
Poemas escritos entre 1975 e 1980, no exílio forçado de um jovem jornalista angolano
A poesia pode ser um grito, um arquivo da memória e um acto de resistência. É nesse território que se inscreve Egosismo (o sismo de magnitude máxima que atingiu o meu ego), livro de poesia de Orlando Castro, jornalista angolano e refugiado de guerra no sangrento processo de independência de Angola.
Escritos entre 1975, ano da saída forçada de Angola, e 1980, estes poemas nascem num dos períodos mais violentos e silenciados da história contemporânea angolana. Após o Acordo do Alvor, o processo de independência rapidamente se desfez: o MPLA avançou unilateralmente para a tomada do poder político, apoiado pela União Soviética, Cuba e a República Democrática Alemã, precipitando o país numa violenta guerra fratricida. A prometida libertação deu lugar à perseguição, ao exílio, à repressão e a práticas de limpeza política e étnica que marcaram gerações.
É nesse contexto que o jovem poeta, ainda com Angola viva no sangue, fixa no papel a dor colectiva, o desterro, a morte e a traição do sonho independentista. Egosismo é mais do que um livro de poesia: é um documento humano, político e histórico.
No prefácio, o investigador e ensaísta Eugénio Costa Almeida sublinha a natureza indomável desta escrita, afirmando:
“Quando o poeta é livre como o Catuituí, nada há que o engaiole…”
A liberdade do poeta é aqui inseparável da sua recusa do silêncio e da submissão. Orlando Castro escreve como quem sobrevive, como quem denuncia, como quem se recusa a aceitar a normalização da barbárie.
Ao longo de duas partes, o livro reúne poemas de forte impacto emocional e simbólico, entre os quais se destacam:
- “Minha Irmã Vala Comum”, um dos textos mais violentos e lúcidos sobre a morte colectiva, onde o poeta afirma, sem concessões, que a vala comum é “multirracial”, denunciando a mentira ideológica da guerra;
- “Angola Desespero”, um retrato seco e devastador de um país entregue ao sofrimento de mães, crianças e velhos;
- “A Minha Guerra”, onde a experiência individual se funde com a tragédia nacional;
- “Não Sou Português”, poema de identidade ferida, escrito no exílio, entre a rejeição e a perda;
- “Missão Para Minha Filha”, texto de denúncia frontal contra os responsáveis pela destruição do país, lançado como herança ética às gerações futuras;
- “Quem Canta o Meu Povo?”, um violento ajuste de contas com os mitos revolucionários e com a descolonização feita à custa do massacre do próprio povo.
A par da denúncia, há também espaço para a esperança, o amor, a memória e a utopia, como em “Cântico para o Amanhã”, “O Amor e a Paz” ou “Não Chores Poeta”, onde a poesia insiste em sobreviver mesmo no meio das ruínas.
Egosismo é, assim, a voz de um poeta-jornalista que recusou ser cúmplice da amnésia histórica. Um livro incómodo, necessário e profundamente actual, que devolve à poesia a sua função primordial: dizer o que muitos quiseram apagar.
Ficha técnica resumida
Autor: Orlando Castro
Título: Egosismo (o sismo de magnitude máxima que atingiu o meu ego)
Ano: 2022
Poemas escritos entre 1975 e 1980
Prefácio: Eugénio Costa Almeida
Preço: 15 euros

O livro Egosismo (o sismo de magnitude máxima que atingiu o meu ego) está disponível para encomendar nas livrarias Bertrand, Wook e Komutú (Angola)
Público-alvo | Egosismo – Orlando Castro
Egosismo dirige-se a leitores de poesia e pensamento crítico, em particular:
- Leitores de poesia social e política, interessados em literatura de denúncia, memória e resistência.
- Público angolano e da diáspora, especialmente gerações marcadas pela guerra, pelo exílio e pela descolonização.
- Académicos, investigadores e estudantes das áreas de Estudos Africanos, História Contemporânea, Literatura e Estudos Pós-Coloniais.
- Jornalistas, historiadores e leitores de ensaio político, atentos às narrativas silenciadas do processo de independência de Angola.
- Leitores portugueses interessados nas consequências humanas e históricas da descolonização.
- Ativistas e instituições ligadas aos direitos humanos e à memória histórica.
Um livro para quem recusa o esquecimento e procura compreender, através da poesia, a violência, o exílio e a traição dos ideais da independência angolana.
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