Archives em Julho 27, 2026

Kalunga defende a literatura como espaço de resistência num mundo líquido

Kalunga defende a literatura como espaço de resistência num mundo líquido

Em entrevista ao programa «Entre Linhas», da Rádio UNIA, o escritor e crítico literário João Fernando André, conhecido no meio literário como Kalunga, reflectiu sobre cosmopolitismo, modernidade líquida, crítica literária e os desafios da promoção do livro e da leitura em Angola. A conversa destacou ainda a sua mais recente obra poética, Matéria Negra, publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club.

Partindo do pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman e do conceito de «modernidade líquida», João Fernando André analisou as profundas transformações provocadas pela globalização, pelas tecnologias digitais e pelo crescente individualismo. Para o autor, estas mudanças estão a alterar valores, identidades e relações sociais, fornecendo simultaneamente novos temas e problemas à criação literária.

Kalunga considerou que a literatura continua a ser uma das artes que melhor interpreta as sociedades, não apenas porque proporciona prazer estético, mas também porque recria criticamente os fenómenos sociais. Num tempo marcado pela pós-verdade, alertou para a substituição da análise crítica por opiniões construídas sobretudo a partir das emoções.

Ao abordar o cosmopolitismo, o escritor defendeu que o universal não deve significar o desaparecimento das culturas nacionais. Pelo contrário, a verdadeira dimensão universal resulta da soma dos valores locais. As literaturas nacionais permitem compreender as realidades particulares, mas também revelam questões comuns à humanidade, como o amor, a segurança, a fraternidade, a ganância, a desigualdade e a procura de sentido.

Segundo João Fernando André, a literatura angolana mantém, desde cedo, um diálogo com o mundo sem abandonar as suas raízes históricas, culturais e linguísticas. Recordou autores que souberam relacionar as experiências locais com problemas universais e destacou a capacidade da criação literária angolana para interpretar a história, as relações de poder e as transformações da sociedade.

Uma outra imagem de África

A residir há cerca de cinco anos em Portugal, onde desenvolve trabalho académico e de investigação, Kalunga afirmou que uma das suas preocupações é divulgar internacionalmente os valores e as potencialidades de Angola e do continente africano.

Na sua perspectiva, África continua frequentemente a ser apresentada no Ocidente como uma realidade única e homogénea, associada quase exclusivamente à violência, ao medo e à desesperança. O escritor contrapôs a essa representação a diversidade cultural do continente, a juventude da sua população, a criatividade, a resiliência, a solidariedade e o respeito pelas pessoas mais velhas.

O investigador salientou igualmente as possibilidades abertas pelo chamado «cibercontinente». As plataformas digitais permitem que escritores, académicos e críticos angolanos publiquem os seus trabalhos, participem em revistas internacionais e estabeleçam um diálogo mais rápido com investigadores de outras geografias. No entanto, a velocidade da informação também favorece opiniões instantâneas e pouco fundamentadas, colocando novos desafios ao exercício rigoroso da crítica literária.

Angola precisa de devolver o livro às escolas

Um dos pontos centrais da entrevista foi a necessidade de formar novos leitores. Kalunga manifestou preocupação com a redução progressiva das tiragens dos livros em Angola, lembrando que, no período posterior à Independência, algumas edições atingiam milhares de exemplares, enquanto actualmente muitas publicações se limitam a algumas centenas ou mesmo dezenas.

Para inverter esta tendência, defendeu a aplicação efectiva de uma política nacional do livro, a criação de um fundo de apoio à edição e a reposição do livro no centro da vida escolar. Alertou também que muitas infra-estruturas apresentadas como escolas são, na prática, apenas conjuntos de salas de aula, sem bibliotecas, espaços desportivos ou outras condições indispensáveis à formação integral dos estudantes.

Entre as medidas sugeridas, apontou a possibilidade de criação de um cartão que permitisse aos estudantes adquirir livros com uma redução significativa do preço, sendo a diferença suportada pelo Estado, pelas universidades ou por outras instituições.

O escritor reconheceu que Angola possui crítica literária, instituições universitárias, cursos de Letras e Humanidades, leitores e um dos sistemas literários mais antigos do espaço africano de língua portuguesa. Considerou, contudo, indispensável profissionalizar e valorizar o trabalho dos críticos, criando condições para que a actividade intelectual seja exercida com maior estabilidade.

Matéria Negra: do local para o universal

Durante a entrevista, João Fernando André falou também de Matéria Negra, a sua quarta obra individual, recentemente apresentada em Luanda e publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club.

O livro reúne poemas que relacionam valores locais e universais, reflectindo a experiência cosmopolita e o percurso do autor entre Angola e Portugal. Entre os temas presentes encontram-se as crises familiares, a condição ontológica do ser humano, a relação com o macrocosmo e a natureza, as questões ecológicas e o desmatamento.

Kalunga reafirmou, neste contexto, o poder transformador da poesia. Para o autor, o texto poético permite dizer muito através de poucas palavras, exige uma participação activa do leitor e abre sucessivas possibilidades de interpretação. É precisamente essa capacidade crítica que faz da poesia uma forma de resistência perante o totalitarismo, o mercado e a sociedade de consumo.

Além de Matéria Negra, o escritor anunciou que prepara uma nova obra de ensaios e a futura publicação da sua tese de doutoramento. A entrevista no «Entre Linhas» confirmou, assim, uma trajectória que cruza criação poética, investigação académica e intervenção cultural, colocando a literatura no centro do debate sobre Angola e o mundo contemporâneo.

Matéria Negra
Matéria Negra
Evangelho Bantu
Evangelho Bantu

Elsa Major leva Faro e Enigmas às ondas da rádio CEFOJOR

Elsa Major leva Faro e Enigmas às ondas da rádio CEFOJOR

Na manhã de 25 de junho de 2026, a poetisa angolana Elsa Major esteve na rádio CEFOJOR para uma breve entrevista dedicada à sua mais recente obra poética, Faro e Enigmas. A conversa decorreu no espaço «Páginas e Vozes», integrado no programa Manhã de Cacimbo, e serviu também para anunciar a apresentação oficial do livro em Luanda.

Parceira na divulgação da literatura e da cultura, a rádio CEFOJOR recebeu a autora num ambiente que Elsa Major considerou já familiar. Cumprindo uma promessa anteriormente assumida, a poeta regressou à estação não apenas para falar da obra, mas também para oferecer um exemplar à rádio e ao programa.

Publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.clubFaro e Enigmas reúne poemas atravessados pelo amor, pela sensualidade, pela memória, pela identidade e pelas paisagens africanas. A presença do Namibe, terra natal da autora, do deserto e do mar constitui uma das marcas mais fortes do livro, prolongando uma ligação afectiva e literária ao Sul de Angola.

A obra não se limita, porém, à contemplação da paisagem ou à dimensão íntima dos sentimentos. Durante a entrevista, Elsa Major destacou igualmente as inquietações sociais presentes nos poemas, incluindo a guerra, a instabilidade internacional e os seus efeitos sobre a vida das pessoas, mesmo quando os conflitos decorrem longe das nossas fronteiras.

A espiritualidade e a fé ocupam também um lugar central. Para a autora, num mundo afectado pela violência e pela incerteza, o amor continua a ser uma força necessária à convivência humana: «O mundo precisa de amor», afirmou, deixando igualmente um apelo para que não se perca a fé.

Poesia escrita, dramatizada e cantada

Depois da primeira apresentação pública, realizada a 30 de abril de 2026, no Auditório 11 de Novembro, em PortugalFaro e Enigmas conhecerá a sua apresentação oficial em Angola na quarta-feira, 29 de julho de 2026, às 16h30, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda.

A sessão contará com as participações de Conceição Cristóvão, Agnela Barros e João Fernando André, escritor, crítico literário e autor de Matéria Negra, que já havia intervindo na apresentação da obra em Portugal. Elsa Major recordou ainda o contributo do escritor e crítico Mário Máximo, responsável pelo texto principal de apresentação na sessão realizada em Lisboa.

O encontro no Memorial pretende ultrapassar o formato convencional de lançamento literário. O público será convidado a experimentar três dimensões complementares da criação artística: a poesia escrita, a poesia dramatizada e a poesia transformada em música. Estão previstas interpretações cénicas dos poemas por estudantes ligados ao ensino das artes, bem como um momento musical.

Será, nas palavras da autora, uma oportunidade para aproximar diferentes linguagens e mostrar como a literatura pode conviver com o teatro e a música, dando uma nova vida ao texto poético.

Com entrada livre, a apresentação de Faro e Enigmas propõe-se como um momento solene de celebração da palavra e da cultura. Elsa Major deixou, através dos microfones da rádio CEFOJOR, um convite aos leitores, aos amantes da poesia e a todos os que desejem partilhar consigo este novo percurso da obra em Angola.

Final Volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision» to be launched in London

Final Volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision» to be launched in London

London, 27th July 2026 – The third and final volume of «The Bantu in Mafrano’s Vision – Almost Memories», a posthumous cultural anthropology work by Angolan writer and ethnologist Maurício Caetano, known as “Mafrano,” will be launched in London on 26th September, at 11H30 am.

The event will take place at the «Adventure Playground Conference Centre», 55 Willington Road, SW9 9NB, in South London, and is expected to bring together members of the academic, cultural, and Lusophone communities.

This final volume spans 327 pages and is structured across eighteen chapters and more than sixty texts. It explores themes related to Bantu civilization, religious thought, and social experiences documented by the author between 1947 and 1982.

Alongside the launch, the family will also announce a forthcoming English-language edition featuring a curated selection of key texts, aimed at expanding the work’s international reach.

The whole collection highlights historically significant essays such as “The Ethnographic Profile of the Black Jinga” (1947) and “The Bantu Slave Before the Slave Traders” (1981), reflecting Mafrano’s long-standing contribution to the study of African societies and cultural identity.

The publication is part of a trilogy compiled posthumously by the author’s family, drawing on decades of writings originally published in Angolan newspapers and magazines. Together, the three volumes total approximately 800 pages.

The first two volumes were presented in London in November 2024 at Birkbeck University, attracting a wide audience. Since then, the work has reached readers and academic institutions across several countries, including Mozambique, Cape Verde, São Tomé and Príncipe, Germany, Portugal, and Brazil.

Notable figures who have engaged with the collection include United Nations Secretary-General Antonio Guterres, Portuguese President Marcelo Rebelo de Sousa, and Cardinal José Tolentino de Mendonça, among others from cultural and academic circles.

Mauricio Caetano, awarded Angola’s National Prize for Culture and Arts in 2004, is recognised for his contribution to research in the human and social sciences. The prize jury described his work as a landmark of historical and cultural value.

The trilogy traces its origins to articles published over a 35-year period, offering a unique perspective on African history, identity, and social transformation.

Prémio Nacional de Cultura
Angola’s National Prize for Culture and Arts in 2004