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Entre lágrimas e silêncio, a memória falou mais alto

Entre lágrimas e silêncio, a memória falou mais alto

A apresentação do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, transformou-se num momento de profunda comoção e reflexão coletiva, com a sala cheia de leitores, sobreviventes e familiares marcados pelos acontecimentos trágicos dos primeiros anos da República Popular de Angola, a tragédia do 27 de Maio de 1977.

Desde as primeiras palavras, ficou claro que não se tratava apenas de um lançamento literário. A sessão assumiu-se como um ato de memória viva. “A vossa presença transforma este encontro num momento de reconhecimento e de dignidade”, foi afirmado na abertura, dirigida especialmente aos sobreviventes dos acontecimentos de 1977, cuja presença conferiu ao evento uma intensidade que ultrapassou o plano cultural.

Foi prestada uma homenagem sentida a Manuel Vidigal, sublinhando o seu percurso de quase cinco décadas na exigência de uma Comissão da Verdade e na afirmação pública de que não existiu qualquer golpe de Estado contra o MPLA ou contra o então Presidente Agostinho Neto. A sua voz foi descrita como “uma voz de resistência democrática e de exigência moral”.

Associação 27 de Maio foi igualmente destacada como um pilar da luta contra a amnésia coletiva, pela preservação da memória das vítimas, pela verdade histórica e pelo direito ao reconhecimento público. A sua intervenção reafirmou que, quase cinquenta anos depois, “continuamos a pugnar pela verdade, pela justiça e pelo fim da impunidade”.

Enquanto editor, João Ricardo Rodrigues, da Perfil Criativo | AUTORES.club, reafirmou o compromisso da edição independente com a publicação de obras sobre os episódios violentos da história angolana, sublinhando que Ecos da Liberdade não nasce do ressentimento, mas da necessidade ética de testemunhar para que a violência não se repita.

A intervenção de José Fuso, autor do prefácio da obra, constituiu um dos momentos mais intensos da sessão. Falando como sobrevivente e como companheiro de percurso do autor, José Fuso destacou a dimensão ética e poética do livro, sublinhando que o testemunho de Joaquim Sequeira transforma a experiência do cárcere e da repressão numa narrativa de resistência e liberdade de pensamento. Afirmou que escrever, e publicar, é um ato político de memória, essencial para impedir o apagamento histórico e para devolver humanidade às vítimas silenciadas.

O testemunho mais cru surgiu também nas palavras do Presidente da Associação 27 de Maio, José Reis, que descreveu com detalhe o sequestro, a tortura, a humilhação e os desaparecimentos forçados ocorridos nas cadeias de São Paulo, na DISA e na Casa de Reclusão. Recordou a chamada “noite das facas longas”, em março de 1978, e afirmou: “Hoje estou a prestar este depoimento para que não fiquem dúvidas quanto ao que vem escrito em Ecos da Liberdade”.

Quando tomou a palavra, Joaquim Sequeira falou não apenas como autor, mas como sobrevivente. Num discurso profundamente literário e humano, evocou a infância, a cidade perdida, os companheiros de prisão e os laços forjados na adversidade. “Este livro é um mapa daquele território sagrado que só nós conhecemos”, afirmou, explicando que Ecos da Liberdade é um gesto coletivo, um “barquinho de papel lançado no rio do nosso passado comum”.

Num dos momentos mais emotivos da sessão, o autor dedicou o livro aos filhos, às netas e aos companheiros de sequestro, afirmando que escreveu para transformar a dor em palavra e a ausência em presença literária. “O corpo pode ser aprisionado, mas o espírito jamais se rendeu”, declarou, resumindo o sentido profundo da obra.

Ao longo da sessão, foi visível a comoção do público. Houve lágrimas contidas, silêncios densos e longos aplausos. Ecos da Liberdade revelou-se não apenas como um testemunho histórico inédito, particularmente sobre a Casa de Reclusão, mas como um ato de resistência contra o apagamento da memória. Um acontecimento extraordinário de reflexão sobre um dos períodos mais trágicos da história contemporânea de Angola, aquele que muitos tentaram, durante décadas, apagar da História.

Gravação do evento por Fernando Kawendimba

"Ecos da Liberdade", de Joaquim Sequeira
Ecos da Liberdade“, de Joaquim Sequeira

Escrever para não desaparecer: “Ecos da Liberdade” apresentado em Lisboa

Escrever para não desaparecer: “Ecos da Liberdade” apresentado em Lisboa

O livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, será apresentado na próxima sexta-feira, 16 de janeiro de 2026, às 18h00, na sala polivalente da Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa. A sessão será marcada por um encontro com sobreviventes do 27 de Maio de 1977 em Angola, num momento de partilha, memória e reflexão histórica.

Publicada no final de 2025, a obra é um testemunho direto e profundamente humano sobre a repressão política que se seguiu aos acontecimentos de 27 de Maio de 1977. Joaquim Sequeira, preso político e sobrevivente desse período, reconstrói a experiência do cárcere, da violência institucional e do silêncio imposto, sem abdicar de uma escrita literária marcada pela poesia e pela dignidade.

Ao longo de sete capítulos intensos, Ecos da Liberdade conduz o leitor desde a prisão física até à resistência interior, mostrando como, mesmo nas condições mais desumanas, a palavra, a memória e a solidariedade se tornam formas de sobrevivência. A obra aborda episódios marcantes como a vida na Casa de Reclusão, a chamada “Noite das Facas Longas” e o impacto duradouro da repressão na identidade individual e coletiva.

“A liberdade não é apenas a ausência de grilhões; é a presença do que é possível. Ela conquista-se a cada acto de resistência, a cada momento em que o ser humano recusa ser silenciado.”

Mais do que um relato pessoal, o livro afirma-se como um manifesto contra o esquecimento, num contexto em que a sociedade angolana continua a interrogar-se sobre esse passado traumático. O encontro na Biblioteca Palácio Galveias pretende precisamente abrir espaço ao diálogo entre gerações, dando voz aos sobreviventes e convocando o público para uma escuta ativa da história recente de Angola.

A apresentação é aberta ao público e dirige-se a leitores interessados em História Contemporânea de Angola, Direitos Humanos, memória política, bem como a estudantes, investigadores e todos os que acreditam que recordar é também um acto de justiça.

Ecos da Liberdade

Ecos da Liberdade
Ecos da Liberdade

Entre consenso e crítica, os cidadãos reclamaram o seu lugar na história

Entre consenso e crítica, os cidadãos reclamaram o seu lugar na história

O lançamento do livro 50 anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos, na Biblioteca Palácio Galveias, terminou com um momento de participação ativa do público, que veio confirmar, na prática, uma das ideias centrais defendidas pelos coordenadores da obra: a necessidade de pensar os 50 anos das independências africanas a partir da cidadania e de múltiplos olhares plurais.

Entre as intervenções, registámos a de António Feijó Jr., engenheiro e especialista da indústria petrolífera angolana, que apelou a uma leitura positiva e construtiva do percurso dos países africanos independentes. Reconhecendo que nem tudo foi perfeito ao longo destas cinco décadas, sublinhou, ainda assim, a importância de valorizar o que foi alcançado e de encarar o balanço histórico com espírito crítico, mas também com confiança no futuro.

Já a arquiteta Maria João Teles Grilo reforçou a ideia de que a democracia constrói-se a partir da cidadania e não apenas das estruturas políticas formais. Na sua intervenção, defendeu que a história contemporânea dos países africanos está ainda em construção e que essa história será tanto mais verdadeira quanto mais resultar de contributos plurais, vindos da vida real das pessoas e da sua experiência quotidiana. Para a arquiteta, a riqueza da cidadania é um dos principais recursos para pensar o futuro coletivo.

Num registo mais crítico, o editor Manuel Rodrigues Vaz, da Pangeia, chamou a atenção para a composição do público presente, observando que a sala refletia sobretudo a participação de cidadãos angolanos. Embora reconhecendo o mérito da iniciativa, considerou importante que futuros encontros consigam envolver de forma mais equilibrada cidadãos dos restantes países africanos de língua oficial portuguesa, reforçando a dimensão verdadeiramente plural e transnacional do projeto.

Estas intervenções dialogaram diretamente com as palavras de Eugénio da Costa Almeida, que, na sua apresentação, havia desafiado autores e leitores a não deixarem o livro “morrer numa prateleira”, mas antes a lê-lo, debatê-lo e criticá-lo, transformando-o num instrumento vivo de reflexão cívica. O envolvimento do público no final da sessão confirmou esse apelo, mostrando que o livro já cumpre a sua função essencial: gerar debate, pensamento crítico e participação ativa da sociedade civil.

Organizado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, o lançamento encerrou assim com um diálogo aberto entre autores, leitores e convidados, reforçando a ideia de que os próximos capítulos da história das independências africanas continuam a ser escritos, sobretudo, pelos seus cidadãos.

Biblioteca Palácio Galveias
Biblioteca Palácio Galveias

Entre livros, vozes e cânticos: Lisboa refletiu sobre os desafios da estabilidade em África

Entre livros, vozes e cânticos: Lisboa refletiu sobre os desafios da estabilidade em África

A apresentação do livro Angola e os desafios da estabilidade em África — Lições da Missão de Cooperação para a Reforma das Forças Armadas da Guiné-Bissau, da autoria do Prof. Doutor Zeferino Pintinho, decorreu na Biblioteca Palácio Galveias, numa sessão solene marcada por reflexão académica, dimensão institucional e momentos culturais de grande intensidade.

A sessão teve início com a saudação da moderadora Catarina Furtado, que apresentou o programa e enquadrou o significado da obra no contexto dos desafios contemporâneos da segurança e da estabilidade no continente africano.

Seguiu-se um momento de abertura religiosa, com uma oração conduzida pelo Padre Samuel Docho, da Igreja Assembleia de Deus Pentecostal do Maculusso – Campo Grande, sublinhando a dimensão espiritual e comunitária do encontro.

Na mensagem de boas-vindas, o editor João Ricardo Rodrigues, da Perfil Criativo | AUTORES.club, destacou a importância da publicação de trabalhos académicos em livro, evocando as palavras do General José Luís Caetano Higino de Sousa, proferidas no lançamento da obra em Luanda. Segundo o editor, a edição de teses de doutoramento constitui um contributo essencial para a democratização do conhecimento e para a avaliação pública da qualidade da investigação académica.

Reportagem de Fernando Kawendimba

A sessão integrou ainda um momento musical com o Grupo Coral de Gospel Alfa, que apresentou duas interpretações de elevado nível artístico, criando um espaço de comunhão cultural e espiritual que marcou profundamente o público presente.

Foi também exibida uma breve mensagem em vídeo do prefaciador da obra, Domingos Simões Pereira, atualmente detido na sequência do golpe de Estado na Guiné-Bissau, cuja intervenção foi recebida com particular atenção e respeito pelos presentes.

O momento central da sessão coube à apresentação da obra pelo Prof. Doutor Eugénio da Costa Almeida, que sublinhou tratar-se de um trabalho que ultrapassa o exercício académico convencional, resultando de uma investigação profunda, baseada na tese de doutoramento do autor, e sustentada por uma rara articulação entre teoria e prática. Eugénio Costa Almeida destacou a relevância estratégica do livro para a compreensão da segurança, da defesa e da estabilidade política em África, com especial incidência no papel de Angola enquanto actor regional.

Na sua intervenção, o apresentador valorizou a análise crítica desenvolvida ao longo da obra, em particular o estudo da cooperação Angola–Guiné-Bissau e da MISSANG, recusando leituras triunfalistas e sublinhando a importância de reconhecer limitações, erros e fragilidades como parte integrante de qualquer processo sério de construção da paz e da estabilidade. Para Eugénio Costa Almeida, o livro afirma-se como uma obra de referência, exigente mas necessária, destinada a académicos, decisores políticos, militares e todos os interessados nos desafios africanos contemporâneos. 

A sessão encerrou com breves palavras do autor, Zeferino Pintinho, que agradeceu a presença do público, dos intervenientes e da editora, sublinhando a importância de continuar a pensar África a partir de África, com responsabilidade, rigor científico e compromisso com o bem comum.

Organizado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, o lançamento afirmou-se como um dos momentos altos do programa cultural dedicado ao pensamento africano contemporâneo em Lisboa, reforçando o papel do livro enquanto instrumento de reflexão crítica e diálogo interdisciplinar.

Angola e os desafios da estabilidade em África — Lições da Missão de Cooperação para a Reforma das Forças Armadas da Guiné-Bissau,

Eugénio da Costa Almeida desafia cidadãos a prolongar o debate sobre as independências

Eugénio da Costa Almeida desafia cidadãos a prolongar o debate sobre as independências

Na apresentação do livro 50 anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos, realizada na Biblioteca Palácio Galveias, o Prof. Doutor Eugénio da Costa Almeida sublinhou o carácter coletivo e plural da obra, coordenada em parceria com Rui Verde e que reúne contributos de cerca de 40 autores dos países africanos de língua oficial portuguesa.

Na sua intervenção, Eugénio da Costa Almeida destacou que o livro, apesar de já se encontrar à venda há cerca de mês e meio, apenas agora pôde ser formalmente apresentado, sublinhando a dimensão “monumental” da obra, tanto pelo volume como pela diversidade analítica dos ensaios reunidos. Segundo o coordenador, trata-se de uma coletânea construída a partir da amizade intelectual, do compromisso cívico e do contributo voluntário de autores que quiseram refletir criticamente sobre os 50 anos das independências africanas.

O académico explicou ainda que a estrutura final do livro acabou por integrar uma secção específica de ensaios, não prevista inicialmente, devido à extensão e qualidade dos textos recebidos. Respondendo a uma questão colocada pelo jornalista Luís Guita, da Radio France Internationale, Eugénio da Costa Almeida lançou um desafio direto aos autores: transformar alguns destes textos em futuros ensaios políticos, económicos e sociais mais desenvolvidos, aprofundando o debate iniciado nesta obra.

Radio France Internationale

Num apelo direto aos leitores, o coordenador deixou uma metáfora marcante, defendendo que o livro não deve ser “um pássaro morto”, esquecido numa prateleira, mas antes uma obra viva, a ser lida, estudada, debatida e criticada, como instrumento ativo de reflexão e intervenção cívica.

O evento, organizado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, contou com uma forte presença de público, mas ficou também marcado por dificuldades técnicas na comunicação via Zoom, que impediram vários convidados localizados em diferentes países da CPLP de acompanharem e participarem plenamente na sessão.

A partir do público, Manuel Rodrigues Vaz, editor da Pangeia, chamou a atenção para o facto de a plateia refletir maioritariamente a presença de cidadãos angolanos, com participação ainda reduzida dos restantes países, considerando tratar-se de um pormenor relevante a melhorar em futuros encontros dedicados à reflexão conjunta no espaço da língua portuguesa.

Apesar destes constrangimentos, a sessão afirmou-se como um momento significativo de debate, reforçando o papel da sociedade civil e da produção académica independente na análise crítica do passado, do presente e dos desafios futuros das independências africanas.

50 Anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos
50 Anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos

Um testemunho plural e inédito

O livro reúne mais de 40 personalidades dos cinco PALOP, incluindo antigos chefes de Estado, políticos, diplomatas, académicos, escritores, artistas e representantes da sociedade civil. Cada autor partilha uma visão pessoal e crítica sobre os caminhos percorridos desde as independências até hoje, trazendo vozes diversas e perspectivas complementares.

Autores: Eugénio da Costa Almeida e Rui Verde (coordenadores), Alcides Sakala, Ana “Margoso”, Anastácio Sicato, Arlete Chimbinda, Belarmino Van-Dúnem, Carlos Veiga, Celso Malavoloneke, Denilaide Cunha, Domingos Kimpolo Nzau, Domingos Simões Pereira, Eusébio Sanjane, Gilvanete Chantre, Humberto Macaringue, Isaac Paxe, Jacques dos Santos, Jerónimo Belo, João Carlos do Rosário, João Carlos, João Craveirinha Jr, João Sicato Kandjo, Joaquim Rafael Branco, Jorge Castelo David, José Luís Mendonça, José Maria Neves, José Miguel Ferro, José Ulisses Correia e Silva, Manuel Fragata de Morais, Maria da Imaculada Melo, Maria João Teles Grilo, Maria Olinda Beja, Mihaela Webba, Onofre dos Santos, Orlando de Castro, Sandra Poulson, Sedrick de Carvalho, Sónia Santos Silva, Tomás Lima Coelho, Victor Hugo Mendes, William Tonet, Zeferino Boal

50 Anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos

Rui Verde apela a novo paradigma entre governos e povos

Rui Verde apela a novo paradigma entre governos e povos

Lisboa – 9 de Janeiro de 2026 — Na sua intervenção na Biblioteca Palácio Galveias, que encheu o auditório com mais de uma centena de leitores e autores, o Prof. Doutor Rui Verde sublinhou que o livro 50 anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos representa, acima de tudo, uma expressão da sociedade civil africana, reunindo contributos maioritariamente independentes do poder político instalado.

Durante o lançamento, Rui Verde destacou que o grande impulso da obra pertence a Eugénio da Costa Almeida, assumindo o seu próprio papel como complementar no processo de coordenação. Mais do que um balanço histórico, o académico afirmou que o livro procura lançar um desafio político e cívico para o futuro das independências africanas.

O coordenador chamou ainda a atenção para a ausência significativa de representantes do poder governamental em países centrais como Angola e Moçambique, reforçando a leitura da obra como um espaço de reflexão livre. Nesse sentido, defendeu que os próximos 50 anos devem marcar o início de um novo paradigma, no qual governos e povos caminhem lado a lado, comprometidos com o bem comum, superando lógicas de distanciamento e isolamento mútuo.

A intervenção terminou com uma mensagem de esperança, expressando o desejo de que as próximas décadas sejam pautadas por maior convergência, participação cívica e cooperação entre o poder político e as sociedades africanas.

O evento foi organizado pela Perfil Criativo | AUTORES.club, afirmando-se como mais um relevante encontro de reflexão e diálogo sobre África no espaço cultural de Lisboa.

50 Anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos
50 Anos de Independências Africanas Vistos pelos seus Cidadãos

O livro uma edição conjunta da Elivulu e da Perfil Criativo reúne mais de 40 personalidades dos cinco PALOP, incluindo antigos chefes de Estado, políticos, diplomatas, académicos, escritores, artistas e representantes da sociedade civil. Cada autor partilha uma visão pessoal e crítica sobre os caminhos percorridos desde as independências até hoje, trazendo vozes diversas e perspectivas complementares.

Autores: Eugénio da Costa Almeida e Rui Verde (coordenadores), Alcides Sakala, Ana “Margoso”, Anastácio Sicato, Arlete Chimbinda, Belarmino Van-Dúnem, Carlos Veiga, Celso Malavoloneke, Denilaide Cunha, Domingos Kimpolo Nzau, Domingos Simões Pereira, Eusébio Sanjane, Gilvanete Chantre, Humberto Macaringue, Isaac Paxe, Jacques dos Santos, Jerónimo Belo, João Carlos do Rosário, João Carlos, João Craveirinha Jr, João Sicato Kandjo, Joaquim Rafael Branco, Jorge Castelo David, José Luís Mendonça, José Maria Neves, José Miguel Ferro, José Ulisses Correia e Silva, Manuel Fragata de Morais, Maria da Imaculada Melo, Maria João Teles Grilo, Maria Olinda Beja, Mihaela Webba, Onofre dos Santos, Orlando de Castro, Sandra Poulson, Sedrick de Carvalho, Sónia Santos Silva, Tomás Lima Coelho, Victor Hugo Mendes, William Tonet, Zeferino Boal

Obituário — Manuel Vitória Pereira

Obituário — Manuel Vitória Pereira

Foi com profunda tristeza que recebemos a notícia do falecimento de Manuel Vitória Pereira, anunciada numa breve e sentida mensagem de Raimundo Salvador, do programa cultural “Conversa à sombra da Mulemba“, que partilhamos, como homenagem à força das suas palavras:

“Óbito: morreu um angolano de primeira grandeza.
Poeta, professor, cronista, homem de mil ofícios, também cantava e compunha.
Manuel Vitória Pereira foi uma figura central do sindicalismo independente angolano, activista incansável da circulação do conhecimento e da dignidade do pensamento crítico.
Partiu ontem um homem que, enquanto esteve entre nós, fez a sua parte para deixar o mundo melhor do que o encontrou.
Moçâmedes, Lubango e Luanda foram quartéis-generais do seu activismo multidisciplinar, territórios de palavra, de escuta, de intervenção cívica e cultural.
Angola perde um cidadão de excelência.
Na Sentada do Manel, na Rua 7 do Bairro Mártires do Kifangondo, toca hoje um batuque de choro.
O óbito foi anunciado na poesia e no canto de gente jovem, que vê partir um angolano que soube honrar a Pátria que o viu nascer.”

Conhecido entre pares como o nosso poeta maldito, Frei Maneco, Manuel Vitória Pereira deixou um testemunho literário marcante e irreverente com o livro Versos Sacanas, publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.club em fevereiro de 2024. Trata-se de uma obra espontânea e frontal, profundamente crítica da vida contemporânea, uma poesia sem concessões, inquieta e humana, como sublinhou E. Bonavena.

Figura central do sindicato do professores angolanos, foi um activista incansável e, segundo os amigos, um verdadeiro pacifista, sempre envolvido com os mais pobres e desprotegidos. A sua coerência de vida manifestou-se desde cedo: no início dos anos setenta, ainda antes da independência, frequentava o Bairro Popular como se fosse a sua própria casa, num exercício quotidiano de proximidade, escuta e partilha.

A sua trajetória ficou também marcada por um episódio de violência e injustiça que viria a ter consequências dramáticas. Durante uma manifestação de professores nos anos noventa, Manuel Vitória Pereira foi maltratado pela polícia e abandonado a mais de 40 quilómetros de Luanda. Amigos e companheiros acreditam que as sequelas desse episódio tornaram a sua vida particularmente difícil nos últimos tempos, agravando fragilidades físicas e materiais, sem nunca lhe retirarem a lucidez crítica nem a fidelidade aos seus princípios.

Moçâmedes, Lubango e Luanda foram territórios centrais do seu activismo multidisciplinar, lugares de palavra, de intervenção cívica e de criação cultural. Por onde passou, deixou marcas de generosidade intelectual, rigor ético e coragem moral.

Angola perde um cidadão de excelência. Manuel Vitória Pereira permanecerá vivo na memória coletiva, na sua obra e no exemplo raro de uma vida inteira dedicada à dignidade humana, à justiça e à liberdade do pensamento.

Homenagem a Manuel Fonseca de Victória Pereira

Versos Sacanas
Versos Sacanas

Da África Austral ao Mundo: o livro que revela a outra face da expansão portuguesa

Da África Austral ao Mundo: o livro que revela a outra face da expansão portuguesa

A Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte, não é apenas o relato de uma viagem excecional através do continente africano. É, acima de tudo, um livro que surpreende ao mostrar como essa travessia se insere num fenómeno muito mais vasto: a extraordinária e improvável colonização portuguesa que alcançou os quatro cantos do mundo.

Revelando a primeira travessia documentada da África Austral, de Angola ao Índico , o autor constrói uma narrativa que cruza exploração, política, geografia e destino histórico, revelando como um pequeno país europeu conseguiu projetar-se, durante séculos, em territórios tão distantes como África, Ásia, América e Oceânia.

Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte
Lançamento em 2025 do livro A Primeira Travessia da África Austral, de José Bento Duarte

Apresentação do autor no lançamento de “A Primeira Travessia da África Austral” Padrão dos Descobrimentos, Lisboa — 29 de outubro de 2025

Uma travessia que explica um mundo

O livro acompanha a jornada africana não como um episódio isolado, mas como parte de um sistema global de rotas, decisões e encontros culturais. A travessia do sul de África surge como um eixo estratégico que ajuda a compreender a lógica da expansão portuguesa:
uma colonização feita de persistência, adaptação, alianças locais, erros, conflitos e surpreendente capacidade de sobrevivência política e cultural.

José Bento Duarte mostra que a história da colonização portuguesa não se explica apenas pelo mar, mas também pela terra, pelos caminhos interiores, pelos rios, pelas rotas esquecidas e pelos homens, muitos deles luso-africanos, que ligaram oceanos, povos e impérios.

História global contada a partir de África

Ao longo das páginas de A Primeira Travessia da África Austral, o leitor descobre como a presença portuguesa em África se articula com acontecimentos decisivos noutros pontos do globo:
as disputas imperiais europeias, o comércio intercontinental, a rivalidade entre potências, as missões religiosas, os equilíbrios diplomáticos e as estratégias de sobrevivência de um império disperso.

África não surge como periferia, mas como centro de gravidade de uma história global. É a partir do continente africano que se compreende melhor a ligação entre o Atlântico e o Índico, entre o Brasil e a Índia, entre Lisboa e os territórios longínquos onde a língua portuguesa deixou marcas duradouras.

Rigor histórico com pulsação narrativa

Sem abdicar do rigor documental, José Bento Duarte escreve com um ritmo que prende o leitor. O livro combina investigação em arquivos, leitura crítica de fontes e uma escrita clara e envolvente, capaz de transformar a História num relato vivo, acessível a especialistas e ao público geral.

Mais do que um livro sobre exploradores, é um livro sobre processos históricos, sobre como se construiu, e se manteve, uma presença global improvável, frequentemente contraditória, mas profundamente marcante.

Um livro para ler o passado com outros olhos

Num tempo em que a história da colonização é frequentemente reduzida a slogans ou simplificações, A Primeira Travessia da África Austral propõe algo diferente:
uma leitura informada, crítica e abrangente, que reconhece a complexidade dos factos e devolve profundidade a uma história que continua a influenciar o presente.

Este é um livro para quem se interessa por Angola, Moçambique, por Portugal, pela história global, pelas rotas do mundo, e para quem acredita que ainda há muito por descobrir nos arquivos, nos mapas e nas narrativas esquecidas.

Livros de José Bento Duarte

Peregrinos da Eternidade
Peregrinos da Eternidade
Senhores do Sol e do Vento
Senhores do Sol e do Vento
A primeira Travessia da África Austral
A primeira Travessia da África Austral

Fernando Kawendimba distinguido entre os psicólogos angolanos mais influentes dos últimos 50 anos

Fernando Kawendimba distinguido entre os psicólogos angolanos mais influentes dos últimos 50 anos

Revista Psicólogos Angola lançou recentemente uma edição especial que assinala 10 anos do projeto editorial e celebra 50 anos de Independência Nacional, reunindo e homenageando dezenas de profissionais ligados à saúde mental.

Nesta publicação Fernando Kawendimba foi indicado como um dos psicólogos em destaque em Angola, reconhecimento que reforça o seu percurso simultaneamente ligado à psicologia clínica e à criação artística e literária.

No catálogo da Perfil Criativo | AUTORES.club, Fernando Kawendimba assina o livro Mãe Nossa que Sois o Céu – Contos, publicado em novembro de 2020 (1.ª edição). Fernando Kawendimba que se encontra em Lisboa a desenvolver os seus estudos académicos representou a nossa editora na apresentação do terceiro volume da obra de Mafrano em 2025, em Luanda.

Além do trabalho editorial, o autor tem aparecido em espaços de debate público como psicólogo e comentador, sublinhando a ligação entre experiência humana, saúde mental e narrativa.

Mãe Nossa que Sois o Céu - Contos
Mãe Nossa que Sois o Céu – Contos