«Contos no Fogo Cruzado A Sul», de Jonuel Gonçalves é um livro elegante. É elegante porque é um livrinho de cintura fina. Tem uma cinturinha de 12 centímetros, por uma altura de perna de 18 centímetros, deliciosas medidas que contêm um corpinho de 88 páginas. Ora isso faz, como é bom de ver, um corpinho de livro a que apetece meter a mão e afagar.

Eu não sei se o autor e o editor, a Perfil Criativo Edições, estão de acordo com esta minha opção de género, ao feminizar estes contos de fogo cruzado. Mas eu acho que sim, que este é um livro feminino, e não só pela delicadeza e elegância do objecto, que é portátil e táctil. «Contos no Fogo Cruzado a Sul» não é de um feminino-objecto, é de uma feminilidade interventiva, que pode mesmo ser letal. Mas isso é assunto que reservo lá mais para diante.
Vamos então despir, peça a peça, estes seis “Contos” de Jonuel Gonçalves. Antes há uma dedicatória a um rio, o Kunene, que devia ser, como todos os rios, um rio de vida, mas que, sem deixar de ser um rio de vida, foi, por causa das guerras que sabemos, um rio que assistiu a milhares de mortes. Ao rio, aos vivos e aos mortos, Jonuel presta-lhes tributo.
A essa vénia, segue-se um aviso de rodapé e o autor informa-nos de que estes contos são uma espécie de obra em progresso. Foram publicados em Angola e são agora republicados, uns com ligeiras modificações, outros com alterações profundas. Eu li este aviso depois de ter já lido os contos e isso deu-me, como dará a muitos leitores, uma satisfação profunda. É que nestes contos há personagens e há histórias, vidas diria, que ficam em aberto e que, quem sabe, numa reedição, aparecerão acrescentados, cumprindo a esperança que nalguns se anuncia, ou contrariando o fatal desespero que noutros se espelha. Só peço ao Jonuel que não ressuscite dois ou três dos mortos que morrem nestes contos. São mortos matados que o nosso sentido moral diria que foram muito bem matados. Era inevitável matá-los. Deixemo-los ficar quietos, que não é bom certos mortos andarem a mexer-se.
Viramos a página e encontramos a nota de introdução. A nota de introdução expande a dedicatória ao Kunene. É uma nota na primeira pessoa, quase um poema, lírica evocação dos cactos que na estação das chuvas o rio cobre para, corridas depois as águas, voltar a revelar. Do que se fala nesse quase poema é de um olhar, do olhar dos cactos que contemplam tudo o que os rodeia e olham fixamente para o nosso autor. Podemos sorrir desse olhar, sorriso que, aliás, Jonuel Gonçalves aceita ou pede aos seus leitores, mas esse olhar tão humano dos cactos é o olhar que preside e que baliza este livro.
Os seis contos que se seguem são contos que têm olhos. Têm olhos de cacto e o leitor vai ter de caminhar entre esses olhares acerados. Se caminhar com cuidado, e como promete Jonuel Gonçalves, não se pica. São olhares que revelam cenários carregados de vida, com tudo o que a vida tem, a começar por esse fundo de pobreza, de catástrofe, de rumor de guerra, de rumor de bandidagem, de rumor de sequestro, de rumor da fome.
Pensarão alguns: «Bolas, se é para isso, para um neo-neo-realismo, mesmo tintado a Cruzeiro do Sul, para essa missa já dei.» E eu não podia estar mais de acordo e acabava aqui a minha intervenção. Mas o que acontece é que Jonuel, sobre esse cenário constrói narrativas de vida, personagens activas que, nos interstícios do caos, constroem ironia, prazer e esperança. Sobretudo as mulheres de Jonuel Gonçalves. E não sei se é por decisão de Jonuel Gonçalves, se é por imposição das mulheres a que Jonuel não pode fugir, essas narrativas de ironia, prazer e esperança em dias e cenários de angústia, são sempre narrativas em aberto, a narrativa em aberto que é uma pessoa estar viva.
Mas vamos agora ao concreto dos seis contos. Já vimos que há sempre um cenário de fundo de algum conflito. São cenários de risco por serem cenários de conflito, seja esse conflito uma guerra ou a instabilidade social de uma favela, de um bidonville, de um musseque. E depois, será que cada conto conta um conto e vai cada conto à sua vida sem ter nada que ver com a vida dos outros contos?
Li os contos duas vezes, com muito gosto e exaltação, e já a discutir com cada uma das personagens, e entendo que há duas constantes que ligam os seis.
Em todos os contos nos deparamos com uma situação extrema, quase limite com que as personagens são confrontadas e em todos os contos há uma cena de amor, de sexo – ou melhor de muito bom sexo feito com amor ou que descamba para o amor. Duas constantes, a situação extrema e o amor, portanto.
É este o retrato da vida humana que Jonuel Gonçalves nos dá. A vida é equilibrista e circense. Um ser humano tem de saber andar no arame, tem de saber equilibrar-se, não cair nem mesmo com o mais rude golpe, tirar proveito do mais efémero momento em que a humanidade de outro ser humano lhe é oferecida.
No primeiro conto, «Marcação cerrada como na grande área» (grande título), Daniel é despedido e passa fome. É essa a situação extrema – «E agora vou comer o quê?» pergunta-se Daniel. E é Clarisse, a amiga, que vendo-o caído – «Ele pifou!», diz ela – o salva. Dá-lhe de comer e dá-lhe a comer a asa tatuada que ela tem na coxa, e que eu quero imaginar, embora o Jonuel não diga, que é na face interna dessa tão humana e calorosa coxa.
No segundo conto, «Mogadiscio Reggae» (outro belo título, Jonuel!) tudo é extremo. É extrema a relação de P, um homem, com R, uma mulher islâmica casada e em fuga. É tão extrema a situação, que só os conhecemos por uma inicial dos seus nomes. É extremo o cenário de violência onde vivem. E é extrema uma situação de violação a que R escapa, numa afirmação física decidida, apontando uma arma à cabeça filho da puta de dois violadores. E o que os redime, o que redime o homem P e a mulher R, é o amor, esse sexo que fazem no quarto onde se escondem dos vizinhos – «Vizinhança tem olho de lince», avisa-nosJonuel. Neste segundo conto e pela segunda vez, vemos que o sexo nos contos de Jonuel é bom, conseguido, pleno, participado e participativo – numa palavra, fisicamente feliz. E tem banho. Os banhos dos amantes são longos, chegando mesmo a ameaçar o equilíbrio ecológico do planeta.
O terceiro conto tem um título mais misterioso «Luanda na Rota do Condor». A situação extrema pode parecer-nos mais comezinha, mas está lá. Um verificador de carga de camiões está sem dinheiro na conta bancária devido a uma greve de bancários ou dos próprios bancos. E tem de se deslocar a outra cidade, vivendo de expedientes durante alguns dias. Desse herói, que é o narrador do conto, retemos um ponto decisivo: adora cheirar e, é claro, espera sempre cheirar mulher cheirosa. Na sua deambulação ele encontra strippers e prostitutas, uma que foi violada por três brutamontes. E encontra Luanda, uma mulher camionista, segura de si e que sabe muito bem o que quer. Mas o nosso herói dorme com Bia, a amiga a que recorre nessa cidade onde está sem dinheiro. Dorme com Bia, a amiga, e juntos sobem ao paraíso – pela oralidade, explica-nos Jonuel Gonçalves.
«Na Fronteira» é o mais curto dos contos e é a excepção que confirma a regra: não há nele qualquer situação extrema. Um homem, Nefu, na fronteira entre Angola e a Namíbia, trata de fazer as compras necessárias ao alembamento para se casar com Fina. E aproveita a passagem pela Namíbia para dormir com outra mulher, Didi. Há uma substancial diferença no sexo que faz com Fina e com Didi. É que com Didi, há sempre o prazer de se banharem juntos depois. Com Fina, por ter ela de sair na brasa e não ser apanhada pelos pais, nunca teve esse momento que é, na hermenêutica da sexualidade de Jonuel Gonçalves, uma bênção dos céus, o banho dos amantes nus.
«Luanda-Porto Príncipe, Ida e Volta» é um conto relatado sobre a situação extrema de um Haiti destruído, com o risco de sequestro e de vida, mesmo que se conduza um jipe da ONU. O amor, o protagonista do conto encontra-o com Sophie, uma prostituta a que chamam a «xoxota olímpica». Ela é surpreendente leitora de um velho poeta haitiano resistente, RenéDepestre e, apesar da impossibilidade, o nosso herói gostaria de se ter apaixonado por ela. Sonha mesmo como os dois «seriam livres como aves selvagens, como água da cachoeira ou como a brisa que alisa os corpos e as areias».
No último conto «Depois do Triatlo» vamos encontrar o protagonista em casa, com gelo no joelho que magoou numa queda a fazer atletismo. Ora isso não é uma situação extrema. O herói vive com uma namorada que dança frevo e kuduro, o que também não releva como situação extrema, mesmo sabendo que a relação deles começou com um beijaçobigbang. Dir-se-ia que não há, neste conto, situação extrema. Ou seja, não havia, até a namorada dele, Mari, entrar em casa e dizer: «Matei três filhos da puta». Disparou a frase sem outros preâmbulos e o olhar dele picou-se nesse cacto que era a manga da blusa dela rasgada. Três filhos da puta tinham tentado violá-la e a pistola que trazia escondida debaixo da blusa resolveu o problema. O banho, aqui, é regenerador. Limpa, sem remorsos, o mal do assalto, a tentativa de invasão física e moral.
É isto que vos queria dizer. «Contos no Fogo Cruzado a Sul» é um livro que nos envolve em situações extremas. Jonuel Gonçalves, nómada, andarilho, cosmopolita – «sul-atlânticocosmopolita» reclama ele – aceita as situações extremas e lida com elas, devolvendo a esse mundo o olhar com que olharam um dia os cactos do Kunene.
Sabe, no fundo, que só o amor é redentor. E sabe que o amor no banho é, como toda a água cristalina, duplamente redentor. São contos já publicados em Angola e que têm agora edição portuguesa. Um dos contos -” Na Fronteira” – foi publicado no ” Cultura”. A sessão de lançamento decorreu na “Casa Mocambo” estabelecimento com restaurante africano e espaço cultural.
Jonuel Gonçalves

Fonte: Cultura 30/01/2018

 

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