Encerramento de exposição no Museu Nacional de Arte Antiga

Encerramento de exposição no Museu Nacional de Arte Antiga

Termina no dia 30 de Janeiro de 2022 a exposição BOBA KANA MUTHU WZELA: AQUI É PROIBIDO FALAR!

Reunindo algumas obras das diferentes séries do projeto Revelar a memória a partir do esquecimento, iniciado em 2010, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) acolhe a exposição Boba Kana Muthu Wzela: Aqui é Proibido Falar!, de JRicardo Rodrigues. Partindo do lugar ocupado pelo MNAA, nas imediações do outrora bairro africano do Mocambo, território de “línguas proibidas” nascido no século XVI e hoje praticamente apagado, a exposição reimagina uma presença africana esquecida, evocando personagens e contextos reais ou alegóricos, como os sonhos e pesadelos de um Marquês de Pombal com uma outra biografia. Em encenações fotográficas de grande formato que dialogam com a tradição artística presente na coleção do Museu (mesmo que não de forma explícita), JRicardo Rodrigues reconfigura a memória a partir da ausência, cruzando o passado com a contemporaneidade e questionando continuidades, contrastes e heranças.

No Domingo 23 de Janeiro de 2022 foi realizado um último encontro com o artista para descobrir o “quinto neto da rainha Ginga” e o grande bairro do Mocambo, de Lisboa. Foram duas horas e meia de conversa sobre Arte e as raízes angolanas da cidade. Na intervenção foi dada uma atenção ao tema da escravatura. De apoio à informação dada, fica aqui a visita à exposição do investigador de economia política no Atlântico Sul, Jonuel Gonçalves, e o seu estudo sobre a Escravatura, e na transmissão de que houve gente que se indignou com o comércio de escravos no tempo da escravatura.

Exposição: BOBA KANA MUTHU WZELA | Aqui é proibido falar!

Exposição: BOBA KANA MUTHU WZELA | Aqui é proibido falar!

De 22 de outubro de 2021 a 9 de janeiro de 2022, a Sala dos Passos Perdidos do Museu Nacional de Arte Antiga recebe a exposição Boba Kana Muthu Wzela: Aqui É Proibido Falar! do artista JRicardo Rodrigues.
Numa reflexão sobre uma memória esquecida ou apagada da cultura portuguesa, a exposição parte do antigo bairro quinhentista do Mocambo (atual Madragoa), nas imediações do qual o MNAA veio a instalar-se no século XIX, para um exercício de imaginação que propõe um outro olhar sobre a presença e heranças africanas em Portugal. Reunindo onze obras das diferentes séries do projeto artístico Revelar a Memória a partir do Esquecimento, que JRicardo Rodrigues iniciou em 2010 como ensaio visual sobre o século XVIII português, a exposição dialoga também com a tradição artística europeia presente nas salas do MNAA. Em encenações fotográficas de grande formato, reconfigura-se a memória a partir da ausência, cruzando o passado com a contemporaneidade e questionando continuidades e contrastes.

O bairro do Mocambo e as línguas de Angola
Situado já fora da cerca fernandina, o bairro do Mocambo foi o local onde se instalou uma parte significativa da população africana da Lisboa quinhentista, embora hoje pouco reste dessa memória, desconhecida para grande parte dos lisboetas. A própria toponímia do Bairro, renomeado Madragoa no século XIX, já não apresenta vestígios dessa presença africana, que se foi tornando cada vez mais minoritária com as transformações da cidade e a maior fixação de outras populações. Lugar de diferentes culturas e personagens, a memória do desaparecido Mocambo é chamada a esta exposição por meio de uma série de retratos imaginados (como no caso de Henrique Dias), mas também pela evocação das línguas de Angola, que nele se expressavam com maior liberdade: o umbundu, língua de origem do nome do bairro, e o kimbundu, usado no título da exposição.

O diálogo com a coleção do MNAA e um Marquês com raízes africanas
Dialogando com a coleção do MNAA, as obras em exposição inspiram-se nos modelos da pintura europeia dos séculos XVII e XVIII, que o artista reclama como referências. É o caso de Liberdade, que na sua encenação cita abertamente Eugène Delacroix. Mas essa proximidade visual é rapidamente contrariada ou subvertida: não apenas pela modernidade da técnica fotográfica mas, sobretudo, pelas figuras que JRicardo Rodrigues escolhe como sujeitos de representação. Aqui, figuras africanas ou de pele negra não estão reduzidas a um anonimato ou a um papel subalternizado nem caricaturadas como ornamento decorativo, como se observa nas poucas obras da coleção do MNAA onde surgem representadas. Ainda que imaginadas ou com carácter alegórico, as personagens criadas pelo artista têm uma individualidade e uma humanidade, por vezes até uma biografia. É o caso do Marquês de Pombal (em Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro conde de Oeiras, Marquês de Pombal, estadista e quinto neto da rainha Ginga), cuja ascendência africana, sugerida num soneto satírico que circulava no final do século XVIII, foi o mote para um retrato que inaugurou o projeto maior do artista, e que nesta exposição ocupa um lugar de destaque.