Faleceu Godelieve “Lieve” Meersschaert (1945-2026), activista migrante e fundadora do Moinho da Juventude

Faleceu Godelieve “Lieve” Meersschaert (1945-2026), activista migrante e fundadora do Moinho da Juventude

Morreu no dia 18 de fevereiro de 2026, em Geel (Bélgica), aos 80 anos, Godelieve Meersschaert, conhecida por todos como Lieve, activista belga radicada em Portugal há mais de quatro décadas e uma das figuras centrais da organização comunitária na Cova da Moura, na Amadora.

Formada em Psicologia na Universidade de Louvain, Lieve chegou a Portugal em 1978, inspirada pelas correntes da educação popular e pelas ideias de Paulo Freire. A partir de 1982 fixou-se na Cova da Moura, onde viria a ser uma das fundadoras da Associação Cultural Moinho da Juventude, criada em 1987, estrutura que se tornou referência no trabalho comunitário, na promoção da educação, da cultura e na defesa dos direitos das populações migrantes.

O seu percurso foi retratado pelo jornal britânico The Prisma, na reportagem “A migrant activist for 42 years in a migrant bairro” (29 de setembro de 2025), que sublinha a sua trajectória enquanto mulher migrante que fez da Cova da Moura o centro de uma vida dedicada à cidadania activa, à solidariedade e à construção de pontes entre comunidades.

Ao longo dos anos, Lieve conciliou o trabalho comunitário com funções técnicas na administração pública portuguesa, mantendo sempre uma ligação profunda às causas sociais, em particular à defesa das mulheres trabalhadoras migrantes e das empregadas domésticas.

Colaboração editorial e obra publicada

A editora Perfil Criativo | AUTORES.club colaborou na publicação dos projectos editoriais de Lieve Meersschaert em Portugal e na Bélgica, contribuindo para preservar e divulgar o seu pensamento e a sua experiência de intervenção social. Entre essas obras destaca-se a mais recente publicação: “Empregadas Domésticas e Mulheres-a-dias em Portugal – Anotações de Lieve Meersschaert”, um trabalho que reúne reflexões, registos e análises sobre décadas de contacto directo com mulheres trabalhadoras, muitas delas migrantes, frequentemente invisibilizadas nas estatísticas e no debate público. A obra constitui um importante testemunho histórico e social sobre precariedade laboral, organização colectiva e dignidade no trabalho.

Reconhecimento e legado

O trabalho de Lieve foi reconhecido publicamente ao longo da sua vida, incluindo distinções oficiais em Portugal pelo seu contributo cívico e social. Contudo, o seu legado maior permanece no quotidiano da Cova da Moura e nas gerações de jovens, mulheres e famílias que encontraram no Moinho da Juventude um espaço de formação, apoio e afirmação.

Com a sua morte desaparece uma das vozes mais persistentes da solidariedade migrante em Portugal. Fica, porém, uma obra feita de comunidade, educação e luta por direitos, e também um registo escrito que assegura a continuidade da sua memória e do seu pensamento.

Nota da Redacção

Pedimos desculpa por apenas agora conseguirmos publicar esta notícia. A memória e o legado de Lieve Meersschaert mereciam um registo atempado e cuidado, que hoje deixamos como singela homenagem à sua vida e ao seu compromisso com a dignidade humana.

“Nada aconteceu como previsto”

“Nada aconteceu como previsto”

Hoje, 1 de julho de 2025, foram entregues à autora Lieve Meersschaert os primeiros exemplares do livro Empregadas Domésticas e Mulheres-a-Dias em Portugal e da sua versão em neerlandês, Werkvrouwen en Dienstmeisjes in Portugal. Trata-se de um projeto editorial do Centro de Documentação Eduardo Pontes e da Associação Cultural Moinho da Juventude, com projeto gráfico de Inês Veiga e produção apoiada pela equipa da Perfil Criativo | AUTORES.club.

Lieve Meersschaert confidenciou que tinha este texto guardado desde 1984 e que, este ano, incentivada por amigos, decidiu finalmente transformá-lo em livro.

Uma obra especial, que começa com o texto “O Início duma Sinergia, dum Djunta Mó”, onde se lê:

“Fui parar à COOPERSERDO por acaso. A minha intenção era a de aprender português e depois mudar-me para o Brasil. Estava conscientizada pela teoria e prática de Paulo Freire, filósofo e pedagogo brasileiro, com quem tinha frequentado um curso em Paris, em 1971. Tendo eu trabalhado na associação da Juventude Operária Católica de Turnhout, na Bélgica, KAJ-Turnhout, os meus olhos abriram-se para o fenómeno da globalização e para as estratégias das empresas multinacionais, nomeadamente as das empresas de confeção. (…)” 

Publicada em formato de livro de bolso, esta edição de 162 páginas está ricamente ilustrada a cores, com fotografias e ilustrações, e inclui seguinte índice:

O início duma Sinergia, dum Djunta Mo 

Quarenta e três anos depois. 

CAPÍTULO 1 

Entrevistas com empregadas domésticas e mulheres-a-dias. 

As trabalhadoras falam de si, das suas famílias, do seu trabalho, das suas dificuldades e das suas expetativas. 

CAPÍTULO 2 

Formas de organização das “criadas” em Portugal antes do 25 de abril de 1974. 

A greve das “criadas” de Lisboa em 1921. 

Reflexões sobre a “Obra das Zitas”. 

CAPÍTULO 3 

A Revolução dos Cravos em 1974. As empregadas domésticas constroem o seu próprio sindicato e criam uma cooperativa. 

CAPÍTULO 4 

Atividades sindicais das empregadas domésticas e mulheres-a-dias no Sindicato do Serviço Doméstico. 

CAPÍTULO 5 

COOPERSERDO: a cooperativa das empregadas domésticas e das mulheres-a-dias. 

Um olhar sobre o movimento cooperativo em Portugal. 

Como trabalham os membros da Cooperativa na COOPERSERDO: sonhos, sem ilusões. 

Perspectivas: Sinergia, Djunta MO! 

Leitores interessados em conhecer este livro podem contactar a nossa editora: info@autores.club