Archives em Janeiro 2026

Livros atravessam o Atlântico e chegam à Praia na Livraria Nhô Eugénio

Livros atravessam o Atlântico e chegam à Praia na Livraria Nhô Eugénio

Livros da Perfil Criativo | AUTORES.club e distribuídos em Cabo Verde pela NOS RAIZ elevam ponte cultural entre Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde

REPORTAGEM DE RICARDO LEOTE (NOS RAIZ)

Livraria Nhô Eugénio, na cidade da Praia, em Cabo Verde, acaba de receber mais um conjunto de títulos de autores dos países africanos de língua portuguesa, disponíveis para leitores cabo-verdianos, reforçando os laços culturais entre Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. A presença destas obras resulta de uma parceria editorial entre a Perfil Criativo | AUTORES.club, com representação e distribuição em Cabo Verde pela NOS RAIZ, promotora cultural focada em literatura, cinema, música e artes plásticas.

Livraria Nhô Eugénio
Livraria Nhô Eugénio

Livraria Nhô Eugénio

Livraria Nhô Eugénio foi inaugurada em 2008, com o objetivo de promover a leitura e apoiar autores locais e internacionais em Cabo Verde. O espaço funciona como livraria, café e ponto de encontro cultural, reunindo livros, discos, eventos literários e exposições de arte num ambiente acolhedor com esplanada, transformando-se num verdadeiro polo cultural da cidade da Praia

O nome “Nhô Eugénio” evoca a figura do poeta e ativista cultural Eugénio Tavares, referência maior da cultura cabo-verdiana, cujo legado inspirou encontros e tertúlias no espaço.

Novos títulos disponíveis na Livraria Nhô Eugénio

Os Bantu na Visão de Mafrano — Quase Memórias — Volume III

Autor: Maurício Francisco Caetano (Angola)
Uma obra monumental em três volumes que explora a cultura, organização social e tradições dos povos bantu, afirmando a centralidade desta civilização na formação cultural africana. A coleção reúne textos antropológicos e históricos reunidos a partir dos escritos do autor, que demonstram a profundidade e a diversidade dos sistemas sociais bantu e o seu impacto cultural em África e na diáspora. O autor, também conhecido como Mafrano, é considerado um dos mais importantes etnólogos angolanos do século XX. A obra foi distinguida com o Prémio Nacional de Cultura e Artes 2024 da República de Angola

Meu Gastoso, minha Gostosa, meu Amor — Crónicas Íntimas

Autor: Rafael Branco (São Tomé e Príncipe)
Uma coletânea de crónicas que exploram afetos, relações e experiências íntimas da vida contemporânea. Com uma prosa sensível e acessível, o autor desenha retratos de encontros, amores e vivências pessoais que ecoam universais emoções humanas. 

Nuvem Negra — O Drama do 27 de Maio de 1977

Autor: Miguel Francisco “Michel” (Angola)
Este livro revisita o 27 de maio de 1977, um dos momentos mais dramáticos da história de Angola, através de uma narrativa potente construída a partir de testemunhos e memórias vividas. O autor, sobrevivente dos campos de concentração, oferece um retrato profundamente humano e crítico dos eventos que marcaram a nação angolana. 

Editorias do Expansão 2019-2021

Autor: João Armando (Angola)
Uma coletânea de editoriais publicados no periódico Expansão entre 2019 e 2021. A obra reúne análises e comentários sobre questões sociopolíticas contemporâneas, oferecendo perspetivas críticas sobre temas atuais que atravessam a sociedade. 

Há Dias Assim…

Autor: Armindo Laureano (Angola)
Uma coleção de editoriais do Novo Jornal que capturam episódios, pensamentos e sensações do quotidiano, revelando a habilidade do autor para encontrar poesia e sentido nas experiências diárias. 

Memórias das FALA — O Avanço no Norte e a Guerra Psicológica (1975-1992)

Autor: Fonseca Chindondo (Angola)
Uma obra que combina memória histórica com análise do papel das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA) durante o processo de libertação e nos anos subsequentes. O autor mapeia, com detalhe, o avanço militar no norte de Angola e as operações de guerra psicológica que marcaram aquela fase crucial. 

A primeira travessia da África Austral

Autor: José Bento Duarte (Angola)
Um livro que revisita a história das grandes explorações africanas, defendendo a restituição de protagonistas africanos frequentemente invisibilizados nas narrativas tradicionais. A obra destaca a importância de revisitar a História da África Austral, propondo uma nova leitura dos feitos pioneiros e das interações entre povos e culturas. 

Kinthwêni na tradição e na poética — Um enquadramento filosófico

Autor: João Ramos Piúla Casimiro (Angola)

Nesta obra de forte densidade intelectual, João Ramos Piúla Casimiro propõe uma reflexão aprofundada sobre o Kinthwêni enquanto conceito cultural, estético e filosófico enraizado nas tradições africanas. O autor articula pensamento filosófico, oralidade, tradição e poética, valorizando saberes endógenos frequentemente marginalizados pelos cânones académicos ocidentais. O livro constitui um contributo relevante para o debate contemporâneo sobre epistemologias africanas, identidade cultural e formas próprias de produção de conhecimento no espaço africano e afro-diaspórico.

Encerramento temporário do Bunker Cultural devido às condições meteorológicas

As nossas instalações na Avenida Rio de Janeiro, nº 27 C, conhecidas como Bunker Cultural, encontram-se temporariamente encerradas ao público nos próximos dias, na sequência da forte precipitação provocada pela tempestade associada à depressão Kristin, que afetou várias zonas do país.

Esta medida preventiva visa garantir a segurança de todos, enquanto são avaliadas e asseguradas as condições necessárias para a reabertura do espaço.

Durante este período, todos os contactos com a nossa equipa deverão ser realizados exclusivamente por email e telefone, cujos canais permanecem ativos e disponíveis para responder a qualquer solicitação.

Agradecemos a compreensão de todos e informaremos assim que estejam reunidas as condições para a reabertura ao público.

O Abraço da Memória (I)

O Abraço da Memória (I)

TEXTO DE GABRIEL BAGUET JR

Assim sinto os Dias e desde modo escolhi com total desprendimento, mas consciente , que a viagem dos próximos Dias de 2026 são comboios ou autocarros que nos transportam para onde pretendemos ou não. Porque apesar da opção ecológica referida em termos dos transportes citados, também podemos escolher viajar de canoa , de barco, de jangada e cada margem ter uma paragem para parar à semelhança dos apeadeiros e as Estações de Comboios.

Cada Dia é do meu humilde  ponto de vista uma viagem diversa porque diversas são também as viagens do Pensamento e do Olhar em Silêncio ou em ruído sobre os carris, os rios ou os oceanos percorridos ou a percorrer. 

Cada dia deveria ser a Biblioteca aberta e plural   para cada viagem a fazer. Tal como de comboio ou outra opção de transporte temos escolhas a fazer como estar à janela ou em coxia, as viagens têm também essa possibilidade de escolher o livro que desejamos ler. E as Bibliotecas como os Comboios têm destinos de escolha múltiplos. No caso das Bibliotecas, cada instante tem a oferta que desejarmos. Pode ser um Romance, uma Biografia, um livro de Poesia ,de Viagens ou de qualquer outra escolha literária como por exemplo a origem dos Comboios ou de Fricção.

 Porque cada dia é também a combinação da Realidade e da Ficção. E no meio das duas circunstâncias existe o Sonho ou os Desenhos do que projectamos para a estrada das nossas Vidas.

Findo o ano de 2025, ficam Memórias diversas tristes ou alegres . Ficam Falas trocadas, Olhares cruzados, Poemas ditos ou sonhados, Imaginários percorridos ou Jardins sonhados e nunca contemplados.

O final de cada ano implica interrogações diversas e como por exemplo sobre as promessas feitas individualmente ou no plano colectivo, muitas são reais e concretizáveis porque a vontade de quem as promete tem a firme vontade e convicção de as cumprir como desígnio de carácter Humanista e sentido de fazer melhor e Humanizar.

Cada ano que passa por nós e como referi numa Reflexão anterior durante o ano findo, precisamos de novas Esperanças perante quotidianos complexos de Existência Humana. Porque não basta Iluminar as Cidades, as Ruas, as Avenidas e escolher lugares icónicos e patrimoniais das Cidades e muitos deles parte Imaterial da Humanidade como classificado pela UNESCO.

Em meu entender é preciso ir muito mais longe de modo genuíno sem dribles porque esses são necessários nos jogos de futebol. A Vida de cada Ser Humano injustamente encarada por alguns como um jogo de futebol e perdoem-me os amantes do futebol( desporto que respeito ), é muito mais do que uma partida de futebol. A Existência Humana e assumo porque é tão ténue e frágil , precisa de Pessoas de mentes Iluminadas e Humanizadas . Claro e é justo dizê-lo, existem exemplos diferenciados e marcantes face à Condição Humana. Existem, mas são pouco divulgados. Porém esses Iluminados exemplos têm pouca mediatização e não fazem parte das Agendas Políticas Locais e Globais.

Ouvem  muitos Discursos e alguns deles evidenciam preocupações face às realidades concretas da Vida e do compasso do Existir. Mas não se realizam. A História da Humanidade deixou Discursos notáveis de Mulheres e Homens sem visão egocêntrica pois o que escreviam e diziam tinham profundidade e desejo concreto de ver as Pessoas felizes. Por isso as suas marcas de Pensamento ficaram para as Estradas das nossas Esperanças e Inquietações.

A Paz, palavra tão sagrada e fundamental para qualquer Sociedade, é falada, dita, evocada, mas não praticada. Quem recorda e eu bem me lembro por experiência profissional e pessoal vivida, a Cimeira do Milénio no ano 2000, abria portas de vasta esperança que tocava a Humanidade. O brilhante Discurso do histórico Secretário-Geral de Koffi-Annan que tive a honra de conhecer quando recebeu o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Nova de Lisboa em cerimónia presidida pelo  também histórico Presidente Jorge Sampaio, acendia novas Luzes sobre o Mundo.

Essa inesquecível Cimeira do Milénio foi sol de pouca dura como diz o Povo. E decorridos 25 anos o Mundo piorou. Os números oficiais da Pobreza mundial são assustadores. Igual e triste realidade é a condição de ser Migrante ou Imigrante. O número de Refugiados e deslocados de guerra é gritante. O Trafico Humano é devastador, a Prostituição Infantil é um sinal tristíssimo das ruas de muitas Sociedades. Um quadro pouco aceitável à luz dos Dias depois de tanta  Legislação em vigor nas ordens jurídicas de muitos Estados. A violação de Direitos Humanos é inqualificável 70 anos depois da sua vital criação. A Intolerância Religiosa e Cultural estão na pauta das Violações o que é intolerável em pleno Século XXI. 

As Guerras constituem outro cenário que nos interpela a todos os (as ) amantes da Paz. Mas não basta falar para bom registo fotográfico ou nível de audiências a atingir. É preciso sentir a Paz no mais interior dos nossos sentimentos e com essa atitude, dar essa planta ou flor que se chama Paz. A sua ausência mina o Desenvolvimento Humano. Basta ler os Relatórios Internacionais do PNUD e os números não são dados manipulados. São reais e fazem-nos pensar. 

E importam várias perguntas ; a Finlândia é considerada hà mais de 20 anos o país da Felicidade e os demais países dos Países Nórdicos apresentam realidades sociais e públicas distintas de outros Estados do mundo. A questão é da qualidade dos líderes políticos, das exigências das suas Sociedades Civis ou de exigentes praticas de Boa Governação?

A Corrupção existe à escala mundial e as ramificações são extensas a vários sectores das Sociedades. O que impede o seu combate efectivo ? Porque não se vê o seu fim ? O que explica o excesso de Luxo e a Extrema Pobreza? O que explica? O que explica a Exclusão Social e a Discriminação? As perguntas são longas e extensas.

Nesta viagem de Comboio à janela ou em coxia, do destino a percorrer ou na escolha de outra opção, não esqueça a Arte das boas práticas Humanistas, nem tão pouco o BEM em todos os domínios das suas vidas para que não se fixe apenas nas Tradições. As mesmas são respeitáveis. É inquestionável. Mas a prática da Fraternidade genuína, transparente como a Poesia romântica e sem filtros, será certamente o melhor Comboio ou Jangada da Memória para fazer a Viagem da Paz , do Respeito pela Condição Humana e com o necessário Humanismo que se deve impor ao respirar de cada um. Cada Esquina da Vida é uma Viagem diversa e imprevisível.

Não ignore o BEM. Seja praticante do BEM nas diferentes horas da Vida e nas diferentes Geografias.

Criar é governar: a Cultura no centro da República

Criar é governar: a Cultura no centro da República

A Cultura começa a afirmar-se como um dos pilares estratégicos do futuro da República de Angola. Essa visão ganha especial relevo na grande entrevista concedida pelo Ministro da Cultura, Filipe Zau, ao jornal EXPANSÃO, dirigida pelo jornalista e director João Armando, ambos autores da Perfil Criativo | AUTORES.club.

Na conversa, Filipe Zau defende com clareza que “a cultura pode e vai contribuir para a diversificação económica”, sublinhando o papel decisivo das indústrias culturais e criativas na geração de riqueza, emprego e coesão social. Para o governante, não se trata apenas de valor simbólico: a cultura deve ser encarada como factor económico estruturante, capaz de integrar cadeias de valor e atrair investimento.

Entre os principais eixos destacados na entrevista estão:

  • a necessidade de organização e profissionalização do sector cultural;
  • a criação de condições legais e institucionais para o florescimento das indústrias criativas;
  • o reforço da formação artística e técnica, desde a base até ao nível superior;
  • e a valorização da cultura como elemento central da identidade nacional e da cidadania.

Filipe Zau é peremptório ao afirmar que Angola precisa de passar da informalidade à sustentabilidade cultural, defendendo modelos de financiamento mais claros, o envolvimento responsável do mecenato e uma política pública que reconheça o valor económico da criação artística.

A entrevista, conduzida por João Armando com profundidade e sentido estratégico, constitui um marco no debate sobre políticas culturais em Angola, mostrando que a Cultura não é um acessório do Estado, mas um dos seus alicerces para o desenvolvimento.

Quando autores, pensamento crítico e visão de futuro se encontram, a Cultura começa, de facto, a mudar a República.

"Marítimos" de Filipe Zau
Marítimos” de Filipe Zau
"O Canto Terceiro da Sereia — O Encanto" de Filipe Zau e Filipe Mukenga
O Canto Terceiro da Sereia — O Encanto” de Filipe Zau e Filipe Mukenga
"Editoriais do Expansão" de João Armando
Editoriais do Expansão” de João Armando

Apresentação da Feira do Livro de África e Sul Global

Apresentação da Feira do Livro de África e Sul Global

Livraria Lulendo & Fábrica Braço de Prata apresentam “AFRO-SUL…” Feira do Livro de África e Sul Global.

É com grande entusiasmo que convidamos editoras, livrarias, escritores e jornalistas a juntarem-se a nós para um momento especial de pré-anúncio da Feira do Livro de África e Sul Global. Este projeto inovador é organizado pela Livraria Lulendo e a Fábrica Braço de Prata, e será oficialmente lançado no dia 24 de janeiro, dia mundial da cultura africana e afrodescendente.

O evento terá lugar na Fábrica Braço de Prata e contará com a presença de todos aqueles que se interessem pela literatura africana e a do Sul Global. A Feira do Livro será um espaço mensal de celebração, onde exploraremos as diversas vozes e narrativas que emergem do nosso continente e suas diásporas.

Programação Anual Inclui:
•⁠ ⁠Feira com foco em autores africanos e do Sul Global.
•⁠ ⁠Lançamentos de livros.
•⁠ ⁠Conversas e debates com autores.
•⁠ ⁠Conferências.
•⁠ ⁠Leituras de poesia e contos.
•⁠ ⁠Apresentações de spoken word.
•⁠ ⁠Exposições e concertos.
•⁠ ⁠Sessões de DJ e open mic/karaoke.
•⁠ ⁠Cinema e stand up comedy.
•⁠ ⁠Feira de vinil com música africana e Sul Global.
•⁠ ⁠Delícias da gastronomia local.
•⁠ ⁠Desfiles de trajes.
•⁠ ⁠Feira de artesanato e design.
•⁠ ⁠Workshops e oficinas interativas.

A Feira do Livro de África e Sul Global visa fortalecer e posicionar a literatura do “SUL “ nas suas próprias narrativas e saberes, criando um espaço de diálogo e intercâmbio cultural. O Objetivo é Sulear o pensamento.

Para assinalar esta data significativa, teremos uma pequena cerimónia para o pré-anúncio do projeto e gostaríamos muito de contar com a sua presença. Junte-se a nós neste evento especial, onde o futuro da literatura Africana e Sul Global será celebrado!

Data: 24 de Janeiro
Local: Fábrica Braço de Prata
Horário: 16h – 1h. Sala: NIETZSCHE
R. Fábrica de Material de Guerra 1, 1950-128 Lisboa
A FBP- tem condições para acolher a feira no inverno.

Viajante angolano apela à quebra do silêncio

Viajante angolano apela à quebra do silêncio

A participação do público no lançamento do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, voltou a revelar-se um dos momentos mais significativos da sessão, com intervenções que ampliaram o alcance cívico e geográfico do debate.

Entre elas destacou-se a de João St., que se encontrava em Lisboa de passagem e foi surpreendido pelo encontro. Natural de Angola e residente no Lubango, João St. explicou que chegou ao evento por sugestão de amigos, confessando a emoção sentida ao assistir aos testemunhos ali partilhados.

Na sua intervenção, sublinhou o contraste entre a abertura do debate em Lisboa e o silêncio que ainda envolve, em Angola, os acontecimentos do 27 de Maio de 1977. Referindo-se à região da Tundavala, no sul do país, evocou a memória de um local de grande beleza natural, mas também marcado por uma história trágica, associada à morte de milhares de pessoas atiradas para a ravina durante o processo repressivo. Segundo afirmou, trata-se de uma realidade conhecida localmente, mas nunca investigada nem discutida publicamente.

O interveniente lançou um apelo claro à replicação, em Angola, de iniciativas semelhantes às realizadas em Lisboa, defendendo que este tipo de encontro constitui uma forma necessária de catarse coletiva e de reconhecimento das vítimas. Recordou ainda os muitos órfãos e famílias que continuam sem respostas, sem certidões de óbito e sem qualquer forma de reparação ou esclarecimento.

Num registo emotivo, agradeceu o trabalho desenvolvido por autores, associações e editores, sublinhando que “as lágrimas não são vergonha”, mas antes sinal de fertilidade, de vida e de esperança. A sua intervenção reforçou a ideia de que Ecos da Liberdade não é apenas um livro, mas um ponto de partida para levar o debate sobre o 27 de Maio para dentro de Angola, onde o silêncio continua a pesar sobre a memória coletiva.

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
Ecos da Liberdade“, de Joaquim Sequeira

Zeca Ribeiro Telmo evoca Angola plural

Zeca Ribeiro Telmo evoca Angola plural

Como é habitual nos eventos da Perfil Criativo | AUTORES.club, o público foi convidado a intervir no lançamento do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, dando voz a testemunhos que reforçaram o sentido cívico e memorial do encontro.

Entre as intervenções destacou-se a de Zeca Ribeiro Telmo, que evocou a experiência coletiva da geração que viveu a independência de Angola e os seus desdobramentos. Recordando o entusiasmo de 1975, sublinhou que muitos dos presentes não eram colonos, mas angolanos que acreditaram, e continuam a acreditar, numa Angola livre, justa e democrática para todos.

Na sua intervenção, Zeca Ribeiro Telmo chamou a atenção para as desigualdades estruturais do país, lembrando que, apesar da riqueza proclamada, a pobreza sempre esteve presente no quotidiano da maioria da população. Defendeu que os “ecos da liberdade” não se esgotaram com a independência política e continuam a manifestar-se na exigência de mais democracia e inclusão social.

Num tom emocionado, destacou a resiliência dos sobreviventes dos acontecimentos trágicos do pós-independência, afirmando que a sua presença e o seu silêncio quebrado são, em si mesmos, uma afirmação de liberdade. “A liberdade é uma sede que nunca é saciada”, afirmou, agradecendo a Joaquim Sequeira a coragem de transformar a experiência da dor num testemunho público.

A intervenção foi recebida com atenção e aplausos, reforçando a ideia de que Ecos da Liberdade é também um livro que convoca a participação dos cidadãos e prolonga, para além das páginas, o debate sobre o passado, o presente e o futuro de Angola.

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
“Ecos da Liberdade”, de Joaquim Sequeira

Dar nome aos desaparecidos: um apelo contra o silêncio

Dar nome aos desaparecidos: um apelo contra o silêncio

A apresentação do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, foi também marcada por um anúncio de grande relevância histórica e cívica. Durante a sessão, a Associação 27 de Maio revelou que se encontra a desenvolver uma plataforma dedicada à identificação e mapeamento das dezenas de milhares de desaparecidos na sequência dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, em Angola.

Segundo foi explicado, a plataforma pretende reunir informação dispersa ao longo de quase cinco décadas, cruzando testemunhos, nomes, locais de detenção, datas e circunstâncias de desaparecimento, com o objetivo de construir uma base de dados rigorosa que contribua para a verdade histórica, o reconhecimento das vítimas e a preservação da memória coletiva. Nesse sentido, foi lançado um apelo público para que todos os angolanos, dentro e fora do país, reportem casos de familiares ou conhecidos desaparecidos durante o processo repressivo que se seguiu ao 27 de Maio.

Durante a sua intervenção, Verónica Leite de Castro, membro da Associação 27 de Maio, chamou a atenção para uma dimensão ainda pouco conhecida desta tragédia: o caso das mulheres angolanas que foram torturadas, presas e desapareceram, muitas delas sem qualquer reconhecimento público ou registo oficial. Sublinhou igualmente a situação dos órfãos, vítimas diretas e indiretas da repressão, que cresceram marcados pela ausência forçada dos pais e pelo silêncio imposto em torno destes acontecimentos.

A intervenção destacou que a repressão não atingiu apenas militantes ou suspeitos políticos, mas alastrou a famílias inteiras, produzindo um legado de trauma intergeracional que continua a marcar a sociedade angolana. Para a Associação, dar visibilidade às mulheres e aos órfãos é um passo essencial para uma abordagem mais justa e completa da memória do 27 de Maio.

Integrado no lançamento de Ecos da Liberdade, este anúncio reforçou o caráter do evento como espaço de denúncia, reflexão e ação cívica. Mais do que um momento literário, a sessão afirmou-se como um apelo à participação ativa da sociedade na construção da verdade histórica, numa altura em que se aproxima o cinquentenário de uma das páginas mais trágicas da história contemporânea de Angola.

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
Ecos da Liberdade“, de Joaquim Sequeira

Entre lágrimas e silêncio, a memória falou mais alto

Entre lágrimas e silêncio, a memória falou mais alto

A apresentação do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, transformou-se num momento de profunda comoção e reflexão coletiva, com a sala cheia de leitores, sobreviventes e familiares marcados pelos acontecimentos trágicos dos primeiros anos da República Popular de Angola, a tragédia do 27 de Maio de 1977.

Desde as primeiras palavras, ficou claro que não se tratava apenas de um lançamento literário. A sessão assumiu-se como um ato de memória viva. “A vossa presença transforma este encontro num momento de reconhecimento e de dignidade”, foi afirmado na abertura, dirigida especialmente aos sobreviventes dos acontecimentos de 1977, cuja presença conferiu ao evento uma intensidade que ultrapassou o plano cultural.

Foi prestada uma homenagem sentida a Manuel Vidigal, sublinhando o seu percurso de quase cinco décadas na exigência de uma Comissão da Verdade e na afirmação pública de que não existiu qualquer golpe de Estado contra o MPLA ou contra o então Presidente Agostinho Neto. A sua voz foi descrita como “uma voz de resistência democrática e de exigência moral”.

Associação 27 de Maio foi igualmente destacada como um pilar da luta contra a amnésia coletiva, pela preservação da memória das vítimas, pela verdade histórica e pelo direito ao reconhecimento público. A sua intervenção reafirmou que, quase cinquenta anos depois, “continuamos a pugnar pela verdade, pela justiça e pelo fim da impunidade”.

Enquanto editor, João Ricardo Rodrigues, da Perfil Criativo | AUTORES.club, reafirmou o compromisso da edição independente com a publicação de obras sobre os episódios violentos da história angolana, sublinhando que Ecos da Liberdade não nasce do ressentimento, mas da necessidade ética de testemunhar para que a violência não se repita.

A intervenção de José Fuso, autor do prefácio da obra, constituiu um dos momentos mais intensos da sessão. Falando como sobrevivente e como companheiro de percurso do autor, José Fuso destacou a dimensão ética e poética do livro, sublinhando que o testemunho de Joaquim Sequeira transforma a experiência do cárcere e da repressão numa narrativa de resistência e liberdade de pensamento. Afirmou que escrever, e publicar, é um ato político de memória, essencial para impedir o apagamento histórico e para devolver humanidade às vítimas silenciadas.

O testemunho mais cru surgiu também nas palavras do Presidente da Associação 27 de Maio, José Reis, que descreveu com detalhe o sequestro, a tortura, a humilhação e os desaparecimentos forçados ocorridos nas cadeias de São Paulo, na DISA e na Casa de Reclusão. Recordou a chamada “noite das facas longas”, em março de 1978, e afirmou: “Hoje estou a prestar este depoimento para que não fiquem dúvidas quanto ao que vem escrito em Ecos da Liberdade”.

Quando tomou a palavra, Joaquim Sequeira falou não apenas como autor, mas como sobrevivente. Num discurso profundamente literário e humano, evocou a infância, a cidade perdida, os companheiros de prisão e os laços forjados na adversidade. “Este livro é um mapa daquele território sagrado que só nós conhecemos”, afirmou, explicando que Ecos da Liberdade é um gesto coletivo, um “barquinho de papel lançado no rio do nosso passado comum”.

Num dos momentos mais emotivos da sessão, o autor dedicou o livro aos filhos, às netas e aos companheiros de sequestro, afirmando que escreveu para transformar a dor em palavra e a ausência em presença literária. “O corpo pode ser aprisionado, mas o espírito jamais se rendeu”, declarou, resumindo o sentido profundo da obra.

Ao longo da sessão, foi visível a comoção do público. Houve lágrimas contidas, silêncios densos e longos aplausos. Ecos da Liberdade revelou-se não apenas como um testemunho histórico inédito, particularmente sobre a Casa de Reclusão, mas como um ato de resistência contra o apagamento da memória. Um acontecimento extraordinário de reflexão sobre um dos períodos mais trágicos da história contemporânea de Angola, aquele que muitos tentaram, durante décadas, apagar da História.

Gravação do evento por Fernando Kawendimba

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
Ecos da Liberdade“, de Joaquim Sequeira


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