o que sabemos sobre processos de desenvolvimento no Leste asiático.
Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e, de forma muito diferente, a China não se desenvolveram porque o Estado se retirou da economia. O regime chinês, aliás, continua a definir-se como comunista, e o país é governado por um partido leninista – tal como o Vietname, aliás. E, não obstante, neste caso os pobres têm ficado mais ricos. Mas deixemos essa discussão para outra ocasião.
As experiências no Leste asiático são diferentes, mas têm algo em comum: Estados com elevada capacidade de intervenção económica.
Coreia do Sul e Taiwan orientaram recursos, promoveram exportações e disciplinaram empresas; Singapura combinou uma economia muito aberta com uma forte orientação estatal; e a China introduziu progressivamente mecanismos de mercado sem abdicar da direção económica do Estado.
O problema, portanto, talvez não seja saber se queremos mais ou menos Estado, mas sim quetipo de Estado temos, que capacidade possui e para o quê e a quem serve.
Falemos agora de instituições. O autor sabe — e diz — que as economias não existem num vazio político. Nada mais certo.
A própria conclusão do livro nos conduz nessa direção. O autor termina insistindo em instituições, previsibilidade, propriedade, responsabilidade, confiança e liberdade económica.
Oscar Mata pergunta: de onde vêm essas instituições?
E responde dizendo que as instituições resultam de processos eminentemente sociais. Tal é, genericamente, observável. Mas, na sua criação ou posteriormente, intervém quase sempre, uma síndrome que tem acompanhado o Homo Sapiens sempre que tem poder: a pulsão para moldar, controlar ou apropriar-se das instituições em função dos seus interesses.
Ou seja, a argumentação do autor que a génese das instituições tem a ver com necessidades que se impõem e que elas sobrevivem porque são economicamente eficientes, necessita de alguma qualificação. Na verdade, sempre que as sociedades são frágeis ou não dispõem de mecanismos eficazes de controlo, muitas instituições tendem a ser criadas, moldadas ou utilizadas como instrumentos de poder – não meramente económico, mas eminentemente político e, não raramente, servindo intuitos pessoais.
Para comprovarmos isto basta, aliás, perguntarmos:
— Quem decide os subsídios?
— Quem beneficia dos contratos públicos?
— Quem recebe crédito?
— Quem consegue uma licença de importação?
— Quem obtém acesso à terra?
— Quem beneficia de uma privatização?
— Quem controla uma empresa pública?
— Quem consegue transformar proximidade política em oportunidade económica?
— E, inversamente, que instituições existem para assegurar que as mesmas regras se aplicam a todos?
E aqui encontramos, creio, uma questão central para Angola: a razão pela qual não é viável uma separação entre economia e política.
A liberdade económica que o autor reivindica pressupõe condições políticas einstitucionais que permitam que essa liberdade seja efetivamente exercida por todos, e não apenas por aqueles que dispõem de acesso privilegiado ao poder. E, atenção, agora digo isto não para discordar do Óscar que, aliás, suspeito que sabe muito bem do que falo.
Por outras palavras, a análise económica não é separável da realidade política. E esta asserção conduz-me a duas questões que atravessam as diferentes formas de governação e de exercício do poder —em todo o mundo e, seguramente, em Angola também: a ética e acorrupção.
Comecemos pela ética.
A ética não é apenas uma questão individual, nem uma espécie de ornamento moral que acrescentamos à economia depois de resolvidos os problemas da eficiência. Coloca uma questão prévia: que limites devem existir no exercício do poder político e económico,mesmo quando determinados comportamentos são formalmente legais?
Nem tudo o que é legal é necessariamente legítimo. Nem tudo o que uma instituição permite é necessariamente eticamente aceitável. E nenhuma arquitetura institucional, por mais sofisticada que seja, elimina inteiramente a necessidade de responsabilidade individual no exercício do poder. A experiência angolana dar-nos-ia certamente bastante matéria para desenvolver esta questão.
A corrupção coloca-nos num patamar diferente.
Ela é, evidentemente, uma questão ética e jurídica. Mas é também — e para a discussão deste livro — uma questão de economia política.
E aqui podemos regressar a uma das argumentações mais interessantes discutidas pelo autor: a dos incentivos.
E porquê? Porque a corrupção é também um sistema de incentivos.
Se o acesso ao poder, ou a proximidade de quem o exerce, proporcionar uma remuneração esperada superior à inovação, ao investimento produtivo, à concorrência ou ao risco empresarial, os agentes económicos adaptarão racionalmente o seu comportamento a esse sistema de incentivos.
Em vez de competir pela criação de riqueza, pode tornar-se mais vantajoso competir pelo acesso à renda.
Em vez de investir na produtividade de uma empresa, pode tornar-se mais rentável investir na relação com quem decide uma licença, um contrato, um crédito, uma concessão ou uma privatização.
E, quando isso acontece de forma suficientemente generalizada, a corrupção deixa de poder ser entendida apenas como o comportamento desviante de alguns indivíduos. Articulada com mecanismos de clientelismo e patronagem, a corrupção pode transformar-se num mecanismo de distribuição de rendas, de construção de dependências, de recompensa de lealdades e, no limite, de reprodução do próprio poder.
É precisamente por isso que esta questão assume uma importância particular nas economias dependentes de recursos naturais.
E, a propósito de ética, corrupção e recursos, não posso deixar de lembrar que a principal fonte de receitas externas e de financiamento do Estado angolano é o petróleo.
Quando uma parcela muito significativa dos recursos à disposição do Estado não provém da tributação da atividade económica interna, mas de uma renda externa, apropriada e distribuída pelo Estado, a disputa pelo acesso ao Estado pode tornar-se economicamente tão importante como a disputa pelo mercado.
Há aqui ainda um efeito político importante. Quando o Estado depende pouco da tributação dos cidadãos para financiar-se, enfraquece-se um dos mecanismos através dos quais as sociedades exigem prestação de contas aos governos. Num Estado rentista, a relação pode parcialmente inverter-se: em vez de o Estado depender fiscalmente da sociedade, é uma parte importante da sociedade que passa a depender do acesso aos recursos distribuídos pelo Estado.
E regressamos, assim, a distinções que o próprio autor faz: apropriar-se de uma renda nãoéo mesmo que criar riqueza; os incentivos não existem apenas no mercado. Existem igualmentenapolítica e nasrelações entre política e economia.
E isso transporta-nos finalmente para o terreno onde estas questões se encontram: oda governaçãoedopoder.É aí que, em última análise, se define o modelo de desenvolvimento e de sociedade que tem vindo a ser construído em Angola – para ser claro, um modelo que permanece estruturalmente rentista, não obstante as reiteradas intenções de diversificar a economia.
Por isso, talvez eu dissesse que este livro constitui menos um ponto de chegada do que um excelente ponto de partida.
Tem o mérito de incomodar.
Tem o mérito de questionar ideias instaladas.
Mas deixa-nos também perante uma pergunta óbvia: como construir, em Angola, uma economia simultaneamente mais livre, mais produtiva emais inclusiva, quandoa estrutura da economia e a estrutura do poder estiveram durantetanto tempo profundamente interligadas?
Neste livro, o autor dá-nos uma parte da resposta.
Cabe aos leitores — e sobretudo aos angolanos — continuar a discussão.
E talvez seja esse, afinal, um dos maiores elogios que se pode fazer a um livro: terminarmos a última página não com a sensação de que a discussão acabou, mas com vontade de a recomeçar.
Obrigado, Wakolapo, Kizakulu, Matondo, Sakuili.
Na mesa de honra o editor, o autor, Oscar da Mata, e o apresentador da obra Fernando Jorge Cardoso
Manuel Neto Costa esteve na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, para uma conversa sobre as decisões que condicionam o desenvolvimento de Angola. A apresentação do seu livro Angola: Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023) reuniu o autor, o jornalista Xavier de Figueiredo e o investigador Rui Verde, com participação do público e uma intervenção de Armindo Laureano, a partir de Luanda
A distância entre os investimentos anunciados e as condições concretas de vida da população marcou o encontro «Angola: Que Escolhas para o Futuro?», promovido pela Perfil Criativo | AUTORES.club em 15 de Outubro, na Biblioteca Palácio Galveias. Num formato de conversa e entrevista ao vivo, a sessão colocou em discussão o investimento produtivo, o emprego, as prioridades da despesa pública, a confiança nas instituições e o papel da imprensa independente.
Na abertura, o editor João Ricardo Rodrigues explicou o sentido do encontro: criar um espaço onde diferentes experiências e opiniões pudessem contribuir para uma reflexão sobre o país. A apresentação de um livro seria, assim, o ponto de partida para ouvir perguntas, críticas e propostas.
«Estamos longe da nossa terra natal, mas Angola nunca está verdadeiramente longe de nós», afirmou. Evocando as notícias de grandes obras e novos investimentos, mas também os relatos de familiares e amigos sobre o custo de vida, a falta de oportunidades e a pobreza, deixou as perguntas que orientariam a conversa: «Estão a fazer as escolhas certas? Estão a investir nas prioridades certas? E como podem transformar os recursos de Angola em desenvolvimento que chegue efectivamente aos angolanos?»
Uma edição que venceu dois anos de dificuldades
João Ricardo Rodrigues recordou que a publicação nasceu no seguimento de uma iniciativa do Novo Jornal, reconhecendo o contributo do seu director, Armindo Laureano. O projecto sofreu um atraso de cerca de dois anos, durante os quais as circunstâncias e o enquadramento editorial se alteraram, obrigando a encontrar novas soluções.
Publicado em 2026 e já apresentado em Luanda, na Academia BAI, o livro chegou a Lisboa para um encontro há muito desejado.
«Conseguir publicar um livro que questiona as políticas públicas e convida os cidadãos a discutir as decisões dos seus governantes é uma responsabilidade editorial que assumimos com particular orgulho», salientou o editor.
A obra reúne 52 artigos publicados no Novo Jornal entre Setembro de 2021 e Setembro de 2023, organizados em oito capítulos. A dependência do petróleo, o Orçamento Geral do Estado, a corrupção, a inflação, o investimento privado e a diversificação económica cruzam-se com questões directamente ligadas à vida dos cidadãos, como a educação, a saúde, os serviços públicos e a desigualdade social.
Da experiência governativa ao escrutínio público
Economista formado pela Universidade Agostinho Neto e mestre em Assuntos Internacionais pela Universidade Columbia, Manuel Neto Costa foi Secretário de Estado do Tesouro, Secretário de Estado para o Planeamento e Ministro da Economia e Planeamento. Essa experiência no interior da administração pública deu particular significado às perguntas iniciais do editor: como viveu o exercício de publicar livremente análises críticas depois de desempenhar responsabilidades governativas e que importância atribui a uma imprensa independente?
Na resposta, o autor sublinhou o valor da independência técnica e apresentou a escrita como uma forma de continuar a contribuir para a discussão dos problemas do país. Destacou também o papel da imprensa no escrutínio das políticas públicas e na abertura do debate à sociedade.
A expressão «derivas», que dá título à obra, ganhou depois uma explicação concreta: na perspectiva de Manuel Neto Costa, os resultados podem ser comprometidos por diagnósticos incorrectos, por soluções inadequadas ou por ambos. A qualidade das instituições e as condições de execução das políticas são, por isso, determinantes para compreender a distância entre os objectivos anunciados e os efeitos alcançados.
Investir, criar emprego e recuperar a confiança
Xavier de Figueiredo centrou a sua intervenção nas condições necessárias para atrair investimento. O jornalista e escritor chamou a atenção para a segurança jurídica, a aplicação das leis e os obstáculos burocráticos, destacando o papel dos pequenos e médios investidores na criação de riqueza e emprego.
Manuel Neto Costa colocou a fome, a pobreza e os rendimentos das famílias no centro da resposta. Defendeu a necessidade de investimento produtivo com horizonte de longo prazo e questionou a eficácia de medidas pontuais quando permanecem por resolver problemas estruturais.
A discussão estendeu-se à qualidade da despesa pública e à sua capacidade de melhorar infra-estruturas, formar pessoas e apoiar a actividade económica. Mais do que avaliar intenções, o autor propôs olhar para os resultados das decisões e para a sua tradução em melhores condições de vida.
Rui Verde trouxe ao debate a leitura dos indicadores económicos, alertando para a necessidade de distinguir alterações reais na economia de mudanças nas metodologias estatísticas. Sublinhou a importância de conhecer os critérios de construção dos números e de assegurar comparações rigorosas antes de retirar conclusões sobre os progressos do país.
A diferença entre a letra das leis e a sua aplicação prática foi outro dos temas abordados, pela influência que exerce sobre a confiança dos cidadãos, dos empresários e dos investidores.
A imprensa como espaço de liberdade
A partir de Luanda, Armindo Laureano recordou a colaboração de Manuel Neto Costa com o Novo Jornal, destacando a regularidade dos seus textos, a liberdade com que foram publicados e o interesse despertado junto de diferentes leitores.
O director enquadrou a obra como o registo de uma primeira etapa dessa colaboração e valorizou a presença de uma voz crítica com experiência governativa no espaço de opinião do jornal. A publicação em livro permite agora reler esses artigos em conjunto, relacionar temas e prolongar uma discussão que ultrapassa a actualidade em que cada texto foi escrito.
As intervenções da assistência alargaram a conversa à educação, à preparação dos jovens para o mercado de trabalho e às perspectivas de futuro das famílias. Os obstáculos quotidianos à actividade produtiva também foram abordados, aproximando o debate económico das dificuldades concretas de quem procura produzir, trabalhar e investir.
Um convite para continuar a conversa
Na abertura, João Ricardo Rodrigues agradeceu o acolhimento da Câmara Municipal de Lisboa e da equipa da Biblioteca Palácio Galveias, assim como o acompanhamento da Rádio Marginal e da Rádio France Internacional. Destacou ainda o contributo de Víctor Hugo Mendes, cujo canal de YouTube, VHMendes, assegurou a transmissão em directo, permitindo acompanhar o encontro à distância, nomeadamente em Angola.
«Não esperamos encontrar hoje todas as respostas. Mas esperamos sair daqui com melhores perguntas, mais conhecimento e, sobretudo, com vontade de continuar esta discussão», afirmou João Ricardo Rodrigues.
A sessão concretizou o propósito anunciado pelo editor: fazer da apresentação uma conversa aberta, plural e participada. O livro de Manuel Neto Costa ficou no centro desse exercício, como instrumento para compreender problemas, confrontar escolhas e discutir alternativas.
Lamentamos os eventuais transtornos e agradecemos a compreensão da Direcção da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, dos nossos convidados especiais, da comunicação social, dos amigos e dos leitores.
O livro encontra-se disponível na loja online da editora, em www.AUTORES.club.
Que escolhas podem marcar o futuro de Angola? A propósito do encontro com M. Neto Costa, que terá lugar no próximo dia 15 de Outubro, às 18h30, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, publicamos um artigo de opinião integrado no seu livro Angola: Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023), editado pela Perfil Criativo | AUTORES.club.
Este texto é um convite à leitura e à participação no debate «Angola: Que Escolhas para o Futuro?», que assinala o lançamento oficial da obra em Portugal. Com a participação especial de Xavier de Figueiredo e Rui Verde, a sessão será uma conversa aberta ao público, com espaço para perguntas e diferentes perspectivas sobre os desafios do país.
Venha ouvir. Traga as suas perguntas. Faça parte da conversa.
M. Neto Costa — 21 de Outubro de 2021
Processos de planeamento, monitorização e avaliação adequados demandam informações sobre a situação de partida e sobre a dinâmica das variáveis do objecto, de modo a que, sendo os objectivos determinados, se possa avaliar o que é necessário fazer-se e a capacidade e a possibilidade de o fazer, o que determinará o progresso alcançável. Tal é importante também por permitir a avaliação da situação a cada momento e a monitorização da evolução. E isso é tanto mais importante quando se trate da provisão de serviços públicos, seja de saúde, educação, electricidade, água ou saneamento, entre outros, o que implica saber-se sobre: o nível da oferta (que deve incluir a qualidade e a cobertura), da demanda e do défice dos serviços; a dinâmica passiva (comportamento no tempo sem intervenção de natureza diferente) da oferta e da demanda e, logo, do défice. Conhecidos os elementos determinantes para a melhoria da oferta (comportando a qualidade e a abrangência) por meio de diagnósticos, assim como os que informam o comportamento da demanda, podem ser determinadas as acções requeridas e fazer-se a valoração destas. Com isso se pode avaliar o que é necessário fazer-se e eleger-se as acções a desenvolver consoante a sua eficácia e eficiência, assim como a restrição orçamental existente (capacidade de as financiar), mas tendo em vista o princípio do financiamento de uma despesa permanente por uma fonte de receita também permanente.
Numa situação de défice – seja de qualidade ou quantidade –, seria esperado que, em cada período, o aumento da oferta ultrapassasse o da demanda, permitindo assim, a prazo – tanto menor quanto maior fosse a diferença de crescimento da oferta em relação à demanda –, a sua cobertura. E seria imperioso que se desse conhecimento disso à sociedade.
Por outro lado, a eficácia e a eficiência da despesa pública envolvida – entendidas, respectivamente, como o alcance dos resultados antecipados com tal despesa e com o menor dispêndio de recursos possível – deve ser uma preocupação permanente da gestão financeira pública. Por isso, no seu processo, a par de se assegurar o controle do défice fiscal e da dívida pública dentro de limites sustentáveis, é de fundamental importância também que se garanta que dos recursos despendidos se obtenham os resultados esperados (produtos e impactos) e com a maior economia daqueles, sobretudo quando se trata da provisão de serviços públicos. Para o efeito, é fundamental que as acções desenvolvidas sejam susceptíveis de dar resposta aos problemas existentes – o que se traduz em racionalidade –, o que pressupõe a existência de diagnósticos correctos. Matematicamente poderia expressar-se por meio de uma função implícita do tipo Y = f(x), onde: Y seria o resultado (produto ou impacto) pretendido; f seria a acção ou as acções (programa, projecto ou actividade – cuja especificação requer diagnóstico) a desenvolver e que conduz ou conduzem à obtenção do resultado almejado; e x seria os recursos a empregar no desenvolvimento da acção ou das acções requerida(s).
Ora, nas instituições públicas angolanas parece haver uma tendência generalizada de se privilegiar reportar sobre as acções (f) e recursos despendidos (x) ao invés dos resultados. Daí se pode compreender que, para o “Estado da Nação” apresentado a 15 de Outubro de 2021 pelo Presidente da República, sobretudo no que aos serviços públicos diz respeito, tenham provido como inputs uma profusão de dados sobre acções desenvolvidas em detrimento de informações sobre qual era a situação de partida, quais eram os objectivos, como se evoluiu em função das acções empreendidas (resultados, impactos), qual a situação do momento, bem como a perspectiva de evolução futura e as correspondentes acções a desenvolver para o efeito. Por exemplo, no que aos serviços públicos de saúde (ou da saúde) diz respeito, o Presidente da República reportou como “Estado da Nação”, resumidamente, os investimentos efectuados e em perspectiva no sector, os quais incluíram desde o recrutamento e formação de profissionais, até a reabilitação, construção e equipamento de novas unidades sanitárias. E relevou que “Com este investimento colossal em infraestruturas de saúde a este nível central e provincial que poderá ficar concluído entre 2023/2024, nossa perspectiva é passar para a fase seguinte, investindo em unidades menores de proximidade, na rede de cuidados primários de saúde, no município e no bairro.”; e rematou que seriam “…infra-estruturas sanitárias que vão contribuir bastante para a melhoria dos serviços de saúde no nosso país”.
Como se perceberá, toda essa informação prestada sobre os investimentos efectuados, pouco terá dito à sociedade, de facto, sobre o estado dos serviços públicos de saúde (ou da saúde) – mas cuja abordagem é transversal a todos os serviços públicos – e mesmo a referência de que eles contribuirão para a melhoria dos serviços foi vaga, pois não referiu em que medida e em quê se traduzirá tal melhoria. De resto, emergiu uma questão – que, entretanto, não cabe aqui – que é a das prioridades: não era suposto, tendo em atenção a perspectiva no PDN 2018-2022, de abordagem dos determinantes de saúde, ter-se priorizado a “rede de cuidados de saúde primários, no município e no bairro”, além do saneamento básico, ao invés dos colossais “investimentos em infraestruturas de saúde a nível central e provincial”?
Por outro lado, é esperado que os serviços públicos providos melhorem continuamente, ano após ano, orçamento após orçamento. Entretanto, na esteira da necessidade de se assegurar a eficácia e eficiência da despesa pública, no caso dos serviços públicos de saúde, não é suficiente, para o efeito, a agregação de novas unidades sanitárias. A agregação de valor por novas unidades sanitárias só pode ser assegurada desde que se garanta que as unidades de prestação dos serviços já existentes estejam capazes de prestar os serviços que deles é esperado, o que pressupõe estarem suficientemente financiadas nos seus custos de operação e manutenção para poderem dispor dos recursos humanos, dos equipamentos e meios médicos, dos medicamentos e do material de consumo corrente de que careçam para o efeito. Mas não parece que tem sido este o quadro, pelas constantes queixas de condições precárias de assistência e de trabalho por parte, respectivamente, dos utentes e dos profissionais que laboram nos referidos serviços. É que não parece racional – salvo se por questões de ‘transaccionabilidade’ – que se agreguem novas unidades sanitárias quando não se é capaz de garantir e consolidar o nível de serviços das unidades já em operação. E a propósito disso, seria interessante ver reportagens dos órgãos de comunicação social – que geralmente reportam com ‘pompa e circunstância’ as inaugurações, sobretudo as que contam com a presença do Presidente da República – sobre as condições de funcionamento das unidades inauguradas seis meses ou um, dois e três anos depois da inauguração, de modo a ter-se uma percepção.
De resto, Angola já teve, alegadamente, no período da “construção do socialismo científico”: a maior fábrica têxtil de África – a África Têxtil, em Benguela; e a maior panificadora da África – a Panificadora Kaxicane, na Estrada de Catete, em Luanda. E hoje tem, alegadamente, a maior infraestrutura de adução e tratamento de água da África subsahariana, em Luanda (a crer nas palavras de um antigo PCA da EPAL que o declarara à imprensa numa altura em que a mesma estaria ainda em construção) e o 4.º maior aproveitamento hidroeléctrico de África – a barragem de Laúca, conforme havia noticiado a Rádio Nacional de Angola em Dezembro de 2020. O facto, entretanto, é que tais empreendimentos, não obstante a sua ‘grandiosidade’ regional, continental e, quiçá, mundial, não resolveram o défice dos serviços oferecidos. Mas haverá, entretanto, países autosuficientes mesmo com empreendimentos muito menores – quiçá, das menores a nível regional, continental ou mundial… E isso é o que importa: “resolver os problemas do povo”.
Dança, música, canto e boa disposição marcaram a apresentação de «AKOMBE», pela Companhia de Artes Kupolo Njila, no renovado Nacional Cine-Teatro, em Luanda. Fomos ver e gostámos: um reencontro com a alegria num palco que guarda uma parte importante da memória cultural da cidade. Foi pena a sala não estar cheia
O Nacional voltou a receber artistas e público, e com eles regressaram a música, a dança e as gargalhadas. No dia 10 de Outubro, a Companhia de Artes Kupolo Njila apresentou «AKOMBE», integrado no programa de reabertura deste espaço histórico, conhecido por muitos luandenses pela sua ligação à Associação Cultural Chá de Caxinde.
Foi uma noite de celebração, com a energia dos artistas a dar vida ao palco e a proporcionar momentos de alegria e boa disposição. Entre dança, música e canto, o espectáculo recordou como as artes podem criar uma ligação imediata entre quem se apresenta e quem assiste. A nossa impressão foi clara: gostámos e queremos voltar.
Esta apresentação aconteceu dois dias depois da reabertura oficial do Nacional, realizada a 8 de Outubro de 2026, após obras de reabilitação e modernização. A intervenção melhorou as condições de conforto, segurança e funcionamento do edifício, preservando as características Art Déco que fazem parte da sua identidade.
Um palco com quase um século de história
Inaugurado em 1 de Janeiro de 1932, o Nacional Cine-Teatro atravessou diferentes épocas da vida de Luanda e tornou-se uma referência para o cinema e as artes de palco. A sua importância foi oficialmente reconhecida em 27 de Setembro de 1994, quando foi classificado como Património Histórico-Cultural. No ano seguinte, a Associação Chá de Caxinde assumiu a gestão do espaço, contribuindo para a sua recuperação e dinamização. Entre dificuldades, encerramentos e regressos, o Nacional manteve um lugar especial na memória cultural angolana.
Chá de Caxinde: unir pela cultura
A história da Associação Cultural Chá de Caxinde começou em 28 de Janeiro de 1989, por iniciativa de um grupo de cidadãos. A proclamação formal aconteceu um ano depois, subscrita por uma centena de pessoas. Num país marcado pela guerra e pelas limitações à vida cultural, a associação nasceu para abrir espaço ao encontro, à criação e ao debate.
Sob o lema «Unir pela Cultura», associado a Pepetela, a Chá de Caxinde desenvolveu actividades ligadas à literatura, à edição de livros, à música, ao teatro e à reflexão pública. As noites da Banda Maravilha tornaram-se uma das suas marcas. A ligação ao Nacional, sede da associação desde 1995, ajudou a aproximar o nome Chá de Caxinde da própria identidade do edifício.
Kupolo Njila: as tradições ganham vida em palco
Também conhecida pelo trabalho desenvolvido como Bailados Kupolo Njila, a companhia tem apostado na valorização da identidade tradicional angolana. Entre as figuras centrais desse percurso encontra-se Felicidade Manuel Cassule, «Fely», apresentada numa entrevista de 2024 como directora-geral e coreógrafa do grupo.
Uma das suas criações, «Antropogéneses», cruza dança, música e teatro, apoiando-se na pesquisa de canções, rituais, indumentárias e costumes de diferentes regiões de Angola. Um trabalho que procura transmitir conhecimento através do espectáculo e aproximar o público da diversidade cultural do país.
Com «AKOMBE», esse encontro entre expressão artística e público ganhou lugar no regresso do Nacional. Para quem esteve presente, ficou a alegria de voltar a ver este palco vivo. Que venham mais espectáculos, mais encontros e mais motivos para regressar.
A newsletter 2025–2026 do African Studies Centre da Universidade de Oxford dedica uma página ao trabalho de Rui Verde, com referência e destaque visual à capa de Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025), publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club. Uma presença que leva esta edição em língua portuguesa ao encontro de uma comunidade internacional dedicada ao estudo de África
A história recente de Angola encontra espaço na newsletter do African Studies Centre da Universidade de Oxford. Na página 17, Rui Verde apresenta um balanço da sua actividade de investigação e das suas publicações, aproximando dois universos que se complementam: a produção académica especializada e a divulgação do conhecimento junto de um público mais amplo.
É neste segundo domínio que o autor enquadra Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025), publicada em Lisboa em Junho de 2026. No texto, apresenta a obra como uma síntese histórica acessível, destinada a um público alargado de língua portuguesa. A reprodução da capa, junto de uma fotografia de Rui Verde, reforça a visibilidade do livro nesta publicação.
Para a Perfil Criativo | AUTORES.club, esta presença constitui uma oportunidade de ampliar a divulgação de uma obra que convida a conhecer e a discutir o percurso político de Angola ao longo de cinquenta anos de independência. Dirigido a leitores que procuram uma introdução à história contemporânea do país, o livro aproxima o conhecimento histórico de estudantes, membros da diáspora e de todos os que desejam compreender melhor a realidade angolana.
Angola no centro da investigação de Rui Verde
O contributo de Rui Verde, integrado na secção dedicada aos investigadores associados, revela um trabalho que cruza história, política, relações internacionais e os desafios da fiscalização democrática.
O autor apresenta dois artigos científicos, desenvolvidos em co-autoria e com apoio da British Academy, destinados ao Journal of Contemporary African Studies. Os estudos analisam a influência das heranças coloniais na supervisão pública da vigilância digital na África Austral e comparam as respostas institucionais aos conflitos em torno da vigilância na África do Sul, em Angola e na República Democrática do Congo.
A estes trabalhos junta-se um capítulo publicado na obra colectiva Democratising Spy Watching, no qual Rui Verde examina o caso angolano dos «15+2». A análise explora as tensões entre legados autoritários e mecanismos de escrutínio público, interrogando os limites e as possibilidades de fiscalização em regimes híbridos.
Outro destaque é o livro Redefining the China–Angola Relationship: Privatization, Development, and Disenchantment, da Bloomsbury Academic. Segundo o resumo apresentado na newsletter, a obra reavalia duas décadas de envolvimento chinês em Angola: da cooperação em grandes infra-estruturas a uma relação mais complexa, marcada pela renegociação da dívida, pela diversificação de parcerias e por mudanças nos alinhamentos geopolíticos.
Ao lado desta produção especializada, Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025) surge como uma ponte para os leitores de língua portuguesa. Rui Verde sublinha ainda a dimensão colectiva da investigação, reconhecendo a importância das redes de colaboração, dos seminários, do acesso a fontes e do ambiente interdisciplinar de Oxford. O texto identifica também dificuldades decorrentes do Brexit e das limitações de financiamento, sobretudo em projectos que exigem trabalho de campo e cooperação internacional.
Uma newsletter que aproxima a investigação dos debates sobre África
Ao longo de 32 páginas, a newsletter apresenta um panorama da actividade do African Studies Centre no ano lectivo de 2025–2026, reunindo investigação, conferências, publicações, testemunhos de antigos alunos e projectos dos estudantes.
Entre os principais destaques encontra-se a conferência anual de Mahmood Mamdani, dedicada à descolonização e à experiência do Uganda pós-colonial. A publicação aborda também as relações entre produção de cacau, alterações climáticas e condições de trabalho na África Ocidental, o ensino da história e dos legados imperiais, a diplomacia africana e os debates sobre as transformações políticas e sociais do continente.
Particularmente próxima da missão de divulgação cultural e editorial da Perfil Criativo | AUTORES.club é a apresentação do Oxford Africa Forum, uma plataforma que procura tornar a investigação sobre África mais acessível. Através de textos breves e claros, a iniciativa pretende aproximar o trabalho académico de leitores, jornalistas, decisores e comunidades africanas, alargando a circulação do conhecimento para além das universidades.
A newsletter assinala igualmente os dez anos da Africa Oxford Initiative, dedicada à cooperação entre Oxford e instituições africanas, e dá conta de encontros e investigações que ligam diferentes regiões, disciplinas e gerações.
É neste contexto de diálogo internacional que surge o trabalho de Rui Verde e a referência à edição da Perfil Criativo | AUTORES.club: um convite a colocar a história de Angola ao alcance de mais leitores e a fazer do livro um ponto de partida para novas perguntas sobre o país.
O antigo ministro da Economia e Planeamento do Governo de João Lourenço é o convidado de um encontro promovido pela Perfil Criativo | AUTORES.club, com Xavier de Figueiredo e Rui Verde. Uma conversa sobre política, economia e governação, aberta às perguntas do público, que parte do livro Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023) para reflectir os caminhos do país
Que decisões podem transformar o potencial de Angola em melhores condições de vida? Que lições oferece a experiência de governação e que alternativas merecem ser debatidas? Estas são algumas das perguntas que dão o mote a «Angola: que escolhas para o futuro?», encontro com M. Neto Costa na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa.
A iniciativa propõe um formato próximo de um podcast ao vivo: o jornalista Xavier de Figueiredo e o jurista e analista político Rui Verde conduzem uma conversa com o autor, cruzando a sua experiência governativa com a reflexão crítica que tem desenvolvido no espaço público. Os participantes poderão colocar perguntas e trazer outras perspectivas para o debate.
No centro da conversa estará também o livro Angola — Derivas de Políticas Públicas e Arredores (2021–2023). Antes de chegarem às páginas desta edição, os textos passaram pelo crivo dos leitores do Novo Jornal, em Angola. Reunidos em livro, ganham uma continuidade que permite revisitar argumentos, relacionar decisões e acompanhar três anos de reflexão sobre as políticas públicas e os seus efeitos na vida do país.
O encontro será, assim, uma oportunidade para descobrir o conteúdo da obra e interrogar o seu autor: retomar questões levantadas na imprensa, aprofundar ideias e discutir a sua pertinência para o futuro de Angola.
Ao reunir experiência política, análise e participação do público, a Perfil Criativo | AUTORES.club convida leitores, estudantes, investigadores, empresários e representantes institucionais a integrar uma conversa plural. Um espaço para ouvir posições diferentes, confrontar argumentos e pensar nas escolhas que o país tem pela frente.
15 de Outubro de 2026 · 18h30 Biblioteca Palácio Galveias · Lisboa Entrada livre
Venha ouvir. Traga as suas perguntas. Faça parte da conversa.
Durante o encontro, estarão também disponíveis livros sobre Angola com descontos especiais, numa oportunidade para descobrir autores e aprofundar leituras sobre a história, a cultura e os desafios do país.
A secção de História das lojas FNAC recebe duas obras da Perfil Criativo | AUTORES.club que convidam a conhecer Angola por diferentes caminhos: a surpreendente viagem que ligou o território angolano a Moçambique e os cinquenta anos de independência que moldaram o país contemporâneo
Entre os vários títulos que propõem uma «breve história», de Portugal à guerra, há agora espaço para descobrir o percurso da República de Angola. Uma oportunidade para alargar horizontes e conhecer melhor um país cuja proximidade linguística e cultural com Portugal nem sempre corresponde a um verdadeiro conhecimento da sua História.
Em Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025), Rui Verde propõe uma leitura acessível e crítica de cinquenta anos decisivos. Da independência aos conflitos e às transformações políticas e económicas, o autor percorre o caminho da construção do Estado angolano e convida a reflectir sobre os desafios do presente. A obra abre espaço à discussão e ao confronto de perspectivas, oferecendo ao leitor uma base para compreender como se chegou à Angola de hoje.
É uma introdução particularmente relevante para a diáspora angolana, incluindo as gerações que cresceram fora do país, mas também para quem mantém relações profissionais, desenvolve negócios ou planeia viajar para Angola. Conhecer o seu percurso ajuda a compreender melhor a sociedade, a interpretar o presente e a estabelecer relações mais informadas.
Já A primeira travessia da África Austral, de José Bento Duarte, transporta o leitor para uma aventura histórica pouco conhecida. No centro da narrativa estão Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, dois pombeiros luso-angolanos, na condição de comandantes escravizados, que percorreram o caminho de Angola a Moçambique entre 1802 e 1811, regressando a Angola em 1814. Muito antes das célebres expedições europeias da segunda metade do século XIX, estes homens atravessaram extensos territórios, enfrentaram dificuldades e negociaram a passagem com poderes locais.
Ao reconstituir os antecedentes e o desenrolar desta surpreendente viagem, José Bento Duarte dá visibilidade aos protagonistas africanos e aos conhecimentos que tornaram possível a travessia. Uma leitura que combina aventura, investigação histórica e descoberta, revelando uma África Austral feita de povos, caminhos comerciais e relações políticas que importa conhecer.
Dois livros, duas portas de entrada para Angola. Com a chegada destas edições à secção de História da FNAC, os leitores portugueses ganham uma nova oportunidade de descobrir episódios de uma História menos conhecidos e de aprofundar a compreensão do país para além das notícias habituais.
Na próxima visita à FNAC, procure estes títulos da Perfil Criativo | AUTORES.club. A viagem pode começar numa estante, e continuar muito para além da última página.