Livraria Lulendo & Fábrica Braço de Prata apresentam “AFRO-SUL…” Feira do Livro de África e Sul Global.
É com grande entusiasmo que convidamos editoras, livrarias, escritores e jornalistas a juntarem-se a nós para um momento especial de pré-anúncio da Feira do Livro de África e Sul Global. Este projeto inovador é organizado pela Livraria Lulendo e a Fábrica Braço de Prata, e será oficialmente lançado no dia 24 de janeiro, dia mundial da cultura africana e afrodescendente.
O evento terá lugar na Fábrica Braço de Prata e contará com a presença de todos aqueles que se interessem pela literatura africana e a do Sul Global. A Feira do Livro será um espaço mensal de celebração, onde exploraremos as diversas vozes e narrativas que emergem do nosso continente e suas diásporas.
Programação Anual Inclui: • Feira com foco em autores africanos e do Sul Global. • Lançamentos de livros. • Conversas e debates com autores. • Conferências. • Leituras de poesia e contos. • Apresentações de spoken word. • Exposições e concertos. • Sessões de DJ e open mic/karaoke. • Cinema e stand up comedy. • Feira de vinil com música africana e Sul Global. • Delícias da gastronomia local. • Desfiles de trajes. • Feira de artesanato e design. • Workshops e oficinas interativas.
A Feira do Livro de África e Sul Global visa fortalecer e posicionar a literatura do “SUL “ nas suas próprias narrativas e saberes, criando um espaço de diálogo e intercâmbio cultural. O Objetivo é Sulear o pensamento.
Para assinalar esta data significativa, teremos uma pequena cerimónia para o pré-anúncio do projeto e gostaríamos muito de contar com a sua presença. Junte-se a nós neste evento especial, onde o futuro da literatura Africana e Sul Global será celebrado!
Data: 24 de Janeiro Local: Fábrica Braço de Prata Horário: 16h – 1h. Sala: NIETZSCHE R. Fábrica de Material de Guerra 1, 1950-128 Lisboa A FBP- tem condições para acolher a feira no inverno.
Lisboa – 9 de Janeiro de 2026 — Na sua intervenção na Biblioteca Palácio Galveias, que encheu o auditório com mais de uma centena de leitores e autores, o Prof. DoutorRui Verde sublinhou que o livro 50 anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos representa, acima de tudo, uma expressão da sociedade civil africana, reunindo contributos maioritariamente independentes do poder político instalado.
Durante o lançamento, Rui Verde destacou que o grande impulso da obra pertence a Eugénio da Costa Almeida, assumindo o seu próprio papel como complementar no processo de coordenação. Mais do que um balanço histórico, o académico afirmou que o livro procura lançar um desafio político e cívico para o futuro das independências africanas.
O coordenador chamou ainda a atenção para a ausência significativa de representantes do poder governamental em países centrais como Angola e Moçambique, reforçando a leitura da obra como um espaço de reflexão livre. Nesse sentido, defendeu que os próximos 50 anos devem marcar o início de um novo paradigma, no qual governos e povos caminhem lado a lado, comprometidos com o bem comum, superando lógicas de distanciamento e isolamento mútuo.
A intervenção terminou com uma mensagem de esperança, expressando o desejo de que as próximas décadas sejam pautadas por maior convergência, participação cívica e cooperação entre o poder político e as sociedades africanas.
O evento foi organizado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, afirmando-se como mais um relevante encontro de reflexão e diálogo sobre África no espaço cultural de Lisboa.
O livro uma edição conjunta da Elivulu e da Perfil Criativo reúne mais de 40 personalidades dos cinco PALOP, incluindo antigos chefes de Estado, políticos, diplomatas, académicos, escritores, artistas e representantes da sociedade civil. Cada autor partilha uma visão pessoal e crítica sobre os caminhos percorridos desde as independências até hoje, trazendo vozes diversas e perspectivas complementares.
Autores: Eugénio da Costa Almeida e Rui Verde (coordenadores), Alcides Sakala, Ana “Margoso”, Anastácio Sicato, Arlete Chimbinda, Belarmino Van-Dúnem, Carlos Veiga, Celso Malavoloneke, Denilaide Cunha, Domingos Kimpolo Nzau, Domingos Simões Pereira, Eusébio Sanjane, Gilvanete Chantre, Humberto Macaringue, Isaac Paxe, Jacques dos Santos, Jerónimo Belo, João Carlos do Rosário, João Carlos, João Craveirinha Jr, João Sicato Kandjo, Joaquim Rafael Branco, Jorge Castelo David, José Luís Mendonça, José Maria Neves, José Miguel Ferro, José Ulisses Correia e Silva, Manuel Fragata de Morais, Maria da Imaculada Melo, Maria João Teles Grilo, Maria Olinda Beja, Mihaela Webba, Onofre dos Santos, Orlando de Castro, Sandra Poulson, Sedrick de Carvalho, Sónia Santos Silva, Tomás Lima Coelho, Victor Hugo Mendes, William Tonet, Zeferino Boal
A Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte, não é apenas o relato de uma viagem excecional através do continente africano. É, acima de tudo, um livro que surpreende ao mostrar como essa travessia se insere num fenómeno muito mais vasto: a extraordinária e improvável colonização portuguesa que alcançou os quatro cantos do mundo.
Revelando a primeira travessia documentada da África Austral, de Angola ao Índico , o autor constrói uma narrativa que cruza exploração, política, geografia e destino histórico, revelando como um pequeno país europeu conseguiu projetar-se, durante séculos, em territórios tão distantes como África, Ásia, América e Oceânia.
Lançamento em 2025 do livro A Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte
Apresentação do autor no lançamento de “A Primeira Travessia da África Austral” Padrão dos Descobrimentos, Lisboa — 29 de outubro de 2025
Uma travessia que explica um mundo
O livro acompanha a jornada africana não como um episódio isolado, mas como parte de um sistema global de rotas, decisões e encontros culturais. A travessia do sul de África surge como um eixo estratégico que ajuda a compreender a lógica da expansão portuguesa: uma colonização feita de persistência, adaptação, alianças locais, erros, conflitos e surpreendente capacidade de sobrevivência política e cultural.
José Bento Duarte mostra que a história da colonização portuguesa não se explica apenas pelo mar, mas também pela terra, pelos caminhos interiores, pelos rios, pelas rotas esquecidas e pelos homens, muitos deles luso-africanos, que ligaram oceanos, povos e impérios.
História global contada a partir de África
Ao longo das páginas de A Primeira Travessia da África Austral, o leitor descobre como a presença portuguesa em África se articula com acontecimentos decisivos noutros pontos do globo: as disputas imperiais europeias, o comércio intercontinental, a rivalidade entre potências, as missões religiosas, os equilíbrios diplomáticos e as estratégias de sobrevivência de um império disperso.
África não surge como periferia, mas como centro de gravidade de uma história global. É a partir do continente africano que se compreende melhor a ligação entre o Atlântico e o Índico, entre o Brasil e a Índia, entre Lisboa e os territórios longínquos onde a língua portuguesa deixou marcas duradouras.
Rigor histórico com pulsação narrativa
Sem abdicar do rigor documental, José Bento Duarte escreve com um ritmo que prende o leitor. O livro combina investigação em arquivos, leitura crítica de fontes e uma escrita clara e envolvente, capaz de transformar a História num relato vivo, acessível a especialistas e ao público geral.
Mais do que um livro sobre exploradores, é um livro sobre processos históricos, sobre como se construiu, e se manteve, uma presença global improvável, frequentemente contraditória, mas profundamente marcante.
Um livro para ler o passado com outros olhos
Num tempo em que a história da colonização é frequentemente reduzida a slogans ou simplificações, A Primeira Travessia da África Australpropõe algo diferente: uma leitura informada, crítica e abrangente, que reconhece a complexidade dos factos e devolve profundidade a uma história que continua a influenciar o presente.
Este é um livro para quem se interessa por Angola, Moçambique, por Portugal, pela história global, pelas rotas do mundo, e para quem acredita que ainda há muito por descobrir nos arquivos, nos mapas e nas narrativas esquecidas.
Apresentação do autor no lançamento de “A Primeira Travessia da África Austral”
Padrão dos Descobrimentos, Lisboa — 29 de outubro de 2025
O autor José Bento Duarte fez uma intervenção extensa, luminosa e apaixonada no lançamento de A Primeira Travessia da África Austral, situando a obra como o fecho de uma trilogia de evocações históricas sobre o expansionismo português e as relações com os povos africanos. Entre recordações pessoais, método de investigação e leitura crítica das fontes, apresentou a travessia documentada de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco (1802–1811) como um feito de “primeira grandeza”, e como um teste moral à memória pública de Portugal, Angola e Moçambique.
“Coloquei Pedro João Baptista e Anastácio Francisco no termo do livro porque pertencem à galeria dos melhores que encontrei em quatro séculos de História.”
A trilogia e a motivação do autor
Bento Duarte enquadrou o novo título na trilogia composta por Senhores do Sol e do Vento, Peregrinos da Eternidade e A Primeira Travessia da África Austral. Natural de Moçâmedes (Namibe), com raízes familiares de várias gerações em Angola, explicou que a obra nasce do “desejo de investigar de perto o longo convívio histórico entre portugueses e africanos”, com especial foco nos antepassados dos angolanos e moçambicanos.
Senhores do Sol e do Vento (1482–1917) abre com Diogo Cão e fecha com Mandume ya Ndemufayo, articulando figuras portuguesas e africanas num arco que desmonta simplificações coloniais.
Peregrinos da Eternidade revisita a ascensão de D. João I e da burguesia mercantil, preparando a expansão para lá das fronteiras (1415).
A Primeira Travessia da África Austral (1415–1815) caminha deliberadamente para o capítulo final, a proeza de Pedro João e Anastácio, “os meus conterrâneos”, que ligam Cassange–Lunda–Cazembe–Tete.
“Não escrevi um livro de figuras portuguesas em África; escrevi sobre portugueses e africanos que coexistiram: Bacongo, Ambundo, Ovimbundu, Herero, Nyaneka, Kwanyama, Ganguela, Kioko, Ambo, Chindonga…”
Como o livro está construído
O autor descreveu três blocos narrativos:
Mitos antigos sobre a África Central e Austral (2 capítulos) — cinocéfalos, homens sem cabeça, antropofagia: imaginários que deformaram mentalidades e criaram preconceitos com efeitos históricos.
Da orla atlântica à índica: fixações e rotas (cap. 3–18) — feitorias, portos, penetrações fluviais (Cuanza e Zambeze), Ilha de Moçambique como base para a Índia, e a centralidade do ouro de Sofala (Monomotapa) para sustentar o comércio de especiarias.
Tentativas de travessia e a primeira travessia documentada:
Correia Leitão (1755–56): travado pelos Jagas do Cassange; ensinou a lógica das três etapas(Cassange → Lunda; Lunda → Cazembe; Cazembe → Tete).
Francisco José de Lacerda e Almeida (1798): parte de Tete, chega moribundo ao Cazembe e morre; “um homem trágico, de extraordinário espírito de missão”.
Pedro João Baptista e Anastácio Francisco (1802–1811): realizam a primeira travessia documentada. Partem de Cassange (nov/1802), chegam a Tete (2/fev/1811) e regressam a Angola (1814). Pedro João, alfabetizado, mantém diários e entrega carta oficial ao governador dos Rios de Sena, a prova administrativa do feito.
“Não foi acaso: foi projeto da Coroa. Está documentado. E Pedro João cumpriu ordens, levou a carta e entregou-a em Tete.”
Esclarecimentos históricos cruciais
Anastácio Francisco, não “Amaro José”: Bento Duarte desmonta o equívoco e identifica a fonte mal lida que gerou décadas de erro.
Os diários: parte perdeu-se, sobretudo no início (Cassange → Lunda) e no regresso (Moçambique → Angola), mas interrogatórios oficiais e reescritas posteriores preenchem lacunas.
Logística e anónimos: a travessia implicou mercadorias, guias, portagens e muitos carregadores (em regra, escravizados). O autor homenageia “os anónimos da História” sem os quais as grandes proezas não acontecem.
“Sem os anónimos não teríamos História. Estes 33 do monumento (Padrão dos Descobrimentos) não existiriam sem milhares de braços invisíveis.”
Reconhecimento em vida… e a injustiça no mapa de Lisboa
O feito foi reconhecido dentro e fora de Portugal. Em 1815, no Rio de Janeiro, o Príncipe Regente D. João quis conhecer Pedro João Baptista e determinou:
criação de companhia pedestre para rotas comerciais Angola–Moçambique,
nomeação de Pedro João como comandante,
promoção a capitão e vencimento (10$000 réis/mês).
“D. João VI não quis o governador, quis Pedro João. É extraordinário.”
Mas o autor confronta a memória toponímica: o edital de 23 de março de 1954 da Câmara Municipal de Lisboa criou ruas para várias figuras do “Ultramar” (como Lacerda e Almeida), mas não para Pedro João e Anastácio.
“É uma grande injustiça por reparar. Conhecemos o feito, sabemos da sua importância; falta poder para decidir.”
Encomende os livros por email (indicar nome e morada de entrega): encomendas@autores.club
Seis ideias-chave que o autor deixa a Portugal
Antiguidade do objetivo: a travessia era um projeto antigo (já no horizonte do Infante D. Henrique, entre mitos do Preste João e a luta geopolítica com o Islão).
Proeza documentada: a primeira ligação transcontinental provada é a de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco.
Quem eram: presumivelmente pombeiros, mas aqui em missão oficial; ambos escravizados do Tenente-Coronel Honorato da Costa; Pedro João lidera e escreve.
Nome correto: o companheiro é Anastácio Francisco, o erro “Amaro José” nasce de má leitura de fonte.
Diários e método: diários parciais, fontes cruzadas (interrogatórios, despachos, cartas, edição de 1843 nos Anais Marítimos e Coloniais).
Memória e reparação: reconhecimento histórico existiu (1815), mas a reparação simbólica na toponímia falta há 71 anos, 7 meses e 6 dias (contados até 29/10/2025).
Um apelo final à justiça histórica
Bento Duarte concluiu com um pedido simples e contundente: inscrever Pedro João Baptista e Anastácio Francisco na toponímia de Lisboa, e, por extensão, em Luanda, Moçâmedes, Tete, como gesto de reparação, reconhecimento e fraternidade.
“Se tivéssemos poder, já estava resolvido. Fica a esperança: que alguém com poder decida finalmente reparar esta injustiça.”
Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte
A historiadora Constança Ceita escreve sobre a intervenção do Prof. Carlos Mariano Manuel: “Um gesto simbólico de fraternidade e reconciliação”
AUTORES.club | Perfil Criativo — Novembro de 2025
A Perfil Criativo | AUTORES.club inaugura um novo espaço de diálogo, “Cartas que Atravessam Histórias”, dedicado a textos de reflexão, recensão e crítica provenientes de académicos, cientistas, escritores, artistas e cidadãos do mundo. Um espaço aberto a quem deseja pensar os livros, os autores e as intervenções que têm marcado o reencontro entre Angola, Portugal e o mundo lusófono, a partir das publicações editadas pela Perfil Criativo | AUTORES.club.
O primeiro contributo chega da Professora Catedrática Doutora Constança Ceita, historiadora angolana, regente da Cadeira de História de Angola na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, que escreve sobre a intervenção do Prof. Doutor Carlos Mariano Manuel, prefaciador e orador no lançamento do livro A Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte, apresentado no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, a 29 de outubro de 2025.
Carta da Prof. Doutora Constança Ceita
(Reprodução integral)
Prezado Prof. Doutor Carlos Mariano Manuel,
Permita-me, como historiadora que acompanha atentamente a investigação e a redação científica da África Central/ Austral, expressar a minha profunda admiração pelo seu artigo intitulado “Se encontrássemos a coroa do Rei do Congo, seria um acto redentor”. A sua intervenção — que reflecte não apenas um domínio rigoroso das fontes como também uma consciência crítica da dimensão simbólica da História — revela-se um contributo de excepcional relevo para a nossa compreensão do passado colonial, da memória e da identidade.
Em particular, valorizo:
A sua delicada articulação entre os factos históricos — em especial ao referir-se à morte por decapitação de Dom António I (Nkanga Vita Lwa Mvemba/Mwana Nlaza) e ao percurso da Coroa de prata que poderá ter sido levada para Portugal em 1666 — e o chamamento a uma reparação simbólica entre Angola e Portugal.
O modo como associa a narrativa histórica à noção de “redenção”: não se trata apenas de recuperar artefactos ou factos esquecidos, silenciados, mas de restituir dignidade às vozes e aos agentes históricos africanos que o cânone colonizador marginalizou.
O tom científico e ao mesmo tempo humanista da abordagem — que conjuga erudição, rigor crítico e sensibilidade perante as implicações morais e identitárias da história partilhada de ambas as margens do Atlântico.
Este tipo de escrita — que não se limita à catalogação de factos mas avança para a reflexão sobre o significado social e simbólico da História — constitui um verdadeiro exemplo para a comunidade científica.
A sua proposta de redefinir, por exemplo, o Monumento do Padrão dos “Descobrimentos” como “Padrão das Expedições Marítimas Portuguesas”, ou de considerar a recuperação da Coroa do Soberano do Reino do Kongo como “gesto simbólico de fraternidade e reconciliação”, são indicações fortes de como a História pode (e deve) intervir no mundo contemporâneo, para além do arquivo.
Em nome da academia e em reconhecimento do seu contributo valioso, gratidão pelo seu trabalho.
Espero que esta reflexão inspire novas pesquisas que sigam a mesma linha — exigente no método, audaz no tema e sensível ao impacto histórico-social.
CONSTANÇA CEITA Professora Catedrática Regente da Cadeira de História de Angola Faculdade de Ciências Sociais — Universidade Agostinho Neto
Historiador angolano exorta Portugal e Angola à reparação simbólica durante o lançamento do livro “A Primeira Travessia da África Austral”
Padrão dos Descobrimentos, Lisboa — 29 de outubro de 2025 (Registo em vídeo: Victor Hugo Mendes)
No lançamento do livro A Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte, o Prof. Doutor Carlos Mariano Manuel, historiador e prefaciador da obra, proferiu uma intervenção que uniu erudição, emoção e apelo moral. Diante de um público composto por representantes de Angola e de Portugal, defendeu o reconhecimento dos feitos dos exploradores angolanos Pedro João Baptista e Anastácio Francisco e lançou um desafio à consciência histórica dos dois países.
“Revisitar a História é sempre pertinente, contanto que sirva para elucidar a sociedade sobre o seu património imaterial mais valioso: a sua própria identidade.”
Reparar o esquecimento e valorizar a História partilhada
O professor catedrático angolano, autor do tratado de História “Angola desde antes da sua criação pelos portugueses até ao êxodo destes por nossa criação” (Ed. 2021), recordou que a travessia de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, realizada entre 1802 e 1811, antecedeu as expedições europeias do século XIX, e que a sua omissão dos registos oficiais é “um erro histórico e moral que deve ser corrigido”. Assinalou também que o livro de José Bento Duarte vem “restaurar a verdade” e mostrar que a História da África Austral foi escrita também por africanos sob bandeira portuguesa.
“Estes dois angolanos negros, escravos por condição, foram pioneiros de uma travessia que, em dignidade e coragem, não fica atrás de nenhuma das grandes expedições europeias.”
Um olhar crítico sobre o passado colonial
Na sua intervenção, Carlos Mariano Manuel revisitou a história das relações entre África e Europa desde o século XV, analisando as fases de cooperação inicial, domínio e colonização. Citou o discurso do primeiro presidente de Angola, proferido em 1975, para recordar que o povo português também se libertou do fardo colonial com o 25 de Abril de 1974, recuperando a sua dignidade.
“Portugal contribuiu para a libertação de Angola e, ao fazê-lo, libertou-se também de um peso histórico. O 25 de Abril foi um ato de justiça para ambos os povos.”
No local emblemático do Padrão dos Descobrimentos, o historiador sugeriu uma reflexão sobre o nome do monumento:
“Talvez um dia o possamos chamar Padrão das Expedições Marítimas Portuguesas, pela sua natureza histórica e pela dignidade que representa.”
Recordando que o lançamento ocorreu no aniversário da Batalha de Ambuíla (29 de outubro de 1665), destacou o papel trágico do Rei do Congo, Dom António I (Muana Malaza), decapitado na batalha, e revelou que a coroa de prata oferecida pelo Papa Inocêncio VIII foi trazida para Portugal em 1666.
“Se conseguíssemos recuperar essa coroa, seria um acontecimento redentor. Um gesto simbólico de fraternidade e reconciliação entre Angola e Portugal.”
Um discurso de fraternidade e de futuro
O Professor Doutor Carlos Mariano Manuel encerrou a sua intervenção elogiando o autor, José Bento Duarte, e o editor, João Ricardo Rodrigues, pela coragem intelectual e pela relevância histórica da obra:
Este livro é um ato de cultura e de consciência. Um convite a restaurar a verdade e a celebrar a fraternidade entre os nossos povos.”
A sua presença, vinda expressamente de Angola, e o discurso vigoroso gravado por Victor Hugo Mendes, transformaram o lançamento de A Primeira Travessia da África Austral num marco de diálogo histórico entre Angola e Portugal, onde a História e a memória se encontraram num mesmo ideal: o da verdade e da justiça.
Os livro podem ser encomendado pelo email: encomendas@autores.club
Padrão dos Descobrimentos, Lisboa — 29 de outubro de 2025 (Reportagem vídeo de Victor Hugo Mendes)
O Engenheiro Miguel Anacoreta Correia, figura histórica da vida política portuguesa, protagonizou uma das intervenções mais marcantes do lançamento do livro A Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte, no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.
Com a serenidade e clareza que lhe são conhecidas, começou por recordar a sua ligação direta a África, onde nasceu (Moçambique) e cresceu (Angola), reconhecendo-se “um homem de duas margens”. Essa vivência serviu de ponto de partida para uma reflexão sobre aomissão do contributo africano nas grandes narrativas históricas.
“Livingstone elogiava os portugueses, mas quis reservar a glória para si, depois para os britânicos, e, no fim, apenas para os brancos. Os negros, sem os quais nada teria sido possível, foram omitidos”, afirmou.
O engenheiro sublinhou que os angolanos Pedro João Baptista e Anastácio Francisco foram os verdadeiros pioneiros da travessia documentada da África Austral, um feito que a História portuguesa apagou e que o livro de José Bento Duarte agora restitui.
“É tempo de compensar o esquecimento de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, em Angola e em Portugal”.
No cenário simbólico do Padrão dos Descobrimentos, a sua intervenção ecoou como um apelo à reconciliação histórica, entre povos, memórias e verdades partilhadas.
Intervenção de Eng. Miguel Anacoreta Correia no Padrão dos Descobrimentos na fim de tarde de 29 de Outubro de 2025, durante o lançamento oficial do livro “A Primeira Travessia da África Austral” (Ed. 2025), de José Bento Duarte. Gravação em vídeo de Victor Hugo Mendes
29/10/2025 — O monumental Padrão dos Descobrimentos, em Belém, foi o cenário escolhido para o lançamento oficial do livroA Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte, numa cerimónia que se transformou num marco de reencontro entre a História de Angola e a História de Portugal.
O evento reuniu personalidades de relevo das duas nações: representantes da Embaixada da República de Angola em Portugal, da Liga Africana, do Estado-Maior-General das Forças Armadas Portuguesas, da Academia da Força Aérea, além de membros de instituições civis e militares de ambos os países.
Na mesa de honra destacaram-se o Engenheiro Miguel Anacoreta Correia, o Prof. Doutor Carlos Mariano Manuel, que se deslocou de Angola especialmente para o evento, o editor João Ricardo Rodrigues, e o próprio autor José Bento Duarte. O Dr. José Ribeiro e Castro, Presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, enviou uma mensagem em vídeo, impossibilitado de comparecer por compromissos de agenda (ver vídeo da transmissão em directo).
Eng.Miguel Anacoreta Correia,Dr. José Ribeiro e Castro,Prof. Doutor Carlos Mariano Manuele o autor José Bento Duarte
Um encontro de angolanos em Lisboa que ecoou desafios à História
O lançamento revelou-se mais do que uma celebração literária: foi um encontro de angolanos em Lisboa que lançou desafios históricos e culturais às instituições portuguesas.
O autor, José Bento Duarte, de uma família muito antiga do sul de Angola, defendeu com veemência a necessidade de corrigir erros históricos e administrativos que, segundo ele, “por discriminação ou descuido”, apagaram da História de Portugal dois heróis luso-angolanos: Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, os verdadeiros primeiros exploradores a realizarem a travessia documentada da África Austral.
“Seria um acto de justiça democrática, 50 anos após a independência de Angola, reconhecer e repor a verdade sobre estes dois heróis. A História deve ser corrigida, e é aos olhos da Democracia que o pedimos”, afirmou o autor, num discurso direto à Câmara Municipal de Lisboa e às instituições portuguesas.
História, reparação e justiça
O Prof. Doutor Carlos Mariano Manuel, prefaciador da obra e considerado o mais importante historiador da República de Angola, sublinhou que Portugal tem hoje uma oportunidade única de fazer justiça histórica.
“Reconhecer o papel de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco é um gesto de reparação. É afirmar que a História da África Austral também foi escrita por africanos, e que estes devem ocupar o lugar que lhes pertence na memória comum”, afirmou.
Carlos Mariano Manuel foi ainda mais longe, propondo uma reflexão sobre o próprio nome do Padrão dos Descobrimentos, sugerindo que venha a chamar-se “Padrão das Expedições Marítimas Portuguesas”, uma designação mais inclusiva e historicamente ajustada.
E lançou um desafio simbólico e poderoso:
“Peço aos portugueses que investiguem onde está a coroa do Rei do Congo, Dom António I, Muana Malaza, herói e mártir da Batalha de Ambuíla. Encontrá-la seria um acto redentor.”
A voz da História partilhada
O Engenheiro Miguel Anacoreta Correia, que nasceu em Moçambique e cresceu no sul de Angola, recordou a figura de David Livingstone, destacando as contradições do explorador britânico, que, embora admirasse os portugueses, pretendia reservar toda a glória para os britânicos e os europeus brancos, excluindo os africanos.
“Livingstone elogiava os portugueses, mas omitia os africanos. Essa exclusão precisa de ser corrigida na narrativa histórica. Os africanos também foram protagonistas das grandes travessias e explorações”.
O apelo do editor: uma História em construção
Durante o encontro, o editor João Ricardo Rodrigues, da Perfil Criativo | AUTORES.club, apelou às instituições históricas portuguesas, como a Sociedade de Geografia de Lisboa, a Academia Portuguesa da História e a própria Câmara Municipal de Lisboa, para que assumam uma posição pública sobre os factos revelados na obra.
“Estas instituições confirmaram presença, mas não compareceram. É tempo de abrirmos os olhos para a História que partilhamos. Este livro é um convite à verdade”.
O editor recordou ainda que o evento coincidiu com o 360.º aniversário da Batalha de Ambuíla (1665), acontecimento determinante na História de Angola e do Reino do Congo. Citando o Prof. Carlos Mariano Manuel, lembrou que “se quem escolheu o 11 de novembro como data da independência de Angola conhecesse profundamente a nossa história, teria escolhido o 29 de outubro”.
Um final inesperado e simbólico
No encerramento do evento, um momento inesperado emocionou os presentes: o jovem músico angolano Gari Sinedima, que se encontra em Lisboa, realizou uma performance espontânea em homenagem à origens comuns com o autor, num registo cultural do Sul de Angola. Foi um gesto de gratidão, mas também uma afirmação simbólica da ligação viva entre as gerações angolanas e o seu património.
Gari Sinedima
Um novo capítulo para a História Luso-Angolana
O lançamento de A Primeira Travessia da África Austral foi mais do que uma apresentação literária, foi um ato de afirmação cultural e de revisão histórica, com ecos que ultrapassam a literatura e tocam a diplomacia.
O evento, transmitido em direto por Victor Hugo Mendes e disponível em vídeo, marca o início de uma série de artigos que o portal AUTORES.club publicará nos próximos dias, aprofundando as intervenções de cada participante e os desafios lançados ao conhecimento histórico entre Angola e Portugal.
O editor da Perfil Criativo | AUTORES.club, João Ricardo Rodrigues, realizou uma visita à Fundação Mário Soares e Maria Barroso, em Lisboa, onde foi recebido pelo director executivo, Dr. Filipe Guimarães da Silva. Durante o encontro, o editor ofereceu à Fundação um exemplar do livro Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975-1992), da autoria do brigadeiro Fonseca Chindondo.
O principal objetivo desta visita foi envolver a Fundação na futura apresentação da obra, tendo em conta o enorme interesse do antigo Presidente da República Portuguesa, Dr. Mário Soares, pelas questões políticas e históricas relacionadas com Angola e com os processos de libertação e a difícil luta pela democratização.
A Fundação Mário Soares e Maria Barroso: um centro de memória e investigação
A Fundação Mário Soares e Maria Barroso, criada em 1991, tem como missão preservar, estudar e divulgar o legado histórico, político e cultural associado à democracia portuguesa, aos movimentos de libertação africanos e às personalidades que marcaram o século XX. A instituição mantém um extenso e valioso acervo documental disponível para consulta presencial e online, incluindo:
Arquivo Mário Soares — com correspondência, discursos, diários, fotografias e documentação política de mais de cinco décadas;
Arquivo Maria Barroso — dedicado à vida cívica, política e artística da antiga deputada e primeira-dama;
Arquivo Mário Pinto de Andrade — figura central do nacionalismo angolano e fundador do MPLA, com documentação fundamental para o estudo dos movimentos de libertação africanos;
Arquivo da Casa dos Estudantes do Império (CEI) — espaço que foi berço da geração de intelectuais africanos que viriam a liderar as independências;
Arquivo Amílcar Cabral — com correspondência, textos políticos e materiais de formação do líder histórico da luta pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Estes arquivos constituem um repositório inestimável para investigadores, sendo um terreno fértil para novos projetos académicos e editoriais que possam resultar em livros de grande valor histórico, especialmente se desenvolvidos por investigadores angolanos interessados em revisitar e reinterpretar as fontes originais disponíveis em Lisboa.
“Memórias das FALA” desperta interesse em Angola
Entretanto, em Angola, alguns exemplares do livro Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975-1992) já começam a ser consultados por leitores e investigadores interessados. O crescente interesse pela obra está a impulsionar a preparação de um grande encontro para o lançamento oficial em Luanda, que pretende reunir académicos, jornalistas e antigos combatentes para discutir este período dramático da história contemporânea.
O autor Fonseca Chindondo tem estado a apresentar as suas memórias e a promover debates em Luanda
Hoje, 4 de outubro, às 18h30, o Salão Nobre do Palácio Baldaya (em Benfica) será palco de um diálogo poético entre Yara Nakahanda Monteiro e do poeta angolano João Fernando André, centrado na obra Memórias Aparições Arritmias. O evento, promovido pela livraria Lulendo, terá entrada livre.
Esta obra marca a estreia de Yara Nakahanda Monteiro na poesia. Segundo a sinopse, o livro conduz o leitor por “outros tempos e espaços”: pela infância e adolescência vividas na periferia de Lisboa, mas também pelas memórias da Angola, transmitidas pela avó, numa mescla de geografias e afetos.
Detalhes do evento
Local: Palácio Baldaya, Estrada de Benfica 701A
Data e hora: 4 de outubro, às 18h30
Organização: Livraria Lulendo
Entrada: livre
Este encontro oferece uma oportunidade única de imersão no universo literário de Yara Nakahanda Monteiro, em diálogo com a experiência e a leitura de João Fernando André, propondo uma viagem emocional entre memórias, aparições e arrítmias literárias.