Ana Mafalda Leite revela a densidade poética de Kalunga em noite memorável

Ana Mafalda Leite revela a densidade poética de Kalunga em noite memorável

A apresentação do livro Matéria Negra, do poeta angolano Kalunga, realizada na quarta-feira, 13 de maio de 2026, n’A Voz do Operário, em Lisboa, ficou marcada pela extraordinária intervenção da Prof. Doutora Ana Mafalda Leite, convidada especial da sessão.

Perante uma sala atenta, a investigadora e poeta fez uma leitura profunda da obra de João Fernando André, nome literário de Kalunga, situando-o entre as vozes mais relevantes da nova poesia angolana contemporânea. Ana Mafalda Leite começou por sublinhar a qualidade literária do autor, destacando a originalidade da sua escrita, a maturidade do seu pensamento poético e a forma como a sua obra cruza identidade africana, reflexão filosófica, crítica social e experimentação estética.

A intervenção não se limitou ao livro apresentado. Ana Mafalda Leite estabeleceu uma ponte entre Evangelho Bantu, primeira obra poética de Kalunga, publicada em 2019, e Matéria Negra, ambos os livros publicados pela Perfil Criativo | AUTORES.club. Na sua leitura, Evangelho Bantu já anunciava uma voz literária própria, marcada pela reconstrução identitária, pela valorização da matriz bantu e pela procura de uma espiritualidade africana capaz de dialogar com a modernidade.

Sobre Matéria Negra, Ana Mafalda Leite destacou o alcance simbólico do título, associando-o à ideia científica de uma matéria invisível que sustenta o universo, mas também às zonas obscuras da história, da memória, da consciência e da experiência humana. A partir dessa metáfora central, a obra de Kalunga foi apresentada como uma poesia de grande densidade, onde convivem o metafísico e o social, o íntimo e o coletivo, a dor histórica e a esperança.

A professora chamou ainda a atenção para a dimensão experimental da escrita de Kalunga, marcada por imagens fortes, fragmentação formal, jogos de linguagem, neologismos, referências filosóficas, científicas, políticas e literárias. Segundo a sua leitura, trata-se de uma poesia que exige um leitor atento, disponível para a contemplação, a releitura e a interpretação ativa.

A obra foi também enquadrada na tradição da poesia angolana pós-colonial, em diálogo com a memória histórica, a afirmação africana e a crítica das heranças coloniais. Ana Mafalda Leite sublinhou que Kalunga não escreve apenas a partir de uma experiência individual, mas a partir de uma consciência ampla do mundo, das suas feridas, contradições e possibilidades de recomposição.

Um dos momentos mais fortes da intervenção foi a leitura de vários poemas de Matéria Negra, que permitiram ao público contactar diretamente com a intensidade verbal, a musicalidade e o poder imagético da escrita de Kalunga. A leitura revelou uma poesia atravessada por perguntas sobre o tempo, a morte, a esperança, a violência histórica, o amor, a humanidade e a transcendência.

Para Ana Mafalda LeiteMatéria Negra afirma-se como uma obra intelectualmente ambiciosa, poeticamente ousada e profundamente inquietante. Um livro que não oferece respostas fáceis, mas convida o leitor a pensar aquilo que permanece invisível, obscuro ou por compreender na condição humana e na história coletiva.

A intervenção surpreendeu e emocionou os leitores presentes pela profundidade da análise e pela forma como revelou as múltiplas camadas da poesia de Kalunga. Mais do que uma apresentação académica, foi uma verdadeira leitura crítica e sensível de uma obra que confirma a vitalidade da nova poesia angolana.

Com este encontro literário “A Desconhecida e Surpreendente Literatura Angolana” iniciou-se com um momento de grande qualidade literária, reunindo poesia, pensamento crítico e diálogo cultural.

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