Obituário — Manuel Vitória Pereira

Obituário — Manuel Vitória Pereira

Foi com profunda tristeza que recebemos a notícia do falecimento de Manuel Vitória Pereira, anunciada numa breve e sentida mensagem de Raimundo Salvador, do programa cultural “Conversa à sombra da Mulemba“, que partilhamos, como homenagem à força das suas palavras:

“Óbito: morreu um angolano de primeira grandeza.
Poeta, professor, cronista, homem de mil ofícios, também cantava e compunha.
Manuel Vitória Pereira foi uma figura central do sindicalismo independente angolano, activista incansável da circulação do conhecimento e da dignidade do pensamento crítico.
Partiu ontem um homem que, enquanto esteve entre nós, fez a sua parte para deixar o mundo melhor do que o encontrou.
Moçâmedes, Lubango e Luanda foram quartéis-generais do seu activismo multidisciplinar, territórios de palavra, de escuta, de intervenção cívica e cultural.
Angola perde um cidadão de excelência.
Na Sentada do Manel, na Rua 7 do Bairro Mártires do Kifangondo, toca hoje um batuque de choro.
O óbito foi anunciado na poesia e no canto de gente jovem, que vê partir um angolano que soube honrar a Pátria que o viu nascer.”

Conhecido entre pares como o nosso poeta maldito, Frei Maneco, Manuel Vitória Pereira deixou um testemunho literário marcante e irreverente com o livro Versos Sacanas, publicado pela Perfil Criativo | AUTORES.club em fevereiro de 2024. Trata-se de uma obra espontânea e frontal, profundamente crítica da vida contemporânea, uma poesia sem concessões, inquieta e humana, como sublinhou E. Bonavena.

Figura central do sindicato do professores angolanos, foi um activista incansável e, segundo os amigos, um verdadeiro pacifista, sempre envolvido com os mais pobres e desprotegidos. A sua coerência de vida manifestou-se desde cedo: no início dos anos setenta, ainda antes da independência, frequentava o Bairro Popular como se fosse a sua própria casa, num exercício quotidiano de proximidade, escuta e partilha.

A sua trajetória ficou também marcada por um episódio de violência e injustiça que viria a ter consequências dramáticas. Durante uma manifestação de professores nos anos noventa, Manuel Vitória Pereira foi maltratado pela polícia e abandonado a mais de 40 quilómetros de Luanda. Amigos e companheiros acreditam que as sequelas desse episódio tornaram a sua vida particularmente difícil nos últimos tempos, agravando fragilidades físicas e materiais, sem nunca lhe retirarem a lucidez crítica nem a fidelidade aos seus princípios.

Moçâmedes, Lubango e Luanda foram territórios centrais do seu activismo multidisciplinar, lugares de palavra, de intervenção cívica e de criação cultural. Por onde passou, deixou marcas de generosidade intelectual, rigor ético e coragem moral.

Angola perde um cidadão de excelência. Manuel Vitória Pereira permanecerá vivo na memória coletiva, na sua obra e no exemplo raro de uma vida inteira dedicada à dignidade humana, à justiça e à liberdade do pensamento.

Homenagem a Manuel Fonseca de Victória Pereira

Versos Sacanas
Versos Sacanas

“Konversas na Kiela” com Frei Maneco

“Konversas na Kiela” com Frei Maneco

No próximo 12 de Abril, às 17h30, a livraria Kiela, em Luanda, vai apresentar o mais recente volume da colecção “Poesia no Bolso“, a obra de Frei Maneco, “Versos Sacanas” (Ed. 2024). Frei Maneco é pseudónimo de Manuel Fonseca de Victória Pereira.

A entrada é livre e estão convidados para um momento especial todos os “kambas” do Frei Maneco. Será uma conversa aberta sobre “Versos Sacanas” e as “sacanices” da Vida. Está de parabéns Manuel Fonseca de Victória Pereira!

“Versos sacanas de Frei Maneco é um livro espontâneo, que vibra ao ritmo do seu autor, na sua relação permanentemente crítica (no sentido filosófico do termo) com a vida contemporânea do nosso burgo.

Sem dúvidas que estes seus poemas rítmicos, bem dispostos e de um humor inteligente e fino, a que alguns estariam tentados a chamar de canções de escárnio e maldizer, são a expressão poética de uma forma de estar e ser do seu autor, na pessoa do seu heterónimo: Frei Maneco.

Certa é, no entanto, a paixão do autor pelas formas populares de fazer cultura, em geral, e literatura, em particular. Entendidas mais no sentido prático que erudito, sem que essa literatura possa ser homologada como de cordel.”

E. Bonavena inUma Poesia Distópica Para Míopes”  

A livraria Kiela está instalada no bairro de Alvalade, na Rua Ramalho Ortigão, nº 1.

Homenagem a Manuel Fonseca

Homenagem a Manuel Fonseca

Na próxima semana estes pequenos livros, carregados de poesia irreverente, chegam a Luanda.

NOTA DO EDITOR: JOÃO RICARDO RODRIGUES

Depois de termos publicado, na colecção “Poesia no Bolso”, a geração mais recente de poetas de Angola, decidimos, no início de 2024, dar voz a “Frei Maneco”, um pseudónimo de Manuel Fonseca de Victória Pereira, um poeta de humor e sarcasmo virtuais, com intervenção crua nas redes sociais, ao estilo de “Literatura de Cordel” (ler o texto de introdução “Uma Poesia Distópica para Míopes”, de E. Bonavena, na página 10).

Manuel Fonseca de Victória Pereira nasceu em 1958, ao Sul de Angola, em Moçâmedes, na Província do Namibe. Estudou no Instituto Superior de Ciências e Educação de Angola, foi professor, formador de professores e ocupou o cargo de vice-presidente no sindicato de professores de Angola, SINPROF

Tem sido uma voz inconformada, com uma incisiva intervenção política, fruto do seu principal lema de vida: “Servir a sociedade e os seus ideais e mudar o que puder dentro das minhas possibilidades”.

Faz parte da tradição da família Victória Pereira a intervenção política e cultural. Na memória colectiva fica a intervenção musical “”, de Manuel Fonseca no concerto “Liberdade JÁ”, pela libertação dos presos políticos na República de Angola, no Elinga Teatro, em Agosto de 2015.

Neste pequeno livro, isento de qualquer censura, encontramos também um conjunto alargado de desenhos — irreverentes — de Manuel Fonseca.

A publicação da obra de “Frei Maneco” é uma homenagem dos amigos da escola primária 55, amigos de sempre, Pedro Lara, Mário Ferrão, Mário Vaz e Victor Torres.

“Eu sou o doido d’Aldeia Global, 
Eu babo muito, mas não faço mal. 
Graças a mim, o mundo avança, 
E quando eu toco, todo o mundo dança.(…)”

FREI MANECO

Versos Sacanas” (Ed. 2024), de Frei Maneco