Categoria em Notas do Editor

Escravatura, Abolição e Memória na Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Escravatura, Abolição e Memória na Sociedade Histórica da Independência de Portugal

NOTA DE EDITOR” POR JOÃO RICARDO RODRIGUES

Foi com profunda satisfação que assistimos, na tarde de 25 de fevereiro de 2026, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, à conversa em estilo de entrevista entre o investigador João Pedro Simões Marques e José Ribeiro e Castro, presidente da direção desta venerável instituição. O encontro, com o título “Escravatura e a sua abolição — O decreto de 25 de fevereiro de 1869”, realizou-se no Salão Nobre do Palácio da Independência, contando com a presença de um público numeroso e atento.

Fundada em 24 de maio de 1861, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal é uma das mais antigas associações culturais do país, com estatuto de utilidade pública e um papel contínuo na valorização da identidade portuguesa, na promoção da cultura histórica e na celebração das grandes efemérides.

Nesta sessão, João Pedro Simões Marques apresentou, com eloquência e rigor, as estruturas do sistema esclavagista, as suas dinâmicas globais e as especificidades do fenómeno em Portugal e no seu império. Enumerou, analisou e contextualizou as etapas que marcaram este doloroso capítulo da história universal, demonstrando como o debate histórico pode iluminar questões que permanecem obscurecidas nas sociedades contemporâneas.

Uma parte central da reflexão foi dedicada ao Decreto de 25 de fevereiro de 1869, promulgado pelo governo liderado pelo Marquês de Sá da Bandeira, que aboliu oficialmente a escravatura em todos os territórios portugueses, incluindo as colónias africanas. Este decreto representa o culminar de um longo processo legislativo, iniciado com medidas como a proibição da escravatura em Portugal continental (1761) e a proibição do tráfico negreiro (1836), e marcou a extinção formal da escravatura no Império Português. A abolição portuguesa, embora tardia face a outros processos internacionais, constitui um marco de importância jurídica e moral na história do país.

Um dado revelado no debate: O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravatura e um dos maiores destinos do tráfico transatlântico, onde o sistema esclavagista teve um enorme peso económico até ao final do século XIX

Queremos felicitar a iniciativa de José Ribeiro e Castro por trazer este tema exigente para o centro do debate público. É digno de registo o protagonismo dado aos heróis luso-angolanos Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, revelando os estudos de Maria Emília Madeira Santos e a obra A Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte, apresentada no Auditório do Padrão dos Descobrimentos em 29 de outubro de 2025.

A Sociedade Histórica da Independência de Portugal mostrou, assim, que temas como a escravatura e o colonialismo devem ser debatidos com rigor, serenidade e profundidade intelectual. Estes assuntos não podem ficar prisioneiros de narrativas ideológicas simplistas nem de confrontos estéreis entre esquerda e direita. Só através de um debate informado, plural e civilizado se constrói uma consciência histórica madura e responsável.

A primeira Travessia da África Austral
A primeira Travessia da África Austral

“É tempo de repor a verdade histórica”, a intervenção do editor João Ricardo Rodrigues

“É tempo de repor a verdade histórica”, a intervenção do editor João Ricardo Rodrigues

Lançamento oficial de “A Primeira Travessia da África Austral”, de José Bento Duarte

Padrão dos Descobrimentos, Lisboa — 29 de outubro de 2025

No Padrão dos Descobrimentos, o editor João Ricardo Rodrigues (Perfil Criativo | AUTORES.club) assinou uma intervenção emotiva e assertiva, enquadrando o lançamento do livro A Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte, como um ato de memória, de comunhão e de justiça para com Pedro João Baptista e Anastácio Francisco — os luso-angolanos que, entre 1802 e 1811, realizaram a travessia terrestre entre Cassange (Atlântico) e Tete (Índico).

Perante representantes da Embaixada da República de Angola em Portugal, da Liga Africana, do Estado-Maior-General das Forças Armadas e de diversas entidades civis e militares de ambos os países, o editor agradeceu a presença e recordou a simbologia do local e da data, 29 de outubro, também aniversário da Batalha de Ambuíla (1665). Sublinhou a trilogia histórica do autor ( Peregrinos da Eternidade | A Primeira Travessia da África Austral | Senhores do Sol e do Vento ) como um arco de reflexão.

Ausências que interpelam

João Ricardo Rodrigues registou, com estranheza, a ausência de instituições portuguesas previamente confirmadas, nomeadamente a Câmara Municipal de Lisboa, a Sociedade de Geografia de Lisboa e a Academia Portuguesa de História. Para o editor, essas ausências “não diminuem” o sentido do encontro; sublinham antes a urgência de um diálogo público sobre a reposição da verdade histórica e o reconhecimento de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco no espaço da memória coletiva.

“A Perfil Criativo | AUTORES.club procura ser mais do que uma editora: um território de reencontros, onde a palavra faz pontes entre Angola e Portugal, entre o que fomos e o que queremos continuar a ser.”

Nota do Editor (integral, publicada no livro)

É TEMPO DE REPOR A VERDADE HISTÓRICA

Com enorme júbilo apresentamos “A Primeira Travessia da África Austral”, de José Bento Duarte — uma obra que resgata um feito extraordinário da História: a travessia terrestre entre Angola e Moçambique, realizada pelos luso-angolanos Pedro João Baptista e Anastácio Francisco entre 1802 e 1811. Este episódio pioneiro, amplamente documentado mas longamente silenciado, constitui a primeira ligação transcontinental entre as margens do Atlântico (Cassange) e do Índico (Tete) feita por dois homens africanos sob bandeira portuguesa — um feito maior, que merece justo reconhecimento no espaço público e na memória coletiva.
O prefácio é assinado por Uina yo Nkuau Mbuta (Carlos Mariano Manuel), catedrático, investigador e autor do tratado de história “Angola desde antes da sua criação pelos portugueses até ao êxodo destes por nossa criação”, distinguido como Personalidade Lusófona 2023 pelo Movimento Internacional Lusófono. A sua participação confere a esta edição uma força simbólica e científica ímpar, num momento em que se assinalam os cinquenta e um anos da Democracia Portuguesa e os cinquenta anos de independência da República de Angola.
Neste espírito, convidamos o senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa a tomar iniciativa para que os nomes de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco sejam dignamente inscritos na toponímia da cidade, como homenagem a dois heróis que dignificam Portugal, Angola e Moçambique.
Estendemos igualmente este apelo ao senhor Presidente da República Portuguesa e aos corpos diretivos da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, instituições com longa tradição na preservação e valorização do património, para que se associem ao reconhecimento e divulgação deste extraordinário feito.

Síntese editorial

A intervenção de João Ricardo Rodrigues reafirmou a missão do projeto editorial: repor a verdade histórica, dar nome aos pioneiros africanos e convocar as instituições a um gesto concreto de reconhecimento público. Entre presenças significativas e ausências eloquentes, o lançamento transformou-se numa travessia moral e cultural que continua, das páginas do livro para a toponímia, para as salas académicas e para a consciência coletiva.

Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte
Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte

Sinais de crime no acesso a vistos

Sinais de crime no acesso a vistos

Há anos que alertamos para indícios preocupantes na forma como a República Portuguesa/União Europeia gerem, em Luanda, os vistos de entrada no Espaço Schengen. Os nossos autores angolanos enfrentam bloqueios constantes neste processo administrativo, com vistos frequentemente entregues após o prazo legal estabelecido.

Recentemente, recebemos denúncias sobre o acesso ao portal de marcação de pedidos de visto, que se tornou praticamente inacessível. O sistema está tão restrito que apenas indivíduos ligados ao esquema conseguem acesso. Agências que têm essa possibilidade estão a cobrar 750.000,00 Kz, além do valor do visto. É imperativo exigir transparência neste processo.

Denúncias apontam para a existência de um esquema de corrupção na obtenção de vistos para Portugal, com requerentes a serem vítimas de extorsão por parte de elementos supostamente ligados ao consulado luso em Luanda.

O embaixador de Portugal em Angola atribuiu responsabilidades na demora no agendamento de pedidos de visto a intermediários que bloqueiam as vagas, mas sublinhou que o consulado tem feito esforços para contrariar os atrasos. 

É fundamental e urgente que escritores, poetas, autores, artistas e agentes culturais circulem livremente com as suas obras no espaço da CPLP. A cultura não pode ser refém de burocracias ou esquemas corruptos.

João Ricardo Rodrigues [editor]

Fotografia: Angola24Horas

Apostar no comércio electrónico, o desafio do nosso tempo

Apostar no comércio electrónico, o desafio do nosso tempo

NOTA DO EDITOR (ACTUALIZADA): JOÃO RICARDO RODRIGUES

Os acontecimentos da disseminação do COVID-19 que acompanhámos à escala mundial, muito através das redes sociais digitais, revelaram uma alteração nos comportamentos dos consumidores. A simples ida a uma livraria foi substituída pela compra à distância, hábito do período de quarentena alargado a muitos meses de distanciamento social necessário para a contenção da doença epidémica. 
A partir desse momento, passou a existir um desafio enorme para a rápida adaptação, do pequeno comerciante ao grande industrial, à nova realidade que implica o desenvolvimento e utilização de plataformas on-line, de acesso universal, muito especializadas na comunicação e comercialização de produtos e serviços. 
Foi nesse cenário muito desafiante, que apresentámos o livro “110 ERROS QUE PREJUDICAM A SUA LOJA ONLINE”, de Vera Maia (ecommerce specialist), Sónia Costa (social media specialist), Nelson Peixoto (performance marketing specialist), Bárbara Peixoto (ecommerce specialist), Antoine Soares (performance marketing specialist), uma parceria entre a nossa editora e a “Tudo sobre eCommerce”, uma jovem empresa portuguesa com muita experiência no desenvolvimento de projectos de comércio electrónico. É também mais um livro que associamos aos nossos projectos editoriais de Marketing Digital, um território fundamental para a promoção de novas relações comerciais e também para a internacionalização e exportação de produtos e serviços à escala global, ou em territórios muito específicos em qualquer dos cinco continentes.
É por este motivo, e na necessidade de não se perder tempo nem dinheiro com erros já identificados, que lançamos esta obra no circuito nacional e internacional de comercialização de livros em língua portuguesa. Um antídoto à apreensão, ao pessimismo e à desistência, uma verdadeira ferramenta para responder com sucesso ao maior desafio do nosso tempo.

Umunthu (1)

Umunthu (1)

EDITOR’S NOTE BY JOÃO RICARDO RODRIGUES

This Editor’s Note was published in the first volume (2022).

According to the Portuguese news agency LUSA, a team has mapped the genetic trail of Bantu populations from their region of origin, at the current border between Nigeria and Cameroon, through their process of expansion across Sub-Saharan Africa and their migration to North America. The article “Dispersals and genetic adaptation of Bantu-speaking populations in Africa and North America,” published by Science Magazine (a scientific journal from the USA) in May 2017, reveals that almost all populations of Sub-Saharan Africa, below the Equator, descend from this ethnic group, which migrated there five thousand years ago.

Interestingly, in studying a population from Angola for the first time, researchers found that this region played an important role in the dispersal of this large group. They confirmed the “late split” model, meaning that migration first moved toward the region that is now the Republic of Angola, where it split into two waves: one that continued south along the west coast to South Africa, and another that first moved east toward the Great Lakes region, and then southward along the east coast, reaching Mozambique and, eventually, also South Africa. The study’s results revealed that Eastern and Southern Bantu populations have more genetic similarity to Angolan populations than they do with each other or with the original population further north. (2)

We recall that at the end of last year (2021), we presented the art exhibition BOBA KANA MUTHU WZELA | Here It Is Forbidden to Speak!, at the National Museum of Ancient Art in Lisbon, where we revealed a Bantu genetic presence in the Portuguese population and strong Angolan roots in the city of Lisbon since the 15th century. Despite the ties that have united them for over five hundred years, Bantu and Portuguese people have not, in our time, created exchanges that could enhance their past or future cultural interactions. Proof of this is the profound lack of knowledge within European societies about these intercultural relations. (3)

It is in this context that we publish and present this year (2022), in Angola and Portugal, the first volume of a collection of four books on our Bantu cultural heritage, organised from short articles by a prominent figure in 20th-century Angolan society, Maurício Francisco Caetano (1916-1982) — known as Mafrano, originally published in the old Catholic Church newspaper, O Apostolado.

We take this opportunity to applaud the desire and perseverance of the author’s family in bringing the memory of a man of Culture like Maurício Francisco Caetano to light in our time, allowing for a deeper understanding of Bantu civilisation.

(1) See foreword by Zacarias Kamwenho in this edition
(2) Portuguese news agency Lusa, 5 May 2017
(3) Catalogue of the exhibition BOBA KANA MUTHU WZELA | Here It Is Forbidden to Speak!, p. 14, Perfil Criativo Edition, Lisbon, 2021, ISBN 978-989-53348-1-0

Maurício Francisco Caetano in London
Maurício Francisco Caetano in London

“Entre nós há sempre histórias para contar…”

“Entre nós há sempre histórias para contar…”

Passou quase uma década desde que na tarde da sexta-feira de 30 de Outubro de 2015, na desaparecida livraria Bulhosa de Entrecampos (Lisboa), em conjunto com a editora Vivências Press, concretizámos, com muito sucesso, o lançamento do nosso primeiro livro “Essências e Vivências” (Ed. 2015), do jornalista Armindo Laureano


Esta foi uma edição comemorativa do 40º aniversário da República de Angola, depois de o autor ter recebido o Prémio Maboque de Jornalismo em 2014, na categoria de Entrevista. Nessa altura, escrevi na Nota do Editor: “Este é o nosso contributo para conhecermos uma outra face do país irmão, mas também para sentir aquilo que nos une, redescobrindo nas palavras de lá, a nossa própria identidade.”


Foi um primeiro passo com o Laureano que me levou a palmilhar Portugal de Norte a Sul, e a capital de Angola, com o objectivo de promover a(s) cultura(s) dos dois países, em grandes encontros de apresentação de novos autores e de muitas obras inéditas. 


Na memória colectiva ficou registado o inesquecível lançamento do livro “Autores e Escritores de Angola (1642-2015)”, de Tomás Lima Coelho, (Ed. 2016), que encheu a União dos Escritores Angolanos. Partimos os dois para Luanda numa altura em que este livro estava envolvido numa artificial polémica racialista e política, alimentada pelos mais radicais do partido-estado.

Recordo outro grande encontro, na Casa da Imprensa (Lisboa), onde lançámos o livro “Comunicação, o Espelho de um País” (Ed. 2017), de Wylsony dos Santos. Estávamos nas vésperas da chegada ao poder de um novo inquilino, e este surpreendente livro era uma reflexão pluralista e actual sobre os limites profissionais dos diferentes sectores da Comunicação Social.

Entretanto, o Armindo Laureano assumiu a direcção do semanário “Novo Jornal”, revelando verticalidade, cultura, qualidade e principalmente uma assunção dos princípios do jornalismo livre, tornando este semanário num exemplo maior de liberdade de expressão. 


Para melhor compreender esta caminhada, apresentamos o segundo volume da Colecção Novo Jornal, que integra um conjunto alargado dos últimos editoriais. 


Como diz o director “Entre nós há sempre histórias para contar…

“Democratização do conhecimento”

“Democratização do conhecimento”

NOTA DO EDITOR JOÃO RICARDO RODRIGUES

Não foi com surpresa que recebi a informação, por parte do irreverente jornalista Orlando Castro, nosso autor, de que a leitura do livro “Eu e a UNITA” tinha sido proibida pela liderança do partido político UNITA. Nas redes sociais, o diretor-adjunto do Folha 8 escreveu: “Vários testemunhos dizem-me que a Direção da UNITA aconselha (ordena) os seus militantes a não lerem o meu livro ‘Eu e a UNITA'”.

Em privado, revelou-me que houve algumas pessoas que lhe manifestaram medo de ler o livro e que o fizeram às escondidas nas suas viagens a Portugal. Esta semana, o jornal Folha 8 publicou o artigo “Todos os ditadores têm medo da liberdade”, onde Malundo Paca, com base na mesma informação, afirmou: “A intolerância política não só enfraquece a democracia, mas também cria um ambiente de medo e desconfiança. Os cidadãos começam a autocensurar-se, temendo repercussões por expressarem as suas opiniões. Isso leva a um empobrecimento do debate público e a uma sociedade menos crítica e participativa.”

A Perfil Criativo existe há vinte anos (2004-2024) e publica livros, raros, desde 2015, maioritariamente de autores de Angola, com mais de cem títulos publicados em diversas áreas: Poesia, Romance, Conto, Música, Filosofia, Antropologia, Memória, Crónica, História, Jornalismo, Economia, Política, Educação, Técnico e Científico.

Neste complexo processo, privilegiámos a voz dos jornalistas, demos vida a manuscritos esquecidos em gavetas, a estudos académicos e incentivámos os mais velhos a registarem no papel as suas memórias.

Em 2022, na antiga Fortaleza de São Miguel (Luanda), numa sessão inédita perante um conjunto alargado de representantes da atual sociedade angolana, incluindo antigos combatentes da Luta de Libertação, afirmei que o nosso propósito era apenas ajudar na “Democratização do Conhecimento” e ao mesmo tempo manter abertas as pontes culturais entre os nossos países.

Quem tem participado nos nossos eventos públicos sabe que damos sempre a palavra à assistência e que não nos coibimos de trazer temas complexos e de sentar lado a lado pessoas com ideias diferentes.

Dar aos nossos leitores a possibilidade de contestar ou corrigir os nossos livros é um princípio de que não abdicamos, por este motivo é um choque ouvir alguém dizer que se sente impedido, proibido, de ler um dos nossos livros.

Homenagem a Manuel Fonseca

Homenagem a Manuel Fonseca

Na próxima semana estes pequenos livros, carregados de poesia irreverente, chegam a Luanda.

NOTA DO EDITOR: JOÃO RICARDO RODRIGUES

Depois de termos publicado, na colecção “Poesia no Bolso”, a geração mais recente de poetas de Angola, decidimos, no início de 2024, dar voz a “Frei Maneco”, um pseudónimo de Manuel Fonseca de Victória Pereira, um poeta de humor e sarcasmo virtuais, com intervenção crua nas redes sociais, ao estilo de “Literatura de Cordel” (ler o texto de introdução “Uma Poesia Distópica para Míopes”, de E. Bonavena, na página 10).

Manuel Fonseca de Victória Pereira nasceu em 1958, ao Sul de Angola, em Moçâmedes, na Província do Namibe. Estudou no Instituto Superior de Ciências e Educação de Angola, foi professor, formador de professores e ocupou o cargo de vice-presidente no sindicato de professores de Angola, SINPROF

Tem sido uma voz inconformada, com uma incisiva intervenção política, fruto do seu principal lema de vida: “Servir a sociedade e os seus ideais e mudar o que puder dentro das minhas possibilidades”.

Faz parte da tradição da família Victória Pereira a intervenção política e cultural. Na memória colectiva fica a intervenção musical “”, de Manuel Fonseca no concerto “Liberdade JÁ”, pela libertação dos presos políticos na República de Angola, no Elinga Teatro, em Agosto de 2015.

Neste pequeno livro, isento de qualquer censura, encontramos também um conjunto alargado de desenhos — irreverentes — de Manuel Fonseca.

A publicação da obra de “Frei Maneco” é uma homenagem dos amigos da escola primária 55, amigos de sempre, Pedro Lara, Mário Ferrão, Mário Vaz e Victor Torres.

“Eu sou o doido d’Aldeia Global, 
Eu babo muito, mas não faço mal. 
Graças a mim, o mundo avança, 
E quando eu toco, todo o mundo dança.(…)”

FREI MANECO

Versos Sacanas” (Ed. 2024), de Frei Maneco

António Pinto (1937-2024)

António Pinto (1937-2024)

Por JOÃO RICARDO RODRIGUES

É com profunda tristeza que comunicamos o desaparecimento físico do autor, advogado, jornalista e professor angolano, António Pinto.

António Pinto nasceu na Gabela-Amboim, na província do Cuanza-Sul, a 11 de Dezembro  de 1937, foi aluno no Liceu Salvador Correia, licenciou-se em Direito com distinção, pela Universidade Independente de Angola (UnIA), em 2010. Faleceu a 29 de Janeiro de 2024, o funeral está marcado para hoje, 1 de Fevereiro de 2024, no Cemitério de Santana (Luanda).

Como jornalista, António Pinto, publicou mais de 500 peças no Correio da Semana, Jornal de Angola e Semanário Agora, entre 1998 e 2012.

Foi docente universitário, consultor jurídico e advogado, inscrito na Ordem dos Advogados de Angola.

António Pinto foi traído pela má interpretação das palavras do título de um livro

Publicou em 1974 o livro “13 Anos de Luta Armada. Porquê?” Um extraordinário “best-seller” (livro mais vendido), entre 1974 e 1975. Após o 25 de Abril de 1974, a população em Angola, maioritariamente sem cultura política, queria perceber o que se estava a passar. Mesmo por aqueles nativos, de origem portuguesa, que estavam a ser encaminhados para uma diáspora forçada na África do Sul, Brasil e Portugal, nas vésperas da independência.

O livro começa com uma declaração de António Agostinho Neto, em 1968, em Dar-es-Salan: “Para o MPLA nunca a existência de uma grande comunidade branca em Angola constituiu um problema em si, pois o nosso partido é por princípio anti-racista.

Segundo António Pinto, nunca ficaram devidamente esclarecidas as reais motivações políticas que em 1976 ditaram que o livro “13 Anos de Luta Armada. Porquê?” Fosse retirado das livrarias angolanas. 

Em 1977, em tempo de caça às bruxas que se prolongou até 1979, durante a construção da República Popular na sua fase mais acalorada e empenhada num socialismo radical, não surpreendeu que esta obra viesse a desagradar alguns sectores que consideraram este pequeno livro contrário à linha política e ideológica.

Anteriormente em 1976, durante a presidência do Doutor António Agostinho Neto, o livro foi objecto de uma análise promovida pela Comissão Directiva do MPLA e o autor, já militante do Movimento Popular de Libertação de Angola, foi chamado a depor, o que fez com a entrega de um extenso relatório justificativo de 38 páginas.

Capa do livro publicado em 1974, a imagem é da Associação TCHIWEKA de Documentação (ATD)

Fica a saudade

O nosso ponto de encontro era na marginal de Luanda, junto à fortaleza, e sou testemunha da tenacidade de António Pinto na construção da República, na verticalidade, no humanismo e acima de tudo no seu empenho em ser um homem melhor. Nunca desistiu, exemplo disso é ter concluído com êxito os seus estudos académicos aos 73 anos. Uma proeza que é também um exemplo para todos nós. À família e amigos de António Pinto desejamos muita coragem e muita força nesta hora difícil.

Memória e Cultura é também a responsabilidade da família

Memória e Cultura é também a responsabilidade da família

No próximo dia 25 de Julho de 2023 vamos apresentar o segundo volume da obra “Os Bantu na visão de Mafrano — Quase Memórias” (Ed. 2023), de Maurício Francisco Caetano.

NOTA DO EDITOR: JOÃO RICARDO RODRIGUES

Em 2020 Tomás Lima Coelho, autor do compêndio “Autores e Escritores de Angola”, publicado pela primeira vez pela nossa editora em 2016, recomendou-me que falasse com o jornalista e escritor angolano José Soares Caetano (Tazuary Nkeita), uma vez que este escritor estava a organizar um conjunto alargado de textos publicados pelo seu pai, Maurício Francisco Caetano, para uma futura publicação em livro. 

No início do ano passado (2022), em Luanda, na Universidade Católica de Angola (UCAN), tivemos o privilégio e o orgulho de apresentar o primeiro volume destes mesmos textos, “Os bantu na visão de Mafrano — Quase memórias”. Foi aí que pude observar o brio profissional da família de “Mafrano”, nesse grande exercício que foi a recuperação da sua obra, sem reservas, e a alegria na apresentação pública deste extraordinário trabalho. Um exercício que tem sido acompanhado pelos altos representantes da igreja católica em Angola. Nesse sentido, aproveito com esta “nota do editor” para convidar o Ministério da Cultura e Turismo da República de Angola bem como as embaixadas de Angola, espalhadas pelo mundo, para que se envolvam e descubram “Mafrano” (1916-1982), definido pelo arcebispo emérito do Lubango, D. Zacarias Kamwenho, como “antropólogo maior” de Angola.

Aproveito também para fazer o mesmo convite ao Ministério da Cultura de Portugal, para também os portugueses tomarem conhecimento da obra de Maurício Francisco Caetano, e quem sabe, propormos, em conjunto, este autor a candidato a um grande prémio literário. Será uma oportunidade para os portugueses descobrirem esse grande grupo étnico linguístico conhecido por “Bantu”, que chegaram a Angola vindos do Norte, dos Camarões e da Nigéria, conseguindo criar um grande pólo no antigo império do Congo. E que a partir daqui, se espalharam pela África Austral e mantiveram relações históricas e especiais com Portugal.

Maurício Francisco Caetano revela, ao longo das páginas deste livro, um nível cultural superior tanto relativamente à cultura africana como à europeia. Prova disso, é a quantidade de obras que vai referenciando ao longo das suas crónicas. 

Está de parabéns a família pela coragem e dedicação para tornar acessível o conhecimento da obra deste autor. Um sonho que se tornou realidade.

A família de Mafrano

ATENÇÃO: Evento atrasado duas horas, vai ter início às 18h00, 25 Julho de 2023, no mesmo local: UCAN

Dom Zacarias Kamwenho, arcebispo emérito do Lubango e autor do prefácio de Os Bantu na visão de Mafrano – Volume I: “Felicito a Família de Maurício Caetano por nos brindar com mais esta obra”.


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