Orquestra Nacional de Angola: quando a música se transforma numa referência

Orquestra Nacional de Angola: quando a música se transforma numa referência

A institucionalização da Orquestra Nacional de Angola representa um dos mais relevantes investimentos culturais realizados pela República de Angola nos últimos anos. Mais do que criar uma formação destinada a interpretar música clássica, o projecto abre caminho para a formação de músicos, para a valorização do património musical nacional e para uma presença mais afirmativa nos grandes palcos internacionais.

A Orquestra Nacional de Angola, abreviadamente designada por ONA, recebeu enquadramento jurídico através do Decreto Presidencial n.º 69/26, de 20 de Abril, publicado no Diário da República. O diploma reconhece-a como um serviço de interesse público do Estado, sujeito a gestão privada e habilitado a desenvolver actividades em todo o território nacional.

O documento estabelece como finalidades da ONA a promoção da cultura e da música clássica angolana, a realização de concertos no país e no estrangeiro e a formação artística e profissional de músicos, gestores e técnicos. A instituição deverá igualmente fomentar a música erudita nas suas diferentes manifestações, aproximá-la de outras expressões artísticas e contribuir para que um público mais amplo possa participar na criação e fruição cultural.

Uma orquestra construída com jovens angolanos

O projecto começou a ganhar visibilidade pública antes da sua institucionalização formal. Em Janeiro de 2025, a Orquestra Nacional apresentou-se no Centro de Conferências de Belas, em Luanda.

A formação reuniu então 107 adolescentes e jovens, com idades entre os 14 e os 30 anos, provenientes de várias províncias e seleccionados através de um processo de inscrição e avaliação. Sob a direcção do maestro brasileiro Ricardo Castro, os jovens interpretaram o Hino Nacional e obras de compositores angolanos e internacionais, dos séculos XVII ao XXI. 

A iniciativa foi inicialmente impulsionada pela Fundação Ngana Zenza para o Desenvolvimento Comunitário, instituição que tem desenvolvido programas dirigidos às comunidades, aos jovens e a outros grupos socialmente vulneráveis. A passagem de um projecto apoiado pela sociedade civil para uma instituição reconhecida pelo Estado permite-lhe agora adquirir maior continuidade, responsabilidade pública e capacidade de intervenção nacional. 

Em Março de 2026, o Conselho de Ministros apreciou formalmente o projecto de criação da ONA, definindo-a como uma instituição centrada na inclusão social e na formação artística, destinada a divulgar a tradição musical angolana através de uma actividade sinfónica de dimensão internacional. A institucionalização seria confirmada no mês seguinte pelo Decreto Presidencial

Levar a música angolana para o universo sinfónico

A importância da Orquestra Nacional não deve ser medida apenas pelo número de concertos realizados. A sua verdadeira dimensão estará na capacidade de construir uma escola, formar profissionais e criar um repertório que transporte para a linguagem sinfónica a diversidade cultural.

Angola possui uma extraordinária riqueza musical, resultante das culturas e línguas presentes no seu território, dos instrumentos tradicionais, das expressões religiosas, dos cantos de trabalho, das músicas urbanas e da criação de sucessivas gerações de compositores e intérpretes.

Uma Orquestra Nacional pode estudar, transcrever, preservar e reinterpretar esse património. Pode aproximar a música erudita das tradições populares, encomendar obras a compositores angolanos e criar novas leituras de géneros como a semba, a rebita, a kazukuta, o kilapanga e outras manifestações musicais das diferentes regiões do país.

O próprio diploma de institucionalização aponta para o cruzamento da música erudita com outras expressões artísticas. Esta abertura será essencial para evitar que a Orquestra Nacional se limite à reprodução do repertório clássico europeu. O seu maior contributo poderá estar precisamente na construção de uma linguagem sinfónica angolana, contemporânea e reconhecível.

Formar músicos, técnicos e públicos

Uma orquestra desta natureza necessita de violinistas, violoncelistas, contrabaixistas, instrumentistas de sopro, percussionistas, pianistas e maestros. Mas depende igualmente de afinadores, técnicos de som e iluminação, arquivistas musicais, produtores, gestores culturais, compositores e professores.

Por esse motivo, a ONA pode tornar-se uma verdadeira plataforma de profissionalização do sector musical. A criação de bolsas de estudo, academias, programas de iniciação musical, estágios e parcerias com instituições nacionais e estrangeiras ajudaria a consolidar carreiras que ainda encontram poucas oportunidades profissionais no país.

O projecto poderá também desempenhar um papel decisivo na formação de públicos. Concertos pedagógicos nas escolas, apresentações nas províncias, programas para crianças e famílias e transmissões através da televisão, rádio e plataformas digitais permitiriam retirar a música sinfónica dos espaços exclusivamente institucionais e colocá-la ao alcance da população.

O facto de o regime jurídico determinar que a ONA pode actuar em qualquer parte do território nacional é especialmente relevante. A sua verdadeira vocação nacional dependerá da capacidade de realizar concertos para além de Luanda, identificar talentos nas diferentes províncias e colaborar com escolas, igrejas, grupos corais, bandas e projectos musicais locais.

Uma responsabilidade para o futuro

A criação da Orquestra Nacional é uma conquista cultural, mas representa igualmente uma grande responsabilidade. Uma orquestra não se constrói apenas com uma apresentação solene ou com a aquisição de instrumentos. Exige financiamento regular, direcção artística competente, instalações apropriadas, programas de formação permanentes e critérios transparentes de recrutamento e gestão.

Será também importante tornar públicos o plano de actividades, o modelo de financiamento, a programação anual e a estratégia de implantação territorial. A continuidade do projecto dependerá da sua capacidade de se afirmar como uma instituição nacional aberta, profissional e independente dos ciclos políticos.

Ao institucionalizar a ONA, Angola reconhece que a música não é apenas entretenimento: é educação, memória, conhecimento, disciplina, criação e representação nacional.

Num país jovem, diverso e com uma tradição musical de enorme vitalidade, a Orquestra Nacional pode transformar-se num espaço onde diferentes gerações, províncias e sensibilidades culturais aprendem a escutar-se mutuamente. Tal como numa orquestra, cada voz mantém a sua identidade, mas contribui para uma obra comum.

A grande expectativa é que este projecto seja capaz de colocar a riqueza musical angolana no centro do seu repertório e de mostrar, dentro e fora do país, que Angola também pode contar a sua História através da força universal da música.

Orquestra Nacional de Angola durante uma apresentação em Luanda. Fotografia cedida pela Orquestra Nacional de Angola.

A Cultura nos cinquenta anos da República

Este projecto ganha também particular significado por decorrer sob a tutela do ministro da Cultura, Filipe Silvino de Pina Zau, académico, escritor, músico e investigador com uma longa ligação à educação e à reflexão sobre a identidade cultural angolana.

Filipe Zau, que é igualmente autor publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, tem defendido uma compreensão da cultura que ultrapassa o entretenimento e coloca-a no centro da educação, da construção da cidadania e do desenvolvimento nacional. A consolidação da Orquestra Nacional de Angola poderá, assim, representar uma das expressões mais relevantes dessa visão: formar jovens, preservar a memória musical do país e projectar a criação angolana no mundo.

"Marítimos" de Filipe Zau
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"O Canto Terceiro da Sereia — O Encanto" de Filipe Zau e Filipe Mukenga
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