Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência — Terceira Parte

João Fernando André (Kalunga): literatura, história e consciência crítica de Angola
No passado dia 1 de abril, a Biblioteca Palácio Galveias recebeu o encontro “Angola do Século XIX: Palavra, Imprensa e Consciência”, momento que serviu para a apresentação da obra Chão de Kanâmbua / O Feitiço de Kangombe, de Tomás Lima Coelho.
Entre as intervenções, destacou-se a participação do académico angolano João Fernando André, conhecido no campo literário como Kalunga, escritor, consultor cultural e professor de língua portuguesa e literaturas, atualmente em fase final do seu doutoramento em Lisboa.
Uma leitura crítica do romance histórico
Partindo de uma abordagem sistemática da obra, João Fernando André propõe uma verdadeira “dissecação” do romance, destacando a sua densidade histórica e social.
A obra é apresentada como um romance histórico sobre o florescimento de Malanje, centrado nas relações entre autóctones, degredados e autoridades coloniais.
A narrativa estrutura-se através de memória e movimento, recorrendo a analépses e prolepses que acompanham a trajetória do protagonista Manuel Justino.
O romance oferece um panorama detalhado da sociedade angolana entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX.
Degredo, violência e formação da sociedade colonial
Um dos eixos centrais da intervenção prende-se com a análise do sistema de degredo e do seu impacto na formação social de Angola.
Os degredados são descritos como “indesejados do reino”, enviados para África como instrumento de colonização penal.
A obra revela uma sociedade marcada por exploração, desigualdade social, violência, preconceito e epistemicídio.
Apesar disso, evidencia também relações de fraternidade e humanidade entre degredados e populações locais.
Grande parte da riqueza colonial é apresentada como resultado do trabalho dos autóctones, que paradoxalmente eram os menos beneficiados pelo sistema.
Igreja, ciência e poder colonial sob crítica
A intervenção de João Fernando André destaca o forte teor crítico da obra face às instituições coloniais.
A Igreja surge, em várias passagens, como espaço de poder, injustiça e corrupção, incluindo denúncias de abusos e discriminação.
Os exploradores e cientistas europeus são criticados pela sua incapacidade de reconhecer a igualdade humana, sustentando práticas de superioridade racial e desumanização.
A obra denuncia a coisificação do homem africano e a desvalorização dos saberes endógenos.
Imprensa, pensamento e resistência
A intervenção sublinha ainda o papel histórico da imprensa em Angola.
Desde 1845, com a introdução da imprensa, surgiram dezenas de periódicos, muitos dos quais foram posteriormente encerrados pela administração colonial.
A imprensa é apresentada como espaço de luta contra o racismo e a desigualdade, protagonizada por elites locais e intelectuais africanos.
Entre história e simbolismo: Kanâmbua e Kangombe
João Fernando André chama a atenção para a dimensão simbólica da obra, expressa no título e no pós-título.
Kanâmbua representa o espaço de transformação e renascimento do protagonista.
Kangombe introduz uma dimensão mística, associada a forças sobrenaturais e à memória do trauma.
A obra articula duas narrativas paralelas: a história social de Manuel Justino e uma história simbólica mais profunda.
Literatura como espelho e intervenção
A leitura proposta por João Fernando André reforça a ideia de que a literatura ultrapassa o plano ficcional.
A obra funciona como “radiografia da sociedade colonial angolana”, revelando as suas contradições estruturais.
A literatura é entendida como instrumento de denúncia, memória e reflexão crítica.
Uma voz independente da nova geração
A intervenção confirma João Fernando André como uma das vozes mais consistentes da nova geração intelectual angolana.
Nascido já na República de Angola, afirma-se com um discurso crítico, informado e independente, afastado da propaganda oficial e comprometido com uma leitura profunda da história e da sociedade.
João Fernando André emerge como um verdadeiro embaixador cultural de Angola, articulando investigação académica, pensamento crítico e criação literária.
Brevemente: Matéria Negra
O autor desta intervenção, na voz do poeta Kalunga, prepara-se para apresentar em Portugal o seu novo livro de poesia, Matéria Negra, que deverá prolongar esta mesma linha de reflexão crítica e densidade simbólica.

