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Lagos: “Diálogos do sul” de 2023 traz o tema “escravatura”

Lagos: “Diálogos do sul” de 2023 traz o tema “escravatura”

DIA INTERNACIONAL PARA A ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA │ 2 DEZ. 15:30 | BIBLIOTECA MUNICIPAL DE LAGOS JÚLIO DANTAS

Encontro na Biblioteca Municipal de Lagos com os escritores e investigadores Laurentino Gomes (Brasil) e Jonuel Gonçalves (Angola) e a moderação da jornalista Fernanda Almeida, RDP África.

O que a história ainda não nos ensinou sobre a escravatura?

Será o racismo uma consequência da escravatura?

Questões deste nosso tempo para o jornalista, escritor e investigador histórico LAURENTINO GOMES, um dos mais importantes nomes na difusão contemporânea da História do Brasil, autor das trilogias sobre História do Brasil “1808”,“1822” e “1889” (2007-2013) e sobre a escravatura “Escravidão”, 3v. (2019-2022), e JONUEL GONÇALVES, economista, professor, investigador e autor de livros de ficção e não ficção centrados nas relações de economia e poder no Atlântico Sul e na presença de África no mundo. O seu último romance “E agora quem avança somos nós”, baseado em ambientes reais e fatos históricos, e onde os personagens se movem entre o Brasil, Angola e Portugal, esgrima a ideia de que raça é máscara.

Venda de livros e sessão de autógrafos no final da sessão.

LAURENTINO GOMES, paranaense de Maringá, Brasil, e detentor de oito Prémios Jabuti de Literatura, é autor dos livros “1808”, sobre a fuga da corte portuguesa de D. João para o Rio de Janeiro, eleito Melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras; “1822”, sobre a Independência do Brasil; “1889”, sobre a Proclamação da República; e “Escravidão” (em três volumes), além de “O caminho do peregrino”, em coautoria com Osmar Ludovico da Silva. Tem livros publicados no Brasil, em Portugal, nos Estados Unidos, na China e na Rússia. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em Administração pela Universidade de São Paulo, é titular da cadeira dezoito da Academia Paranaense de Letras.

JONUEL GONÇALVES tem dupla nacionalidade brasileira e angolana. Envolvido na luta pela independência e democratização de Angola, teve grande parte da sua existência dividida entre o combate clandestino e os exílios. Depois do fim das guerras angolanas passou a viver em trânsito entre África, Brasil e Portugal. Doutor em Ciências pela Universidade Federal do Rio de Janeiro é Pesquisador Associado do Núcleo de Estudos Estratégicos Avançado (NEA/INEST) da Universidade Federal Fluminense (Rio de Janeiro) e Investigador no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (Lisboa). Em Angola é Orientador de Mestrado no Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda. Autor de inúmeros artigos sobre Economia e Assuntos Africanos, tem vários livros publicados, na área da ficção e do ensaio em Angola, Brasil e Portugal. Em Portugal encontram-se disponíveis os seus títulos mais recentes: os romances “E agora quem avança somos nós” (Elivulu e Perfil Criativo Edições, 2022) e “A Ilha de Martim Vaz” (Guerra & Paz, 2017) e os ensaios “Economia e Poder no Atlântico Sul” (Perfil Criativo Edições, 2022), “África no Mundo livre das imposturas identitárias” (Guerra & Paz, 2020) e “Angola: cinco séculos de guerra económica” (Mayamba e Perfil Criativo Edições, 2023)

FERNANDA ALMEIDA, portuguesa, nasceu em Moçambique, em 1968. Licenciada em Ciências da Comunicação, pela Universidade Autónoma de Lisboa, é Jornalista da RDP África há vinte e seis anos, sempre na área cultural, e responsável e orientadora, na RDP África, dos estágios Curriculares do 1.º Ciclo da Licenciatura em Estudos Africanos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Atualmente produz, realiza e apresenta na RDP África os programas “Manual de Instruções” (programa semanal de entrevistas na área do voluntariado);“Escrever na água” (programa semanal sobre literatura Lusófona) e “Avenida Marginal” (conversas sobre questões fraturantes da nossa sociedade). Na Antena 1 moderou, de 2018 a 2021, o programa “A Páginas Tantas”, com as escritoras Inês Pedrosa, Patrícia Reis e Rita Ferro e, em 2022, o programa literário “Biblioteca Pública”, com os escritores Afonso Reis Cabral, Dulce Maria Cardoso e Richard Zimler. Extra Rádio, coordenou, de 2012 a 2015, o jornal cultural angolano “O Chá”, trabalhou na revista “Visão” (1993-96), colaborou em várias publicações e editoras, apresentou diversos eventos musicais e colaborou na peça de teatro “Os vivos, o morto e o peixe frito” do escritor angolano Ondjaki. Em 2022 foi distinguida com uma Menção Honrosa no Prémio de Jornalismo “Os Direitos da Criança em Notícia” pelas suas reportagens na RDP África “Uma escola, um novo futuro” e “Somos o que fazemos”

Livros de Jonuel Gonçalves disponíveis na nossa plataforma online www.AUTORES.club:

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“3 em 1” apresentado em Faro

“3 em 1” apresentado em Faro

28/11/2023 — Ao fim do dia o livro de poesia “3 em 1“, de Filipe J. D. Pereira, foi apresentado no extraordinário auditório da Biblioteca Municipal de Faro. A directora da Biblioteca Municipal de Faro, Dr.ª Sandra Martins, recebeu os convidados e apresentou os intervenientes para a apresentação da obra “3 em 1“, de Filipe J. D. Pereira . O editor João Ricardo Rodrigues, da Perfil Criativo, referiu que num tempo maioritariamente tecnológico é muito importante que o autor, Filipe J. D. Pereira, com inúmeras publicações ligadas às engenharias, surpreenda o público do Algarve com uma obra de poesia de grande humanismo. O jornalista Wilton Fonseca, autor dos livros “Heróis Anónimos [1] – Jornalismo de Agência – História da Anop e da Np (1976-1986)“, “Heróis Anónimos [2] – Jornalismo de Agência – História da Lusitânia e da Ani (1944-1975)“, “Heróis Anónimos [3] – Jornalísmo de Agência – Depoimentos (1938-2017)” e “Da Monarquia ao Estado Novo: Agências Noticiosas em Portugal“, fez a apresentação da obra (ver texto abaixo). Por fim, o autor agradeceu à biblioteca e ao município de Faro, ao público presente e aos intervenientes na mesa de honra.

3 em 1

TEXTO: WILTON FONSECA, Jornalista

Boa tarde a todos. Em primeiro lugar, obrigado ao Felipe, por ter trazido até todos nós o seu “3 em 1”, que ele construiu com carinho e com a dedicação que ele aplica a tudo que faz. Obrigado também ao Ricardo Rodrigues, que publicou o livro. E agradecimentos ainda a todos os presentes, principalmente aos responsáveis por esta biblioteca. 

Penso que todos conhecerão o autor; mesmo assim, tenho aqui alguns dados da sua biografia, mas antes uma manifestação de interesse: sou amigo dele. 

Filipe Didelet Pereira é licenciado, mestre e doutor em Engenharia Mecânica e membro Conselheiro e Especialista em Manutenção da Ordem dos Engenheiros. Tem várias obras publicadas na sua área profissional, a nível nacional e internacional, mas também se dedica há anos a projetos literários, de que o presente livro é a mais recente manifestação. Conhece como poucas pessoas os transportes públicos deste país. 

3 em 1”, como o próprio nome indica, é a reunião, num só volume, de três obras diferentes. A primeira é constituída por 65 breves diálogos. Por que razão 65 diálogos? – perguntei-lhe eu. Trata-se da idade que tinha quando os reuniu num único volume – explicou-me. 

Os diálogos são subordinados ao tema geral “De entre o céu e o inferno”. Isto é, englobam tudo que não se encontra no céu ou no inferno, mas entre uma coisa e outra. A palavra “inferno” não aparece no livro, e “céu” surge apenas uma vez, para indicar a cor azul, e não propriamente o local idealizado pelos crentes católicos: 

Indica-me o nome deste país, irmão Paulo.
Seria o céu se fosse azul, irmão Pedro. 

3 EM 1

A distância entre o céu e o inferno é o percurso existencial de cada um, de todos nós e também de Pedro e de Paulo: 

— Grande terá sido o caminho desde
Que iniciei o conhecimento, Pedro.


— E maior se tornará, Paulo. Lamenta
apenas, comigo, que a memória não
abranja, precisamente, os passos inaugurais 
e alguns dos que se seguiram.  

3 EM 1

Os diálogos têm apenas essas duas personagens, Pedro e Paulo, eles mesmos, os dois apóstolos. Os dois conheceram em vida tudo que medeia entre o céu e o inferno. Assim aconteceu com Pedro, ou Simão Pedro, o mais velho, cujo nome evoca a pedra sobre a qual Cristo quis edificar a sua igreja, o homem que Cristo escolheu para ser pescador de homens, que abandonou tudo para seguir Jesus e que pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, para não padecer da mesma maneira que o Messias.  

O nome de Paulo, ou Saulo, ou Paulo de Tarso, mais novo que Pedro, parece indicar alguém que era aguardado, por quem se ansiava; o seu percurso de vida é contrário ao de Pedro: de impiedoso perseguidor dos cristãos ele passa a defensor da mesma fé de Pedro e morre degolado: os romanos não usavam o martírio da cruz para castigar cidadãos romanos.   

Pedro e Paulo talvez tenham sido martirizados no mesmo dia, não se sabe. São ambos lembrados no dia 29 de junho. Aos dois apóstolos o nosso autor, narrador-criador, omnipresente, junta o seu próprio nome, o do apóstolo Filipe, do evangelista S. Filipe e a S. Filipe Néri, o santo da alegria, que dizia “afastem de mim o pecado e a tristeza”. Três Filipes e um só. Três apóstolos em diálogos atribuído a dois, mas que na realidade envolvem três. Três em um, é o título do livro. 

Tudo em “3 em 1” tem uma razão de ser. Os diálogos são propositadamente secos, económicos, ascéticos, místicos, sóbrios e austeros. Distanciam-se propositadamente da realidade. As emoções são poucas, não são extravasadas, é como se tivessem sido guardadas para a forma como os dois apóstolos se referem um ao outro: meu irmão de sempre, amigo, caro irmão, admirável companheiro, companheiro de tantos anos, velho e admirável companheiro.

A contenção das emoções faz com que apenas estados de espírito permanentes – como por exemplo a desilusão, a tristeza, a seriedade que somente o profundo conhecimento da mente humana pode trazer – sejam manifestados pelos dialogantes. Assim, o leitor não encontrará mais do que meia dúzia de adjetivos em “3 em 1”. Quando a utilização de adjetivos é absolutamente necessária, o autor transforma-os em nomes substantivos: um facto aleatório aparece como “o aleatório”; algo abrangente transforma-se em “a abrangência”; o que é grandioso surge como “a grandiosidade”.   

Para que serviriam os adjetivos, a não ser para apressar percursos, queimar etapas, retardar a chegada àquilo que se encontra inexorável e invariavelmente à espera de todos; ou conforme diz Pedro, interrogado sobre a transitoriedade da juventude: 

Eterna não será apenas a morte, irmão? 

3 EM 1

A segunda parte do “3 em 1” recebeu de Filipe o nome de “Hortu gERal”. Portugal, horto, geral. O título aponta claramente para o “Horto do Esposo” e o “Bosco Deleitoso”, marcos importantes da poesia medieval. O horto é local de isolamento, contemplação, reflexão e até de brincadeiras. Aqui, o leitor encontra a poesia experimental e concreta, que faz lembrar os melhores poetas concretos portugueses, nomeadamente Salette Tavares com o seu “Brincar, Brin Cadeiras, Brincade Iras” e António Ramos Rosa com o seu “O Deus Nu (lo)”, ou ainda Herberto Hélder com o seu “Poemacto”. Diz Filipe: 

Um poema
é uma estrutura
concisa
e organizada
que diz tudo 
sem dizer nada

3 EM 1

Brinca-se com a língua, brinca-se com o leitor, o poeta brinca consigo mesmo, aparentemente não se leva a sério. Tal como Herberto Hélder no já citado “Poemacto”:

Poemacto pacto acto poema
Poemacto poema pacto acto
Poemacto acto poema pacto
Poemacto pacto poema acto 

3 EM 1

Felipe, o poeta, sabe que é profeta:

Canta a multidão
a voz 
do poeta
que ao falar de nós
se torna em profeta

3 EM 1

Aqui há lugar para a geografia e para longínquos sentimentos, a justificar o título da  terceira parte do livro: “De mim para mil”. O tempo – seja na contemporaneidade, seja como porta do futuro, marca a sua presença. Aparecem a angústia e a política:

O país
a seco,
a saque,
a soco, a solo. 

3 EM 1

Ou então:

Lisboa que olhas o rio
cansada de o ver correr
para um mar sem regresso.
Lisboa, o teu casario 
que a gente vê morrer
Em nome desse progresso.

3 EM 1

A política e os sentimentos levam a uma verdadeira irritação, que poderia ter sido escrita hoje mesmo:

Que é isto?
Qu’ é isto?
Quisto
Ministro
Sinistro!!

3 EM 1

Ou ainda:

Corriam tempos de ilusão,
Para todos crescia a visão
De um mundo já libertado.
Mas eis de novo a maldição
de uma peste em transmissão
pondo o mundo acorrentado

3 EM 1

A maldição tem um nome, infelizmente bem familiar a todos nós:

Ser 
convidado 
a
confinado
para não ser
covidado

O novo normal
anormal
é o novo mal
e como tal
vai correr mal
se não voltar
a haver 
um normal 
que tem de ser
como era habitual 

Com máscaras
mascaras
más caras.
mas, caras,
de caras,
com máscaras
só há más caras.

3 EM 1

O que temos nesta vertente da poesia de Filipe? Num primeiro momento, dá-se a explosão da palavra – de um grafema – que é reconstituída sob diversas formas, inclusivamente com novas formas gráficas, permanecendo o som como reminiscência do primeiro. Daí que muitos dos nomes da poesia concreta e experimental tenham sido também revelados como artistas plásticos de grande valor. Neles, a palavra transborda o espaço exíguo da folha de papel. Ana Hartley chegou a fazer bordados com a sua poesia, e António Ramos Rosa fez experiências com vídeos. 

Estou convencido que Felipe vai a caminho deste movimento de trasbordo. A terceira parte do “3 em 1” parece indicá-lo, de mil maneiras. Aqui surge um hino à vida, aqui se encontram as etapas para a sua transição como ser humano – o filho, a filha, o neto -, aqui estão os amigos e a mensagem de esperança para a construção do futuro e para a eternidade. 

Já passei pelos dias curtos,
já passei por anos compridos.
Saudades pelos tempos idos,
Paixão pelos novos futuros.
Agora são dias compridos,
agora os anos são curtos.
Regozijo pelos tempos vividos 
e espera por serenos augúrios. 

3 EM 1

Obrigado pelo teu “3 em 1”, Filipe. A todos os presentes, obrigado pela paciência com que me ouviram.