Perfil Criativo leva autores à Festa do Livro em Belém 2026

Perfil Criativo leva autores à Festa do Livro em Belém 2026

Editora promove sessões de autógrafos todos os dias, entre 17 e 20 de setembro, nos jardins do Palácio Nacional de Belém

A Perfil Criativo | AUTORES.club volta a marcar presença na Festa do Livro em Belém, que decorrerá entre os dias 17 e 20 de setembro de 2026, nos jardins do Palácio Nacional de Belém, em Lisboa. Ao longo dos quatro dias, a editora apresentará ao público uma seleção do seu catálogo e promoverá sessões de autógrafos diárias com 14 autores, a partir do período da tarde.

História, economia, poesia, literatura, espiritualidade, saúde e memória contemporânea estarão representadas num programa que aproxima escritores e leitores num dos espaços mais emblemáticos da Presidência da República. As sessões decorrerão na Praça dos Autores e na Zona da Cascata — Arcadas.

Em 2024, sessão de autógrafos com o director do Novo Jornal revelou momentos inéditos

Programa de sessões de autógrafos

Data e hora — Autores — Local
17 de setembro, 17h00 — Lívio Honório e Luís Philippe Jorge — Praça dos Autores
18 de setembro, 17h00 — Hugo Henriques e Hajnalka Henriques — Praça dos Autores
19 de setembro, 16h00 — Tomás Lima Coelho e Salomão Arão Chipeco — Zona da Cascata — Arcadas
19 de setembro, 18h00 — Joaquim Sequeira e Eugénio Monteiro Ferreira — Zona da Cascata — Arcadas
19 de setembro, 19h00 — Tazuary Nkeita e Xavier de Figueiredo — Zona da Cascata — Arcadas
20 de setembro, 16h00 — Oscar da Mata e Álvaro Henriques do Vale — Zona da Cascata — Arcadas
20 de setembro, 19h00 — Rui Verde e José Bento Duarte — Zona da Cascata — Arcadas

A presença da Perfil Criativo | AUTORES.club reforça a missão editorial de divulgar autores, criar espaços de diálogo entre diferentes geografias e gerações e tornar o conhecimento mais próximo e acessível. Os visitantes poderão conhecer as novidades da editora, conversar diretamente com os autores e adquirir exemplares autografados.

Quatro dias de celebração do livro e da leitura

Criada em 2016, a Festa do Livro em Belém é organizada pela Presidência da República, em parceria com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros — APEL, e já recebeu mais de 145 mil visitantes. Durante quatro dias, os jardins do Palácio Nacional de Belém transformam-se num grande espaço cultural, com editoras, livreiros, apresentações de obras, debates, sessões de autógrafos, concertos e jogos didáticos. A entrada é livre.

O recinto estará aberto nos seguintes horários:

  • 17 de setembro: das 16h00 às 21h30;
  • 18, 19 e 20 de setembro: das 11h00 às 21h30.

Como entrar nos jardins do Palácio de Belém

O público poderá aceder à Festa do Livro por duas entradas:

  • pela Loja do Museu da Presidência da República, situada na fachada principal do Palácio Nacional de Belém, na Praça Afonso de Albuquerque;
  • pelo Jardim Botânico Tropical, junto ao Largo dos Jerónimos.

A zona é facilmente alcançada através da estação ferroviária de Belém, na Linha de Cascais, do elétrico 15E e de diferentes carreiras da Carris. A Estação Fluvial de Belém encontra-se igualmente a curta distância.

Por se tratar de um espaço sensível de segurança, não é permitida a entrada com facas, garrafas de vidro, ferramentas ou outros objetos considerados perigosos. Também não é autorizado o acesso de animais, com exceção de cães-guia.

Entre 17 e 20 de setembro, a Perfil Criativo | AUTORES.club espera pelos leitores em Belém para quatro dias de livros, encontros e conversas com os seus autores. Durante o evento, os visitantes poderão ainda beneficiar de descontos especiais de 50% nos livros editados há mais de 24 meses e de 20% nas publicações mais recentes, uma iniciativa promocional realizada nos termos do Regime Jurídico do Preço Fixo do Livro. Uma oportunidade especial para conhecer, adquirir e levar para casa algumas das obras mais representativas do catálogo da editora.

Encontros especiais nos jardins do Palácio de Belém

Presidente da Casa de Angola em Itália
Presidente da Casa de Angola em Itália com o editor da Perfil Criativo AUTORES.club, em 2025

Sala esgotada na apresentação do livro Mitos Económicos de Angola

Sala esgotada na apresentação do livro Mitos Económicos de Angola

Oscar da Mata levou à Biblioteca Palácio Galveias um debate aberto sobre liberdade económica, intervenção do Estado e criação de riqueza em Angola

Fotografias: Ricardo Leote — NOS RAIZ

A apresentação oficial em Portugal do livro Mitos Económicos de Angola — Ensaio sobre Liberdade e Criação de Riqueza, do economista e professor universitário angolano Oscar da Mata, realizou-se no dia 3 de setembro de 2026, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, perante uma sala completamente esgotada várias horas antes do início do encontro.

A forte adesão do público confirmou o interesse despertado por uma obra que questiona algumas das ideias mais persistentes do debate económico angolano e que propõe uma reflexão exigente sobre a liberdade de empreender, o funcionamento dos mercados, a intervenção do Estado e as condições necessárias para transformar os recursos de Angola em riqueza, desenvolvimento e bem-estar para a população.

Entre académicos, economistas, autores, leitores e membros da comunidade angolana, estiveram também presentes várias personalidades ligadas à história política e institucional de Angola, entre as quais o Dr. Onofre dos Santos e o Professor Doutor Marcolino Moco.

O encontro, promovido pela Perfil Criativo | AUTORES.club, contou com quatro intervenções principais: a abertura do editor João Ricardo; uma mensagem gravada do Prof. Doutor Manuel Alves da Rocha, enviada a partir de Luanda; a apresentação crítica do Prof. Doutor Fernando Jorge Cardoso; e, por fim, a intervenção do autor, Oscar da Mata. Como é habitual nos encontros organizados pela editora, a sessão terminou com um pequeno debate com o público.

Um livro publicado para provocar reflexão e debate

Na abertura, o editor da Perfil Criativo | AUTORES.club agradeceu à equipa da Biblioteca Palácio Galveias e à cidade de Lisboa a possibilidade de realizar mais um encontro entre autores, leitores, académicos e cidadãos. Foram igualmente dirigidos agradecimentos ao Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, ao Prof. Doutor Manuel Alves da Rocha, ao Prof. Doutor Jesús Huerta de Soto, autor do prefácio, e ao Prof. Doutor Fernando Jorge Cardoso, responsável pela apresentação da obra.

Ao apresentar Oscar da Mata, o editor destacou o seu percurso como economista, gestor e professor universitário, com experiência nos sectores da banca, do investimento e da consultoria estratégica, bem como a sua atividade docente na Universidade Católica de Angola.

João Ricardo sublinhou que Mitos Económicos de Angolanão pretende encerrar uma discussão nem impor uma interpretação única sobre a economia angolana. Pelo contrário, a publicação procura criar condições para que diferentes ideias possam circular, ser confrontadas e debatidas publicamente.

“Não esperamos que todos concordem com o autor. Esperamos, isso sim, que o leiam, que o questionem e que debatam as suas ideias”, afirmou.

A intervenção do editor enquadrou a obra no compromisso assumido pela Perfil Criativo | AUTORES.club de democratizar o acesso ao conhecimento e de publicar trabalhos científicos e de ensaio capazes de analisar Angola com liberdade, identificar problemas e apresentar novos caminhos para o desenvolvimento.

Angola, recordou, possui um território vasto, importantes recursos naturais, uma população jovem, conhecimento acumulado e uma extraordinária energia humana. A questão decisiva é compreender de que modo todo esse potencial pode ser convertido em desenvolvimento humano, prosperidade e oportunidades efetivas para os cidadãos.

É neste espaço de interrogação que a nova obra de Oscar da Mata procura intervir: questionando certezas, contrariando ideias instaladas e abrindo caminho à discussão de alternativas.

Manuel Alves da Rocha: uma obra para uma universidade de pensamento livre

A segunda intervenção chegou de Luanda, através de uma mensagem gravada pelo Professor Doutor Manuel Alves da Rocha, economista, investigador e antigo colega de Oscar da Mata na Universidade Católica de Angola.

Manuel Alves da Rocha começou por reconhecer o carácter abrangente e potencialmente polémico da obra, sobretudo porque o autor coloca em confronto diferentes conceções sobre o funcionamento da economia, o papel do Estado, a liberdade económica, o investimento privado, a formação dos preços e a capacidade do mercado para orientar decisões.

O académico considerou que o livro realiza uma análise dos principais equívocos associados aos modelos económicos que atribuem ao Estado uma posição dominante na dinamização do circuito económico. Ao transportar essa discussão para a realidade angolana, a obra ganha particular relevância devido à permanência de práticas e referências herdadas do período da economia centralizada.

“O livro é excelente”, declarou Manuel Alves da Rocha, descrevendo a leitura como “uma viagem muito interessante pelos mitos da economia”.

Apesar de reconhecer que praticamente já ninguém defenderá em Angola um modelo integralmente centralizado no Estado, Alves da Rocha advertiu que a realidade do país continua a exigir uma discussão cuidadosa sobre os limites e as responsabilidades da intervenção pública. Angola permanece, nas suas palavras, uma “economia por fazer”, com grandes necessidades ao nível das infraestruturas, da educação e da saúde.

A sua mensagem não procurou, por isso, reduzir a questão a uma oposição simples entre Estado e mercado. Chamou antes a atenção para a necessidade de estudar qual o modelo económico mais adequado às condições concretas do país.

No final, deixou um desafio aos docentes e investigadores das áreas da macroeconomia, da política monetária e da política financeira: que encontrem na obra novos elementos para prosseguir o debate académico e para afirmar a Universidade Católica de Angola como uma instituição de pensamento livre.

Fernando Jorge Cardoso: “O livro é deliberadamente polémico e defende uma tese”

Seguiu-se a intervenção do Professor Doutor Fernando Jorge Cardoso, professor catedrático da Universidade Autónoma de Lisboa e diretor executivo do Clube de Lisboa, que começou por recordar a relação académica que mantém com Oscar da Mata desde os finais do século passado: primeiro, na condição de professor e estudante; agora, como apresentador e autor.

Fernando Jorge Cardoso definiu desde logo a natureza da obra: “Mitos Económicos de Angola não é um tratado académico de economia.” Trata-se, como indica o subtítulo, de um ensaio sobre liberdade e criação de riqueza.

“O livro é deliberadamente polémico e defende uma tese”, acrescentou.

Na sua leitura, o autor parte da convicção de que determinadas ideias, profundamente enraizadas na sociedade angolana e repetidas ao longo de décadas, adquiriram o estatuto de verdades aparentemente evidentes. Entre elas encontram-se explicações sobre a inflação, os efeitos dos controlos administrativos de preços, os subsídios, a criação de emprego público, as margens de lucro, o planeamento centralizado, a tributação e a própria relação entre socialismo, pobreza e proteção social.

Fernando Jorge Cardoso identificou três méritos fundamentais na obra. O primeiro é a clareza do argumento em defesa da liberdade económica e contra o excesso de intervenção administrativa do Estado. O segundo é a atenção dada aos incentivos, lembrando que cidadãos, empresas, funcionários públicos e investidores adaptam os seus comportamentos às condições criadas pelas políticas económicas. O terceiro é a insistência numa ideia essencial: a riqueza precisa de ser criada antes de poder ser distribuída.

Nas economias muito dependentes dos recursos naturais, observou, existe o risco de confundir a apropriação de rendimentos provenientes desses recursos com a verdadeira criação de riqueza. Receber receitas da exportação de petróleo não equivale a construir uma economia capaz de produzir bens e serviços de forma sustentável, inovar, aumentar a produtividade, criar empresas e elevar os rendimentos das famílias.

O apresentador aproximou algumas das ideias do livro do pensamento de Friedrich Hayek e de Milton Friedman. Destacou, em particular, a importância atribuída ao sistema de preços como mecanismo de transmissão de informação e a crítica às decisões administrativas que podem distorcer os sinais recebidos pelos produtores, consumidores e investidores.

“O preço não é apenas aquilo que se paga por uma mercadoria, é também informação”, afirmou.

Fernando Jorge Cardoso introduziu, contudo, importantes elementos de problematização. Recordou que os mercados necessitam de instituições sólidas, regras previsíveis e uma governação capaz de garantir a concorrência. “A concorrência não nasce espontaneamente da privatização. Mercados eficientes pressupõem governação eficiente”, salientou.

Defendeu ainda que um monopólio público pode ser privatizado e continuar a funcionar como monopólio, sintetizando a questão numa formulação particularmente expressiva: “O oposto de mercado é monopólio, não é Estado.”

A partir das experiências de desenvolvimento da Coreia do Sul, de Taiwan, de Singapura e da China, Fernando Jorge Cardoso colocou uma das questões centrais da sua intervenção: talvez o problema não seja apenas determinar se uma economia necessita de mais ou de menos Estado, mas perceber que tipo de Estado existe, qual é a sua capacidade de atuação, a quem serve e perante quem responde.

A análise avançou depois para a ligação entre economia, instituições e poder político. A liberdade económica, argumentou, só pode ser exercida plenamente quando existem condições institucionais que garantam que as mesmas regras se aplicam a todos, e não apenas aos agentes que dispõem de acesso privilegiado ao poder.

Neste contexto, abordou também a ética, a corrupção, o clientelismo e a competição pelo acesso às rendas públicas. Quando a proximidade do poder oferece maiores vantagens do que a inovação, o investimento produtivo ou o risco empresarial, os agentes económicos respondem racionalmente a esse sistema de incentivos. A competição pela criação de riqueza pode, então, ser substituída pela competição pelo acesso a contratos, licenças, créditos, concessões e privatizações.

Fernando Jorge Cardoso concluiu que o livro deve ser entendido “menos [como] um ponto de chegada do que um excelente ponto de partida”. O seu mérito está em incomodar, questionar ideias instaladas e deixar o leitor com vontade de prosseguir a discussão.

Oscar da Mata: transformar recursos em bem-estar

Na intervenção final, Oscar da Mata agradeceu a presença do público e reconheceu o contributo de Fernando Jorge Cardoso, recordando a relação de muitos anos que os une.

O autor explicou que a decisão de escrever o livro nasceu de um “imperativo de consciência”. Ao longo de sucessivas gerações, afirmou, muitos angolanos foram confrontados com a distância entre as expectativas criadas em torno de um país com enormes possibilidades e os resultados efetivamente alcançados.

A obra foi sendo construída a partir de notas acumuladas durante anos, da experiência profissional do autor no sector financeiro e da observação direta da economia angolana. Oscar da Mata esclareceu também que procurou escrever numa linguagem acessível, apoiada em exemplos concretos e dirigida a um público mais vasto.

“Eu não escrevi para economistas”, afirmou, explicando que o seu objetivo foi tornar a reflexão compreensível e intuitiva, sem abandonar o rigor do raciocínio económico.

Acima de tudo, acrescentou, “o que me moveu foi tentar estabelecer um ponto de discussão, uma visão diferente sobre o país, e tentar que essa discussão fosse aberta”.

O autor reconheceu que o livro foi concebido para provocar, retirar os leitores de uma certa zona de conforto e suscitar discordâncias, mas insistiu que essa provocação deve conduzir a um debate construtivo.

Oscar da Mata rejeitou uma leitura simplista da sua posição: “Eu não tenho nenhum dogma contra o Estado.” A questão central da obra não é definir, de forma abstrata, todos os sectores pelos quais o Estado deve ou não ser responsável. O problema é compreender o paradoxo de um país dotado de tantos recursos que continua a revelar dificuldades em convertê-los em riqueza e bem-estar para a população.

Para que os recursos naturais possam adquirir verdadeiro valor económico e social, explicou, é necessário que existam condições para investir, arriscar capital, empreender, produzir, criar empregos e transformar esses recursos em bens úteis à sociedade. Sem segurança jurídica, regras claras, proteção dos contratos, estabilidade monetária e condições favoráveis ao investimento produtivo, a riqueza pode permanecer no subsolo sem produzir desenvolvimento.

O autor afirmou que o referencial da economia angolana continuou fortemente centrado no Estado, mesmo depois do abandono formal do planeamento central. Na sua leitura, a abertura ao mercado não foi acompanhada por uma transferência efetiva de protagonismo para a sociedade civil e para a iniciativa empresarial independente.

A forte gravitação da economia em torno do Orçamento Geral do Estado, os processos de licenciamento, a imprevisibilidade das regras e as dificuldades na proteção dos contratos foram apontados como obstáculos à atração de investimento estruturado e de longo prazo.

Oscar da Mata deu especial atenção à moeda e aos problemas monetários. A instabilidade cambial, observou, obriga muitos empresários a desviarem tempo e recursos da produção, da gestão e da criação de emprego para a proteção financeira do capital acumulado. Sem previsibilidade monetária, torna-se muito mais difícil planear investimentos e construir uma economia orientada para o futuro.

A formação dos preços surgiu igualmente como um elemento central. Para o autor, os preços transportam conhecimento e permitem que produtores e consumidores avaliem custos, escassez, procura e oportunidades. A sua manipulação administrativa pode esconder problemas e produzir decisões económicas desajustadas.

Na parte final, Oscar da Mata defendeu que os chamados mitos económicos persistem porque podem ser convenientes e porque, muitas vezes, a racionalidade política se sobrepõe ao diagnóstico económico. Sem um diagnóstico correto, advertiu, as políticas públicas dificilmente encontrarão soluções adequadas.

O autor terminou deixando claro que a obra não foi escrita apenas para interpretar o caminho percorrido por Angola desde a independência. “Eu não escrevi este livro para interpretar 50 anos de história”, declarou, projetando a reflexão para as decisões que irão marcar as próximas décadas do país.

O debate continuou com o público

Depois das quatro intervenções, a sessão abriu-se à participação da assistência. Mais do que procurar respostas definitivas, o encontro confirmou o objetivo central da obra: criar um espaço livre para confrontar ideias, rever diagnósticos e discutir o futuro económico de Angola.

Com a lotação esgotada muito antes da abertura das portas, a apresentação de Mitos Económicos de Angola transformou a Sala Polivalente da Biblioteca Palácio Galveias num lugar de reflexão intensa sobre um dos maiores desafios do país: como construir uma economia mais produtiva, mais livre, institucionalmente mais sólida e capaz de colocar a criação de riqueza ao serviço do desenvolvimento humano.

Mitos Económicos de Angola de Oscar da Mata
Mitos Económicos de Angola de Oscar da Mata

Este livro pode ser encomendado na Bertrand e Wook

Angola encerrou a Feira do Livro de Lisboa

Angola encerrou a Feira do Livro de Lisboa

A programação da Perfil Criativo | AUTORES.club, representada pela Promobooks no stand D48, encerrou-se no passado domingo, 14 de junho de 2026, na Feira do Livro de Lisboa, com a apresentação de Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025), do académico e jurista Rui Verde.

O encontro, realizado na Praça Roxa, contou com a presença especial do histórico jurista, constitucionalista, professor universitário e antigo candidato às eleições presidenciais angolanas de 1992, António Alberto Neto. Perante leitores e membros da comunidade angolana residente em Portugal, os dois intervenientes protagonizaram uma conversa intensa sobre a escrita da História, a construção do Estado angolano, a herança colonial, a educação, a emancipação africana e os desafios que Angola continua a enfrentar.

Rui Verde começou por reconhecer que a obra tem vindo a ser apresentada gradualmente, em diferentes espaços, num percurso que espera levar até Luanda, em novembro. O autor observou que o interesse por Angola em Portugal já não tem hoje a dimensão que possuía há quarenta ou cinquenta anos, tornando-se progressivamente um interesse mais especializado.

Para o académico, uma das principais conclusões retiradas das apresentações já realizadas é a inexistência de um consenso sobre uma História de Angola construída como ciência, baseada em factos, provas, metodologia e confronto crítico de fontes. Na sua perspetiva, a História angolana continua frequentemente a ser utilizada como instrumento do poder ou do contrapoder, através de narrativas políticas antagónicas.

De um lado, explicou, permanece uma leitura próxima da narrativa oficial do MPLA, segundo a qual as decisões tomadas pelo partido são apresentadas como essencialmente corretas. Do outro, surge uma narrativa da oposição que tende a considerar erradas todas as decisões do MPLA. Entre estas posições, Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025) procura encontrar um espaço central, apresentando os factos menos disputados e, nos acontecimentos mais controversos, expondo versões distintas.

Rui Verde admitiu que o livro será necessariamente objeto de críticas: por aquilo que inclui, pelo que deixa de fora, pela importância concedida a determinadas personalidades e pela forma como interpreta alguns acontecimentos. No entanto, sublinhou que a obra não pretende ser um projeto definitivo, mas o início de uma discussão que considera ainda insuficientemente desenvolvida.

Segundo o autor, não existia até agora uma história compacta dedicada ao período compreendido entre 1975 e 2025. Há obras monumentais sobre a História de Angola, como as de Alberto Oliveira Pinto e Carlos Mariano Manuel, e estudos estrangeiros relevantes, mas muitos desses trabalhos terminam nos anos 1980 ou 1990, não oferecendo uma reflexão continuada até ao presente.

Por ser uma obra breve, Rui Verde reconheceu a existência de lacunas. Por ter sido escrita por um autor estrangeiro, admitiu também que não contém a mesma carga emocional que os angolanos atribuem aos acontecimentos que viveram diretamente. Ainda assim, identificou como principal virtude do livro o facto de ser uma primeira tentativa de síntese sobre os cinquenta anos da Angola independente e de abrir caminho para uma discussão afastada das leituras exclusivamente partidárias.

A primeira parte da obra, sobretudo até 2002, apoia-se maioritariamente em estudos, documentos e interpretações de outros autores. A segunda parte incorpora também a experiência direta de Rui Verde, que acompanha com proximidade a vida política, económica e quotidiana de Angola desde 2012, incluindo observações pessoais e entrevistas realizadas ao longo desse período.

O livro começa na excitação e na esperança que acompanharam a independência, em 1975, e termina naquilo que o autor designa como a “curva apertada” em que Angola se encontra atualmente. A análise não conclui que o país não tem futuro, mas também não afirma que tudo esteja bem.

Rui Verde considera que, depois de 2017, existiu uma tentativa de alterar e melhorar a situação do país, mas que esse processo ficou “a meio da ponte”. Angola aproxima-se agora, na sua leitura, de um período em que terá de tomar opções difíceis, sobretudo a partir de 2027.

“O objetivo essencial desta obra não é o fim, mas o princípio”, afirmou o autor, convidando os leitores a enviarem ao editor críticas, correções e testemunhos. Esse contributo poderá permitir que uma futura segunda edição seja mais ampla, mais representativa e enriquecida pelas experiências daqueles que viveram diretamente os acontecimentos.

António Alberto Neto: a História exige verdade, educação e emancipação

Na segunda parte da sessão, António Alberto Neto respondeu à questão colocada pelo editor João Ricardo Rodrigues: qual foi, afinal, o resultado da construção de Angola ao longo destes cinquenta anos?

O histórico jurista começou por refletir sobre a dicotomia entre as diferentes histórias e narrativas. Para António Alberto Neto, a diferença reside muitas vezes na posição de quem relata os acontecimentos. Uma narrativa construída a partir de uma perspetiva europeia ou ocidental pode ser diferente da narrativa daqueles que participaram diretamente na luta pela emancipação dos povos africanos.

Segundo o constitucionalista, uma narrativa que defenda o apartheid nunca poderá ser igual à narrativa de quem defende os princípios da Liberdade, da Democracia e da Paz. Por essa razão, introduziu no debate o conceito de “esquecimento histórico”, entendido como a ausência de uma narrativa fundada na verdade dos factos.

António Alberto Neto afirmou não falar como historiador, mas como alguém que examinou, viveu e, em certos momentos, ajudou a produzir os próprios acontecimentos. Nascido em 1943, atravessou pessoalmente vários dos períodos abordados no livro e conviveu com algumas das principais figuras da História política angolana.

Referindo-se às fotografias incluídas na obra, recordou que esteve próximo de personalidades com as quais partilhou momentos políticos, mas também diferenças profundas. Essas figuras, salientou, não foram imortais, cometeram erros, criaram situações difíceis e tiveram responsabilidades políticas, económicas, sociais e militares num conflito em que morreram muitas pessoas.

Apesar do fim da guerra civil, António Alberto Neto lembrou que Angola continua confrontada com problemas de emancipação, fome, pobreza e discriminação. Para o jurista, a ausência de uma guerra de grande dimensão não significa que os principais problemas do país estejam resolvidos, sendo igualmente necessário continuar a falar da situação de Cabinda e dos conflitos que persistem noutros territórios africanos.

Assumindo-se como pan-africanista, defendeu que os africanos observam a História a partir de uma conceção própria. África, afirmou, deve participar plenamente no progresso mundial, não apenas como fornecedora de matérias-primas ou como continente permanentemente dependente.

António Alberto Neto criticou o modelo de independências formais que permitiu aos países africanos terem bandeiras, presidentes, parlamentos e representação nas Nações Unidas, sem alcançarem uma verdadeira independência económica, social e política. Na sua leitura, muitos Estados africanos foram colocados numa situação de dívida permanente, tendo os seus recursos naturais como principal garantia perante o sistema económico internacional.

Foi neste contexto que relacionou as guerras e interferências externas em Angola com a disputa pelo petróleo e pelos diamantes. Para o jurista, o endividamento externo continua a limitar a soberania e as possibilidades de desenvolvimento do país.

O antigo candidato presidencial manifestou também preocupação com a possibilidade de o livro chegar a Luanda e permanecer circunscrito à nomenclatura política e administrativa, sem alcançar a maioria da população. Por isso, defendeu a realização de uma edição popular, acessível aos angolanos que normalmente não conseguem comprar ou conhecer obras desta natureza.

A educação ocupou uma parte central da sua intervenção. A partir de uma passagem da página 59 do livro, António Alberto Neto recordou que o número de angolanos com formação universitária, em 1975, era extremamente reduzido. Durante o período colonial, o acesso ao ensino superior pela população angolana foi muito limitado, sendo a maioria dos licenciados portugueses ou estrangeiros residentes no território.

A pergunta essencial, afirmou, é compreender por que razão Angola chegou à independência com um número tão reduzido de quadros formados. Para António Alberto Neto, a resposta encontra-se nas limitações impostas pelo sistema colonial à educação e à emancipação dos povos africanos.

O jurista considerou que, caso Angola tivesse sido independente durante séculos, poderia possuir hoje mais cientistas, engenheiros, investigadores e uma classe política mais preparada. Sublinhou que a educação é um elemento determinante para o progresso e que os dirigentes angolanos herdaram um país marcado por profundas carências educativas.

Recordou igualmente o contributo de países como a União Soviética, a Checoslováquia, a Hungria e a China para a formação de estudantes angolanos, contrastando esse apoio com as limitações que, segundo afirmou, as autoridades coloniais colocaram à formação superior dos angolanos, moçambicanos, guineenses e cabo-verdianos.

Para António Alberto Neto, o baixo nível de educação herdado do colonialismo continua a produzir consequências no desenvolvimento de Angola. A emancipação, defendeu, deve abranger a educação, a economia, a saúde, a participação política e a dignidade humana.

A propósito do Dia Mundial do Dador de Sangue, assinalado a 14 de junho, o constitucionalista recorreu à universalidade do sangue humano como símbolo da cooperação entre os povos. Independentemente da nacionalidade, afirmou, o sangue compatível pode salvar qualquer pessoa, demonstrando que a humanidade deve prevalecer sobre as divisões políticas, nacionais e raciais.

Na conclusão, António Alberto Neto recordou ter sido candidato às eleições presidenciais de 1992, nas quais ficou em terceiro lugar, um facto que considera frequentemente afastado da memória pública devido ao “esquecimento histórico”.

“Os angolanos estão a resistir. E quem resiste é para vencer”, declarou, acrescentando que essa resistência tem como finalidade conquistar a paz, a dignidade e uma verdadeira emancipação.

Um encerramento marcado pela pluralidade

A apresentação de Breve História de Angola desde a Independência (1975–2025) encerrou, assim, a participação da Perfil Criativo | AUTORES.club e da Promobooks na Feira do Livro de Lisboa de 2026.

Mais do que uma sessão de lançamento, o encontro colocou frente a frente duas formas complementares de olhar para Angola: a investigação e a tentativa de síntese histórica de Rui Verde; e a memória vivida, a experiência política e o pensamento pan-africanista de António Alberto Neto.

Num ambiente aberto à participação do público, ficou evidente que a História da Angola independente permanece um campo em construção, atravessado por memórias concorrentes, disputas políticas, silêncios e testemunhos ainda por recolher.

O encerramento da Feira do Livro transformou-se, deste modo, num convite à leitura, ao confronto de ideias e à preservação das memórias das várias gerações que participaram na construção do país. Uma conversa que não procurou encerrar a História de Angola, mas abrir novas possibilidades para a compreender e continuar a escrevê-la.

Kalunga regressa à Feira do Livro de Lisboa com a palavra transformada em sabedoria

Kalunga regressa à Feira do Livro de Lisboa com a palavra transformada em sabedoria

O poeta angolano Kalunga, nome literário de João Fernando André, marcou presença na Feira do Livro de Lisboa no passado dia 4 de junho de 2026, protagonizando mais uma intervenção impactante, marcada pela lucidez, pela profundidade do pensamento e por uma forma muito própria de olhar para a vida.

Perante o público reunido no Parque Eduardo VII, Kalunga voltou a demonstrar que a sua poesia não se limita à leitura de versos. Cada intervenção transforma-se numa reflexão sobre a existência, a identidade, a memória, o sofrimento, o amor e a responsabilidade de cada ser humano perante o mundo.

Com uma comunicação serena, mas intensa, o poeta partilhou ideias que nasceram da literatura, mas rapidamente se alargaram à vida. Com a palavra, construída a partir da experiência angolana e de uma permanente interrogação sobre a condição humana, encontrou em Lisboa um público atento e disponível para escutar.

A presença de Kalunga na edição de 2026 da Feira do Livro de Lisboa constituiu mais uma etapa de um percurso editorial e cultural iniciado há vários anos. Para o editor da Perfil Criativo | Alende | AUTORES.club, o encontro despertou inevitavelmente a memória de outra sessão extraordinária: a apresentação de Evangelho Bantu, realizada pela Alende — Edições, no dia 17 de maio de 2019, na Biblioteca Nacional de Angola, em Luanda.

Aquela tarde de 2019 permanece como um momento inesquecível. Na Biblioteca Nacional de Angola, Kalunga apresentou-se como uma nova voz da poesia angolana, revelando uma escrita que unia a afirmação da identidade bantu, a espiritualidade, o amor, a valorização da mulher, a crítica social e a esperança numa humanidade mais consciente.

Foi também o início de uma relação editorial construída em torno da confiança na palavra e da convicção de que a poesia angolana contemporânea precisava de atravessar fronteiras, chegar a novos leitores e ocupar o seu lugar no espaço literário de língua portuguesa.

Desde então, as apresentações de Kalunga têm adquirido uma dinâmica muito particular. Em vez de sessões convencionais, o poeta cria momentos de participação, diálogo, declamação e pensamento colectivo. O público não permanece apenas como espectador: é frequentemente chamado a entrar no poema, a questionar o seu próprio lugar no mundo e a descobrir a literatura como experiência viva.

Depois da apresentação de Evangelho Bantu em Luanda, em 2019, Kalunga continuou a desenvolver um percurso literário marcado pela publicação, pelo ensino, pela crítica cultural e pela participação em diferentes iniciativas dedicadas à literatura.

O regresso de Evangelho Bantu aos encontros públicos ganhou especial significado em Lisboa. No dia 4 de fevereiro de 2025, a Biblioteca Palácio Galveias recebeu uma apresentação do livro que ultrapassou o formato tradicional e culminou numa surpreendente performance colectiva, com a participação de poetas presentes na sala. A palavra de Kalunga transformou o público numa comunidade momentânea de vozes, ritmos e experiências.

Ainda em 2025, o autor levou Evangelho Bantu à Feira do Livro de Lisboa. A sessão, realizada a 10 de junho, converteu-se numa conversa aberta entre o poeta, o editor e os leitores, permitindo abordar as culturas de Angola, os bantu, a criação literária e o lugar da nova poesia.

Em 2026, esse percurso entrou numa nova fase com a publicação de Matéria Negra. A obra aprofunda a dimensão filosófica e contemplativa da escrita de Kalunga, cruzando memória, resistência, identidade, espiritualidade, fragilidade humana e inquietação perante os problemas do presente.

A apresentação oficial do livro, realizada no dia 13 de maio, na histórica sede d’A Voz do Operário, em Lisboa, abriu o ciclo cultural «A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana». A sessão contou com a participação da professora e ensaísta Ana Mafalda Leite, que estabeleceu uma ponte entre Evangelho Bantu e Matéria Negra, mostrando a evolução de uma poesia que preserva as suas raízes, mas amplia continuamente os seus territórios.

A passagem de Kalunga pela Feira do Livro de Lisboa de 2026 confirmou essa evolução. A sua presença no dia 4 de junho e a posterior apresentação de Matéria Negra, no dia 7, integraram uma programação dedicada à divulgação da literatura, da história e do pensamento angolanos.

No mesmo dia da apresentação de Matéria Negra,Jornal de Angola publicou uma extensa análise de Luísa Fresta, intitulada «Kalunga transforma a palavra em contemplação e resistência». O texto reconheceu a densidade simbólica da obra e a capacidade do poeta para transformar experiências pessoais e colectivas numa linguagem de grande força estética e humana.

De Luanda a Lisboa, da Biblioteca Nacional de Angola à Biblioteca Palácio Galveias, d’A Voz do Operário à Feira do Livro de Lisboa, as apresentações de Kalunga revelam um poeta que não repete simplesmente os seus livros: recria-os diante do público.

Em cada encontro, João Fernando André demonstra que a poesia pode ser escuta, confronto, memória, conhecimento e aproximação entre pessoas. A sua palavra nasce de Angola, mas dirige-se ao ser humano, às suas contradições e à sua permanente procura de sentido.

Para a Perfil Criativo | Alende | AUTORES.club, acompanhar este percurso desde 2019 representa muito mais do que publicar livros. Representa testemunhar o crescimento de uma voz poética singular e renovar, a cada apresentação, a certeza de que a literatura angolana contemporânea possui autores capazes de transformar a palavra em contemplação, resistência e sabedoria.

Feira do Livro de Lisboa 2026 abre com três encontros especiais no Auditório Norte

Feira do Livro de Lisboa 2026 abre com três encontros especiais no Auditório Norte

Perfil Criativo | AUTORES.club convida leitores, autores, amigos e público em geral a participarem, no dia 27 de maio, na abertura da Feira do Livro de Lisboa 2026, num programa especial com três encontros no Auditório Norte, seguidos de sessões de autógrafos no Pavilhão D48 — Pavilhão Papa-Letras | Promobooks.

A participação da AUTORES.club arranca com uma tarde dedicada ao livro, à reflexão e ao encontro direto entre autores e leitores, reunindo três obras distintas, mas unidas pela vontade de pensar a condição humana, a memória, a liberdade, a saúde e o conhecimento.

Às 17h00, realiza-se o encontro especial com Lívio Honório, em torno dos livros Do elemento ao divino. O ritual da Consciência em frequência e Em reflexão profunda com uma Inteligência Artificial. Será uma conversa sobre consciência, espiritualidade e inteligência artificial, numa obra que cruza pensamento interior, inquietação filosófica e diálogo com as novas ferramentas do nosso tempo. A sessão de autógrafos decorre às 18h00, no Pavilhão D48.

Às 18h00, segue-se um encontro especial com a memória, com a apresentação de Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira. A obra convoca a memória dos milhares de mortos do 27 de Maio de 1977, em Angola, afirmando a importância de recordar, testemunhar e procurar a verdade. A sessão de autógrafos realiza-se às 19h00.

Às 19h00, será apresentado Nutriterapia, do Dr. Luís Phillipe Jorge, num encontro especial com a saúde e o equilíbrio. A obra propõe uma reflexão prática sobre alimentação, bem-estar e qualidade de vida, aproximando o conhecimento científico do quotidiano dos leitores. A sessão de autógrafos decorre às 20h00.

As três sessões terão lugar no Auditório Norte e contam com moderação do editor da Perfil Criativo | AUTORES.club.

Perfil Criativo | AUTORES.club convida todos os leitores a passarem pelo Pavilhão D48, onde estarão disponíveis estas e outras obras do catálogo da editora, num espaço de encontro, conversa e celebração da edição independente em língua portuguesa.

27 de maio de 2026
Feira do Livro de Lisboa — Parque Eduardo VII
Auditório Norte
Pavilhão D48 — Pavilhão Papa-Letras | Promobooks.net

Biblioteca Palácio Galveias debate as origens da consciência angolana no século XIX

Biblioteca Palácio Galveias debate as origens da consciência angolana no século XIX

No passado dia 1 de abril de 2026, a Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, foi palco do encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, uma iniciativa centrada na apresentação do livro Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, de Tomás Lima Coelho.

O evento reuniu investigadores, escritores e público interessado numa reflexão aprofundada sobre um período decisivo da história de Angola, marcado pela introdução da imprensa, pela presença dos degredados, pela emergência dos primeiros intelectuais africanos e pela formação de uma consciência crítica que antecipa a ideia de nação. Ao longo da sessão, destacou-se o cruzamento entre literatura, história e pensamento político-cultural, num diálogo que permitiu revisitar os contextos, as vozes e os processos que contribuíram para a construção dos primeiros imaginários modernos angolanos.

No âmbito da cobertura do encontro, apresentamos agora os vídeos das intervenções dos convidados especiais, permitindo acompanhar de forma integral os principais momentos de reflexão e debate, com participações de Jorge ArrimarAlberto Oliveira PintoTomás Lima Coelho e João Fernando André.

A iniciativa confirmou a relevância de revisitar o século XIX angolano como momento fundacional de processos culturais e políticos que continuam a marcar o presente. Com a disponibilização dos registos audiovisuais, prolonga-se agora o alcance deste debate, permitindo que um público mais amplo aceda às ideias e interpretações partilhadas na Biblioteca Palácio Galveias.

Tomás Lima Coelho nos agradecimentos durante o encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, momento que serviu para a apresentação da obra Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe

Intervenção de Jorge Arrimar na apresentação do livro Chão de Kanambua, de Tomás Lima Coelho

Intervenção do historiador angolano Alberto Oliveira Pinto, uma das vozes mais dinâmicas na divulgação da História de Angola

João Fernando André (Kalunga): a voz crítica de uma nova geração angolana

Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Primeira Parte

Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Primeira Parte

Reportagem — Primeira Parte

No dia 1 de abril de 2026, entre as 18h00 e as 20h00, a Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, acolheu o encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, organizado a partir da apresentação do livro Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, de Tomás Lima Coelho.

Este evento propôs um debate aberto sobre o final do século XIX em Angola, um período marcado pela introdução da imprensa, pela presença dos degredados, pelo surgimento dos primeiros intelectuais africanos e pela formação de uma consciência crítica que antecipa a ideia de país.

O encontro reuniu diferentes vozes, académicas, literárias e ensaísticas, num cruzamento entre literatura, história e pensamento político-cultural, refletindo sobre os imaginários de modernidade, pertença e contestação que começaram a emergir nesse contexto.

Este texto constitui o primeiro registo de reportagem do encontro, centrando-se na intervenção do escritor angolano Jorge Arrimar.

Uma intervenção entre crítica literária e reflexão histórica

Jorge Arrimar iniciou a sua intervenção com um tom próximo e cúmplice, evocando a relação de amizade e reconhecimento mútuo com Tomás Lima Coelho. Sublinhou desde logo o percurso do autor, destacando-o como “um angolano de toda a Angola”, cuja vivência em diferentes regiões do país contribuiu para uma visão ampla e enraizada da realidade angolana.

Ao abordar o romance Chão de Kanâmbua, Jorge Arrimar destacou-o como uma obra que vai além da ficção histórica convencional, propondo uma leitura densa do século XIX angolano. Entre os principais pontos da sua análise, salientam-se:

  • A centralidade da personagem Manuel Justino, um degradado português que se reinventa em Angola, simbolizando processos de transformação individual e cultural.
  • A coexistência de universos culturais distintos, africanos e coloniais, em permanente tensão e negociação.
  • O diálogo entre oralidade africana e escrita europeia, como elemento estruturante da narrativa.
  • O papel das missões religiosas como espaços de mediação cultural.
  • O nascimento de uma consciência crítica, associada ao surgimento de elites africanas com formação ocidental.

Jorge Arrimar enfatizou que o romance funciona como um “dispositivo narrativo” que permite observar o período histórico não apenas nas suas estruturas formais, mas sobretudo na experiência humana, marcada por deslocações, adaptações e reinvenções.

Literatura como espaço de conhecimento

Um dos eixos mais fortes da intervenção foi a ideia de que a ficção histórica desempenha uma função epistemológica. Segundo Jorge Arrimar, obras como Chão de Kanâmbua não se limitam a reconstituir o passado, mas procuram interrogá-lo, ampliá-lo e reinscrevê-lo na memória contemporânea.

Nesse sentido, destacou que a modernidade angolana não deve ser entendida como mera importação de modelos europeus, mas como um processo histórico próprio, resultante de:

  • encontros culturais
  • conflitos e resistências
  • apropriações e reinvenções simbólicas

A literatura como diálogo contínuo

Num momento final particularmente marcante, Jorge Arrimar rompeu com o protocolo habitual e introduziu uma dimensão pessoal à sua intervenção. Refletiu sobre o modo como os livros se influenciam mutuamente, afirmando:

“Um livro nunca nasce isolado, é sempre resposta, continuidade, por vezes ruptura.”

Evocou então o seu próprio romance Cuéle, o pássaro troçador (Ed. 2022), revelando como uma imagem presente na obra de Tomás Lima Coelho, uma fotografia do avô do autor, inspirou a criação de uma personagem no seu livro.

Este gesto sublinhou uma ideia central:
A literatura como uma longa conversa entre autores, tempos e memórias.

A leitura de um excerto do seu romance encerrou a intervenção, num momento que cruzou ficção, história e memória, reforçando o espírito do encontro.

Jorge Arrimar

Jorge Arrimar nasceu em Angola. Na Universidade de Luanda, iniciou os estudos superiores em Letras, concluindo-os em Portugal. Para além de trabalhos de história e de biblioteconomia, é autor de onze títulos de poesia e seis de ficção.

A intervenção de Jorge Arrimar destacou-se pela clareza analítica e pela capacidade de articular literatura e história como campos complementares de conhecimento. Ao centrar-se na obra de Tomás Lima Coelho, abriu também caminhos para uma reflexão mais ampla sobre o século XIX angolano e sobre os processos de formação da identidade cultural do país.

Este primeiro registo deixa evidente que o encontro na Biblioteca Palácio Galveias foi mais do que uma apresentação de livro, foi um espaço de pensamento vivo sobre Angola, a sua história e as suas narrativas.

Jorge Arrimar, Tomás Lima Coelho e João Ricardo Rodrigues

Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)
Chão de Kanâmbua (ou “O Feitiço de Kangombe”)

Chão de Kanâmbua
Chão de Kanâmbua

Do palco das Nações Unidas à memória de um País em construção

Do palco das Nações Unidas à memória de um País em construção

Lançamento oficial em Portugal: Meu Nome é Joaquim — Fragmentos de Memórias“, de Rafael Branco

No próximo dia 17 de abril de 2026, às 18h30, a Biblioteca dos Coruchéus, em Alvalade, será palco de um momento maior da memória contemporânea.

Será apresentado, oficialmente em Portugal, o livro MEU NOME É JOAQUIM — Fragmentos de Memórias, uma obra marcante do embaixador são-tomense Rafael Branco.

Mais do que um livro de memórias, esta é uma narrativa de dentro da História, vivida, pensada e protagonizada por uma das figuras mais relevantes da vida política e diplomática de São Tomé e Príncipe.

Na capa da obra, um instante que fala por si: Rafael Branco presidindo a uma sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, na qualidade de vice-presidente, ao lado de Javier Pérez de Cuéllar, imagem que sintetiza décadas de intervenção, liderança e presença nos grandes palcos internacionais.

Este livro é, simultaneamente:

  • testemunho pessoal e político
  • reflexão sobre independência, soberania e construção nacional
  • e um documento essencial para compreender os percursos cruzados entre África, a língua e a cultura portuguesa e o mundo

A sessão contará com um momento de apresentação e encontro com o autor, num espaço de diálogo aberto sobre memória, identidade e história partilhada.

O evento conta com o apoio da Biblioteca dos Coruchéus, reforçando a importância desta obra no panorama cultural e histórico da cidade de Lisboa.


Uma obra incontornável. Um testemunho que atravessa gerações. Um encontro cultural a não perder.

MEU NOME É JOAQUIM — Fragmentos de Memórias, uma obra marcante do embaixador são-tomense Rafael Branco
MEU NOME É JOAQUIM — Fragmentos de Memórias, uma obra marcante do embaixador são-tomense Rafael Branco

Biblioteca dos Coruchéus

Conversa sobre nutrição celular encheu a Biblioteca dos Coruchéus

Conversa sobre nutrição celular encheu a Biblioteca dos Coruchéus

A pequena sala da Biblioteca dos Coruchéus encheu na passada sexta-feira para um encontro com o autor e investigador Luís Philippe Jorge, numa conversa em torno do seu livro NUTRITERAPIA — A chave para o bem-estar físico e psicológico começa pela saúde e nutrição das células.

O público, composto por leitores atentos e interessados em compreender melhor a relação entre alimentação e saúde, acompanhou durante cerca de duas horas uma sessão marcada pela participação ativa e por múltiplas reflexões sobre nutrição, imunidade e qualidade de vida.

A sessão começou com uma breve apresentação do autor feita pelo editor, que contextualizou a importância de promover este encontro num espaço público de proximidade como a biblioteca. A iniciativa procurou aproximar leitores e autor, estimulando o diálogo em torno das ideias defendidas no livro.

Desde o início, o autor convidou o público a intervir e a colocar questões. A primeira pergunta surgiu de imediato e incidiu sobre o tema das vacinas. Considerando tratar-se de um assunto complexo e fora do âmbito central da conversa, o autor optou por não aprofundar diretamente a questão, aproveitando, contudo, para abordar um tema que considera fundamental: a relação entre o sistema imunitário e a alimentação.

Ao longo da conversa, foram discutidos vários aspetos relacionados com a saúde celular, desde o papel dos micronutrientes até à influência do ambiente e da qualidade da água na saúde humana. O autor abordou também preocupações ligadas ao aumento das doenças metabólicas, como a diabetes, um tema que suscitou particular interesse entre os participantes.

Num dos momentos mais curiosos da sessão, o autor realizou uma breve demonstração ao vivo, procurando ilustrar como, segundo a sua abordagem, a ativação celular pode ser influenciada por estímulos magnéticos e vibracionais.

A conversa passou ainda pela qualidade da água e pela presença de substâncias químicas associadas a atividades industriais, tema que gerou novas perguntas e comentários entre os presentes.

Para muitos leitores da zona de Alvalade, este encontro acabou por se revelar uma experiência inédita, marcada por uma partilha intensa de ideias e por uma reflexão aberta sobre saúde e nutrição.

No final da sessão, ficou no ar um agradecimento especial à Biblioteca dos Coruchéus e à sua equipa, em particular a Hélder Ferreira, que acolheu o evento e manifestou surpresa pela quantidade e diversidade de informação apresentada durante a conversa.

Como Reforçar a Imunidade?
Como Reforçar a Imunidade?
Nutriterapia
Nutriterapia

Encerramento temporário do Bunker Cultural devido às condições meteorológicas

As nossas instalações na Avenida Rio de Janeiro, nº 27 C, conhecidas como Bunker Cultural, encontram-se temporariamente encerradas ao público nos próximos dias, na sequência da forte precipitação provocada pela tempestade associada à depressão Kristin, que afetou várias zonas do país.

Esta medida preventiva visa garantir a segurança de todos, enquanto são avaliadas e asseguradas as condições necessárias para a reabertura do espaço.

Durante este período, todos os contactos com a nossa equipa deverão ser realizados exclusivamente por email e telefone, cujos canais permanecem ativos e disponíveis para responder a qualquer solicitação.

Agradecemos a compreensão de todos e informaremos assim que estejam reunidas as condições para a reabertura ao público.

O encerramento prolonga-se durante o mês de Março para realização de obras. Contamos abrir ao publico no início do mês de abril de 2026.


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