Archives em Agosto 18, 2026

«Em Angola não se lê pouco, lê-se mal»: Kalunga alerta para uma crise cultural e ontológica

O escritor, poeta e académico João Fernando André, conhecido literariamente como Kalunga, foi o convidado da “Grande Entrevista” da Rádio Mais. Numa conversa dedicada à literatura, à educação e à sociedade angolana, o autor de Matéria Negra apresentou um diagnóstico frontal sobre os principais desafios culturais do país.

Ao longo da entrevista, o Prof. Doutor João Fernando André destacou a força histórica da literatura angolana, que considera uma das mais robustas do espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. No entanto, advertiu que Angola começa a perder terreno para países como Moçambique, devido à ausência de uma verdadeira indústria cultural, à fragilidade do mercado editorial e à falta de políticas consistentes de apoio ao livro, à leitura, aos escritores e aos editores.

Kalunga chamou igualmente a atenção para o elevado preço do livro, a inexistência de uma indústria nacional de papel e celulose e as dificuldades enfrentadas pelos editores no acesso ao crédito. Para o escritor, Angola precisa de criar condições estruturais que permitam transformar a sua tradição literária numa indústria cultural sólida, capaz de ampliar a produção, a circulação e o acesso ao livro.

Um dos momentos mais marcantes da conversa surgiu quando afirmou: «Eu não acho que se esteja a ler pouco; acho que se esteja a ler mal.» O problema, explicou, não reside apenas na quantidade de informação consumida, mas sobretudo na qualidade das leituras e na relação cada vez mais frágil entre os cidadãos, o livro e o pensamento crítico. Nesse sentido, defendeu a presença de bibliotecas nas escolas, a inclusão da grande literatura angolana nos manuais de Língua Portuguesa e a implementação efetiva de uma política nacional do livro e da leitura.

O escritor foi também contundente ao abordar as insuficiências do sistema educativo: «Temos de deixar de inaugurar salas de aula. Temos de começar a inaugurar escolas.» Para João Fernando André, uma verdadeira escola não pode limitar-se às salas de aula: deve possuir bibliotecas, espaços desportivos, condições sanitárias adequadas e recursos que favoreçam uma aprendizagem completa e despertem, desde cedo, o gosto pela leitura.

A entrevista avança ainda para uma reflexão mais profunda sobre aquilo que Kalunga identifica como uma crise ontológica na sociedade angolana: uma progressiva valorização do “ter” em detrimento do “ser”, visível na perda de referências, na corrupção, no plágio e no enfraquecimento dos valores cívicos e morais. A inversão desse processo, sustenta o poeta, exige mais educação, instituições sólidas, uma comunicação social responsável e espaços de debate capazes de devolver centralidade ao conhecimento, à memória e à cultura.

Autor de Matéria Negra, obra publicada pela Perfil Criativo | AUTORES.club, Kalunga reafirma nesta entrevista a dimensão crítica e interventiva do seu pensamento. 

Vale a pena escutar o áudio da “Grande Entrevista” da Rádio Mais e acompanhar, na voz do próprio autor, esta importante reflexão sobre literatura, sociedade, educação e o futuro cultural de Angola.

Matéria Negra
Matéria Negra