Xavier de Figueiredo abre os arquivos de uma Angola por descobrir

Xavier de Figueiredo abre os arquivos de uma Angola por descobrir

Que histórias guardam décadas de jornalismo, contactos com protagonistas políticos e investigação em arquivos? Angolano do Huambo, Xavier de Figueiredo leva ao encontro «História de Angola: o que falta descobrir?» um percurso dedicado aos assuntos africanos e uma obra que atravessa a escravatura, a descolonização e a guerra. No dia 10 de Novembro, às 18h30, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, os leitores poderão conhecer melhor as perguntas que continuam a orientar o seu trabalho

A iniciativa da Perfil Criativo | AUTORES.club, realizada na véspera do Dia da Independência de Angola, reúne Xavier de Figueiredo, José Bento Duarte, Carlos Mariano Manuel e Rui Verde. Será uma oportunidade para descobrir acontecimentos pouco conhecidos e discutir como diferentes fontes e metodologias podem ampliar a compreensão do passado angolano.

Do Huambo às redacções e às capitais africanas

Nascido em 1947, no Huambo, então denominado Nova Lisboa, Xavier de Figueiredo iniciou a carreira jornalística em 1971, no diário A Província de Angola, em Luanda. Radicou-se em Portugal em 1975, trabalhou no Jornal Novo e integrou a ANOP — Agência Noticiosa Portuguesa. Foi seu correspondente na Guiné-Bissau, entre 1978 e 1981, e em Moçambique, entre 1982 e 1983. Estas experiências permitiram-lhe acompanhar de perto os primeiros anos de construção dos novos Estados africanos de língua portuguesa. 

Em 1984, participou na fundação do quinzenário África Jornal. O seu percurso prosseguiu em publicações especializadas e na análise dos acontecimentos africanos. Os arquivos da RTP conservam intervenções suas sobre as relações entre Portugal e Angola e sobre as negociações de paz, testemunhando a continuidade desse acompanhamento jornalístico desde a década de 1980.

Quando a informação de ontem se torna fonte histórica

Ao longo dos anos, Xavier de Figueiredo reuniu informações, testemunhos e contactos que alimentaram as suas publicações. Nesse percurso incluem-se, segundo a informação partilhada pela organização do encontro, elementos recebidos da UNITA e do seu presidente, Jonas Malheiro Savimbi.

Parte da memória jornalística desse período encontra-se nas publicações ligadas ao seu trajecto profissional. O Africa Monitor Intelligence anunciou a digitalização de cerca de 11 mil páginas de publicações especializadas, abrangendo assuntos políticos, económicos e de segurança, as guerras em Angola e Moçambique e os respectivos processos de paz. Este acervo permite regressar à informação publicada quando os acontecimentos ainda estavam em curso.

O contacto com fontes políticas coloca também perguntas que merecem discussão pública. Como confrontar versões de um mesmo acontecimento? Como distinguir informação, propaganda e memória? E que documentos poderão esclarecer decisões cujas consequências continuam presentes na sociedade angolana?

Em Savimbi — Um Homem no Seu Martírio, publicado em 2024, o autor apresenta uma interpretação assumidamente favorável ao fundador da UNITA e questiona as narrativas que contribuíram para a sua imagem internacional. Nos agradecimentos, identifica diversos interlocutores que ajudaram a esclarecer matérias tratadas no livro. A obra oferece, assim, uma perspectiva que pode ser confrontada com outros testemunhos e documentação sobre o conflito.

Essa investigação decorre sobre um passado de enorme sofrimento. Um relatório das Nações Unidas refere estimativas de pelo menos 500 mil mortos e milhões de deslocados em consequência da guerra civil angolana. Conhecer os projectos políticos em confronto e as intervenções externas implica também recuperar a experiência das populações atingidas. 

Um príncipe, uma viagem e a história do tráfico de escravos

Com O Príncipe do Congo, Xavier de Figueiredo recua ao século XIX e acompanha a vida de D. Nicolau, enviado a Lisboa em 1845 pelo pai, o rei do Congo. A missão procurava obter uma excepção que permitisse manter o tráfico de escravos na região do Ambriz, apesar da sua proibição. A história abre uma janela sobre os interesses económicos, as relações diplomáticas e as disputas de poder que marcaram esse período. 

A investigação incluiu documentação do Arquivo Histórico Ultramarino, da Biblioteca Central da Marinha e da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Através de uma trajectória individual, o livro convida a aprofundar um tema que permanece central no debate público, examinando os agentes do tráfico, os interesses que o sustentaram e as resistências à sua abolição.

Descolonização, partidas e questões por esclarecer

A descolonização ocupa igualmente um lugar importante na bibliografia do autor. Em O Último Ultramarino e, mais recentemente, em A Tragédia da Partida dos Colonos de Angola, Xavier de Figueiredo aborda a ruptura de 1975. Neste último livro, concentra-se nas condições do êxodo e nas suas consequências humanas, económicas e sociais, defendendo uma reavaliação do lugar dessas populações na História angolana.

A leitura crítica que faz da influência de potências estrangeiras nos países africanos de língua portuguesa abre outro campo de discussão. Que peso tiveram as decisões dos novos governos, a violência da guerra e os interesses dos parceiros internacionais nas partidas e exclusões daquele período? Que documentação permite estabelecer responsabilidades? São perguntas que exigem investigação e espaço para o confronto de interpretações.

A sua bibliografia inclui ainda Crónica da Fundação do Huambo | Nova Lisboa, dedicada à cidade onde nasceu, e Ceuta — Primeira Conquista de Portugal Além-Mar. Da história urbana à biografia política, o percurso do autor oferece aos leitores diferentes portas de entrada para acontecimentos que continuam a suscitar novas perguntas.

No encontro na Biblioteca Palácio Galveias, no Campo Pequeno (Lisboa), estarão em exposição e à venda livros sobre diversas temáticas ligadas à História de Angola, com descontos até 20% nos títulos recentes e até 50% nos restantes livros.

Apoio: Câmara Municipal de Lisboa | Bibliotecas de Lisboa

Transmissão em directo: VHMendes – Canal

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