Archives em Outubro 2022

Carta de Carlos Ferreira a “um Homem livre”

Carta de Carlos Ferreira a “um Homem livre”

Autor: CARLOS FERREIRA

Li o livro (E agora quem avança somos nós – Romance) de um só jorro. Como dá a sensação que ele foi escrito. Sem paragens, sem grandes interrogações, como se tudo já estivesse na tua cabeça quando o começaste. E dado que a tua escrita tem uma carga coloquial muito grande, é difícil parar quando se começa a ler. Algumas das minhas impressões correm o risco de ter alguma dose de subjectividade por te conhecer e por termos uma ligação grande e antiga, mas não me parece. Procurei ser o mais objectivo possível, mesmo que haja passagens que por esta ou aquela razão me tocam mais do ponto de vista emocional.
É comum, para quem como eu defende há muito tempo, provavelmente desde que ganhei alguma consciência, que as vivências do Autor, o seu caminho, as suas escolhas, o seu perfil humano e o seu posicionamento político são inseparáveis do que escreve. Nunca vi a literatura como algo inocente, mesmo quando aparecem algumas e alguns autores que se auto-definem como “apolíticos”. Uma aberração de uma direita descomposta, pouco democrática e normalmente reaccionária e conservadora. Lembrei-me agora, por exemplo do João Gaspar Simões, que a elite intelectual portuguesa ligada à direita, considerava como um grande crítico literário… E que ecoava normalmente o vazio que o “sal e azar” tanto apreciava. Mas continuemos.
Os teus romances, porque não podiam ser outra coisa. Demonstram claramente uma continuidade do que foste sendo ao longo da vida, enquanto militante da causa maior da libertação humana, de combatente contra muros e ameias, contra totalitarismos de qualquer espécie, sem cedências e sem contemplações. Lembrando a Mafalda do Quino, podíamos dizer não “Hay gobierno soy contra” mas “Há repressão, sou contra”. Seja a repressão efectiva, directa, de poderes legal ou ilegalmente constituídos sobre cidadãs e cidadãos, sejam os mecanismos psicológicos que com séculos de dominação, propaganda, por via do ensino, da comunicação social, de instituições pseudo-religiosas que são criminosas, e mais recentemente das televisões, das redes sociais e dos “influenciadores”. Que se inculcam na mente das pessoas, ferindo-as, magoando-as, envenenando-as, ao ponto de se submeterem à escravidão mais execrável. A de abandonarem o pensamento livre, autónomo e resultado das nossas escolhas conscientes de seres humanos maduros e pensantes.
Também este romance não foge a essa regra. E é um espelho fiel e sequente do que vens vivendo. Há uma lógica que acompanha a tua ficção que, como é natural, é o fruto das tuas experiências, vivências, vitórias, derrotas – a maior parte das vezes porque a esmagadora maioria dos factos que nos rodeiam e dos humanos que pululam à nossa volta asfixiam-nos a vida inteira e não deixam sequer, de muitas formas, que possamos atingir os outros mais rápida e imediatamente. Que seja.
O manancial de vidas vividas, de amizades conquistadas, de pontes construídas nos mais distantes pontos geográficos do mundo, solidariedades e cumplicidades criadas são-no em suficiente número e consistência para que haja a plena consciência que estás do lado da razão. E que assim sendo, o aumento substancial e agora de peito aberto de barões e marqueses nascidos da lumpenagem, fascistas e pseudo-fascistas, “libertadores” que apenas queriam copiar opressores, nada nem ninguém te fará mudar de opinião e de posição enquanto escreveres, enquanto deres aulas, enquanto estudares, enquanto reflectires, enquanto debateres.
É um romance do mundo porque tu és um Homem do Mundo. Não dos que se fecham à volta do umbigo, olhando-se para o espelho e pervertendo a verdade, matando a esperança, tolhendo a alegria de viver. Condensas neste novo título um sem número de acontecimentos, lugares, gente livre e soberana que obrigará o leitor ou a leitora a procurar, a buscar, a conhecer, a indagar. E a procurar-se, a buscar-se, a conhecer-se, a indagar-se.
Sem as “identidades” filhas da puta que são organizadas e estimuladas para nos dividirem, para nos separarem, para abrirem um fosso nos que, perante uma luta comum, se dividem com os cantos das sereias que os convidam a pensar em primeiro lugar na sua condição individual e de grupo, de classe, de género, de raça e tudo mais quanto vão inventando, enfraquecendo e fazendo esquecer o combate essencial e cada vez mais urgente que devia congregar tudo e todos.
Na discussão que há séculos se levanta sobre o papel do escritor, do autor, do criador, que bem maior pode haver do que este: abrir caminhos, obrigar a que os olhos se regalem com cada “curva” que fazes nas escolhas que vais oferecendo, na criatividade encontrada pelos kilómetros sem fim que percorreste, pelas realidades porque passaste, pelas solidariedades criadas, pelos sofrimentos que te marcam o lombo, em busca afinal de uma das maiores e mais sólidas buscas na Vida: ser um Homem livre. A única condição possível para solidariamente mostrar o caminho da liberdade plena e total aos outros.


* Carlos Ferreira nasceu em Luanda. Jornalista, foi director de Programas da Rádio Nacional de Angola, do semanário Novo Jornal e fez acessoria de imprensa ao Presidente da Republica de Angola até 1995. Premiado várias vezes, como letrista de canções, é poeta com mais de uma dezena de títulos publicados, novelista e cronista. É membro da União dos Escritores Angolanos, da União dos Jornalistas Angolanos, da Associação Tchiweka de Documentação e da Ordem Nacional dos Escritores do Brasil.

Carlos Ferreira (Cassé) — Fotografia Jornal de Angola

** Este artigo foi publicado na Conversa à Sombra da Mulemba

Histórica homenagem ao rei Muana Malaza

Histórica homenagem ao rei Muana Malaza

Na manhã de 29 de Outubro de 2021, ainda marcada pela pandemia do Covid-19, realizou-se uma histórica homenagem ao rei Muana Malaza ou Nevita Nkanga ou D. António I, no mosteiro de Santa Maria de Belém (Mosteiro dos Jerónimos) em Lisboa, onde estiveram presentes importantes figuras da Cultura de Angola. A missa foi conduzida pelo cónego, doutor José Manuel dos Santos Ferreira, que surpreendeu os devotos com a memória dos trágicos acontecimentos de 29 de Outubro de 1665.

Encontro com a História na Igreja Tocoista

Encontro com a História na  Igreja Tocoista

“Angola é a maior herança dos Portugueses” afirmou na homilia o bispo D. Afonso Nunes, líder da Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, também conhecida sob a designação de Igreja Tocoista, em homenagem ao seu fundador, Simão Gonçalves Toco.

A propósito de melhor compreender as questões científico-técnicas relativas à obra social da Igreja Tocoista, o professor catedrático, Carlos Mariano Manuel, autor do tratado de História, “Angola: desde antes da sua criação pelos portugueses até ao êxodo destes por nossa criação” (Ed. 2021) foi convidado para uma audiência na catedral do bairro Golfe, no maior templo de Angola e um dos maiores do continente africano.

O bispo D. Afonso Nunes exultou a histórica iniciativa de produzir esta monumental obra sobre a nossa História, tendo de imediato, desfolhado com avidez as páginas dos três tomos.

Jaime de Sousa Araújo (1920-2019)

Jaime de Sousa Araújo (1920-2019)

Jaime de Sousa Araújo nasceu a 14 de Outubro de 1920 em Angola e faleceu em Lisboa, a 8 de Dezembro de 2019, vítima de doença. Tinha 99 anos de idade e era o mais velho escritor angolano em actividade.. Frequentou o liceu Salvador Correia e diplomou-se em enfermagem no Hospital Dona Maria Pia, em Luanda. Licenciou-se em jornalismo pelo Instituto de Angola e frequentou a Universidade Clássica de Lisboa e a Universidade de Coimbra.

Funcionário público e empresário, participou em inúmeras intervenções públicas nacionais e internacionais. Assim, foi Membro da Comissão para a transladação dos restos mortais do Monsenhor Manuel Joaquim Mendes das Neves de Braga para o cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda. Esteve também presente, sob a égide do Presidente Nzé Jomo Kenihata, nas conferências políticas da FNLA, MPLA e UNITA decorridas na República do Quénia. Foi também convidado pelo KIPAEA – Movimento para o Desarmamento Multilateral – a dar uma palestra em Atenas.

Esteve na origem de vários movimentos e organizações, tal como a FULA – Frente Unida de Libertação de Angola, a Liga das Comunidades Lusófonas, a FACEL – Federação das Associações Cívicas do Espaço Lusófono e a Liga Africana (antiga Liga Nacional Africana).

Foi redactor de diversas publicações, como o jornal Farolim, que editou e administrou em conjunto com Aníbal Melo e Mário de Alcântara. Editou também a revista, Angola, publicada pela Liga Nacional Africana, e foi o autor do opúsculo, Sonho Adiado-União Económica da África Austral, documento que foi enviado a 13 chefes de estado africanos.

Bibliografia

“Voz sem Eco” (2012)

Caminho longo” (2017)

O livro «Os Bantu na visão de Mafrano» chegou à cidade de Moçâmedes

O livro «Os Bantu na visão de Mafrano» chegou à cidade de Moçâmedes

No passado dia 1 de Outubro a cidade de Moçamedes, Província do Namibe, recebeu o livro “Os Bantu na visão de Mafrano” no quadro das celebrações do Centenário do Dr. António Agostinho Neto, e sob o lema “Angolanos, de mãos dadas para o futuro”.

A cerimónia teve lugar na Esplanada do Gabinete Provincial da Cultura Turismo e Ambiente do Namibe, com a presença de vários directores provinciais, académicos, líderes religiosos, estudantes e leitores interessados.

José Soares Caetano, filho do autor, registou a surpresa de todos, quando os quarenta livros esgotaram.

Este evento foi organizada pela Firma JT, de Júlio Tchivangulula, um jovem editor angolano.


Com o objectivo de chegar à famosa Biblioteca do Congresso, Luisindia Caetano, neta do autor, ofereceu “Os Bantu na visão de Mafrano” à Embaixada dos Estados Unidos em Angola.

O livro foi recepcionado por Cynthia Day, secretária da Embaixada dos EUA para a Imprensa, Cultura e Educação; José Caetano (Tazuary Nkeita), filho do autor.


O livro “Os Bantu na visão de Mafrano – Quase Memórias”, está disponível na Livraria Franciscana, situada no recinto do ex-Cine São Domingos, dos irmãos Capuchinhos, junto à Igreja Nossa Senhora de Fátima, em Luanda.


Entretanto em Luanda, no passado dia 30 de Setembro, no Ciclo de Leitura Infantil da Livraria Universo dos Livros o livro “Os Bantu na Visão de Mafrano – Quase Memórias” esteve disponível os mais novos leitores.

Crítica Literária de Su Maia*[2]: E AGORA QUEM AVANÇA SOMOS NÓS” de Jonuel Gonçalves

Crítica Literária de Su Maia*[2]: E AGORA QUEM AVANÇA SOMOS NÓS” de Jonuel Gonçalves

6.5/10

Rating: 3 out of 5.

Antes de começar esta crítica, gostava de realçar a realidade de que cada indivíduo tem as suas preferências literárias e que em nada a forma como uma pessoa se sente na leitura deve ser vista como algo generalizável, ou seja, esta crítica espelha somente a minha opinião pessoal e não uma verdade irrefutável.


Ao livro “E AGORA QUEM AVANÇA SOMOS NÓS” de Jonuel Gonçalves, dei 6.5/10.

Encontrei entre mim e este livro uma barreira… porquê? Senti que tive dificuldade em que a leitura fluísse, no sentido que, apesar da belíssima história com que fui presenteada, era bombardeada constantemente com informação e com pouco tempo por parágrafo para processar, ou seja: não é uma obra que o leitor se sinta puxado a ler sempre mais e mais, sempre na ânsia do próximo capítulo; é uma obra que, apesar do pequeno tamanho, é maciça e que me obrigou a pausar constantemente… acima de tudo é um livro que deve ser respirado! porque senão corresse o risco de nós sentirmos esmagados. Apesar de tudo gostei da forma como o autor encarregou a obra. E apesar da falta de fluidez, acho que é um livro “obrigatório” na estante das pessoas e importantíssimo na reforma de mentalidades.